7 de jul. de 2026

Pílula do Dia Anterior


)(
Dai-me a
   pílula
      de esquecer
   o dia anterior

Está lá
   por aí
      a divina arte de esquecer
Aqui

O abandono
  de tudo
      é apenas
         uma troca

Não tudo
   por nada
Algo
   por algo
Mas a loucura
   pela sanidade

Esquecer
Aquiecer
                     Ex quer ser
                     Há que ser

Dai-me a
   saúde
      de lembrar no momento certo
O dia de hoje
   sem mais... o ontem
()



5 de jul. de 2026

+18

 

Nossas brincadeiras de adulto
   cheirar esse pó
      beber esse veneno
         queimar esse entulho
Passamos à esmo no torque
   pela segunda
      terceira infância
         fim de semana de folga no parque
Retorno à pista
   a porta que abre, não fecha
      não cabe no sorriso
         não tem essa pecha
Contorno no desvio
   a porta que fecha, não abre
      não cabe na visão
         nem tudo se resume ao que se sabe
Nossas brincadeiras de adulto
   pegar essa doença
      tomar esse remédio
         pagar por um túmulo


 

3 de jul. de 2026

Tantos Acasos (Fragmentos)

 

Retalhos, recortes
   pedaços, cacos
Folhas rasgadas
   pano picotado, cerâmica quebrada
Tudo remontado
   costurado, ajuntado
      para formar o que se é

Os cabelos, os dentes
   a pele, as lágrimas
Caídos pelo caminho
   deixados por aí
Onde a corrosão do tempo
   & da vaidade
      vai dispersando nossas pedaços

Mutilados em excesso
   fisicamente, psicologicamente
Nossa autoimagem
   & nosso senso de continuidade
É só uma colcha de retalhos
   um espelho estilhaçado
Emendado ao acaso
   no chão de onde nada passa
      a não ser o cadáver irremediável

Somos tantas partes
   como acasos
Tantos remendos ocasionais
   como inevitáveis escolhas
Partes de nada
   partes de outros
      & partes que escolhemos juntar



1 de jul. de 2026

Ponto de Retorno

 

...amo o calor
      mas é o frio que me ensina!
...o coração sonha
      nas noites mais frias...

Até parece que o amor
   é como a Terra
      em órbita do Sol...

Vai ao limite entre o frio do nada
   escapando do calor da estrela
Para depois ser puxada de volta
   caindo rumo ao fogo

Dividindo & unindo
   o mundo
Que tomba
   mas não cai

Assim o amor...
O calor se vai
   mas a luz nos lembra para onde voltar
Na noite mais fria
   sonhei com você!



28 de jun. de 2026

Carne & Palavra

 

Se não fossemos
de carne
Quereriamos ser
de que?
Pedra ou palavra!

Convidado a comer a carne
...nos sonhos
Pois a carne come carne
& exala querer & palavra
   um silêncio & um ruído

& uma frase sobre aquilo
   escrita em pedra em uma caverna
"...ele experimentou a carne & da carne comeu, em axial se fartou..."

Aquilo se reverberou
   em uma frase eterna
Que se contorcia, desdobrava
   & contorcendo se reinventava
Ramificava serpente
   raiz para todo sentimento
      & entendimento
Incrustada, fora de mim
Mesmo não querendo dizer nada

...sim, é assim
      com a palavra
         & com a carne...

Eu lembro por onde levei minha carne
   & lembro por onde lavrei minha palavra

Os cantos, os trechos áridos
   & os júbilos, festas & funerais

Eu lembro dos entorpecimentos
   & os impactos de lucidez

Observando, ponderando,
   experimentando, imaginando

Absorvendo sempre
   mesmo pagando a taxa de esquecimento

A carne um meio
A palavra o início & o fim

Ferramenta, registro
Pedra, risco

Senso, seixo
Verbo, eixo




23 de jun. de 2026

&xistênc1ª

 

Vamos nós
   Quase sós
Puro pó
   Resistindo como se fosse pedra
Amontoado de fagulhas
   No mundo, de segundo em segundo

