)(
Dai-me a
pílula
de esquecer
o dia anterior
Está lá
por aí
a divina arte de esquecer
Aqui
O abandono
de tudo
é apenas
uma troca
Não tudo
por nada
Algo
por algo
Mas a loucura
pela sanidade
Esquecer
Aquiecer
Ex quer ser
Há que ser
Dai-me a
saúde
de lembrar no momento certo
O dia de hoje
sem mais... o ontem
()
7 de jul. de 2026
Pílula do Dia Anterior
5 de jul. de 2026
+18
Nossas brincadeiras de adulto
cheirar esse pó
beber esse veneno
queimar esse entulho
Passamos à esmo no torque
pela segunda
terceira infância
fim de semana de folga no parque
Retorno à pista
a porta que abre, não fecha
não cabe no sorriso
não tem essa pecha
Contorno no desvio
a porta que fecha, não abre
não cabe na visão
nem tudo se resume ao que se sabe
Nossas brincadeiras de adulto
pegar essa doença
tomar esse remédio
pagar por um túmulo
3 de jul. de 2026
Tantos Acasos (Fragmentos)
Retalhos, recortes
pedaços, cacos
Folhas rasgadas
pano picotado, cerâmica quebrada
Tudo remontado
costurado, ajuntado
para formar o que se é
Os cabelos, os dentes
a pele, as lágrimas
Caídos pelo caminho
deixados por aí
Onde a corrosão do tempo
& da vaidade
vai dispersando nossas pedaços
Mutilados em excesso
fisicamente, psicologicamente
Nossa autoimagem
& nosso senso de continuidade
É só uma colcha de retalhos
um espelho estilhaçado
Emendado ao acaso
no chão de onde nada passa
a não ser o cadáver irremediável
Somos tantas partes
como acasos
Tantos remendos ocasionais
como inevitáveis escolhas
Partes de nada
partes de outros
& partes que escolhemos juntar
1 de jul. de 2026
Ponto de Retorno
...amo o calor
mas é o frio que me ensina!
...o coração sonha
nas noites mais frias...
Até parece que o amor
é como a Terra
em órbita do Sol...
Vai ao limite entre o frio do nada
escapando do calor da estrela
Para depois ser puxada de volta
caindo rumo ao fogo
Dividindo & unindo
o mundo
Que tomba
mas não cai
Assim o amor...
O calor se vai
mas a luz nos lembra para onde voltar
Na noite mais fria
sonhei com você!
28 de jun. de 2026
Carne & Palavra
Convidado a comer a carne
...nos sonhos
Pois a carne come carne
& exala querer & palavra
um silêncio & um ruído
& uma frase sobre aquilo
escrita em pedra em uma caverna
"...ele experimentou a carne & da carne comeu, em axial se fartou..."
Aquilo se reverberou
em uma frase eterna
Que se contorcia, desdobrava
& contorcendo se reinventava
Ramificava serpente
raiz para todo sentimento
& entendimento
Incrustada, fora de mim
Mesmo não querendo dizer nada
...sim, é assim
com a palavra
& com a carne...
Eu lembro por onde levei minha carne
& lembro por onde lavrei minha palavra
Os cantos, os trechos áridos
& os júbilos, festas & funerais
Eu lembro dos entorpecimentos
& os impactos de lucidez
Observando, ponderando,
experimentando, imaginando
Absorvendo sempre
mesmo pagando a taxa de esquecimento
A carne um meio
A palavra o início & o fim
Ferramenta, registro
Pedra, risco
Senso, seixo
Verbo, eixo
23 de jun. de 2026
&xistênc1ª
Vamos nós
Quase sós
Puro pó
Resistindo como se fosse pedra
Amontoado de fagulhas
No mundo, de segundo em segundo
Nos ajustando
Nos apertando
comprimidos
Para caber em 1 minuto
Da vida dos outros
Na nossa própria
Existênc1a
Breves passagens
Massa mínima de manobra
Planos de voo cego
Lances de dados viciados
Personagens ensaiados
Nessa peça de improviso imprevista
Que é acontecer
Detro desse nosso já pouco tempo
Trocado pela medida de espaço
Que temos para desperdiçar
Para vagar
& ajustar o tempo de cada um
Em nossa v1da
Caber onde estamos
& onde gostariamos de estar
22 de jun. de 2026
Amanhedesconhecidos
Gosto da madrugada
quando todos estão calados
Nenhum "bom dia"
nenhum "olá! como vai?"
