22 de ago. de 2026

Dia de Folga

 

Acordo cedo, dia sim dia sim. Passo o café, encho o vazio & despacho. Passo o café com o trigo fermentado para dentro, & ainda penso: para onde expulsamos o sono?
   Acordo cedo, depois do café, do rapé, do sopé, retorno à cama, luz acessa, pois a terra ainda não rodou o suficiente para o sol, o sono expulso, as remelas lavadas, barriga sossegada, vou ler. Onde guardamos os sonhos, guardo esse momento acordado!
   Imbuído na manhã, no silêncio que não há, pássaros & vento aventam... esse silêncio da ausência de motores, de trânsito & velocidade, repouso os olhos no livro, que também não está repousando, mas aberto no ângulo entre a luz & os olhos...
   Atravesso páginas até o sol raiar, intrometer-se pelos véus das cortinas, assim como se intrometem os sons da cidade & das horas das urgências de cada dia. Transponho do livro para mim o avanço na estória, & o logo, depois de horas, o sono retorna, à reboque do pequeno esforço mental de ler. Terminado o capítulo capitulo mais uma vez ao sono & fecho os olhos; hoje é dia de folga, li & posso retornar ao sonho... vou acordar mais tarde...



20 de ago. de 2026

O Novo Inútil

 

Pague
   & eu mastigo para você!
Sou um "criador" terceirizado
   copiando a realidade... com inutilidades

Que os seus olhos sorvam
   o absurdo mínimo
      de uma "luz" de silício
      que se transforma em cifras
         em um cofre digital

Estando mais interessado
   em excretar novas distâncias
Convulciono no pensamento crítico
   contra tudo disponível na rede
Interessado ainda
   no corpo, na forma, na carne
Garimpando ainda nisso
   a fonte do sustento
Encaro o nojo contra o simulacro de vidro
   & tela
Uma defesa da vida contra a artificialida
   mesmo me sentindo assim
      mais iso-exo-exililado

Pague
   dê a eles seu suor
      seu sangue, tempo, sua atenção
Em "troca" pelo que pouco antes
   não precisávamos pra viver
& então tente se enluvar
   instalado em um espaço
      que não precisa para ser

Talvez daqui meio século
   outros futuros cadáveres
   venham a compreender
      onde erramos
      & isso seja visto como acerto
Para explicar, apaziguar a consciência,
   sobre esse novo modo de existência
Ou melhor
   novo modo
      de insistência social



16 de ago. de 2026

VibrAção

 

(Vi Abra Ação) 

Véu sobre Véu
   compõem
      velam & desvelam
         & revelam
            veras meras
               eventualidades
Campos
   de marés imensas
      vibram & interagem entre si
         quebrando simetrias
Energia
   fluxo, interação, desarmonia
      estabilidade, harmonia, refluxo
Perturbação no tecido
   entremeado de nada
      & possibilidade
         & de repente
            tudo



12 de ago. de 2026

Bom Dia

 

Dão-nos 'bom dia'
Aqueles que se levantaram
   & se jogaram aqui fora
Impulsionados por uma tarefa
   ou pelo hábito de sair...

Aqueles que se levantaram
   & se jogaram aqui fora
      te veem como eles
         protegidos na luz...
Assim, 'bom dia'
   é um contato
      uma senha, um toque
         entre os que acordaram!

Passam os sonâmbulos calados
   & dão-nos 'bom dia'
      aqueles que se levantaram
Eu ouço
   & até respondo
      os 'bons dias' desses que acordaram
Mas gostaria de saber
   o que tem a dizer
      os despertos...



10 de ago. de 2026

Vida

 

Quem sabe a vida não seja apenas
   um processo de cura contra a inexistência, 
      contra o medo, contra a morte...
Quem sabe a vida não seja apenas
   uma forma de purgar a matéria
      de sua falta de sentido...
Quem sabe a vida não seja apenas
   a alucinação que dê lucidez ao universo...

Imersos na decomposição
   lutamos inconscientemente
      aleatoriamente
      instintivamente
      amorosamente
         contra todas dispersões
Portando somente
                                     a vida!



