15 de mai. de 2026

Carbono

 


A porta que finalmente se abre
Com a luz inundando o ambiente
Derrame-se pelo chão
O núcleo que nunca existiu
Agora existirá
Os ossos do que havia antes
Cada passo, cada batida
Cada pensamento, cada respiração
Tudo anseia
Cada vento, cada onda
Cada céu, cada nuvem
Cada túmulo anseia
Puxando você do céu
Assim como o amor faz
-Ben Frost, "Opening Titles"
de Raised by Wolves


Iluminados pelo cansaço
Curados pelo sono
Na curva da vida,
  na queda da cachoeira
No vazio do espaço
   o silêncio do deus
Fortalecidos pelos sonhos
Blindados pela pele
   que desaprendeu com o chicote
Abençoados pelo esquecimento...

A língua trincada
   da secura atmosférica
Ar de deserto do hálito
   água de mar das lagrimas
  seca carne do coração
exaurido de pulsar sangue & etanol

O cu doendo
   de tanto defecar
Pois o conhecimento
   é o excremento de toda experiência
& não paramos de experimentar
   & saber
  & ignorar

O corpo alinha na rinha
   entre dor constante
  & prazeres cada vez mais fugazes
Ficamos mais inaptos em sentir
   & excelentes em fingir

A mente oxigena rápido
   até os pulmões queimarem
  para estantanear
o que não cessa de passar

Da inconsciência vem reverberâncias
    essa música repetida
   essa situação que não passa
  esse incômodo que não identifico
essa história repetida que sou eu

Do sono
   o melhor é o tempo não vivido
  que passou & não vimos
Do sono o bônus da indigestão
   que causa os pesadelos
  que nos fazem agarrar
o despertar

O cotidiano então parece
      um papel caborno que se usou muito
     folha após folha, dia após dia
    copiando em duas vias o que se viveu
   & o que se deixou de viver
  uma via para arquivar
outra para jogar no fogo do sol
Que um dia assim como nos iniciou
   nos encerrará



9 de mai. de 2026

Desvio

 

Qualquer dia eu não chego lá...
Qualquer dia eu me perco
   no meio do caminho
Qualquer dia
   eu sou abduzido rumo ao serviço
& sumo sem deixar vestígios
Qualquer dia realizo meus sonhos
   & a vergonha alheia me extingue
Qualquer dia paro no tempo
   & viro erva na beira da calçada
Qualquer dia a morte me encontra
   ou a vida me arrebata
& vou ser outro
   por um desvio na estrada



4 de mai. de 2026

Desdito

 

Quem... não... sabe...
Somos homens & mulheres
   com a cabeça em outro lugar
      ...nesse... incomodo... de dizer

Tenho inobservado a mim mesmo
Tenho desvisto outras pessoas
Tenho procurado a menor parte
O caminho mais rápido
   mas nada, nunca, por enquanto, vem...

Quem... por si... sabe...
Somos seres reles... homens & mulheres...
Nem o sentir na pele nos impele
   nos ensina ou impede
   ...pertos
         tão certos
            são tortos
               de tão retos...

Tenho vivido dois dias em um
Tenho esquecido três décadas
Tenho redefinido o tempo
   nas épocas que fui feliz
      em preparar o caminho para tristeza

Assim mesmo... o esmero
Urge em se reinventar
Voltando ao básico
   para não mais se poder interpelar
      o que foi, o que é & o que será!



1 de mai. de 2026

A Antiga Redondeza Quadrada do Lar

 

Eu lembro
Eu gostava

Dar a volta no quarteirão
Em sentido anti-horário

Eu sabia de cor
A posição de cada coisa

As frestas dos passeios no chão
A cor desbotada de cada muro

Os cheiros & os sons em cada comércio
Os velhos residentes em cada casa

Os mistérios que me chamavam em cada janela fechada
As liberdades recorrentes dentro de cada portão aberto

