15 de mai. de 2026

Carbono

 


A porta que finalmente se abre
Com a luz inundando o ambiente
Derrame-se pelo chão
O núcleo que nunca existiu
Agora existirá
Os ossos do que havia antes
Cada passo, cada batida
Cada pensamento, cada respiração
Tudo anseia
Cada vento, cada onda
Cada céu, cada nuvem
Cada túmulo anseia
Puxando você do céu
Assim como o amor faz
-Ben Frost, "Opening Titles"
de Raised by Wolves


Iluminados pelo cansaço
Curados pelo sono
Na curva da vida,
  na queda da cachoeira
No vazio do espaço
   o silêncio do deus
Fortalecidos pelos sonhos
Blindados pela pele
   que desaprendeu com o chicote
Abençoados pelo esquecimento...

A língua trincada
   da secura atmosférica
Ar de deserto do hálito
   água de mar das lagrimas
  seca carne do coração
exaurido de pulsar sangue & etanol

O cu doendo
   de tanto defecar
Pois o conhecimento
   é o excremento de toda experiência
& não paramos de experimentar
   & saber
  & ignorar

O corpo alinha na rinha
   entre dor constante
  & prazeres cada vez mais fugazes
Ficamos mais inaptos em sentir
   & excelentes em fingir

A mente oxigena rápido
   até os pulmões queimarem
  para estantanear
o que não cessa de passar

Da inconsciência vem reverberâncias
    essa música repetida
   essa situação que não passa
  esse incômodo que não identifico
essa história repetida que sou eu

Do sono
   o melhor é o tempo não vivido
  que passou & não vimos
Do sono o bônus da indigestão
   que causa os pesadelos
  que nos fazem agarrar
o despertar

O cotidiano então parece
      um papel caborno que se usou muito
     folha após folha, dia após dia
    copiando em duas vias o que se viveu
   & o que se deixou de viver
  uma via para arquivar
outra para jogar no fogo do sol
Que um dia assim como nos iniciou
   nos encerrará



9 de mai. de 2026

Desvio

 

Qualquer dia eu não chego lá...
Qualquer dia eu me perco
   no meio do caminho
Qualquer dia
   eu sou abduzido rumo ao serviço
& sumo sem deixar vestígios
Qualquer dia realizo meus sonhos
   & a vergonha alheia me extingue
Qualquer dia paro no tempo
   & viro erva na beira da calçada
Qualquer dia a morte me encontra
   ou a vida me arrebata
& vou ser outro
   por um desvio na estrada



4 de mai. de 2026

Desdito

 

Quem... não... sabe...
Somos homens & mulheres
   com a cabeça em outro lugar
      ...nesse... incomodo... de dizer

Tenho inobservado a mim mesmo
Tenho desvisto outras pessoas
Tenho procurado a menor parte
O caminho mais rápido
   mas nada, nunca, por enquanto, vem...

Quem... por si... sabe...
Somos seres reles... homens & mulheres...
Nem o sentir na pele nos impele
   nos ensina ou impede
   ...pertos
         tão certos
            são tortos
               de tão retos...

Tenho vivido dois dias em um
Tenho esquecido três décadas
Tenho redefinido o tempo
   nas épocas que fui feliz
      em preparar o caminho para tristeza

Assim mesmo... o esmero
Urge em se reinventar
Voltando ao básico
   para não mais se poder interpelar
      o que foi, o que é & o que será!



1 de mai. de 2026

A Antiga Redondeza Quadrada do Lar

 

Eu lembro
Eu gostava

Dar a volta no quarteirão
Em sentido anti-horário

Eu sabia de cor
A posição de cada coisa

As frestas dos passeios no chão
A cor desbotada de cada muro

Os cheiros & os sons em cada comércio
Os velhos residentes em cada casa

Os mistérios que me chamavam em cada janela fechada
As liberdades recorrentes dentro de cada portão aberto

De manhã, de tarde ou de noite
Dando a volta no quarteirão

Eu cruzava com os mesmos vizinhos
Eu avizinhava a mesma cruzada

Eu revia os mesmos cães & gatos
Eu revia as mesmas árvores & matos

Pisava os mesmos passos
Dobrava as mesmas esquinas

& era tudo tão normal & querido
Que quando dormia ainda sonhava

Com as coisas do outro lado da rua
Com os quintais escondidos daquelas casas

Com os telhados além das fachadas
Com tudo enfim que o quarteirão integrava

Eu me lembro
Eu imaginava

O quarteirão era um planeta
Cada casa um país & os passeios praias & a rua mar

Pelas fronteiras de muros cordilheiras interiores
Em nem todos eu perambulava com os pés ou o olhar