4 de ago. de 2026

Vidario

 

As coisas engastalhadas
Que pensamos que as águas do rio da vida
   Tivessem levadas...
Muitas vezes emergem de novo
   Na época de seca
Eu tenho medo que elas voltem para ficar
   No final da vida...

Lembranças ruins, erros que cometemos
   Coisas que pensamos ter perdoado
      Esquecido, enterrado, superado
Essas coisas que ficaram engastalhadas
   Na margem do rio da vida
Que pensamos ter deixado para trás
Eu tenho medo que voltem
   Emerjam, estejam lá, na mesma margem
      No mesmo lugar, ou na foz do rio
         Onde ele desagua no mar...

& muitas vezes pensamos que estamos no rio
A correr com a água
    Cremos estar no fluxo, no curso
       Pensamos ser um barco na correnteza
Mas somos um barranco
    Erodindo na correnteza
Muitas vezes somos enseadas
   Ou fundo do rio onde tudo afoga
      Remansos calmo ao lado da corrente
Muitas vezes somos fossos de remoinhos
   Valas cobertas de água pesada
      Que só guarda lama

Rolam as águas
Mas vez ou outra volta lembranças dos engastalhos
   Funis, cachoeiras, quebradeiras,  sumidouros
Muitas vezes voltam falhas
   Pecados, ressentimentos
      Que as águas não levaram
   Ou apenas se puseram deitadas
      Encobertas pela alta água
         Riovida mais abaixo

Barrancos, sevas, balsas, pesqueiros
Galheiras, bancos de areia, mangues
Engasta-anzóis, barreiros, pântanos
Nascentes, vida rio, foz...
Nos meios, beiradas, rasos
Fundos de tudo... nós!



2 de ago. de 2026

Tr#nslaç@es

 

-Translações
Como os ventos de Agosto, transitando livres na superfície, vem(to) as texturas...

"As palavras mais calmas
são as que trazem a tempestade,
pensamentos que vem com pés
de pomba dirigem o mundo".
F. Nietzsche

-Tempos Atuais:
A mídia não é o caminho do meio
[pague & tenha o que (não) pediu]
& eu não quero mais do que qualquer um...
PAY
@#
-L.Exp.:
   Em um mundo de quem não sabe o que quer, que escolher causa ansiedade, há os que tem como benção a "graça da obrigação"!
   & assim passam felizes na atividade de se expressarem...
EXPRESSION
#@
-Da "Poesia":
As linhas seguem surgindo
Dizer assim
Desenrolar
É só uma forma de chegar
Até ao que quero dizer
FINAL POINT
@#
-ParAZita:
Reajo, logo existo
Passivo
Parasitando coisas
Que outros criaram
O idiota eletrônico
O analfabeto eletrônico
O parasita eletrônico
Os órfãos eletrônicos
Os rejeitados, enganados, escravizados
Terão suas vidas sublimadas
Por algo mais demente
   que a inteligência sintética
      rotulada ia
Atrator de parasitas
REACTION
#@
-Alimentar:
Em Deus nós desconfiamos
Agora conectados
Não podemos mais parar
Proximidade distante
Frases prontas
Sabedoria milagrosa
Tudo disponível
Pão/Sítio/Circo
FEED
@#
-Infernus:
   Você não ter a verdadeira liberdade de pensar, na pós- escolha, depois que decide algo, compra algo...
   Você não ter privacidade, nem antes, nem durante, nem depois, seja no ato de escolher, comprar, pagar, roubar...
    Suas necessidades reverberadas, distorcidas, desescolhidas, pós-necessitadas, tornadas NADA!

   Estamos constantemente
      Recebendo uma mensagem:
         "Você escolheu errado!"