De manhã, de tarde ou de noite
Dando a volta no quarteirão

Eu cruzava com os mesmos vizinhos
Eu avizinhava a mesma cruzada

Eu revia os mesmos cães & gatos
Eu revia as mesmas árvores & matos

Pisava os mesmos passos
Dobrava as mesmas esquinas

& era tudo tão normal & querido
Que quando dormia ainda sonhava

Com as coisas do outro lado da rua
Com os quintais escondidos daquelas casas

Com os telhados além das fachadas
Com tudo enfim que o quarteirão integrava

Eu me lembro
Eu imaginava

O quarteirão era um planeta
Cada casa um país & os passeios praias & a rua mar

Pelas fronteiras de muros cordilheiras interiores
Em nem todos eu perambulava com os pés ou o olhar

Porque eu conhecia o mundo por fora
Só minha casa por dentro, mas todas eu amava

& pela infância passando
Passou também ser aventura dar a volta no quarteirão

& hoje só restou os sonhos
Porque todo o quarteirão foi mudado

Já não há a maioria das casas
Já se foram muitos de nós

A rua, aquele mar, ainda é a mesma
Mas os lugares onde ia já não estão mais lá

& se volto vez em quando só em sonhos
É porque nunca sai desse lugar

Sempre dando a volta eterna no quarteirão
Nunca mais podendo ali pisar



30 de abr. de 2026

Os Fins...

 

é sempre o final de tarde que traz & trai todo nosso cançasso
sempre esse poente pálido alucinado das cores do sol além do horizonte
& o corpo feito de carne-palha, de horas a fio na lida-roça do trabalho
arranja forças para levantar os olhos & despir o véu das amarras-vendas
& olhar além, olhar para cima, olhar... & ver
que o dia se vai, que as horas passaram, que o tempo não voltará
os fins... do dia, do mês, do esforço
mas nós estamos de novo... livres para enxergar...



27 de abr. de 2026

Contra o Dia

 

Contra o dia, faço um esforço
& vou fingindo interesse
   presença, participação
Afinal, o que nos define
   impõe,  solicita
Além do olhar do outro
   ao qual eu gostaria
      de não estar presente
& o fato de também
   aos outros vermos

Contra o dia, entro na correnteza
A bota me cabe
   no pé ou na bunda
A luva me veste
   na mão ou no tapa na cara
& todo o mundo reverbera
   seu desprezo próprio
Que só não sentimos mais
   porque estamos entretidos
      com as menores futilidades

Contra o dia, temos sempre um sim explícito
& um não subentendido ou calado
Seguimos... pelo menos eu, sigo
   resistindo, me entregando
Compreendendo o passado atrasado
   às vezes
Identificando o futuro errado
   sempre
Contra o dia... passamos sempre pela madrugada
   até anoitecer de novo
Pois só ela, a noite, verdadeiramente
   nos pertence


 

25 de abr. de 2026

Xylon

 

. .. ...árvores caminham
   procissão de florestas
      flor esta...
         esta flor...
            resta a flor...
. .. ...em cada árvore
   um homem ali pregado
      entalhado à prego
         na madeira viva...
. .. ...perambulando por aí
   em alvoroço
      ou silente
         alva árvore
            caminha... .. .



23 de abr. de 2026

Depois da Festa (Nosso Longo Adeus)

 

Dias perdidos
   parado no tempo
Na consolação da carne
No espaço necessário
   que tudo requisita
      para se recuperar...

Depois da festa
   dos encontros marcados
      que as vidas se cruzam
         nas despedidas
Reverberamos sorrisos
   até o próximo pranto...

As faces em estranhamento
Entrevistas nos últimos tempos
Hora chorando
   agora sorrindo
Outra vez consolando-se
   & então brindando...

Os nomes se perdendo
   pela força da gravidade
Novos nomes emergindo
   no esforço dos partos
Os nomes são corpos
   que chegam para nossa ciranda...

As distâncias são as mesmas
   no entanto aumentam
Com a proximidade que escapa
A memória sempre em diáspora
    para outras lembranças
      antigas, próximas...

Juntos, mas separados
Rumamos para a terra perdida
   encontrada no fim dos tempos
Que cada um vive & pisa ao seu modo
Festejando... chorando...
   sempre!



11 de abr. de 2026

Gnosenso

 

Há tanta pouca coisa
   a se dizer que vale a pena...