Como se nenhum fosse algo
& nada fosse ninguém
Como se ainda passassemos
& nos cruzassemos
& ainda estivéssemos
...dormindo!
...pequeninos pedaços de carne providos do
hálito do senhor repousando no profundo sono
desperto que se revive em pé & andando & não
percebendo a presença de ninguém...
21 de jun. de 2026
Istmo
Nós somos o istmo entre
essas duas coisas grandes
Breve fio de água entre duas represas
Estreita faixa de terra entre dois continentes
Raso leito de rio que atravessa dois campos
Abertura na porta que entra o raio de sol
Gota d'água que se condensa no deserto
Fino fio de voz que desmantela o silêncio
Veloz convulsão da carne que goza
Fresta na janela que passa um sopro de vento fresco
Breve saciedade entre duas fomes
Rápido golpe da lâmina que finda a vida
...
20 de jun. de 2026
Penínsulas de Galáxias
Eu passo os dias no desfrute & no deleite
da expectativa...
Eu sei
que o melhor que tinha que acontecer
já aconteceu
Eu! & mais nada...
Vivo na retribuição & na compensação
do que fiz & que não fiz
Constantes marés flutuantes
devolvendo cadáveres à praia
Mas o que imaginei
adormeceu & se perdeu
Lá onde as profecias vão:
o fundo de tudo, o dentro de nada...
O base constante & incontesta
do rumo das coisas no mundo
Depreciação & desaparecimento
& um istmo de lembranças
Que mal persistem
enquanto outros vem & vivem
No trânsito pelo estreito caminho
que leva do existir à inexistência
Quem nos conheceu
faz também parte da outra multidão
dos que não souberam de todos os outros
& cada vez enfileram mais
aqueles que queriam não ter nos conhecido
ou os que queríamos esquecer
Até enfim sermos só ausência
9 de jun. de 2026
CicloSpiral
No jardim nunca mais as mesmas flores
Não mais as rosas como antes
& agora, depois da estação dos frutos
Só espinhos & frutas já muito maduras
Amadureceu também o tempo
O templo se ergueu & já deteriora
Se os anos repetem as estações
A vida de cada um é um só ciclo
Nossa natureza que se renova
É algo mais duro, menos verdejante
Animal capaz de reconhecer a morte
Frente à primavera, que era prima infância
Somos levados nas horas
Esquecemos as semanas
Lutamos contra os meses
Sucumbimos aos anos
Nossas estações que repassam
É espiral dentro do círculo
Onde se confunde o que era
Com o que nunca mais será
É que não buscamos as flores
Apesar de nos serem dadas
Não dependemos dos frutos
Apesar de plantarmos & colhermos
Nos curvamos
Não por obediência
Mas para tomar impulso
Para rebelar, tangenciar, escapar
Nossas estações são outras
Não começo ou fim... ciclos da terra
Não repetições enfim, mas embarque & desembarque
Órbitas caóticas em torno de si
Não andamos sequer em reto giro
A curva que seguimos
Não é para cumprir ciclos
Mas para escapar, pelo centro ou pelo limite!
4 de jun. de 2026
Pó Eira
Matando a fome
No pó diverso dos avessos
Comendo átomo solar
Comendo ácido dos mares
Comendo ossos moído
A nutrição nos torna monstros
Boca banguela
Buraco sem fundo da ampulheta
Buraco de bala que come chumbo
Buraco negro que come pó de estrela
É do chão que a gente come
Da sola da bota do maioral
Do rastro de cobra na estrada
Da pegada na areia da pessoa amada
Da trilha repisada na mata fechada
Se na queda a gente levanta
Sacode a poeira, dá a volta por cima
Na fome a gente deita
Ajunta o pó de tudo
& não vê a hora que para... de comer
2 de jun. de 2026
Bomba-A
Sinto que estou bebendo veneno de novo
cada vez que eu lembro dos teus beijos
Um olhar, um pensamento
uma pulsão de contato
Dentro do reator nuclear
ao alcance da sua destruição
...& amor!
Lembro agora
do campo devastado que você deixou
Dos rios poluídos de minhas lágrimas
da pele dolorida das minhas costas
A face putrita que te tocou
o sangue grosso que você contaminou
...& amou!
Agora que se passaram
cem anos desde aquilo, desde nós, de você
Da explosão nuclear
do átomo da paixão
Que a arma analógica de destruição em massa
que foi você, explodiu em minhas mãos
...& amei!