Nos ajustando
   Nos apertando
       comprimidos
Para caber em 1 minuto
Da vida dos outros
Na nossa própria
   Existênc1a

Breves passagens
   Massa mínima de manobra
      Planos de voo cego
         Lances de dados viciados
Personagens ensaiados
   Nessa peça de improviso imprevista
      Que é acontecer

Detro desse nosso já pouco tempo
Trocado pela medida de espaço
   Que temos para desperdiçar
      Para vagar
& ajustar o tempo de cada um
   Em nossa v1da
Caber onde estamos
   & onde gostariamos de estar



22 de jun. de 2026

Amanhedesconhecidos

 

Gosto da madrugada
   quando todos estão calados
Nenhum "bom dia"
   nenhum "olá! como vai?"
Como se nenhum fosse algo
   & nada fosse ninguém
Como se ainda passassemos
   & nos cruzassemos
      & ainda estivéssemos
         ...dormindo!
...pequeninos pedaços de carne providos do
hálito do senhor repousando no profundo sono
desperto que se revive em pé & andando & não
percebendo a presença de ninguém...



21 de jun. de 2026

Istmo

 

Nós somos o istmo entre
   essas duas coisas grandes

o nada antes
&
o nada depois

Breve fio de água entre duas represas
Estreita faixa de terra entre dois continentes
Raso leito de rio que atravessa dois campos
Abertura na porta que entra o raio de sol
Gota d'água que se condensa no deserto
Fino fio de voz que desmantela o silêncio
Veloz convulsão da carne que goza
Fresta na janela que passa um sopro de vento fresco
Breve saciedade entre duas fomes
Rápido golpe da lâmina que finda a vida
...



20 de jun. de 2026

Penínsulas de Galáxias

 

Eu passo os dias no desfrute & no deleite
   da expectativa...
Eu sei
   que o melhor que tinha que acontecer
      já aconteceu
Eu! & mais nada...

Vivo na retribuição & na compensação
   do que fiz & que não fiz
Constantes marés flutuantes
   devolvendo cadáveres à praia
Mas o que imaginei
   adormeceu & se perdeu
Lá onde as profecias vão:
   o fundo de tudo, o dentro de nada...

O base constante & incontesta
   do rumo das coisas no mundo
Depreciação & desaparecimento
   & um istmo de lembranças
Que mal persistem
   enquanto outros vem & vivem
No trânsito pelo estreito caminho
   que leva do existir à inexistência

Quem nos conheceu
   faz também parte da outra multidão
      dos que não souberam de todos os outros
& cada vez enfileram mais
   aqueles que queriam não ter nos conhecido
      ou os que queríamos esquecer
Até enfim sermos só ausência


 

9 de jun. de 2026

CicloSpiral

 

No jardim nunca mais as mesmas flores
Não mais as rosas como antes
& agora, depois da estação dos frutos
Só espinhos & frutas já muito maduras

Amadureceu também o tempo
O templo se ergueu & já deteriora
Se os anos repetem as estações
A vida de cada um é um só ciclo

Nossa natureza que se renova
É algo mais duro, menos verdejante
Animal capaz de reconhecer a morte
Frente à primavera, que era prima infância

Somos levados nas horas
Esquecemos as semanas
Lutamos contra os meses
Sucumbimos aos anos

Nossas estações que repassam
É espiral dentro do círculo
Onde se confunde o que era
Com o que nunca mais será

É que não buscamos as flores
Apesar de nos serem dadas
Não dependemos dos frutos
Apesar de plantarmos & colhermos

Nos curvamos
Não por obediência
Mas para tomar impulso
Para rebelar, tangenciar, escapar

Nossas estações são outras
Não começo ou fim... ciclos da terra
Não repetições enfim, mas embarque & desembarque
Órbitas caóticas em torno de si

Não andamos sequer em reto giro
A curva que seguimos
Não é para cumprir ciclos
Mas para escapar, pelo centro ou pelo limite!