   Da próxima vez, deixe que escolham por você...
HELL


"Todos os profetas
armados venceram
e os desarmados
foram destruídos".
Maquiavel



25 de jul. de 2026

Submisso/Sumiço

 

& a vida passa lá fora
   Dos meus olhos
   Da janela da casa
   Das câmeras de vigilância
& o trânsito incessante
   Poeiras dos pneus
   Barulho dos motores
   Entra por todos os lados
& a conexão cativeiro
   24 horas por dia
   Segundo a segundo brilha a tela fria
   Com seus excessos vazios
& chega uma hora
   Que os olhos não fecham
   Os ouvidos não tapam
   As narinas escancaram
& a vida lá fora penetra
   As formas invadem
   Os cheiros delatam
   Pensamentos intrometem
& mesmo assim...
   só sentimos vontade de fugir!



24 de jul. de 2026

In-Ø

 

O vazio
   está cheio
      de tempO

pelo qual corremos
   até ex-correrermos

pelo qual temporizamos
   até des-temperar

pelo qual nos esvaimos
   até em-vazar



23 de jul. de 2026

Pétalas

 

Em meio ao concreto, aço & serviço
   ainda rememoramos o caminho do campo
A morada arcaica, o passado no barro
   rememoramos os quintais
      os pés de fruta
         os pés descalços
            o chão da rosa 
               a rosa na mão
               & os seus 'bem me quer'... aceitos!
                  Que nos encantou...

Em meio ao vidro, néon & asfalto
    rememoramos o antigo caminho de casa
A velha rua, a vizinhança do bairro
    rememoramos as festas
        as pessoas com quem rimos
           as pessoas com quem aprendemos
              as lições de vida
                  a simples lição de viver
                     & os seus 'mal me quer'... compreendidos!
                          Que nos fortaleceu...

É a pétala contra os ossos
A pétala versus a memória
A pétala contra o metal
A pétala a favor do final... feliz!



18 de jul. de 2026

Artefato X

 


O céu está cheio
   de ondas & partículas
O céu está cheio
   transmissões & satelites
O céu está cheio
   de desejos & promessas

O corpo
   ...& a alma estão cheios, mas...
      ...o céu...
O céu está
    vazio!

17 de jul. de 2026

Artefatos

 

O céu está cheio
   azul é apenas reflexo
      da invisibilidade das naves
Elas se escondem
   transmutam à olhos visto
      da realidade ao desvelar
Lá em cima uma engenharia
   & toda uma batalha sendo travada
      da alma a desbaratinar
...a metafísica se tornando fato...
Véu transestrelar
   melidrando como cortina
      em disputa pelo sistema solar
O céu está cheio
   & não é de aves ou ar
      cheio de tecnologia
         em seu lento sufocar
Na era do colapso da razão
   diante de sabores artificiais
      os olhos cegos se abrem
         para credos espaciais



15 de jul. de 2026

Abastança

 

Será que os mortos sentem saudade da vida?
Do que será que eles
   sentem saudade daqui?

Eu,
   como morto,
   sentiria saudades do que
      como vivo,
      bebo, cheiro, sinto... mastigo
Saudades do milho cozido
   do cheiro da folha da goiaba
   da estranheza do sabor do coentro
      ou do gosto do teu beijo... vida!

Saudades das coisas do corpo
Transitar no tempo
Se perder no espaço
Plantar, colher
Cozer, temperar
Se nutrir ao máximo

Uma pança pra encher
Um espírito pra saciar
Frutas da estação
Carnes de outros corpos
Temperos em porção
Sabedoria de apreciar

& nos sebos do que comemos
Gorduras que não se acumulam mais
A distância da fome carnal
& a obrigação de estar empanturrado
A alma dobrada
Sob a nutrição sagrada


...meu pai, antes de morrer,
   estava preocupado
   se iria na feira, sábado...
& cada vez, que como & bebo
   é em sua memória!
Pois se lembrar
   também é um sabor
      que nos agrada!


A grande rebelião
A grande resposta
Da vida sobre a morte
   É uma bela refeição
Prosperidade da matéria
Sobre as pobrezas
    De qualquer vã esperança
Nos frutos dessa terra
A superioridade desse mundo
   Sobre qualquer outro



11 de jul. de 2026

Nubis

 

Nuvens cor branca
Com formato continental
   revolvem em cães caramelo claro
      & ursos pardos
         antes de esfarelar-se ao olhar
Contingente & mata & rio suspenso...