27 de mai. de 2026
Solaris Mundi
O Oeste é sempre o Leste
de um outro lugar
Um lugar mais ao Oeste
para o sol erguer & minguar
O que não acontece
com o Sul & o Norte
Onde nada debaixo
cai para cima
O Ocidente do Ocidente
nunca será o Oriente
O Oriente do Ocidente
é como para todos, seu próprio umbigo
Não tenho culpa
se todos viemos do centro do mundo
Do afroútero do globo
perto & longe de tudo
& tudo que importa está abaixo ou acima
Perdidos nas direções
convenções de rumos
Do Norte não subimos ao Sul nem ao Sol
nem estaremos na orientação de um acidente sideral
Ainda há o espaço a se considerar
sem Norte sem Sul
Só fossas abissais a se afundar
depois de Leste Oeste deixarmos
o único rumo que há é o Sol
Poucos sabem, menos entendem
esse caminho de Leste a Oeste
Quem o completou foi só a Estrela
& não há Ocidente ou Oriente para ela
15 de mai. de 2026
Carbono
Iluminados pelo cansaço
Curados pelo sono
Na curva da vida,
na queda da cachoeira
No vazio do espaço
o silêncio do deus
Fortalecidos pelos sonhos
Blindados pela pele
que desaprendeu com o chicote
Abençoados pelo esquecimento...
A língua trincada
da secura atmosférica
Ar de deserto do hálito
água de mar das lagrimas
seca carne do coração
exaurido de pulsar sangue & etanol
O cu doendo
de tanto defecar
Pois o conhecimento
é o excremento de toda experiência
& não paramos de experimentar
& saber
& ignorar
O corpo alinha na rinha
entre dor constante
& prazeres cada vez mais fugazes
Ficamos mais inaptos em sentir
& excelentes em fingir
A mente oxigena rápido
até os pulmões queimarem
para estantanear
o que não cessa de passar
Da inconsciência vem reverberâncias
essa música repetida
essa situação que não passa
esse incômodo que não identifico
essa história repetida que sou eu
Do sono
o melhor é o tempo não vivido
que passou & não vimos
Do sono o bônus da indigestão
que causa os pesadelos
que nos fazem agarrar
o despertar
O cotidiano então parece
um papel caborno que se usou muito
folha após folha, dia após dia
copiando em duas vias o que se viveu
& o que se deixou de viver
uma via para arquivar
outra para jogar no fogo do sol
Que um dia assim como nos iniciou
nos encerrará
9 de mai. de 2026
Desvio
Qualquer dia eu não chego lá...
Qualquer dia eu me perco
no meio do caminho
Qualquer dia
eu sou abduzido rumo ao serviço
& sumo sem deixar vestígios
Qualquer dia realizo meus sonhos
& a vergonha alheia me extingue
Qualquer dia paro no tempo
& viro erva na beira da calçada
Qualquer dia a morte me encontra
ou a vida me arrebata
& vou ser outro
por um desvio na estrada
4 de mai. de 2026
Desdito
Quem... não... sabe...
Somos homens & mulheres
com a cabeça em outro lugar
...nesse... incomodo... de dizer
Tenho inobservado a mim mesmo
Tenho desvisto outras pessoas
Tenho procurado a menor parte
O caminho mais rápido
mas nada, nunca, por enquanto, vem...
Quem... por si... sabe...
Somos seres reles... homens & mulheres...
Nem o sentir na pele nos impele
nos ensina ou impede
...pertos
tão certos
são tortos
de tão retos...
Tenho vivido dois dias em um
Tenho esquecido três décadas
Tenho redefinido o tempo
nas épocas que fui feliz
em preparar o caminho para tristeza
Assim mesmo... o esmero
Urge em se reinventar
Voltando ao básico
para não mais se poder interpelar
o que foi, o que é & o que será!
