8 de out. de 2025

Letras Miúdas

 

Primeiro a gente ama...
   é assim!
& depois dá tudo.

O resto é coisa vaga à altura de um contrato

Primeiro a gente se gosta
Se atrai
   se faz bem & mal
Depois se trai
   em causa justa
Pelo interesse
   necessidade
      tudo mais!

O amor é indiferente
   à causa & efeito
Mas é severo a respeito
   ao efeito de sua causa
Onde nenhum afeto
   será irrelevante!
Ou perdoado!!!



5 de out. de 2025

Pedaços

 

É assim...
Mais um tudo
   que passou...
Quase sempre igual
   pelo menos do que me lembro...
De outras vezes
   outros casos & acasos...
Parece que tudo volta
   à um tal estado natural...
Nunca falhamos
   em decepcionar...

Sempre assim...
Um tido tudo
   ou quase tudo
Infinito não sei o que
   amor, amizade, ódio, paixão
Que se vai
   gasto, mesmo que vasto
Porque para nós
   abortos da finitude
Tudo é pequeno & pouco
   apesar de nossa grande fome

É assim sempre ...
Quem é feito de pedaço
   em pedaço
Quase nunca percebe
   o ponto em seu despedaçar
Quando deixa de ser alguém
   & se torna algo
Quando o sonho passa
   & só fica o vazio da realidade
O que sempre fica
   é o que nunca está!



3 de out. de 2025

Primevas

 

Pela estrada sob o parto luco-fusco do dia
   o vento fresco da primavera
      embala entre um corte de espinho
      & um beijo de seiva
         o impulso do corpo
         que segue imerso, nesse meio...

Não penetramos
   em nenhuma profundidade
É só um quase-flutuar
   na superfície-casca do mundo
      que oscila como cortina ao vento...

Eu vejo & sinto
   mergulhando nesse tempo ameno
Como em fluido mais leve que água
   ondulo também... sou partícula cindida
      sou onda interferida pelas coisas
         dentro da paisagem inexata
        & primeva, incontida...



1 de out. de 2025

Out

 

Rolaram os ventos
Rotacionou o frio
Passou uma estação
   um mês, um dia, um rio
...a primavera está lá fora!

Tudo isso que passa & não passa
Os dias, o sono, a fome
   as contas,  as somas & negações da vida
Tudo isso que não passa & passa
As dores, os amores
   paixões, excessos, vazios

Rolaram os eventos
Rotacionou o frio
Passou uma época
   um querer, um projeto, um brio
...a primavera está lá fora!



28 de set. de 2025

Desatidão

 

Uma fina seda acima da
                   r e a l i d a d e
Desembrulhando o papel dobrado da
                                                  məmórịa

Rodo soltou sobre a força dos nós
   de meus músculos
Eu passo sobre o asfalto
   ao largo dos passeios lustrados de pisadas
Pela velha nova rua
   impercorrível
Com a qual sonho
   na qual vivi
      & ainda está lá
Igual & diferente

Eu ouvi, eu ouço
"O mundo está para acabar!"
Mas, andando por aí,
   vejo tantos mundos que já acabaram...
& eu, & os outros
   passando, persistindo nessa inércia
      chamada viver...



25 de set. de 2025

O Trânsito da Madrugada

 

Na madrugada
As flores fechadas
   embriagadas de noite
      tremem ao vento rasteiro
   diante dos meus olhos míopes
Um mendigo quase nu
   aberto os trapos ao vento
      ébrio de realidade
   grita na rua vazia pelo seu Pai!
Vou passando
   correndo contra aurora
      sonhando ainda libidinosos encontros
   debaixo das costas do viaduto
      que sustém o trânsito
         daqueles que nem dormiram
Sim... O trânsito da madrugada
   é quase parado
      em movimento estão os acordados
         & as flores paradas,
         com a flor em dor-mência,
      fechadas
Na madrugada







21 de set. de 2025

Dessentidos

 

Vejo gente
Que comemorou a vitória de bandidos
Exigindo justiça
Para pessoas inocentes

Vejo gente
Que prega a justiça divina
Exigindo vingança
Em nome de facínoras

Não enxergo nada
   Na verdade, não vejo nada
Nem festa, nem culto
   Nada de alegria ou piedade
Exigências estrondosas
   Com fundos de silêncio seletivo
O silêncio que emana da boca dos estúpidos
   Ensurdecendo a sanidade



19 de set. de 2025

Trespassamento

 

No início
   somos só um corpo
No meio
   somos um corpo só
No fim
   somos só um corpo

Todos nós somos um advento
   viemos do nada
      & nos fizemos
Ao nada voltaremos

Doaremos ao caos caudaloso
   a substância elétrica
      produto de nossa consciência
À desconciência voltaremos

No início
   somos só um corpo, receptáculo...
No meio
   somos um corpo só, espetáculo...
No fim
   somos só um corpo, vácuo...



13 de set. de 2025

Gestura

 

As coisas giram
   em gestação
São os ciclos
   os tempos
No solo fértil
   na água parada
      no ventre
   tudo vem
O feto
   o afeto
      o verme
         o novo
            no velho
         ovo
O que vem
   é sempre eco & sombra
      de um encontro
         acaso
            colisão
         acidente
            consciência
É então corpo
   que cresce & acresce
      para enfim
         ter a chance de falhar
No vir & ir
   tudo experimentar...



11 de set. de 2025

Caminho (Sub III)

 

No caminho
   penso na dor
      & na felicidade,
No caminho
   enterro os desejos lembrados
      exumo os pensamentos esquecidos,
No caminho
   não meço os passos
      não disperso tempo,
No caminho
   dispenso a dor
      & repenso a felicidade

...



10 de set. de 2025

Vis-ă-Vis

 

Sentimos o nada ao redor se condensar
   revoltoso & implacável
Trincas rompendo no concreto do real
   para fazer emergir encontros de contas

Sensíveis à paródia da carne
   ouvimos o véu rasgar
Por entre as pregas das vísceras
   que pressaginham o medo

A realidade censora sensorial
   constrange as rugas & os rasgos do tempo
O novo não percebe envelhecer
   & velho não saberá que morreu

A fúria se desenrola em volta de nós
   sensual, sedutora, violenta
Nem percebemos quando somos arrastados
   para o confronto do corpo contra o chão

Cada um vai assim
   pela recorrente violência que lhe acaricia
Girando no olho cego do furacão
   que sempre te pega distraído

Nossos tempos com sua cota completa
   de coisas insuportáveis
Se desfaz em ringue
   para finalmente nos sujarmos de liberdade
      & seguirmos em frente
         com a alma lavada de tudo que for 
            polêmica!



9 de set. de 2025

Experimento da Dupla Fenda

 

As duas coisas mais sérias do mundo:
A nudez & a embriaguez
...
As duas coisas mais superficiais do mundo:
O véu & a sobriedade
...

Eu sou do sonho que se perde acordado
   entre o susto & o desprezo
Entre o preço
   da companhia
   & os prazeres
      da solidão...

A nudez me vela...
A embriaguez conserva...
Pois vem, como a luz,
   em mínimos grânulos
      por entre as montanhas dos dias...