A chuva cai
na manhã de sábado como surpresa
Ela pega os planos, a pressa, o calor
& os enxagua em enxurradas
rumo aos bueiros
em sua simples urgência gravitacional
O trânsito que já se assanhava febril
recua a marcha
& começa cantarolar splashs de pneus
em velocidade reduzida
& em cada casa da Vila Angélica
um útero de meso-escuro se fecha mais ainda
para preservar o sono justo ou injusto
de quem não saiu para ruas
por causa da chuva
Eu passei meia hora no claro
lendo o 'Trópico de Câncer' desabar
sobre meu tesão recolhido
enquanto o estrondo da chuva
refrescava os planos
& o fim de verão lá fora
& então deitei no deleite
do escuro-claro das sete horas
que invadia o quarto como brisa
através da lente da cortina de não-tecido
É tudo uma suspensão vertical agora
enquanto a água se decanta
de nuvens à poças
Nelas não boiam planos para a noite,
não tesso tramas para encontros
para encobri-las como filtros
Nos monumentos fixos de meus desejos
caem gotas transitórias do que foram
aventuras recorrentes & sortilégios
que aconteceram uma ou duas vezes
ou dezenas & centenas
Diferente da chuva que sempre cai:
igual à ela que demora mas retorna
& nada parecido, que chega de surpresa
em uma manhã de quase não mais...
verão...
Mas, ainda assim...
estação das coisas quentes!