O céu não pulsa
   ele apenas metamorfosea
      em lenta transformação
Do azul infinito
   que blinda a luz da galáxia
Até o tapete de água suspensa
   cuja sombra desce da estratosfera
Quimerando-se chuva, sombra
   & meras coisas que não são

Em sua entropia fantasmagórica
   em plena luz do dia
O céu no colo do chão
O chão no útero do céu
O seu olhar
   no que vem & vai
      & não está lá
Anagrama nimbus
   para o que não é meu nem seu nem céu
      mas mais nuvens...



7 de jul. de 2026

Pílula do Dia Anterior


)(
Dai-me a
   pílula
      de esquecer
   o dia anterior

Está lá
   por aí
      a divina arte de esquecer
Aqui

O abandono
  de tudo
      é apenas
         uma troca

Não tudo
   por nada
Algo
   por algo
Mas a loucura
   pela sanidade

Esquecer
Aquiecer
                     Ex quer ser
                     Há que ser

Dai-me a
   saúde
      de lembrar no momento certo
O dia de hoje
   sem mais... o ontem
()



5 de jul. de 2026

+18

 

Nossas brincadeiras de adulto
   cheirar esse pó
      beber esse veneno
         queimar esse entulho
Passamos à esmo no torque
   pela segunda
      terceira infância
         fim de semana de folga no parque
Retorno à pista
   a porta que abre, não fecha
      não cabe no sorriso
         não tem essa pecha
Contorno no desvio
   a porta que fecha, não abre
      não cabe na visão
         nem tudo se resume ao que se sabe
Nossas brincadeiras de adulto
   pegar essa doença
      tomar esse remédio
         pagar por um túmulo


 

3 de jul. de 2026

Tantos Acasos (Fragmentos)

 

Retalhos, recortes
   pedaços, cacos
Folhas rasgadas
   pano picotado, cerâmica quebrada
Tudo remontado
   costurado, ajuntado
      para formar o que se é

Os cabelos, os dentes
   a pele, as lágrimas
Caídos pelo caminho
   deixados por aí
Onde a corrosão do tempo
   & da vaidade
      vai dispersando nossas pedaços

Mutilados em excesso
   fisicamente, psicologicamente
Nossa autoimagem
   & nosso senso de continuidade
É só uma colcha de retalhos
   um espelho estilhaçado
Emendado ao acaso
   no chão de onde nada passa
      a não ser o cadáver irremediável

Somos tantas partes
   como acasos
Tantos remendos ocasionais
   como inevitáveis escolhas
Partes de nada
   partes de outros
      & partes que escolhemos juntar



1 de jul. de 2026

Ponto de Retorno

 

...amo o calor
      mas é o frio que me ensina!
...o coração sonha
      nas noites mais frias...

Até parece que o amor
   é como a Terra
      em órbita do Sol...

Vai ao limite entre o frio do nada
   escapando do calor da estrela
Para depois ser puxada de volta
   caindo rumo ao fogo

Dividindo & unindo
   o mundo
Que tomba
   mas não cai

Assim o amor...
O calor se vai
   mas a luz nos lembra para onde voltar
Na noite mais fria
   sonhei com você!



28 de jun. de 2026

Carne & Palavra

 

Se não fossemos
de carne
Quereriamos ser
de que?
Pedra ou palavra!

Convidado a comer a carne
...nos sonhos
Pois a carne come carne
& exala querer & palavra
   um silêncio & um ruído

& uma frase sobre aquilo
   escrita em pedra em uma caverna
"...ele experimentou a carne & da carne comeu, em axial se fartou..."

Aquilo se reverberou
   em uma frase eterna
Que se contorcia, desdobrava
   & contorcendo se reinventava
Ramificava serpente
   raiz para todo sentimento
      & entendimento
Incrustada, fora de mim
Mesmo não querendo dizer nada

...sim, é assim
      com a palavra
         & com a carne...