A pena
   de parecer estranho
    de parecer ingrato
     de parecer louco
      de parecer tolo
      de desaparecer

Na boca de uns
   as palavras incompreensíveis
      aos ouvidos de outros

Não falo
   de mudos
      & surdos

Falo de despertos & sonâmbulos
Falo de afetuosos & ressentidos
Falo de sóbrios & deslumbrados

Contentes & desesperados
Dessassogados & inquietos
Ressabiados & iludidos

O acordado & o ignorante
O liberto & o escravo
O pacífico & o violento

Vivos & sobreviventes
Sábios & inteligentes
Fortes & danados

Serenos & anestesiados
Pacíficos & passivos
Críticos & chorões

O que desfruta & o que desgosta
O que abençoa & o que mal-diz
O que causa & o que repete

Aqueles que sabem o que é esse mundo
   & os que nunca ouviram falar...



7 de abr. de 2026

O Olho no Escuro

 

"O que um scanner vê?, perguntou-se. Quero dizer, vê de verdade? Dentro da cabeça? Até o coração? Um scanner infravermelho passivo, como os que usavam antigamente, ou um scanner holográfico em forma de cubo, como os que usam hoje em dia, a última moda, consegue me ver — a nós — com clareza ou em obscuridade? Espero que sim, pensou, que veja com clareza, porque não consigo mais me ver por dentro. Só vejo névoa. Névoa por fora; névoa por dentro. Espero, pelo bem de todos, que os scanners sejam melhores. Porque, pensou, se o scanner só enxerga em obscuridade, como eu mesmo, então estamos amaldiçoados, amaldiçoados de novo, como sempre estivemos, e vamos acabar mortos assim, sabendo muito pouco e errando também nesse pequeno fragmento".
-Philip K. Dick in "O Homem Duplo (A Scanner Darkly)"



Eu sou só um analisador de tensões acumuladas
Um fiscal das vazões antes represadas
Um observador cínico do rumo errático das coisas...

Eu vejo a ordem prosperando
Derramando sua bagunça para todo lado
As coisas se acumulando sobre a mesa
As ruas se enchendo, a casa lotando
A mente sobrecarregada, a agenda cheia
As boas intenções lotando o inferno
O barulho do mundo carregado de desinformação
O silêncio do céu inconectável

Enquanto a gravidade puxa a carne para baixo
A inteligência declina, a visão acaba
As naves somem, as guerras prosperam
Os filósofos morrem, os néscios aumentam
As nuvens chovem ácido, as vacas parindo bifes
As bocas beijam sapos, os sorrisos demenciam
A fé fetida aumenta, os bolsos esvaziam
O desespero aumenta

O vigiado convocado a vigiar
O escravo obrigado a escravizar
O cego guiando cego
O demente que venceu na vida
O canalha que prega no púlpito
O bandido condecorado herói
O ladrão na presidência
O ditador democrata
A peste que medica

& tudo,
Aos olhos do observador
   do fiscal
      do analisador
Parecem normal!



5 de abr. de 2026

Fædro

 

Nós que estamos sempre prontos para ser amado
Talvez nunca estejamos propensos a dividir

Esse egoísmo ancestral 
Que queima a colheita para não se fartar
   & planta novas sementes que não sabe se irão vingar

Essa coisa atávica no peito
Que se parece coração
   mas é um cofre de carne & couro

Nós que estamos sempre prontos para amar
Talvez nunca estejamos dispostos à deixar ir

Essa memória infalível
Que todo dia se esfrega de novo
   no espinho da rosa

Esse lado do corpo que é alma
Que intoxica um
   para o outro se sentir limpo & forte

Nós que vencemos sem lutar
Conquistamos tudo & não temos nada

Sonhamos chances
Repetições do que foi bom
   mas nunca acordamos para afirmar

No amor
Somos Anjos caídos
   & Demônios arrebatados

Nós... sempre dispostos
Nós... nunca disponíveis


 

3 de abr. de 2026

desAfeto

 

Há muito
viemos
desaprendendo
o que é
Amor.

...tem que aceitar o amor que você acha...

Tanto veneno escorrendo por aí, nas veias abertas de todos relacionamentos... lamentos...

O que eu quero é só próximo do que você quer. O que queremos para nós & o que queremos para o outro, agora... com certeza... é quase crime!