Porque eu conhecia o mundo por fora
Só minha casa por dentro, mas todas eu amava

& pela infância passando
Passou também ser aventura dar a volta no quarteirão

& hoje só restou os sonhos
Porque todo o quarteirão foi mudado

Já não há a maioria das casas
Já se foram muitos de nós

A rua, aquele mar, ainda é a mesma
Mas os lugares onde ia já não estão mais lá

& se volto vez em quando só em sonhos
É porque nunca sai desse lugar

Sempre dando a volta eterna no quarteirão
Nunca mais podendo ali pisar



30 de abr. de 2026

Os Fins...

 

é sempre o final de tarde que traz & trai todo nosso cançasso
sempre esse poente pálido alucinado das cores do sol além do horizonte
& o corpo feito de carne-palha, de horas a fio na lida-roça do trabalho
arranja forças para levantar os olhos & despir o véu das amarras-vendas
& olhar além, olhar para cima, olhar... & ver
que o dia se vai, que as horas passaram, que o tempo não voltará
os fins... do dia, do mês, do esforço
mas nós estamos de novo... livres para enxergar...



27 de abr. de 2026

Contra o Dia

 

Contra o dia, faço um esforço
& vou fingindo interesse
   presença, participação
Afinal, o que nos define
   impõe,  solicita
Além do olhar do outro
   ao qual eu gostaria
      de não estar presente
& o fato de também
   aos outros vermos

Contra o dia, entro na correnteza
A bota me cabe
   no pé ou na bunda
A luva me veste
   na mão ou no tapa na cara
& todo o mundo reverbera
   seu desprezo próprio
Que só não sentimos mais
   porque estamos entretidos
      com as menores futilidades

Contra o dia, temos sempre um sim explícito
& um não subentendido ou calado
Seguimos... pelo menos eu, sigo
   resistindo, me entregando
Compreendendo o passado atrasado
   às vezes
Identificando o futuro errado
   sempre
Contra o dia... passamos sempre pela madrugada
   até anoitecer de novo
Pois só ela, a noite, verdadeiramente
   nos pertence


 

25 de abr. de 2026

Xylon

 

. .. ...árvores caminham
   procissão de florestas
      flor esta...
         esta flor...
            resta a flor...
. .. ...em cada árvore
   um homem ali pregado
      entalhado à prego
         na madeira viva...
. .. ...perambulando por aí
   em alvoroço
      ou silente
         alva árvore
            caminha... .. .



23 de abr. de 2026

Depois da Festa (Nosso Longo Adeus)

 

Dias perdidos
   parado no tempo
Na consolação da carne
No espaço necessário
   que tudo requisita
      para se recuperar...

Depois da festa
   dos encontros marcados
      que as vidas se cruzam
         nas despedidas
Reverberamos sorrisos
   até o próximo pranto...

As faces em estranhamento
Entrevistas nos últimos tempos
Hora chorando
   agora sorrindo
Outra vez consolando-se
   & então brindando...

Os nomes se perdendo
   pela força da gravidade
Novos nomes emergindo
   no esforço dos partos
Os nomes são corpos
   que chegam para nossa ciranda...

As distâncias são as mesmas
   no entanto aumentam
Com a proximidade que escapa
A memória sempre em diáspora
    para outras lembranças
      antigas, próximas...

Juntos, mas separados
Rumamos para a terra perdida
   encontrada no fim dos tempos
Que cada um vive & pisa ao seu modo
Festejando... chorando...
   sempre!



11 de abr. de 2026

Gnosenso

 

Há tanta pouca coisa
   a se dizer que vale a pena...