1 de mai. de 2026
A Antiga Redondeza Quadrada do Lar
Eu lembro
Eu gostava
Dar a volta no quarteirão
Em sentido anti-horário
Eu sabia de cor
A posição de cada coisa
As frestas dos passeios no chão
A cor desbotada de cada muro
Os cheiros & os sons em cada comércio
Os velhos residentes em cada casa
Os mistérios que me chamavam em cada janela fechada
As liberdades recorrentes dentro de cada portão aberto
De manhã, de tarde ou de noite
Dando a volta no quarteirão
Eu cruzava com os mesmos vizinhos
Eu avizinhava a mesma cruzada
Eu revia os mesmos cães & gatos
Eu revia as mesmas árvores & matos
Pisava os mesmos passos
Dobrava as mesmas esquinas
& era tudo tão normal & querido
Que quando dormia ainda sonhava
Com as coisas do outro lado da rua
Com os quintais escondidos daquelas casas
Com os telhados além das fachadas
Com tudo enfim que o quarteirão integrava
Eu me lembro
Eu imaginava
O quarteirão era um planeta
Cada casa um país & os passeios praias & a rua mar
Pelas fronteiras de muros cordilheiras interiores
Em nem todos eu perambulava com os pés ou o olhar
Porque eu conhecia o mundo por fora
Só minha casa por dentro, mas todas eu amava
& pela infância passando
Passou também ser aventura dar a volta no quarteirão
& hoje só restou os sonhos
Porque todo o quarteirão foi mudado
Já não há a maioria das casas
Já se foram muitos de nós
A rua, aquele mar, ainda é a mesma
Mas os lugares onde ia já não estão mais lá
& se volto vez em quando só em sonhos
É porque nunca sai desse lugar
Sempre dando a volta eterna no quarteirão
Nunca mais podendo ali pisar
30 de abr. de 2026
Os Fins...
é sempre o final de tarde que traz & trai todo nosso cançasso
sempre esse poente pálido alucinado das cores do sol além do horizonte
& o corpo feito de carne-palha, de horas a fio na lida-roça do trabalho
arranja forças para levantar os olhos & despir o véu das amarras-vendas
& olhar além, olhar para cima, olhar... & ver
que o dia se vai, que as horas passaram, que o tempo não voltará
os fins... do dia, do mês, do esforço
mas nós estamos de novo... livres para enxergar...
27 de abr. de 2026
Contra o Dia
Contra o dia, faço um esforço
& vou fingindo interesse
presença, participação
Afinal, o que nos define
impõe, solicita
Além do olhar do outro
ao qual eu gostaria
de não estar presente
& o fato de também
aos outros vermos
Contra o dia, entro na correnteza
A bota me cabe
no pé ou na bunda
A luva me veste
na mão ou no tapa na cara
& todo o mundo reverbera
seu desprezo próprio
Que só não sentimos mais
porque estamos entretidos
com as menores futilidades
Contra o dia, temos sempre um sim explícito
& um não subentendido ou calado
Seguimos... pelo menos eu, sigo
resistindo, me entregando
Compreendendo o passado atrasado
às vezes
Identificando o futuro errado
sempre
Contra o dia... passamos sempre pela madrugada
até anoitecer de novo
Pois só ela, a noite, verdadeiramente
nos pertence
25 de abr. de 2026
Xylon
. .. ...árvores caminham
procissão de florestas
flor esta...
esta flor...
resta a flor...
. .. ...em cada árvore
um homem ali pregado
entalhado à prego
na madeira viva...
. .. ...perambulando por aí
em alvoroço
ou silente
alva árvore
caminha... .. .
23 de abr. de 2026
Depois da Festa (Nosso Longo Adeus)
Dias perdidos
parado no tempo
Na consolação da carne
No espaço necessário
que tudo requisita
para se recuperar...
Depois da festa
dos encontros marcados
que as vidas se cruzam
nas despedidas
Reverberamos sorrisos
até o próximo pranto...
As faces em estranhamento
Entrevistas nos últimos tempos
Hora chorando
agora sorrindo
Outra vez consolando-se
& então brindando...
Os nomes se perdendo
pela força da gravidade
Novos nomes emergindo
no esforço dos partos
Os nomes são corpos
que chegam para nossa ciranda...
As distâncias são as mesmas
no entanto aumentam
Com a proximidade que escapa
A memória sempre em diáspora
para outras lembranças
antigas, próximas...
Juntos, mas separados
Rumamos para a terra perdida
encontrada no fim dos tempos
Que cada um vive & pisa ao seu modo
Festejando... chorando...
sempre!
11 de abr. de 2026
Gnosenso
Há tanta pouca coisa
a se dizer que vale a pena...
A pena
de parecer estranho
de parecer ingrato
de parecer louco
de parecer tolo
de desaparecer
Na boca de uns
as palavras incompreensíveis
aos ouvidos de outros
Não falo
de mudos
& surdos
Falo de despertos & sonâmbulos
Falo de afetuosos & ressentidos
Falo de sóbrios & deslumbrados
Contentes & desesperados
Dessassogados & inquietos
Ressabiados & iludidos
O acordado & o ignorante
O liberto & o escravo
O pacífico & o violento
Vivos & sobreviventes
Sábios & inteligentes
Fortes & danados
Serenos & anestesiados
Pacíficos & passivos
Críticos & chorões
O que desfruta & o que desgosta
O que abençoa & o que mal-diz
O que causa & o que repete
Aqueles que sabem o que é esse mundo
& os que nunca ouviram falar...