4 de jun. de 2026

Pó Eira

 

Matando a fome
No pó diverso dos avessos
   Comendo átomo solar
   Comendo ácido dos mares
   Comendo ossos moído
A nutrição nos torna monstros
Boca banguela
   Buraco sem fundo da ampulheta
   Buraco de bala que come chumbo
   Buraco negro que come pó de estrela
É do chão que a gente come
Da sola da bota do maioral
   Do rastro de cobra na estrada
   Da pegada na areia da pessoa amada
   Da trilha repisada na mata fechada
Se na queda a gente levanta
Sacode a poeira, dá a volta por cima
   Na fome a gente deita
   Ajunta o pó de tudo
   & não vê a hora que para... de comer



2 de jun. de 2026

Bomba-A

 

Sinto que estou bebendo veneno de novo
   cada vez que eu lembro dos teus beijos
Um olhar, um pensamento
   uma pulsão de contato
Dentro do reator nuclear
   ao alcance da sua destruição
      ...& amor!

Lembro agora
   do campo devastado que você deixou
Dos rios poluídos de minhas lágrimas
   da pele dolorida das minhas costas
A face putrita que te tocou
   o sangue grosso que você contaminou
      ...& amou!

Agora que se passaram
   cem anos desde aquilo, desde nós, de você
Da explosão nuclear
   do átomo da paixão
Que a arma analógica de destruição em massa
   que foi você, explodiu em minhas mãos
      ...& amei!



27 de mai. de 2026

Solaris Mundi

 

O Oeste é sempre o Leste
   de um outro lugar
Um lugar mais ao Oeste
   para o sol erguer & minguar

O que não acontece
   com o Sul & o Norte
Onde nada debaixo
   cai para cima

O Ocidente do Ocidente
   nunca será o Oriente
O Oriente do Ocidente
   é como para todos, seu próprio umbigo

Não tenho culpa
   se todos viemos do centro do mundo
Do afroútero do globo
   perto & longe de tudo
      & tudo que importa está abaixo ou acima

Perdidos nas direções
   convenções de rumos
Do Norte não subimos ao Sul nem ao Sol
   nem estaremos na orientação de um acidente sideral

Ainda há o espaço a se considerar
   sem Norte sem Sul
Só fossas abissais a se afundar
   depois de Leste Oeste deixarmos
      o único rumo que há é o Sol

Poucos sabem, menos entendem
   esse caminho de Leste a Oeste
Quem o completou foi só a Estrela
   & não há Ocidente ou Oriente para ela



15 de mai. de 2026

Carbono

 


A porta que finalmente se abre
Com a luz inundando o ambiente
Derrame-se pelo chão
O núcleo que nunca existiu
Agora existirá
Os ossos do que havia antes
Cada passo, cada batida
Cada pensamento, cada respiração
Tudo anseia
Cada vento, cada onda
Cada céu, cada nuvem
Cada túmulo anseia
Puxando você do céu
Assim como o amor faz
-Ben Frost, "Opening Titles"
de Raised by Wolves


Iluminados pelo cansaço
Curados pelo sono
Na curva da vida,
  na queda da cachoeira
No vazio do espaço
   o silêncio do deus
Fortalecidos pelos sonhos
Blindados pela pele
   que desaprendeu com o chicote
Abençoados pelo esquecimento...

A língua trincada
   da secura atmosférica
Ar de deserto do hálito
   água de mar das lagrimas
  seca carne do coração
exaurido de pulsar sangue & etanol

O cu doendo
   de tanto defecar
Pois o conhecimento
   é o excremento de toda experiência
& não paramos de experimentar
   & saber
  & ignorar

O corpo alinha na rinha
   entre dor constante
  & prazeres cada vez mais fugazes
Ficamos mais inaptos em sentir
   & excelentes em fingir

A mente oxigena rápido
   até os pulmões queimarem
  para estantanear
o que não cessa de passar

Da inconsciência vem reverberâncias
    essa música repetida
   essa situação que não passa
  esse incômodo que não identifico
essa história repetida que sou eu

Do sono
   o melhor é o tempo não vivido
  que passou & não vimos
Do sono o bônus da indigestão
   que causa os pesadelos
  que nos fazem agarrar
o despertar

