O céu está cheio
de ondas & partículas
O céu está cheio
transmissões & satelites
O céu está cheio
de desejos & promessas
O corpo
...& a alma estão cheios, mas...
...o céu...
O céu está
vazio!
O céu está cheio
de ondas & partículas
O céu está cheio
transmissões & satelites
O céu está cheio
de desejos & promessas
O corpo
...& a alma estão cheios, mas...
...o céu...
O céu está
vazio!
O céu está cheio
azul é apenas reflexo
da invisibilidade das naves
Elas se escondem
transmutam à olhos visto
da realidade ao desvelar
Lá em cima uma engenharia
& toda uma batalha sendo travada
da alma a desbaratinar
...a metafísica se tornando fato...
Véu transestrelar
melidrando como cortina
em disputa pelo sistema solar
O céu está cheio
& não é de aves ou ar
cheio de tecnologia
em seu lento sufocar
Na era do colapso da razão
diante de sabores artificiais
os olhos cegos se abrem
para credos espaciais
Será que os mortos sentem saudade da vida?
Do que será que eles
sentem saudade daqui?
Eu,
como morto,
sentiria saudades do que
como vivo,
bebo, cheiro, sinto... mastigo
Saudades do milho cozido
do cheiro da folha da goiaba
da estranheza do sabor do coentro
ou do gosto do teu beijo... vida!
Saudades das coisas do corpo
Transitar no tempo
Se perder no espaço
Plantar, colher
Cozer, temperar
Se nutrir ao máximo
Uma pança pra encher
Um espírito pra saciar
Frutas da estação
Carnes de outros corpos
Temperos em porção
Sabedoria de apreciar
& nos sebos do que comemos
Gorduras que não se acumulam mais
A distância da fome carnal
& a obrigação de estar empanturrado
A alma dobrada
Sob a nutrição sagrada
...meu pai, antes de morrer,
estava preocupado
se iria na feira, sábado...
& cada vez, que como & bebo
é em sua memória!
Pois se lembrar
também é um sabor
que nos agrada!
A grande rebelião
A grande resposta
Da vida sobre a morte
É uma bela refeição
Prosperidade da matéria
Sobre as pobrezas
De qualquer vã esperança
Nos frutos dessa terra
A superioridade desse mundo
Sobre qualquer outro
Nuvens cor branca
Com formato continental
revolvem em cães caramelo claro
& ursos pardos
antes de esfarelar-se ao olhar
Contingente & mata & rio suspenso...
O céu não pulsa
ele apenas metamorfosea
em lenta transformação
Do azul infinito
que blinda a luz da galáxia
Até o tapete de água suspensa
cuja sombra desce da estratosfera
Quimerando-se chuva, sombra
& meras coisas que não são
Em sua entropia fantasmagórica
em plena luz do dia
O céu no colo do chão
O chão no útero do céu
O seu olhar
no que vem & vai
& não está lá
Anagrama nimbus
para o que não é meu nem seu nem céu
mas mais nuvens...
)(
Dai-me a
pílula
de esquecer
o dia anterior
Está lá
por aí
a divina arte de esquecer
Aqui
O abandono
de tudo
é apenas
uma troca
Não tudo
por nada
Algo
por algo
Mas a loucura
pela sanidade
Esquecer
Aquiecer
Ex quer ser
Há que ser
Dai-me a
saúde
de lembrar no momento certo
O dia de hoje
sem mais... o ontem
()
Nossas brincadeiras de adulto
cheirar esse pó
beber esse veneno
queimar esse entulho
Passamos à esmo no torque
pela segunda
terceira infância
fim de semana de folga no parque
Retorno à pista
a porta que abre, não fecha
não cabe no sorriso
não tem essa pecha
Contorno no desvio
a porta que fecha, não abre
não cabe na visão
nem tudo se resume ao que se sabe
Nossas brincadeiras de adulto
pegar essa doença
tomar esse remédio
pagar por um túmulo
Retalhos, recortes
pedaços, cacos
Folhas rasgadas
pano picotado, cerâmica quebrada
Tudo remontado
costurado, ajuntado
para formar o que se é
Os cabelos, os dentes
a pele, as lágrimas
Caídos pelo caminho
deixados por aí
Onde a corrosão do tempo
& da vaidade
vai dispersando nossas pedaços
Mutilados em excesso
fisicamente, psicologicamente
Nossa autoimagem
& nosso senso de continuidade
É só uma colcha de retalhos
um espelho estilhaçado
Emendado ao acaso
no chão de onde nada passa
a não ser o cadáver irremediável
Somos tantas partes
como acasos
Tantos remendos ocasionais
como inevitáveis escolhas
Partes de nada
partes de outros
& partes que escolhemos juntar
...amo o calor
mas é o frio que me ensina!
...o coração sonha
nas noites mais frias...
Até parece que o amor
é como a Terra
em órbita do Sol...
Vai ao limite entre o frio do nada
escapando do calor da estrela
Para depois ser puxada de volta
caindo rumo ao fogo
Dividindo & unindo
o mundo
Que tomba
mas não cai
Assim o amor...
O calor se vai
mas a luz nos lembra para onde voltar
Na noite mais fria
sonhei com você!
Vamos nós
Quase sós
Puro pó
Resistindo como se fosse pedra
Amontoado de fagulhas
No mundo, de segundo em segundo
Nos ajustando
Nos apertando
comprimidos
Para caber em 1 minuto
Da vida dos outros
Na nossa própria
Existênc1a
Breves passagens
Massa mínima de manobra
Planos de voo cego
Lances de dados viciados
Personagens ensaiados
Nessa peça de improviso imprevista
Que é acontecer
Dentro desse nosso já pouco tempo
Trocado pela medida de espaço
Que temos para desperdiçar
Para vagar
& ajustar o tempo de cada um
Em nossa v1da
Caber onde estamos
& onde gostariamos de estar
Gosto da madrugada
quando todos estão calados
Nenhum "bom dia"
nenhum "olá! como vai?"
Como se nenhum fosse algo
& nada fosse ninguém
Como se ainda passassemos
& nos cruzassemos
& ainda estivéssemos
...dormindo!
...pequeninos pedaços de carne providos do
hálito do senhor repousando no profundo sono
desperto que se revive em pé & andando & não
percebendo a presença de ninguém...
Nós somos o istmo entre
essas duas coisas grandes