7 de abr. de 2026
O Olho no Escuro
"O que um scanner vê?, perguntou-se. Quero dizer, vê de verdade? Dentro da cabeça? Até o coração? Um scanner infravermelho passivo, como os que usavam antigamente, ou um scanner holográfico em forma de cubo, como os que usam hoje em dia, a última moda, consegue me ver — a nós — com clareza ou em obscuridade? Espero que sim, pensou, que veja com clareza, porque não consigo mais me ver por dentro. Só vejo névoa. Névoa por fora; névoa por dentro. Espero, pelo bem de todos, que os scanners sejam melhores. Porque, pensou, se o scanner só enxerga em obscuridade, como eu mesmo, então estamos amaldiçoados, amaldiçoados de novo, como sempre estivemos, e vamos acabar mortos assim, sabendo muito pouco e errando também nesse pequeno fragmento".
-Philip K. Dick in "O Homem Duplo (A Scanner Darkly)"
Eu sou só um analisador de tensões acumuladas
Um fiscal das vazões antes represadas
Um observador cínico do rumo errático das coisas...
Eu vejo a ordem prosperando
Derramando sua bagunça para todo lado
As coisas se acumulando sobre a mesa
As ruas se enchendo, a casa lotando
A mente sobrecarregada, a agenda cheia
As boas intenções lotando o inferno
O barulho do mundo carregado de desinformação
O silêncio do céu inconectável
Enquanto a gravidade puxa a carne para baixo
A inteligência declina, a visão acaba
As naves somem, as guerras prosperam
Os filósofos morrem, os néscios aumentam
As nuvens chovem ácido, as vacas parindo bifes
As bocas beijam sapos, os sorrisos demenciam
A fé fetida aumenta, os bolsos esvaziam
O desespero aumenta
O vigiado convocado a vigiar
O escravo obrigado a escravizar
O cego guiando cego
O demente que venceu na vida
O canalha que prega no púlpito
O bandido condecorado herói
O ladrão na presidência
O ditador democrata
A peste que medica
& tudo,
Aos olhos do observador
do fiscal
do analisador
Parecem normal!
5 de abr. de 2026
Fædro
Nós que estamos sempre prontos para ser amado
Talvez nunca estejamos propensos a dividir
Esse egoísmo ancestral
Que queima a colheita para não se fartar
& planta novas sementes que não sabe se irão vingar
Essa coisa atávica no peito
Que se parece coração
mas é um cofre de carne & couro
Nós que estamos sempre prontos para amar
Talvez nunca estejamos dispostos à deixar ir
Essa memória infalível
Que todo dia se esfrega de novo
no espinho da rosa
Esse lado do corpo que é alma
Que intoxica um
para o outro se sentir limpo & forte
Nós que vencemos sem lutar
Conquistamos tudo & não temos nada
Sonhamos chances
Repetições do que foi bom
mas nunca acordamos para afirmar
No amor
Somos Anjos caídos
& Demônios arrebatados
Nós... sempre dispostos
Nós... nunca disponíveis
3 de abr. de 2026
desAfeto
...tem que aceitar o amor que você acha...
Tanto veneno escorrendo por aí, nas veias abertas de todos relacionamentos... lamentos...
O que eu quero é só próximo do que você quer. O que queremos para nós & o que queremos para o outro, agora... com certeza... é quase crime!
Quem estragou o amor?
Quem desconectou a conexão?
Que desencaminhou o encontro?
O que desintonizou a sintonia?
Fingimos não saber... Mas lá dentro sentimos... A sensação insensata de que nada basta em cada um que se acha demais!
...pois agora é a nova lei... o direito de ser infeliz... o dever de ignorar o outro...
1 de abr. de 2026
Inadequado
De repente
o Relâmpago
Essa razão inadequada que me instrui
& me faz um estranho
Tolo, possuído, indiferente, além-homem
finjo, atuo, aturo, ignoro, sei, transpareço
...só sei que sei que sei...
....que sei que nada sei que nada sei que sei...