Quem estragou o amor?
Quem desconectou a conexão?
Que desencaminhou o encontro?
O que desintonizou a sintonia?

Fingimos não saber... Mas lá dentro sentimos... A sensação insensata de que nada basta em cada um que se acha demais!

...pois agora é a nova lei... o direito de ser infeliz... o dever de ignorar o outro...



1 de abr. de 2026

Inadequado

 

De repente
   o Relâmpago
Essa razão inadequada que me instrui
   & me faz um estranho
Tolo, possuído, indiferente, além-homem
   finjo, atuo, aturo, ignoro, sei, transpareço

...só sei que sei que sei...
    ....que sei que nada sei que nada sei que sei...

Invisibilidade dos meus atos & sonhos
   só para meu prazer
Essa propriedade natural
   de ser & estar recôndito
Como clareira na mata

Sem dar satisfações
Sem aparecer
Sem laços
Sem sei

...o mundo mudo imundo
    desvairado & insano é tudo que é o caso do ocaso...

& eu
   amanhecer... crepúsculo...
O simples
    calado
       turbulento
          caminho do meio!



30 de mar. de 2026

Outonal

 

Hoje amanheceu mais cedo
A luz do sol refletiu na lua em meus olhos
Faca de prata cortante no céu
& ganhamos mais uns minutos de dia

Esses dias no prepúcio do horizonte
O sol jorrou sua luz
Estrondando antes no alto dos edifícios
Refletindo luz parda sobre as ruas parcas

Essas ruas escuras
Tão remendadas como nós
Camadas sobre camadas
Para pavimentar nossas feridas necessárias abertas

Cada dia amanhecendo mais tarde
Uma manhã diferente nos cai no colo, quente, seca, iluminada
Como o Outono presságio de Inverno requer
Como se dissesse: continue confiando na luz...



26 de mar. de 2026

Para os Além

 

Essa é para aqueles & aquelas
Que não passam, mas ficam
Que não chegam, acontecem...
Esses que revertem o inverno
   nos galhos secos das árvores
Esses que ensinam a dançar
   não conforme a música, mas ao som do trovão
Essa é para esses & essas
Que não precisam carregar nas costas os outros
Para quem faz tudo leve para se lidar
& lidam com o desejo & o asco
   com um sorriso para cada um nos lábios
Esses que valem a pena nos limparmos
   nos rios que só se entra uma vez
Esses que fazem canções & poemas
   para se ouvir & cantar
      por entre os estrondos dos fim do dia
Os que não cobram
Os que abençoam
Os que acrescentam
Os que não são nem bom demais nem mau demais
Os que despertam
Os que sonham
Os raros
Isso é para essas & esses
Que reinventam todo o tempo os espaços
   que nos unem & nos separam
Para quem faz tudo belo
   além do bem & do mal!



24 de mar. de 2026

(inconect@do) Para Fora da Internet

 

"O que foi feito do sonho anarquista,
do fim do Estado, da comuna,
da zona autônoma com duração,
da sociedade livre, da cultura livre?
Devemos abandonar esta esperança
em troca de um acte gratuit existencialista?
A idéia não é mudar a consciência,
mas mudar o mundo".
-Hakim Bey

Se toda marcha da vida é em direção à morte
Se tudo que cresce ruma ao colapso
Porque esse deslumbre pelo progresso
   ele nos levará sempre à opressão

A sequência de toda linha
   é o nó que a amarra à linha seguinte
O futuro do rebanho
   é o abate
A planta cresce
   para ser colhida

& não importa quantos
   verões, outonos, invernos & primaveras
      virão
Essas repetições é a decadência
   que se estabilizou temporariamente
      no eterno rumo da ordem para o mal

Agora mesmo tramam contra a liberdade
   os perversos sempre a odiaram
      eles não podem coexistir com o que é livre
Agora mesmo conspiram
   para te revelar o que você sempre foi
      um pescoço carnudo para boca dos vampiros
Agora mesmo te darão proteção
   em troca da quietude & silêncio
      o ambiente ideal para as sanguessugas prosperarem

Será melhor aceitar ou afastar?
Será suportável o preço a se pagar por participar?

