)(
Dai-me a
pílula
de esquecer
o dia anterior
Está lá
por aí
a divina arte de esquecer
Aqui
O abandono
de tudo
é apenas
uma troca
Não tudo
por nada
Algo
por algo
Mas a loucura
pela sanidade
Esquecer
Aquiecer
Ex quer ser
Há que ser
Dai-me a
saúde
de lembrar no momento certo
O dia de hoje
sem mais... o ontem
()
7 de jul. de 2026
Pílula do Dia Anterior
5 de jul. de 2026
+18
Nossas brincadeiras de adulto
cheirar esse pó
beber esse veneno
queimar esse entulho
Passamos à esmo no torque
pela segunda
terceira infância
fim de semana de folga no parque
Retorno à pista
a porta que abre, não fecha
não cabe no sorriso
não tem essa pecha
Contorno no desvio
a porta que fecha, não abre
não cabe na visão
nem tudo se resume ao que se sabe
Nossas brincadeiras de adulto
pegar essa doença
tomar esse remédio
pagar por um túmulo
3 de jul. de 2026
Tantos Acasos (Fragmentos)
Retalhos, recortes
pedaços, cacos
Folhas rasgadas
pano picotado, cerâmica quebrada
Tudo remontado
costurado, ajuntado
para formar o que se é
Os cabelos, os dentes
a pele, as lágrimas
Caídos pelo caminho
deixados por aí
Onde a corrosão do tempo
& da vaidade
vai dispersando nossas pedaços
Mutilados em excesso
fisicamente, psicologicamente
Nossa autoimagem
& nosso senso de continuidade
É só uma colcha de retalhos
um espelho estilhaçado
Emendado ao acaso
no chão de onde nada passa
a não ser o cadáver irremediável
Somos tantas partes
como acasos
Tantos remendos ocasionais
como inevitáveis escolhas
Partes de nada
partes de outros
& partes que escolhemos juntar
1 de jul. de 2026
Ponto de Retorno
...amo o calor
mas é o frio que me ensina!
...o coração sonha
nas noites mais frias...
Até parece que o amor
é como a Terra
em órbita do Sol...
Vai ao limite entre o frio do nada
escapando do calor da estrela
Para depois ser puxada de volta
caindo rumo ao fogo
Dividindo & unindo
o mundo
Que tomba
mas não cai
Assim o amor...
O calor se vai
mas a luz nos lembra para onde voltar
Na noite mais fria
sonhei com você!
28 de jun. de 2026
Carne & Palavra
Convidado a comer a carne
...nos sonhos
Pois a carne come carne
& exala querer & palavra
um silêncio & um ruído
& uma frase sobre aquilo
escrita em pedra em uma caverna
"...ele experimentou a carne & da carne comeu, em axial se fartou..."
Aquilo se reverberou
em uma frase eterna
Que se contorcia, desdobrava
& contorcendo se reinventava
Ramificava serpente
raiz para todo sentimento
& entendimento
Incrustada, fora de mim
Mesmo não querendo dizer nada
...sim, é assim
com a palavra
& com a carne...
Eu lembro por onde levei minha carne
& lembro por onde lavrei minha palavra
Os cantos, os trechos áridos
& os júbilos, festas & funerais
Eu lembro dos entorpecimentos
& os impactos de lucidez
Observando, ponderando,
experimentando, imaginando
Absorvendo sempre
mesmo pagando a taxa de esquecimento
A carne um meio
A palavra o início & o fim
Ferramenta, registro
Pedra, risco
Senso, seixo
Verbo, eixo
23 de jun. de 2026
&xistênc1ª
Vamos nós
Quase sós
Puro pó
Resistindo como se fosse pedra
Amontoado de fagulhas
No mundo, de segundo em segundo
Nos ajustando
Nos apertando
comprimidos
Para caber em 1 minuto
Da vida dos outros
Na nossa própria
Existênc1a
Breves passagens
Massa mínima de manobra
Planos de voo cego
Lances de dados viciados
Personagens ensaiados
Nessa peça de improviso imprevista
Que é acontecer
Detro desse nosso já pouco tempo
Trocado pela medida de espaço
Que temos para desperdiçar
Para vagar
& ajustar o tempo de cada um
Em nossa v1da
Caber onde estamos
& onde gostariamos de estar
22 de jun. de 2026
Amanhedesconhecidos
Gosto da madrugada
quando todos estão calados
Nenhum "bom dia"
nenhum "olá! como vai?"