O cotidiano então parece
      um papel caborno que se usou muito
     folha após folha, dia após dia
    copiando em duas vias o que se viveu
   & o que se deixou de viver
  uma via para arquivar
outra para jogar no fogo do sol
Que um dia assim como nos iniciou
   nos encerrará



9 de mai. de 2026

Desvio

 

Qualquer dia eu não chego lá...
Qualquer dia eu me perco
   no meio do caminho
Qualquer dia
   eu sou abduzido rumo ao serviço
& sumo sem deixar vestígios
Qualquer dia realizo meus sonhos
   & a vergonha alheia me extingue
Qualquer dia paro no tempo
   & viro erva na beira da calçada
Qualquer dia a morte me encontra
   ou a vida me arrebata
& vou ser outro
   por um desvio na estrada



4 de mai. de 2026

Desdito

 

Quem... não... sabe...
Somos homens & mulheres
   com a cabeça em outro lugar
      ...nesse... incomodo... de dizer

Tenho inobservado a mim mesmo
Tenho desvisto outras pessoas
Tenho procurado a menor parte
O caminho mais rápido
   mas nada, nunca, por enquanto, vem...

Quem... por si... sabe...
Somos seres reles... homens & mulheres...
Nem o sentir na pele nos impele
   nos ensina ou impede
   ...pertos
         tão certos
            são tortos
               de tão retos...

Tenho vivido dois dias em um
Tenho esquecido três décadas
Tenho redefinido o tempo
   nas épocas que fui feliz
      em preparar o caminho para tristeza

Assim mesmo... o esmero
Urge em se reinventar
Voltando ao básico
   para não mais se poder interpelar
      o que foi, o que é & o que será!



1 de mai. de 2026

A Antiga Redondeza Quadrada do Lar

 

Eu lembro
Eu gostava

Dar a volta no quarteirão
Em sentido anti-horário

Eu sabia de cor
A posição de cada coisa

As frestas dos passeios no chão
A cor desbotada de cada muro

Os cheiros & os sons em cada comércio
Os velhos residentes em cada casa

Os mistérios que me chamavam em cada janela fechada
As liberdades recorrentes dentro de cada portão aberto

De manhã, de tarde ou de noite
Dando a volta no quarteirão

Eu cruzava com os mesmos vizinhos
Eu avizinhava a mesma cruzada

Eu revia os mesmos cães & gatos
Eu revia as mesmas árvores & matos

Pisava os mesmos passos
Dobrava as mesmas esquinas

& era tudo tão normal & querido
Que quando dormia ainda sonhava

Com as coisas do outro lado da rua
Com os quintais escondidos daquelas casas

Com os telhados além das fachadas
Com tudo enfim que o quarteirão integrava

Eu me lembro
Eu imaginava

O quarteirão era um planeta
Cada casa um país & os passeios praias & a rua mar

Pelas fronteiras de muros cordilheiras interiores
Em nem todos eu perambulava com os pés ou o olhar

Porque eu conhecia o mundo por fora
Só minha casa por dentro, mas todas eu amava

& pela infância passando
Passou também ser aventura dar a volta no quarteirão

& hoje só restou os sonhos
Porque todo o quarteirão foi mudado

Já não há a maioria das casas
Já se foram muitos de nós

A rua, aquele mar, ainda é a mesma
Mas os lugares onde ia já não estão mais lá

& se volto vez em quando só em sonhos
É porque nunca sai desse lugar

Sempre dando a volta eterna no quarteirão
Nunca mais podendo ali pisar



30 de abr. de 2026

Os Fins...

 

é sempre o final de tarde que traz & trai todo nosso cançasso
sempre esse poente pálido alucinado das cores do sol além do horizonte
& o corpo feito de carne-palha, de horas a fio na lida-roça do trabalho
arranja forças para levantar os olhos & despir o véu das amarras-vendas
& olhar além, olhar para cima, olhar... & ver
que o dia se vai, que as horas passaram, que o tempo não voltará
os fins... do dia, do mês, do esforço
mas nós estamos de novo... livres para enxergar...



