A grama, o mato
Que amanhã estará cortado
& apenas perpetuado
Por ter sido visto & ignorado,
Nascerá de novo... & de novo...
Até o chão ser cimentado.
Mas enquanto não,
Tudo desse quase nada
Será renovado!
16 de fev. de 2026
Vivo Mato
15 de fev. de 2026
Sonos de Verão
Cada sono, seu torpor
Até as nuvens me oprimem
à cair no sono no meio do dia
com seu teatro
de metamorfoses letárgicas
& as sedações do quimo
que empurram à um torpor
em meio à ereções
Que sonham lúcidas orgias
de pesadelos gozozos
& vem a lucidez do meio das tardes
nos deitarem sol querente
Funambulando entre suores
& sangue frio
Frescos desejos que tanto faz
realizar
Cada sonolência exigindo
sonhos & levedelos
Expulsam para as bordas abismais da consciência
onde copulam em ambiente líquido
vigília & dormência
13 de fev. de 2026
No Éden
Qual era
O amor de Adão
Por Eva?
Há esses dois, mulher & homem
Que sempre estiveram em má companhia
Desde que foram criados
Primeiro o Pai, depois a mãe, o filho
A serpente, a prole, o Arconte
Casal, trisal, tribo
Qual era
Por eras & eras, erros & erros
O amor de Adão por Eva?
Essa era, essa erva, essa fruta
Carrega no ventre que se fez costela
Ereta como pedra lapidada na labuta
Barro, osso,
Sopro, nome
Pele & caroço
Jardim, quintal
Véu, hímen
O bem & o mal
Qual era, qual é
Em qual tempo, qual lugar
Que erro, que culpa, que polpa de fruta doce ao paladar
O que mais fez a ave Eva senão
Ciscar no pé da macieira
& atrair a cobra em obra de Adão
Só sabemos então
Que ele amou ela
& Eva também amou Adão...
4 de fev. de 2026
Esquenta (Pré-Carnaval & Culto de Libertação)
Essa existência
de cova aberta ao ar livre
Dentro do clima
hora temporal,
hora amarra de calor ou frio
Nos leva inconsequentemente
ao alvoroço de alguma encrenca
Cobrados por nós mesmo ou pelo fisco
deslizamos na lâmina cega
que nunca temos a chance
de usar contra os outros
Exércitos de parasitas & sanguessugas
em fileira para nos assaltar
Hordas de bandidos
pululando no asfalto
& nas info-vias
Manejando entre a entropia de idiotas
& mudos funcionais
que ululam ideologia que secreta
orações, desinformação & ressentimento
pelas ruas & ruelas mentais
A festa preparada
no escárnio ou no desejo de desastre
Já pulam os blocos dos afazeres
algozes na avenida
uns contra a moral outros anti-porneia
todos com seus rancores
que entidade nenhuma pacificará
Assim ficaremos
até depois das chuvas
até depois da epidemia
até antes da próxima da tragédia
do corpo ou do espírito se manifestar
2 de fev. de 2026
Aguaceiro
...venho de um dia de descanso
para observar o esforço
Antes que a chuva dê a ré
& se torne só trovão de novo
Lá fora as ovas dos mosquitos
já preparam o enxame
Enquanto na cabeça do povo
inoculam medo & fervor pelo Carnaval de novo
São dias suspensos entre as horas de chuva
& os minutos de Sol
As noites mais curtas
& calor tão longo como o temporal
Venho de uma noite profunda
gestada no ventre da chuva
& abortada como queda em tormenta
em mais uma segunda...
27 de jan. de 2026
Necropole
Minhas lágrimas fluem
ao final do sonho da vida,
da pequena vida de cada um...
Dos sentimentos da morte
a tristeza, a saudade, o medo
O que mais marca é o sentimento paradoxo
entra a curiosidade do desconhecido
& a esperança do descanso...
Pois mesmo que o amor
seja uma compensação
descompensada pela morte
Qual tipo de amor vence o nada?
Se para superar o nada é preciso ser
& um dia nós mesmos
deixaremos de ser... & estar aqui!
Pois somos capaz de amar & sentir...
mas a morte é uma certeza
que nos lança enfim
em toda incapacidade.