Eu lembro por onde levei minha carne
   & lembro por onde lavrei minha palavra

Os cantos, os trechos áridos
   & os júbilos, festas & funerais

Eu lembro dos entorpecimentos
   & os impactos de lucidez

Observando, ponderando,
   experimentando, imaginando

Absorvendo sempre
   mesmo pagando a taxa de esquecimento

A carne um meio
A palavra o início & o fim

Ferramenta, registro
Pedra, risco

Senso, seixo
Verbo, eixo




23 de jun. de 2026

&xistênc1ª

 

Vamos nós
   Quase sós
Puro pó
   Resistindo como se fosse pedra
Amontoado de fagulhas
   No mundo, de segundo em segundo

Nos ajustando
   Nos apertando
       comprimidos
Para caber em 1 minuto
Da vida dos outros
Na nossa própria
   Existênc1a

Breves passagens
   Massa mínima de manobra
      Planos de voo cego
         Lances de dados viciados
Personagens ensaiados
   Nessa peça de improviso imprevista
      Que é acontecer

Dentro desse nosso já pouco tempo
Trocado pela medida de espaço
   Que temos para desperdiçar
      Para vagar
& ajustar o tempo de cada um
   Em nossa v1da
Caber onde estamos
   & onde gostariamos de estar



22 de jun. de 2026

Amanhedesconhecidos

 

Gosto da madrugada
   quando todos estão calados
Nenhum "bom dia"
   nenhum "olá! como vai?"
Como se nenhum fosse algo
   & nada fosse ninguém
Como se ainda passassemos
   & nos cruzassemos
      & ainda estivéssemos
         ...dormindo!
...pequeninos pedaços de carne providos do
hálito do senhor repousando no profundo sono
desperto que se revive em pé & andando & não
percebendo a presença de ninguém...



21 de jun. de 2026

Istmo

 

Nós somos o istmo entre
   essas duas coisas grandes

o nada antes
&
o nada depois

Breve fio de água entre duas represas
Estreita faixa de terra entre dois continentes
Raso leito de rio que atravessa dois campos
Abertura na porta que entra o raio de sol
Gota d'água que se condensa no deserto
Fino fio de voz que desmantela o silêncio
Veloz convulsão da carne que goza
Fresta na janela que passa um sopro de vento fresco
Breve saciedade entre duas fomes
Rápido golpe da lâmina que finda a vida
...



20 de jun. de 2026

Penínsulas de Galáxias

 

Eu passo os dias no desfrute & no deleite
   da expectativa...
Eu sei
   que o melhor que tinha que acontecer
      já aconteceu
Eu! & mais nada...

Vivo na retribuição & na compensação
   do que fiz & que não fiz
Constantes marés flutuantes
   devolvendo cadáveres à praia
Mas o que imaginei
   adormeceu & se perdeu
Lá onde as profecias vão:
   o fundo de tudo, o dentro de nada...

O base constante & incontesta
   do rumo das coisas no mundo
Depreciação & desaparecimento
   & um istmo de lembranças
Que mal persistem
   enquanto outros vem & vivem
No trânsito pelo estreito caminho
   que leva do existir à inexistência

Quem nos conheceu
   faz também parte da outra multidão
      dos que não souberam de todos os outros
& cada vez enfileram mais
   aqueles que queriam não ter nos conhecido
      ou os que queríamos esquecer
Até enfim sermos só ausência


 

9 de jun. de 2026

CicloSpiral

 

No jardim nunca mais as mesmas flores
Não mais as rosas como antes
& agora, depois da estação dos frutos
Só espinhos & frutas já muito maduras

Amadureceu também o tempo
O templo se ergueu & já deteriora
Se os anos repetem as estações
A vida de cada um é um só ciclo

Nossa natureza que se renova
É algo mais duro, menos verdejante
Animal capaz de reconhecer a morte
Frente à primavera, que era prima infância

Somos levados nas horas
Esquecemos as semanas
Lutamos contra os meses
Sucumbimos aos anos

Nossas estações que repassam
É espiral dentro do círculo
Onde se confunde o que era
Com o que nunca mais será

É que não buscamos as flores
Apesar de nos serem dadas
Não dependemos dos frutos
Apesar de plantarmos & colhermos

Nos curvamos
Não por obediência
Mas para tomar impulso
Para rebelar, tangenciar, escapar

Nossas estações são outras
Não começo ou fim... ciclos da terra
Não repetições enfim, mas embarque & desembarque
Órbitas caóticas em torno de si

Não andamos sequer em reto giro
A curva que seguimos
Não é para cumprir ciclos
Mas para escapar, pelo centro ou pelo limite!