27 de abr. de 2026

Contra o Dia

 

Contra o dia, faço um esforço
& vou fingindo interesse
   presença, participação
Afinal, o que nos define
   impõe,  solicita
Além do olhar do outro
   ao qual eu gostaria
      de não estar presente
& o fato de também
   aos outros vermos

Contra o dia, entro na correnteza
A bota me cabe
   no pé ou na bunda
A luva me veste
   na mão ou no tapa na cara
& todo o mundo reverbera
   seu desprezo próprio
Que só não sentimos mais
   porque estamos entretidos
      com as menores futilidades

Contra o dia, temos sempre um sim explícito
& um não subentendido ou calado
Seguimos... pelo menos eu, sigo
   resistindo, me entregando
Compreendendo o passado atrasado
   às vezes
Identificando o futuro errado
   sempre
Contra o dia... passamos sempre pela madrugada
   até anoitecer de novo
Pois só ela, a noite, verdadeiramente
   nos pertence


 

25 de abr. de 2026

Xylon

 

. .. ...árvores caminham
   procissão de florestas
      flor esta...
         esta flor...
            resta a flor...
. .. ...em cada árvore
   um homem ali pregado
      entalhado à prego
         na madeira viva...
. .. ...perambulando por aí
   em alvoroço
      ou silente
         alva árvore
            caminha... .. .



23 de abr. de 2026

Depois da Festa (Nosso Longo Adeus)

 

Dias perdidos
   parado no tempo
Na consolação da carne
No espaço necessário
   que tudo requisita
      para se recuperar...

Depois da festa
   dos encontros marcados
      que as vidas se cruzam
         nas despedidas
Reverberamos sorrisos
   até o próximo pranto...

As faces em estranhamento
Entrevistas nos últimos tempos
Hora chorando
   agora sorrindo
Outra vez consolando-se
   & então brindando...

Os nomes se perdendo
   pela força da gravidade
Novos nomes emergindo
   no esforço dos partos
Os nomes são corpos
   que chegam para nossa ciranda...

As distâncias são as mesmas
   no entanto aumentam
Com a proximidade que escapa
A memória sempre em diáspora
    para outras lembranças
      antigas, próximas...

Juntos, mas separados
Rumamos para a terra perdida
   encontrada no fim dos tempos
Que cada um vive & pisa ao seu modo
Festejando... chorando...
   sempre!



11 de abr. de 2026

Gnosenso

 

Há tanta pouca coisa
   a se dizer que vale a pena...

A pena
   de parecer estranho
    de parecer ingrato
     de parecer louco
      de parecer tolo
      de desaparecer

Na boca de uns
   as palavras incompreensíveis
      aos ouvidos de outros

Não falo
   de mudos
      & surdos

Falo de despertos & sonâmbulos
Falo de afetuosos & ressentidos
Falo de sóbrios & deslumbrados

Contentes & desesperados
Dessassogados & inquietos
Ressabiados & iludidos

O acordado & o ignorante
O liberto & o escravo
O pacífico & o violento

Vivos & sobreviventes
Sábios & inteligentes
Fortes & danados

Serenos & anestesiados
Pacíficos & passivos
Críticos & chorões

O que desfruta & o que desgosta
O que abençoa & o que mal-diz
O que causa & o que repete

Aqueles que sabem o que é esse mundo
   & os que nunca ouviram falar...



7 de abr. de 2026

O Olho no Escuro

 

"O que um scanner vê?, perguntou-se. Quero dizer, vê de verdade? Dentro da cabeça? Até o coração? Um scanner infravermelho passivo, como os que usavam antigamente, ou um scanner holográfico em forma de cubo, como os que usam hoje em dia, a última moda, consegue me ver — a nós — com clareza ou em obscuridade? Espero que sim, pensou, que veja com clareza, porque não consigo mais me ver por dentro. Só vejo névoa. Névoa por fora; névoa por dentro. Espero, pelo bem de todos, que os scanners sejam melhores. Porque, pensou, se o scanner só enxerga em obscuridade, como eu mesmo, então estamos amaldiçoados, amaldiçoados de novo, como sempre estivemos, e vamos acabar mortos assim, sabendo muito pouco e errando também nesse pequeno fragmento".
-Philip K. Dick in "O Homem Duplo (A Scanner Darkly)"



Eu sou só um analisador de tensões acumuladas
Um fiscal das vazões antes represadas
Um observador cínico do rumo errático das coisas...