Como se nenhum fosse algo
& nada fosse ninguém
Como se ainda passassemos
& nos cruzassemos
& ainda estivéssemos
...dormindo!
...pequeninos pedaços de carne providos do
hálito do senhor repousando no profundo sono
desperto que se revive em pé & andando & não
percebendo a presença de ninguém...
21 de jun. de 2026
Istmo
Nós somos o istmo entre
essas duas coisas grandes
Breve fio de água entre duas represas
Estreita faixa de terra entre dois continentes
Raso leito de rio que atravessa dois campos
Abertura na porta que entra o raio de sol
Gota d'água que se condensa no deserto
Fino fio de voz que desmantela o silêncio
Veloz convulsão da carne que goza
Fresta na janela que passa um sopro de vento fresco
Breve saciedade entre duas fomes
Rápido golpe da lâmina que finda a vida
...
20 de jun. de 2026
Penínsulas de Galáxias
Eu passo os dias no desfrute & no deleite
da expectativa...
Eu sei
que o melhor que tinha que acontecer
já aconteceu
Eu! & mais nada...
Vivo na retribuição & na compensação
do que fiz & que não fiz
Constantes marés flutuantes
devolvendo cadáveres à praia
Mas o que imaginei
adormeceu & se perdeu
Lá onde as profecias vão:
o fundo de tudo, o dentro de nada...
O base constante & incontesta
do rumo das coisas no mundo
Depreciação & desaparecimento
& um istmo de lembranças
Que mal persistem
enquanto outros vem & vivem
No trânsito pelo estreito caminho
que leva do existir à inexistência
Quem nos conheceu
faz também parte da outra multidão
dos que não souberam de todos os outros
& cada vez enfileram mais
aqueles que queriam não ter nos conhecido
ou os que queríamos esquecer
Até enfim sermos só ausência
9 de jun. de 2026
CicloSpiral
No jardim nunca mais as mesmas flores
Não mais as rosas como antes
& agora, depois da estação dos frutos
Só espinhos & frutas já muito maduras
Amadureceu também o tempo
O templo se ergueu & já deteriora
Se os anos repetem as estações
A vida de cada um é um só ciclo
Nossa natureza que se renova
É algo mais duro, menos verdejante
Animal capaz de reconhecer a morte
Frente à primavera, que era prima infância
Somos levados nas horas
Esquecemos as semanas
Lutamos contra os meses
Sucumbimos aos anos
Nossas estações que repassam
É espiral dentro do círculo
Onde se confunde o que era
Com o que nunca mais será
É que não buscamos as flores
Apesar de nos serem dadas
Não dependemos dos frutos
Apesar de plantarmos & colhermos
Nos curvamos
Não por obediência
Mas para tomar impulso
Para rebelar, tangenciar, escapar
Nossas estações são outras
Não começo ou fim... ciclos da terra
Não repetições enfim, mas embarque & desembarque
Órbitas caóticas em torno de si
Não andamos sequer em reto giro
A curva que seguimos
Não é para cumprir ciclos
Mas para escapar, pelo centro ou pelo limite!
4 de jun. de 2026
Pó Eira
Matando a fome
No pó diverso dos avessos
Comendo átomo solar
Comendo ácido dos mares
Comendo ossos moído
A nutrição nos torna monstros
Boca banguela
Buraco sem fundo da ampulheta
Buraco de bala que come chumbo
Buraco negro que come pó de estrela
É do chão que a gente come
Da sola da bota do maioral
Do rastro de cobra na estrada
Da pegada na areia da pessoa amada
Da trilha repisada na mata fechada
Se na queda a gente levanta
Sacode a poeira, dá a volta por cima
Na fome a gente deita
Ajunta o pó de tudo
& não vê a hora que para... de comer
2 de jun. de 2026
Bomba-A
Sinto que estou bebendo veneno de novo
cada vez que eu lembro dos teus beijos
Um olhar, um pensamento
uma pulsão de contato
Dentro do reator nuclear
ao alcance da sua destruição
...& amor!
Lembro agora
do campo devastado que você deixou
Dos rios poluídos de minhas lágrimas
da pele dolorida das minhas costas
A face putrita que te tocou
o sangue grosso que você contaminou
...& amou!
Agora que se passaram
cem anos desde aquilo, desde nós, de você
Da explosão nuclear
do átomo da paixão
Que a arma analógica de destruição em massa
que foi você, explodiu em minhas mãos
...& amei!








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