A pena
   de parecer estranho
    de parecer ingrato
     de parecer louco
      de parecer tolo
      de desaparecer

Na boca de uns
   as palavras incompreensíveis
      aos ouvidos de outros

Não falo
   de mudos
      & surdos

Falo de despertos & sonâmbulos
Falo de afetuosos & ressentidos
Falo de sóbrios & deslumbrados

Contentes & desesperados
Dessassogados & inquietos
Ressabiados & iludidos

O acordado & o ignorante
O liberto & o escravo
O pacífico & o violento

Vivos & sobreviventes
Sábios & inteligentes
Fortes & danados

Serenos & anestesiados
Pacíficos & passivos
Críticos & chorões

O que desfruta & o que desgosta
O que abençoa & o que mal-diz
O que causa & o que repete

Aqueles que sabem o que é esse mundo
   & os que nunca ouviram falar...



7 de abr. de 2026

O Olho no Escuro

 

"O que um scanner vê?, perguntou-se. Quero dizer, vê de verdade? Dentro da cabeça? Até o coração? Um scanner infravermelho passivo, como os que usavam antigamente, ou um scanner holográfico em forma de cubo, como os que usam hoje em dia, a última moda, consegue me ver — a nós — com clareza ou em obscuridade? Espero que sim, pensou, que veja com clareza, porque não consigo mais me ver por dentro. Só vejo névoa. Névoa por fora; névoa por dentro. Espero, pelo bem de todos, que os scanners sejam melhores. Porque, pensou, se o scanner só enxerga em obscuridade, como eu mesmo, então estamos amaldiçoados, amaldiçoados de novo, como sempre estivemos, e vamos acabar mortos assim, sabendo muito pouco e errando também nesse pequeno fragmento".
-Philip K. Dick in "O Homem Duplo (A Scanner Darkly)"



Eu sou só um analisador de tensões acumuladas
Um fiscal das vazões antes represadas
Um observador cínico do rumo errático das coisas...

Eu vejo a ordem prosperando
Derramando sua bagunça para todo lado
As coisas se acumulando sobre a mesa
As ruas se enchendo, a casa lotando
A mente sobrecarregada, a agenda cheia
As boas intenções lotando o inferno
O barulho do mundo carregado de desinformação
O silêncio do céu inconectável

Enquanto a gravidade puxa a carne para baixo
A inteligência declina, a visão acaba
As naves somem, as guerras prosperam
Os filósofos morrem, os néscios aumentam
As nuvens chovem ácido, as vacas parindo bifes
As bocas beijam sapos, os sorrisos demenciam
A fé fetida aumenta, os bolsos esvaziam
O desespero aumenta

O vigiado convocado a vigiar
O escravo obrigado a escravizar
O cego guiando cego
O demente que venceu na vida
O canalha que prega no púlpito
O bandido condecorado herói
O ladrão na presidência
O ditador democrata
A peste que medica

& tudo,
Aos olhos do observador
   do fiscal
      do analisador
Parecem normal!



5 de abr. de 2026

Fædro

 

Nós que estamos sempre prontos para ser amado
Talvez nunca estejamos propensos a dividir

Esse egoísmo ancestral 
Que queima a colheita para não se fartar
   & planta novas sementes que não sabe se irão vingar

Essa coisa atávica no peito
Que se parece coração
   mas é um cofre de carne & couro

Nós que estamos sempre prontos para amar
Talvez nunca estejamos dispostos à deixar ir

Essa memória infalível
Que todo dia se esfrega de novo
   no espinho da rosa

Esse lado do corpo que é alma
Que intoxica um
   para o outro se sentir limpo & forte

Nós que vencemos sem lutar
Conquistamos tudo & não temos nada

Sonhamos chances
Repetições do que foi bom
   mas nunca acordamos para afirmar

No amor
Somos Anjos caídos
   & Demônios arrebatados

Nós... sempre dispostos
Nós... nunca disponíveis


 

3 de abr. de 2026

desAfeto

 

Há muito
viemos
desaprendendo
o que é
Amor.

...tem que aceitar o amor que você acha...

Tanto veneno escorrendo por aí, nas veias abertas de todos relacionamentos... lamentos...

O que eu quero é só próximo do que você quer. O que queremos para nós & o que queremos para o outro, agora... com certeza... é quase crime!

Quem estragou o amor?
Quem desconectou a conexão?
Que desencaminhou o encontro?
O que desintonizou a sintonia?

Fingimos não saber... Mas lá dentro sentimos... A sensação insensata de que nada basta em cada um que se acha demais!

...pois agora é a nova lei... o direito de ser infeliz... o dever de ignorar o outro...