Eu vejo a ordem prosperando
Derramando sua bagunça para todo lado
As coisas se acumulando sobre a mesa
As ruas se enchendo, a casa lotando
A mente sobrecarregada, a agenda cheia
As boas intenções lotando o inferno
O barulho do mundo carregado de desinformação
O silêncio do céu inconectável

Enquanto a gravidade puxa a carne para baixo
A inteligência declina, a visão acaba
As naves somem, as guerras prosperam
Os filósofos morrem, os néscios aumentam
As nuvens chovem ácido, as vacas parindo bifes
As bocas beijam sapos, os sorrisos demenciam
A fé fetida aumenta, os bolsos esvaziam
O desespero aumenta

O vigiado convocado a vigiar
O escravo obrigado a escravizar
O cego guiando cego
O demente que venceu na vida
O canalha que prega no púlpito
O bandido condecorado herói
O ladrão na presidência
O ditador democrata
A peste que medica

& tudo,
Aos olhos do observador
   do fiscal
      do analisador
Parecem normal!



5 de abr. de 2026

Fædro

 

Nós que estamos sempre prontos para ser amado
Talvez nunca estejamos propensos a dividir

Esse egoísmo ancestral 
Que queima a colheita para não se fartar
   & planta novas sementes que não sabe se irão vingar

Essa coisa atávica no peito
Que se parece coração
   mas é um cofre de carne & couro

Nós que estamos sempre prontos para amar
Talvez nunca estejamos dispostos à deixar ir

Essa memória infalível
Que todo dia se esfrega de novo
   no espinho da rosa

Esse lado do corpo que é alma
Que intoxica um
   para o outro se sentir limpo & forte

Nós que vencemos sem lutar
Conquistamos tudo & não temos nada

Sonhamos chances
Repetições do que foi bom
   mas nunca acordamos para afirmar

No amor
Somos Anjos caídos
   & Demônios arrebatados

Nós... sempre dispostos
Nós... nunca disponíveis


 

3 de abr. de 2026

desAfeto

 

Há muito
viemos
desaprendendo
o que é
Amor.

...tem que aceitar o amor que você acha...

Tanto veneno escorrendo por aí, nas veias abertas de todos relacionamentos... lamentos...

O que eu quero é só próximo do que você quer. O que queremos para nós & o que queremos para o outro, agora... com certeza... é quase crime!

Quem estragou o amor?
Quem desconectou a conexão?
Que desencaminhou o encontro?
O que desintonizou a sintonia?

Fingimos não saber... Mas lá dentro sentimos... A sensação insensata de que nada basta em cada um que se acha demais!

...pois agora é a nova lei... o direito de ser infeliz... o dever de ignorar o outro...



1 de abr. de 2026

Inadequado

 

De repente
   o Relâmpago
Essa razão inadequada que me instrui
   & me faz um estranho
Tolo, possuído, indiferente, além-homem
   finjo, atuo, aturo, ignoro, sei, transpareço

...só sei que sei que sei...
    ....que sei que nada sei que nada sei que sei...

Invisibilidade dos meus atos & sonhos
   só para meu prazer
Essa propriedade natural
   de ser & estar recôndito
Como clareira na mata

Sem dar satisfações
Sem aparecer
Sem laços
Sem sei

...o mundo mudo imundo
    desvairado & insano é tudo que é o caso do ocaso...

& eu
   amanhecer... crepúsculo...
O simples
    calado
       turbulento
          caminho do meio!



30 de mar. de 2026

Outonal

 

Hoje amanheceu mais cedo
A luz do sol refletiu na lua em meus olhos
Faca de prata cortante no céu
& ganhamos mais uns minutos de dia

Esses dias no prepúcio do horizonte
O sol jorrou sua luz
Estrondando antes no alto dos edifícios
Refletindo luz parda sobre as ruas parcas

Essas ruas escuras
Tão remendadas como nós
Camadas sobre camadas
Para pavimentar nossas feridas necessárias abertas

Cada dia amanhecendo mais tarde
Uma manhã diferente nos cai no colo, quente, seca, iluminada
Como o Outono presságio de Inverno requer
Como se dissesse: continue confiando na luz...



