7 de abr. de 2026

O Olho no Escuro

 

"O que um scanner vê?, perguntou-se. Quero dizer, vê de verdade? Dentro da cabeça? Até o coração? Um scanner infravermelho passivo, como os que usavam antigamente, ou um scanner holográfico em forma de cubo, como os que usam hoje em dia, a última moda, consegue me ver — a nós — com clareza ou em obscuridade? Espero que sim, pensou, que veja com clareza, porque não consigo mais me ver por dentro. Só vejo névoa. Névoa por fora; névoa por dentro. Espero, pelo bem de todos, que os scanners sejam melhores. Porque, pensou, se o scanner só enxerga em obscuridade, como eu mesmo, então estamos amaldiçoados, amaldiçoados de novo, como sempre estivemos, e vamos acabar mortos assim, sabendo muito pouco e errando também nesse pequeno fragmento".
-Philip K. Dick in "O Homem Duplo (A Scanner Darkly)"



Eu sou só um analisador de tensões acumuladas
Um fiscal das vazões antes represadas
Um observador cínico do rumo errático das coisas...

Eu vejo a ordem prosperando
Derramando sua bagunça para todo lado
As coisas se acumulando sobre a mesa
As ruas se enchendo, a casa lotando
A mente sobrecarregada, a agenda cheia
As boas intenções lotando o inferno
O barulho do mundo carregado de desinformação
O silêncio do céu inconectável

Enquanto a gravidade puxa a carne para baixo
A inteligência declina, a visão acaba
As naves somem, as guerras prosperam
Os filósofos morrem, os néscios aumentam
As nuvens chovem ácido, as vacas parindo bifes
As bocas beijam sapos, os sorrisos demenciam
A fé fetida aumenta, os bolsos esvaziam
O desespero aumenta

O vigiado convocado a vigiar
O escravo obrigado a escravizar
O cego guiando cego
O demente que venceu na vida
O canalha que prega no púlpito
O bandido condecorado herói
O ladrão na presidência
O ditador democrata
A peste que medica

& tudo,
Aos olhos do observador
   do fiscal
      do analisador
Parecem normal!



5 de abr. de 2026

Fædro

 

Nós que estamos sempre prontos para ser amado
Talvez nunca estejamos propensos a dividir

Esse egoísmo ancestral 
Que queima a colheita para não se fartar
   & planta novas sementes que não sabe se irão vingar

Essa coisa atávica no peito
Que se parece coração
   mas é um cofre de carne & couro

Nós que estamos sempre prontos para amar
Talvez nunca estejamos dispostos à deixar ir

Essa memória infalível
Que todo dia se esfrega de novo
   no espinho da rosa

Esse lado do corpo que é alma
Que intoxica um
   para o outro se sentir limpo & forte

Nós que vencemos sem lutar
Conquistamos tudo & não temos nada

Sonhamos chances
Repetições do que foi bom
   mas nunca acordamos para afirmar

No amor
Somos Anjos caídos
   & Demônios arrebatados

Nós... sempre dispostos
Nós... nunca disponíveis


 

3 de abr. de 2026

desAfeto

 

Há muito
viemos
desaprendendo
o que é
Amor.

...tem que aceitar o amor que você acha...

Tanto veneno escorrendo por aí, nas veias abertas de todos relacionamentos... lamentos...

O que eu quero é só próximo do que você quer. O que queremos para nós & o que queremos para o outro, agora... com certeza... é quase crime!

Quem estragou o amor?
Quem desconectou a conexão?
Que desencaminhou o encontro?
O que desintonizou a sintonia?

Fingimos não saber... Mas lá dentro sentimos... A sensação insensata de que nada basta em cada um que se acha demais!

...pois agora é a nova lei... o direito de ser infeliz... o dever de ignorar o outro...



1 de abr. de 2026

Inadequado

 

De repente
   o Relâmpago
Essa razão inadequada que me instrui
   & me faz um estranho
Tolo, possuído, indiferente, além-homem
   finjo, atuo, aturo, ignoro, sei, transpareço

...só sei que sei que sei...
    ....que sei que nada sei que nada sei que sei...