A vida é só uma insurreição
   nesse vasto reino material
Onde a opressão do inanimado
   sempre vence!
Agora o importante é continuar a viver
   & não mais se submeter ao que impõem
      como o necessário para se participar
         desta cultura de falsidade!



22 de mar. de 2026

Cada Dia...

 

Cada dia...
   um fim da estrada
   um meio de estrada
   um começo de estrada
Horas marcadas
   pelo corpo corpromisso corprimido
   entre o dever,
      a razão,
         a vontade,
            o desânimo
               & além...
Cada dia...
   entre o foi & o será
   entre o dormir & o acordar
   entre o lavrar & o folgar
Minutos fulminados
   pela consciência insípida dispersa conscisa
      se lembrando,
         convulsionando,
            revelando-se,
               entregando-se
                   iluminando-se escuridão...
Cada dia...



20 de mar. de 2026

0

 

rezo ao zero
"que dele flua as bênçãos para o mundo"
circundado, mapeado, equacionado
na boca do copo da sede
no halo da bolha passageira
no centro do rasgo de uma racha

rezo ao zero
"sois nada & dá ao resto ser muito maior"
circuncidado, prepúcial, emasculado
sem perder seu centro de nada que é um
canal que valha sua função & jorra
corre das pernas até o vácuo da boca

rezo ao zero
"o que éramos antes do princípio & seremos depois do final"
órbitas, staurus, rodas, anéis
orbes onde despencam os pecados
moedas nos olhos que se fecham
no fundo do bolso que se abre
dando o troco da vida

rezo ao zero
& dou esse nulo amém!



17 de mar. de 2026

Fim de Verão

 

Quando isso vai terminar?
É a pergunta durante toda estação...

& um órgão que não existe mais
   vai parar de telegrafar conforto
Um sentido, uma inspiração
   que esquecemos como usar
Vai parar de nos desassossegar
   essa é a esperança & o desespero
De um órgão atrofiado
   pelo calor & pela chuva...

Não faz muita diferença
   para quem já perdeu tudo
      para quem nunca teve nada
Mais de uma vez
    ganhar ou perder
       & de novo, de novo
Enfim, na diferença que não faz
   temos indiferença, não paz...

Nos engendramos na busca
   por entre selvas
      mais rasteiras que o lodo
Por entre feras
   mais covardes, mais tolas
Que nem sabem porque querem
   o que querem
Não uma busca por si mesmo
   nem pelo outro, mas pela graça...

Longe das feras, das selvas
   durante cada tarde de chuva
Nas horas mais distantes do sono
   sonhamos... sonhos de nuvens secas
      sonhos com um clima fresco
Que vai se resfriando
   como todo cadáver
Um quarto da crosta da Terra
   em transe, férrea...

Quando isso vai terminar?
É a pergunta no fim de toda estação!



12 de mar. de 2026

Astropassione

 

Nas distâncias relativisticas dos caminhos ao encontro // O número de casos & acasos para se colidir // Pesa mais ou menos do aqueles para nos afastar?

...se estamos quase na velocidade da luz // não há espaço a nos separar...

As curvas do coração sempre mostram caminhos tortuosos // Mas é igual para todo mundo // Todos tem um coração no peito & um coração na mente em formato igual!

...se estamos no mesmo compasso no tempo // só há momentos para nos unir...

Eu penso em correr, mergulhar // Às vezes sobrepõe a fissura de fugir // Mas o que é para ser // Dá a volta no Universo // No Inferno & no Paraíso// & nos acha...

...nossa velocidade da luz se chama amor // nosso espaço curvo se chama paixão...





9 de mar. de 2026

Fim de Férias

 

...Vazio das férias
Fé & ferida sanada...
Carne é tempo
Serviço é matéria
Remuneração é espaço
Espírito é nada
Dialética que os dialéticos
   nem sabem que existe!