26 de mar. de 2026

Para os Além

 

Essa é para aqueles & aquelas
Que não passam, mas ficam
Que não chegam, acontecem...
Esses que revertem o inverno
   nos galhos secos das árvores
Esses que ensinam a dançar
   não conforme a música, mas ao som do trovão
Essa é para esses & essas
Que não precisam carregar nas costas os outros
Para quem faz tudo leve para se lidar
& lidam com o desejo & o asco
   com um sorriso para cada um nos lábios
Esses que valem a pena nos limparmos
   nos rios que só se entra uma vez
Esses que fazem canções & poemas
   para se ouvir & cantar
      por entre os estrondos dos fim do dia
Os que não cobram
Os que abençoam
Os que acrescentam
Os que não são nem bom demais nem mau demais
Os que despertam
Os que sonham
Os raros
Isso é para essas & esses
Que reinventam todo o tempo os espaços
   que nos unem & nos separam
Para quem faz tudo belo
   além do bem & do mal!



24 de mar. de 2026

(inconect@do) Para Fora da Internet

 

"O que foi feito do sonho anarquista,
do fim do Estado, da comuna,
da zona autônoma com duração,
da sociedade livre, da cultura livre?
Devemos abandonar esta esperança
em troca de um acte gratuit existencialista?
A idéia não é mudar a consciência,
mas mudar o mundo".
-Hakim Bey

Se toda marcha da vida é em direção à morte
Se tudo que cresce ruma ao colapso
Porque esse deslumbre pelo progresso
   ele nos levará sempre à opressão

A sequência de toda linha
   é o nó que a amarra à linha seguinte
O futuro do rebanho
   é o abate
A planta cresce
   para ser colhida

& não importa quantos
   verões, outonos, invernos & primaveras
      virão
Essas repetições é a decadência
   que se estabilizou temporariamente
      no eterno rumo da ordem para o mal

Agora mesmo tramam contra a liberdade
   os perversos sempre a odiaram
      eles não podem coexistir com o que é livre
Agora mesmo conspiram
   para te revelar o que você sempre foi
      um pescoço carnudo para boca dos vampiros
Agora mesmo te darão proteção
   em troca da quietude & silêncio
      o ambiente ideal para as sanguessugas prosperarem

Será melhor aceitar ou afastar?
Será suportável o preço a se pagar por participar?

A vida é só uma insurreição
   nesse vasto reino material
Onde a opressão do inanimado
   sempre vence!
Agora o importante é continuar a viver
   & não mais se submeter ao que impõem
      como o necessário para se participar
         desta cultura de falsidade!



22 de mar. de 2026

Cada Dia...

 

Cada dia...
   um fim da estrada
   um meio de estrada
   um começo de estrada
Horas marcadas
   pelo corpo corpromisso corprimido
   entre o dever,
      a razão,
         a vontade,
            o desânimo
               & além...
Cada dia...
   entre o foi & o será
   entre o dormir & o acordar
   entre o lavrar & o folgar
Minutos fulminados
   pela consciência insípida dispersa conscisa
      se lembrando,
         convulsionando,
            revelando-se,
               entregando-se
                   iluminando-se escuridão...
Cada dia...



20 de mar. de 2026

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rezo ao zero
"que dele flua as bênçãos para o mundo"
circundado, mapeado, equacionado
na boca do copo da sede
no halo da bolha passageira
no centro do rasgo de uma racha

rezo ao zero
"sois nada & dá ao resto ser muito maior"
circuncidado, prepúcial, emasculado
sem perder seu centro de nada que é um
canal que valha sua função & jorra
corre das pernas até o vácuo da boca

rezo ao zero
"o que éramos antes do princípio & seremos depois do final"
órbitas, staurus, rodas, anéis
orbes onde despencam os pecados
moedas nos olhos que se fecham
no fundo do bolso que se abre
dando o troco da vida

rezo ao zero
& dou esse nulo amém!