Invisibilidade dos meus atos & sonhos
   só para meu prazer
Essa propriedade natural
   de ser & estar recôndito
Como clareira na mata

Sem dar satisfações
Sem aparecer
Sem laços
Sem sei

...o mundo mudo imundo
    desvairado & insano é tudo que é o caso do ocaso...

& eu
   amanhecer... crepúsculo...
O simples
    calado
       turbulento
          caminho do meio!



30 de mar. de 2026

Outonal

 

Hoje amanheceu mais cedo
A luz do sol refletiu na lua em meus olhos
Faca de prata cortante no céu
& ganhamos mais uns minutos de dia

Esses dias no prepúcio do horizonte
O sol jorrou sua luz
Estrondando antes no alto dos edifícios
Refletindo luz parda sobre as ruas parcas

Essas ruas escuras
Tão remendadas como nós
Camadas sobre camadas
Para pavimentar nossas feridas necessárias abertas

Cada dia amanhecendo mais tarde
Uma manhã diferente nos cai no colo, quente, seca, iluminada
Como o Outono presságio de Inverno requer
Como se dissesse: continue confiando na luz...



26 de mar. de 2026

Para os Além

 

Essa é para aqueles & aquelas
Que não passam, mas ficam
Que não chegam, acontecem...
Esses que revertem o inverno
   nos galhos secos das árvores
Esses que ensinam a dançar
   não conforme a música, mas ao som do trovão
Essa é para esses & essas
Que não precisam carregar nas costas os outros
Para quem faz tudo leve para se lidar
& lidam com o desejo & o asco
   com um sorriso para cada um nos lábios
Esses que valem a pena nos limparmos
   nos rios que só se entra uma vez
Esses que fazem canções & poemas
   para se ouvir & cantar
      por entre os estrondos dos fim do dia
Os que não cobram
Os que abençoam
Os que acrescentam
Os que não são nem bom demais nem mau demais
Os que despertam
Os que sonham
Os raros
Isso é para essas & esses
Que reinventam todo o tempo os espaços
   que nos unem & nos separam
Para quem faz tudo belo
   além do bem & do mal!



24 de mar. de 2026

(inconect@do) Para Fora da Internet

 

"O que foi feito do sonho anarquista,
do fim do Estado, da comuna,
da zona autônoma com duração,
da sociedade livre, da cultura livre?
Devemos abandonar esta esperança
em troca de um acte gratuit existencialista?
A idéia não é mudar a consciência,
mas mudar o mundo".
-Hakim Bey

Se toda marcha da vida é em direção à morte
Se tudo que cresce ruma ao colapso
Porque esse deslumbre pelo progresso
   ele nos levará sempre à opressão

A sequência de toda linha
   é o nó que a amarra à linha seguinte
O futuro do rebanho
   é o abate
A planta cresce
   para ser colhida

& não importa quantos
   verões, outonos, invernos & primaveras
      virão
Essas repetições é a decadência
   que se estabilizou temporariamente
      no eterno rumo da ordem para o mal

Agora mesmo tramam contra a liberdade
   os perversos sempre a odiaram
      eles não podem coexistir com o que é livre
Agora mesmo conspiram
   para te revelar o que você sempre foi
      um pescoço carnudo para boca dos vampiros
Agora mesmo te darão proteção
   em troca da quietude & silêncio
      o ambiente ideal para as sanguessugas prosperarem

Será melhor aceitar ou afastar?
Será suportável o preço a se pagar por participar?

A vida é só uma insurreição
   nesse vasto reino material
Onde a opressão do inanimado
   sempre vence!
Agora o importante é continuar a viver
   & não mais se submeter ao que impõem
      como o necessário para se participar
         desta cultura de falsidade!



22 de mar. de 2026

Cada Dia...

 

Cada dia...
   um fim da estrada
   um meio de estrada
   um começo de estrada
Horas marcadas
   pelo corpo corpromisso corprimido
   entre o dever,
      a razão,
         a vontade,
            o desânimo
               & além...
Cada dia...
   entre o foi & o será
   entre o dormir & o acordar
   entre o lavrar & o folgar
Minutos fulminados
   pela consciência insípida dispersa conscisa
      se lembrando,
         convulsionando,
            revelando-se,
               entregando-se
                   iluminando-se escuridão...
Cada dia...