4 de jun. de 2026

Pó Eira

 

Matando a fome
No pó diverso dos avessos
   Comendo átomo solar
   Comendo ácido dos mares
   Comendo ossos moído
A nutrição nos torna monstros
Boca banguela
   Buraco sem fundo da ampulheta
   Buraco de bala que come chumbo
   Buraco negro que come pó de estrela
É do chão que a gente come
Da sola da bota do maioral
   Do rastro de cobra na estrada
   Da pegada na areia da pessoa amada
   Da trilha repisada na mata fechada
Se na queda a gente levanta
Sacode a poeira, dá a volta por cima
   Na fome a gente deita
   Ajunta o pó de tudo
   & não vê a hora que para... de comer



2 de jun. de 2026

Bomba-A

 

Sinto que estou bebendo veneno de novo
   cada vez que eu lembro dos teus beijos
Um olhar, um pensamento
   uma pulsão de contato
Dentro do reator nuclear
   ao alcance da sua destruição
      ...& amor!

Lembro agora
   do campo devastado que você deixou
Dos rios poluídos de minhas lágrimas
   da pele dolorida das minhas costas
A face putrita que te tocou
   o sangue grosso que você contaminou
      ...& amou!

Agora que se passaram
   cem anos desde aquilo, desde nós, de você
Da explosão nuclear
   do átomo da paixão
Que a arma analógica de destruição em massa
   que foi você, explodiu em minhas mãos
      ...& amei!



27 de mai. de 2026

Solaris Mundi

 

O Oeste é sempre o Leste
   de um outro lugar
Um lugar mais ao Oeste
   para o sol erguer & minguar

O que não acontece
   com o Sul & o Norte
Onde nada debaixo
   cai para cima

O Ocidente do Ocidente
   nunca será o Oriente
O Oriente do Ocidente
   é como para todos, seu próprio umbigo

Não tenho culpa
   se todos viemos do centro do mundo
Do afroútero do globo
   perto & longe de tudo
      & tudo que importa está abaixo ou acima

Perdidos nas direções
   convenções de rumos
Do Norte não subimos ao Sul nem ao Sol
   nem estaremos na orientação de um acidente sideral

Ainda há o espaço a se considerar
   sem Norte sem Sul
Só fossas abissais a se afundar
   depois de Leste Oeste deixarmos
      o único rumo que há é o Sol

Poucos sabem, menos entendem
   esse caminho de Leste a Oeste
Quem o completou foi só a Estrela
   & não há Ocidente ou Oriente para ela



15 de mai. de 2026

Carbono

 


A porta que finalmente se abre
Com a luz inundando o ambiente
Derrame-se pelo chão
O núcleo que nunca existiu
Agora existirá
Os ossos do que havia antes
Cada passo, cada batida
Cada pensamento, cada respiração
Tudo anseia
Cada vento, cada onda
Cada céu, cada nuvem
Cada túmulo anseia
Puxando você do céu
Assim como o amor faz
-Ben Frost, "Opening Titles"
de Raised by Wolves


Iluminados pelo cansaço
Curados pelo sono
Na curva da vida,
  na queda da cachoeira
No vazio do espaço
   o silêncio do deus
Fortalecidos pelos sonhos
Blindados pela pele
   que desaprendeu com o chicote
Abençoados pelo esquecimento...