25 de jan. de 2026
IrReal
É dentro do limite da noite
que você descobre que sua imaginação
não pode te levar a todo lugar
que você quiser
Para além do limite da solidão
para onde tudo se pode esquecer
Vai haver sempre a urgência
das coisas pendentes
Vai haver sempre a cobrança
das carências não atendidas
Vai haver limites lógicos
com os quais a insanidade não se importa
Vai haver perigos nunca vividos
mas sempre testados & escondidos
É dentro do limite da noite
naquele lugar & tempo onde se confunde
seus sonhos, obrigações & liberdades
que você descobre que sua imaginação
não pode te levar a todo lugar
que você quiser.
19 de jan. de 2026
Lâmpada
(...)
ninguém esquece de acender as luzes
quando a noite cai
todos não lembram de apagar as luzes
quando o dia se levanta
(...)
assim a luz atravessa
no escuro da noite
na nossa necessidade
& desaparece
na claridade do dia
pela nossa displicência
(...)
no excesso de escuridão
necessidade de claridade
no excesso de obscurecimento
necessidade de consciência
(...)
15 de jan. de 2026
R/P
Estranheza
que me remete à uma realidade paralela
Não lá, não outra
essa aqui...!
De repente tudo descompassa
& certas coisas que chegam nunca foram
Um velho panorama desaba aos olhos
como uma grande novidade
Uma notícia, um evento
uma música, uma pessoa
O mundo me diz que estiveram aqui
sempre foi, mas não me lembrava
& fica o abismo da dúvida
assolando a textura do pensamento:
Qual foi o desvio que peguei
para vir parar em uma outra realidade
11 de jan. de 2026
Dormingueira
Das nuvens transnoitadas
emergem naves que cruzaram o espaço
Escondidas na água suspensa
de nossas certezas
A madrugada passa pelo moedor da manhã
até ter o azul sem sal do dia
Onde se apaga a sonolência das cores
& o despertar em dores
Através da ida à lida
através das lembranças da noite de suor
pela culpa por ser inocente
pelo que o amanhã proverá
Vejo nos rostos de cada um
as taras-mil mal disfarçadas
pelas quais todos passam
ou prosperam emperrados
No caminho para castração
desenbainho como nave que sai da nuvem
O prefácio flácido
que verga como vibora
à procura da mordida
Até que o pão de toda fome recém assado
nas cordilheiras lisas ao leste
queime ao chão & exale o cheiro
das engrenagens mal lubrificadas
que erguem o sol
& o cenário de domingo
onde ato nenhum
acontece
...mas sobre...viverei...
10 de jan. de 2026
Ex-Quinas
Pelas quinas
Arredondei as coisas
Nas redondezas
Cheias de e
s
q
u
i
n
a
s
Se circula
& volta ao lugar
Um mundo disforme
Perambula pelas quadras
& enquanto segue
Toma forma... de algo... de nada...
Pontiagudas para repelir
Redondas para entrar na onda
Disforme para se formar
Alguém se perde
Nas próprias proximidades
Alguém se acha
Nas próprias profundezas
Tudo é casa quase perto
Tudo é dobra & meta
Que colocamos no espaço
Só o tempo descasca
Tudo é ida & volta
Reta & quina
7 de jan. de 2026
Ninfa
Borboleta, ser completo
Forma, cor, textura, ideia
entra na vida, no pensamento
pelos olhos, pela porta da frente
pelos sentidos que a recebe
em todos os deleites...
No imago já erra o âmago
& não se sabe se o seu voo
é para vir & ficar onde não se esconde
ou se vai deixar se levar pelo vento
pela onda, pela corrente, para longe...
Então se torna crisalida
se fecha para mim
no casulo de sua própria distância
no muro da ignorância
na porta fechada que um dia foi certo
a cor & as asas leve
de um sorriso aberto...
Agora não é mais que larva
se arrastando por ali
diante dos meus olhos, de minha vida
lavada de você momento a momento
largada no pó de um desvio
nessa estrada única do estranhamento...
Dessa distância que observo os ovos
embriões de uma amizade & paixão
abandonados no não-ninho de silêncio
de olhares que não se cruzam mais
de tudo reunido & separado pelo vento...
Pois se falar
é compartilhar voos
Se olhar nos olhos
é reconhecer a existência mútua
Como duas asas espelhadas
de uma borboleta adulta
Que por não bater mais
reverte na desesperança
De uma praga
depositada na flor
em uma metamorfose reversa
do que um dia poderia ser um amor.