20 de mar. de 2026

0

 

rezo ao zero
"que dele flua as bênçãos para o mundo"
circundado, mapeado, equacionado
na boca do copo da sede
no halo da bolha passageira
no centro do rasgo de uma racha

rezo ao zero
"sois nada & dá ao resto ser muito maior"
circuncidado, prepúcial, emasculado
sem perder seu centro de nada que é um
canal que valha sua função & jorra
corre das pernas até o vácuo da boca

rezo ao zero
"o que éramos antes do princípio & seremos depois do final"
órbitas, staurus, rodas, anéis
orbes onde despencam os pecados
moedas nos olhos que se fecham
no fundo do bolso que se abre
dando o troco da vida

rezo ao zero
& dou esse nulo amém!



17 de mar. de 2026

Fim de Verão

 

Quando isso vai terminar?
É a pergunta durante toda estação...

& um órgão que não existe mais
   vai parar de telegrafar conforto
Um sentido, uma inspiração
   que esquecemos como usar
Vai parar de nos desassossegar
   essa é a esperança & o desespero
De um órgão atrofiado
   pelo calor & pela chuva...

Não faz muita diferença
   para quem já perdeu tudo
      para quem nunca teve nada
Mais de uma vez
    ganhar ou perder
       & de novo, de novo
Enfim, na diferença que não faz
   temos indiferença, não paz...

Nos engendramos na busca
   por entre selvas
      mais rasteiras que o lodo
Por entre feras
   mais covardes, mais tolas
Que nem sabem porque querem
   o que querem
Não uma busca por si mesmo
   nem pelo outro, mas pela graça...

Longe das feras, das selvas
   durante cada tarde de chuva
Nas horas mais distantes do sono
   sonhamos... sonhos de nuvens secas
      sonhos com um clima fresco
Que vai se resfriando
   como todo cadáver
Um quarto da crosta da Terra
   em transe, férrea...

Quando isso vai terminar?
É a pergunta no fim de toda estação!



12 de mar. de 2026

Astropassione

 

Nas distâncias relativisticas dos caminhos ao encontro // O número de casos & acasos para se colidir // Pesa mais ou menos do aqueles para nos afastar?

...se estamos quase na velocidade da luz // não há espaço a nos separar...

As curvas do coração sempre mostram caminhos tortuosos // Mas é igual para todo mundo // Todos tem um coração no peito & um coração na mente em formato igual!

...se estamos no mesmo compasso no tempo // só há momentos para nos unir...

Eu penso em correr, mergulhar // Às vezes sobrepõe a fissura de fugir // Mas o que é para ser // Dá a volta no Universo // No Inferno & no Paraíso// & nos acha...

...nossa velocidade da luz se chama amor // nosso espaço curvo se chama paixão...





9 de mar. de 2026

Fim de Férias

 

...Vazio das férias
Fé & ferida sanada...
Carne é tempo
Serviço é matéria
Remuneração é espaço
Espírito é nada
Dialética que os dialéticos
   nem sabem que existe!

Volto
   ao túmulo que me dá vida
Me enterrarei ali
   por mais um ano
Sendo a peça
   na máquina de terra que funciona
De um lado entra carne
   no meio do processo serviço
   do outro sai remuneração

Somos enfim um ser... viço... so...
   um ente de fazer algo
No trabalho
   para além de tudo no ócio
Até o esforço máximo
   para economizar migalhas
Mil galhas da carcaça
   do boi desviante que puxa carroça

Vou adentrar nessa tumba
   me transformar em silêncio
   que reorganiza o barulho
Vou cumprir a tarefa
   representar a farsa do trabalho
   para receber o agrado do salário
Vou gargalhar para mim 
   sorrir para os outros
   & chorar para ninguém

Pois o trabalho não liberta
   ele só nos aquieta
   dentro de sua servidão compensada!