Volto
   ao túmulo que me dá vida
Me enterrarei ali
   por mais um ano
Sendo a peça
   na máquina de terra que funciona
De um lado entra carne
   no meio do processo serviço
   do outro sai remuneração

Somos enfim um ser... viço... so...
   um ente de fazer algo
No trabalho
   para além de tudo no ócio
Até o esforço máximo
   para economizar migalhas
Mil galhas da carcaça
   do boi desviante que puxa carroça

Vou adentrar nessa tumba
   me transformar em silêncio
   que reorganiza o barulho
Vou cumprir a tarefa
   representar a farsa do trabalho
   para receber o agrado do salário
Vou gargalhar para mim 
   sorrir para os outros
   & chorar para ninguém

Pois o trabalho não liberta
   ele só nos aquieta
   dentro de sua servidão compensada!



7 de mar. de 2026

Chuva nos Trópicos

 

A chuva cai
  na manhã de sábado como surpresa
Ela pega os planos, a pressa, o calor
  & os enxagua em enxurradas
    rumo aos bueiros
      em sua simples urgência gravitacional
O trânsito que já se assanhava febril
  recua a marcha
    & começa cantarolar splashs de pneus
      em velocidade reduzida
& em cada casa da Vila Angélica
  um útero de meso-escuro se fecha mais ainda
    para preservar o sono justo ou injusto
      de quem não saiu para ruas
        por causa da chuva
Eu passei meia hora no claro
  lendo o 'Trópico de Câncer' desabar
    sobre meu tesão recolhido
      enquanto o estrondo da chuva
        refrescava os planos
          & o fim de verão lá fora
& então deitei no deleite
  do escuro-claro das sete horas
    que invadia o quarto como brisa
      através da lente da cortina de não-tecido
É tudo uma suspensão vertical agora
  enquanto a água se decanta
    de nuvens à poças
Nelas não boiam planos para a noite,
  não tesso tramas para encontros
    para encobri-las como filtros
Nos monumentos fixos de meus desejos
  caem gotas transitórias do que foram
    aventuras recorrentes & sortilégios
      que aconteceram uma ou duas vezes
        ou dezenas & centenas
Diferente da chuva que sempre cai:
  igual à ela que demora mas retorna
    & nada parecido, que chega de surpresa
      em uma manhã de quase não mais... 
        verão...
Mas, ainda assim...
  estação das coisas quentes!



3 de mar. de 2026

Estrada Extensa

 

"Aurota, Poentre"
São meus espaços no tempo
Sempre.


Há essa estrada extensa
Com uma aurora
   ou um poente

Veja bem
Nela é tudo longe
   por entre retas & curvas

O sol, o destino
A encruzilhada
   a partida ou a chegada

Nela tudo é próximo
Não perto
   a parada, a entrada, a saída

Essa estrada comprida
É nela que vem, que vai
   o sentimento do coração

Não há como se perder
Metro a metro percorrido
   você aumenta, você se desgasta

Metros de euforia
Quilômetros de saudades
   ela é ida & volta ao mesmo tempo

Há essa extensa estrada
Com um poente
   ou uma aurora



2 de mar. de 2026

Outra Estação

 

Apego-me na
Certeza do sonho
Que tudo passa

Se vai
   as chuvas
Lavando
   um mês, um ano
      meia década & mais
Firmes
   no lugar que é nosso
      vemos passar
         estações, tempos, gente
O que os sonhos
   em sua semiótica comunicam
      nós permanecemos firmes & atentos
         para testemunhar acontecer
& aí
   passou...
Passou esse tempo
   essa estação... quem desembarcou
      ficou para trás, abandonado na fossa
         que a água abriu, para beber terra
Passou essa época
   essa conturbação... o romper
      do verme remoendo o que não era para ele
         cada tempo dá o que não te dará mais!
Até passar...
   & passou!



24 de fev. de 2026

Sutra

 

rsgjbcthxguvfrhbdeasghcdjklloigvdsggrdhssg
dhvhjgvyuhv  ou você fala de sua vida  jbkjftw
uijvgjhghh  ou fala do clima  gvjytchuyrhcsgnn
mhhfgggyhcgyv  ou de fantasias...  gchjjmllfd
gnnvdsaaqdghjjgijjopjgjiollkbnvcdxxzssgguig
cblijgv  Sabemos...  vchjhhjhdsqqdgxxzbnmlp
acnnyghhy  a única coisa real que existe  bzat
erghujfh  é a Realidade  ihygdeafsqchbvbkljvc
ghltoidafrchjbfuhdchiorexbguvreqabjywjllphhj



22 de fev. de 2026

Transcidade aos Domingos

 

Na cidade
Os mortos & os vivos
Enterrados acima do solo
São a própria cidade a se decompor


Praças que não se podem circular...