Invisibilidade dos meus atos & sonhos
só para meu prazer
Essa propriedade natural
de ser & estar recôndito
Como clareira na mata
Sem dar satisfações
Sem aparecer
Sem laços
Sem sei
...o mundo mudo imundo
desvairado & insano é tudo que é o caso do ocaso...
& eu
amanhecer... crepúsculo...
O simples
calado
turbulento
caminho do meio!
30 de mar. de 2026
Outonal
Hoje amanheceu mais cedo
A luz do sol refletiu na lua em meus olhos
Faca de prata cortante no céu
& ganhamos mais uns minutos de dia
Esses dias no prepúcio do horizonte
O sol jorrou sua luz
Estrondando antes no alto dos edifícios
Refletindo luz parda sobre as ruas parcas
Essas ruas escuras
Tão remendadas como nós
Camadas sobre camadas
Para pavimentar nossas feridas necessárias abertas
Cada dia amanhecendo mais tarde
Uma manhã diferente nos cai no colo, quente, seca, iluminada
Como o Outono presságio de Inverno requer
Como se dissesse: continue confiando na luz...
26 de mar. de 2026
Para os Além
Essa é para aqueles & aquelas
Que não passam, mas ficam
Que não chegam, acontecem...
Esses que revertem o inverno
nos galhos secos das árvores
Esses que ensinam a dançar
não conforme a música, mas ao som do trovão
Essa é para esses & essas
Que não precisam carregar nas costas os outros
Para quem faz tudo leve para se lidar
& lidam com o desejo & o asco
com um sorriso para cada um nos lábios
Esses que valem a pena nos limparmos
nos rios que só se entra uma vez
Esses que fazem canções & poemas
para se ouvir & cantar
por entre os estrondos dos fim do dia
Os que não cobram
Os que abençoam
Os que acrescentam
Os que não são nem bom demais nem mau demais
Os que despertam
Os que sonham
Os raros
Isso é para essas & esses
Que reinventam todo o tempo os espaços
que nos unem & nos separam
Para quem faz tudo belo
além do bem & do mal!
24 de mar. de 2026
(inconect@do) Para Fora da Internet
Se toda marcha da vida é em direção à morte
Se tudo que cresce ruma ao colapso
Porque esse deslumbre pelo progresso
ele nos levará sempre à opressão
A sequência de toda linha
é o nó que a amarra à linha seguinte
O futuro do rebanho
é o abate
A planta cresce
para ser colhida
& não importa quantos
verões, outonos, invernos & primaveras
virão
Essas repetições é a decadência
que se estabilizou temporariamente
no eterno rumo da ordem para o mal
Agora mesmo tramam contra a liberdade
os perversos sempre a odiaram
eles não podem coexistir com o que é livre
Agora mesmo conspiram
para te revelar o que você sempre foi
um pescoço carnudo para boca dos vampiros
Agora mesmo te darão proteção
em troca da quietude & silêncio
o ambiente ideal para as sanguessugas prosperarem
Será melhor aceitar ou afastar?
Será suportável o preço a se pagar por participar?
A vida é só uma insurreição
nesse vasto reino material
Onde a opressão do inanimado
sempre vence!
Agora o importante é continuar a viver
& não mais se submeter ao que impõem
como o necessário para se participar
desta cultura de falsidade!
22 de mar. de 2026
Cada Dia...
Cada dia...
um fim da estrada
um meio de estrada
um começo de estrada
Horas marcadas
pelo corpo corpromisso corprimido
entre o dever,
a razão,
a vontade,
o desânimo
& além...
Cada dia...
entre o foi & o será
entre o dormir & o acordar
entre o lavrar & o folgar
Minutos fulminados
pela consciência insípida dispersa conscisa
se lembrando,
convulsionando,
revelando-se,
entregando-se
iluminando-se escuridão...
Cada dia...
20 de mar. de 2026
0
rezo ao zero
"que dele flua as bênçãos para o mundo"
circundado, mapeado, equacionado
na boca do copo da sede
no halo da bolha passageira
no centro do rasgo de uma racha
rezo ao zero
"sois nada & dá ao resto ser muito maior"
circuncidado, prepúcial, emasculado
sem perder seu centro de nada que é um
canal que valha sua função & jorra
corre das pernas até o vácuo da boca
rezo ao zero
"o que éramos antes do princípio & seremos depois do final"
órbitas, staurus, rodas, anéis
orbes onde despencam os pecados
moedas nos olhos que se fecham
no fundo do bolso que se abre
dando o troco da vida
rezo ao zero
& dou esse nulo amém!








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