A língua trincada
   da secura atmosférica
Ar de deserto do hálito
   água de mar das lagrimas
  seca carne do coração
exaurido de pulsar sangue & etanol

O cu doendo
   de tanto defecar
Pois o conhecimento
   é o excremento de toda experiência
& não paramos de experimentar
   & saber
  & ignorar

O corpo alinha na rinha
   entre dor constante
  & prazeres cada vez mais fugazes
Ficamos mais inaptos em sentir
   & excelentes em fingir

A mente oxigena rápido
   até os pulmões queimarem
  para estantanear
o que não cessa de passar

Da inconsciência vem reverberâncias
    essa música repetida
   essa situação que não passa
  esse incômodo que não identifico
essa história repetida que sou eu

Do sono
   o melhor é o tempo não vivido
  que passou & não vimos
Do sono o bônus da indigestão
   que causa os pesadelos
  que nos fazem agarrar
o despertar

O cotidiano então parece
      um papel caborno que se usou muito
     folha após folha, dia após dia
    copiando em duas vias o que se viveu
   & o que se deixou de viver
  uma via para arquivar
outra para jogar no fogo do sol
Que um dia assim como nos iniciou
   nos encerrará



9 de mai. de 2026

Desvio

 

Qualquer dia eu não chego lá...
Qualquer dia eu me perco
   no meio do caminho
Qualquer dia
   eu sou abduzido rumo ao serviço
& sumo sem deixar vestígios
Qualquer dia realizo meus sonhos
   & a vergonha alheia me extingue
Qualquer dia paro no tempo
   & viro erva na beira da calçada
Qualquer dia a morte me encontra
   ou a vida me arrebata
& vou ser outro
   por um desvio na estrada



4 de mai. de 2026

Desdito

 

Quem... não... sabe...
Somos homens & mulheres
   com a cabeça em outro lugar
      ...nesse... incomodo... de dizer

Tenho inobservado a mim mesmo
Tenho desvisto outras pessoas
Tenho procurado a menor parte
O caminho mais rápido
   mas nada, nunca, por enquanto, vem...

Quem... por si... sabe...
Somos seres reles... homens & mulheres...
Nem o sentir na pele nos impele
   nos ensina ou impede
   ...pertos
         tão certos
            são tortos
               de tão retos...

Tenho vivido dois dias em um
Tenho esquecido três décadas
Tenho redefinido o tempo
   nas épocas que fui feliz
      em preparar o caminho para tristeza

Assim mesmo... o esmero
Urge em se reinventar
Voltando ao básico
   para não mais se poder interpelar
      o que foi, o que é & o que será!



1 de mai. de 2026

A Antiga Redondeza Quadrada do Lar

 

Eu lembro
Eu gostava

Dar a volta no quarteirão
Em sentido anti-horário

Eu sabia de cor
A posição de cada coisa

As frestas dos passeios no chão
A cor desbotada de cada muro

Os cheiros & os sons em cada comércio
Os velhos residentes em cada casa

Os mistérios que me chamavam em cada janela fechada
As liberdades recorrentes dentro de cada portão aberto

De manhã, de tarde ou de noite
Dando a volta no quarteirão

Eu cruzava com os mesmos vizinhos
Eu avizinhava a mesma cruzada

Eu revia os mesmos cães & gatos
Eu revia as mesmas árvores & matos

Pisava os mesmos passos
Dobrava as mesmas esquinas

& era tudo tão normal & querido
Que quando dormia ainda sonhava

Com as coisas do outro lado da rua
Com os quintais escondidos daquelas casas

Com os telhados além das fachadas
Com tudo enfim que o quarteirão integrava

Eu me lembro
Eu imaginava

O quarteirão era um planeta
Cada casa um país & os passeios praias & a rua mar

Pelas fronteiras de muros cordilheiras interiores
Em nem todos eu perambulava com os pés ou o olhar

Porque eu conhecia o mundo por fora
Só minha casa por dentro, mas todas eu amava

& pela infância passando
Passou também ser aventura dar a volta no quarteirão

& hoje só restou os sonhos
Porque todo o quarteirão foi mudado

Já não há a maioria das casas
Já se foram muitos de nós

A rua, aquele mar, ainda é a mesma
Mas os lugares onde ia já não estão mais lá

& se volto vez em quando só em sonhos
É porque nunca sai desse lugar

Sempre dando a volta eterna no quarteirão
Nunca mais podendo ali pisar