(então, por causa do espaço, o tempo se quebra como suástica)

O mundo entregue à uma técnica
   para preservar gastos de um cadáver...

(aquilo que não se move, mas está sepulto por debaixo das vias que transitamos, & assim permite o movimento do que é vivo)

Linhas de ruas traçadas há muito tempo atrás....

(fixas em seu sentido como um mistério a se decifrar)

Eu saio para perambular...

Atrás ou à frente
   de um desconhecido estado de ser & estar...

No centro, com as ruas "vazias"
   sinto um cheiro que pode ser de alguém
   mas é o cheiro de todos
      é o cheiro de um lugar...

Eu simplesmente me
   des-loco
      mas localizo-me lá...

Em uma esquina
   um homem grita
   mendigando uma informação
      perguntando se hoje é
          Sábado ou Domingo

Em outra
   idosas vão à missa
      & imagino se quando jovens
         elas eram tão pias como agora
         mas não a quem pedir tal confirmação

As portas dos comércios
   todas fechadas
      estancam o sangramento
         de dinheiro & trabalho da semana
         que não se lucra nesse dia

Ao longe & acima
   a tempestade de verão se arma
      & eu não sinto nem pressa
         nem lerdeza de chegar de volta ao lar
         pois sou espectro que perpassa

Prolongo a estadia no exílio
   dentro do exílio
      através do vagar devagar
         que não me levou a lugar nenhum
         em todos os lugares que estou

Mas em cada ponto que passo
   um pensamento ou quase do lugar
      vem sobrepensar
      como lembrança & experiência de passar

São pedágios do espaço-tempo
   são obessessores de amores
      & inimizades a me cobrar
      a moeda da época do descansar

O vagar se torna solidão
   como toda solidão que tento compensar
   como toda solidão que tento afirmar
      mesmo antes ou depois
         de se perambular

Há todo um conflito desimportante nos bastidores
Como se a realidade fosse o passado & o futuro
Que ditam o entre-teatro do pensamento
Mas não influenciam o ato do deslocamento
Presentes ali o desejo & a indiferença
Presentes ali o agora & o passado
Presentes ali o que fiz antes de ontem
   & o que farei depois de amanhã
Mas o presente, o momento, o instante
   sou só eu passando pelo centro da cidade
      que não é mais o centro da cidade
& que não é mais o centro que conheci
Pois hoje tudo está
   deslocado
     & transloucado

Pois é Domingo
    "até a meia-noite"
& assim posso me localizar no tempo
   mas há muito fui expelido do espaço
      que mudou
...talvez por isso me ponho a vagar.



17 de fev. de 2026

Mardi Gras

 

Essa noite vamos brincar
   de querer esquecer
Vamos simular não querências
   que nos desfaçam
      em tolas exigências
...ao toque de caixa de bumbo
O caminho da noite é largo
   de tão cheia que é
     de curtos atalhos
Pois os pontos de chegada estão no escuro
   mas temos olhos nas lembranças
      & sua luz obscura
...como velas acesas ä meia-noite
& ali queima o fogo do que desejamos
   ou repugnamos
      entre confetes & serpentinas
& que nada cura
   nada dura, nada muda
      entre energéticos & morfina
...& o suor & saliva & outras bebidas
Em noites como essa
   eu ando com outros pés
      pés pesados de asfalto
& a saudade é palácio
   do baile das minhas fraquezas
      ou a missa da fúria que liberta
...desfiles que se tornam procissões
Tem certas noites que parecem
   que vivo com outra alma
      de tecido anoitecido colorido
Alma despida de pudor
   & fantasiada de santa meretriz
      que passou da hora de ir
         se deitar!



16 de fev. de 2026

Vivo Mato


 

A grama, o mato
   Que amanhã estará cortado
& apenas perpetuado
   Por ter sido visto & ignorado,
Nascerá de novo... & de novo...
   Até o chão ser cimentado.
Mas enquanto não,
   Tudo desse quase nada
Será renovado!