9 de out. de 2026

Alhures

 

Atravessei no sono
Um vale sem valor
Que deslizava no tempo
Como faca que entra na carne sem dor

Trilha de lêsmia
De um Maldoror ou Macondo invertidos
Meu coração arrancado
Escorregando esvai sobre o desmundo

Meus sonhos carregam a terra devastada
& as cidades de entulhos & escombros
Com paredes sépias descascadas
Onde me abrigo mas não me escondo

Todos os lugares
Casas, prédios, banheiros, ruas...
São vastas habitações de um cômodo só
Por onde passo & cruzo com outros eus

Nos tempos longínquos paralelos
Dos dias & noites dentro dos sonhos
Dos momentos & encontros descabidos
Vem minha esperança de lugares melhores



4 de out. de 2026

cVorrOupTçãEo

 

todo voto é inútil quando o eleito tem como  útil seus projetos pessoais
a fome de justiça nacional com malária, dengue, febre, lepra
& os podrerosos defendendo democracia apenas para fugirem da cadeia
a prisão eleitoral nas garras dos tribunais em algazarra
suas consciências, seus corpos, seus filhos, cus & almas, todos comprados
falsos cristãos,  falsos socialistas, falsos liberais, verdadeiros corruptos
falsos seres humanos fingindo serem gente apenas pra ter voto do povo
vote no monstro, vote no facínora, vote na nulidade humana, no bandido, no palhaço, no assassino
com a miséria material & a ignorância espiritual bem nutridas
a arma na mão, a lei na fossa, o chicote nas costas, a mentira na boca, os bilhões no bolso...
...& ainda há quem crê, há quem vote



1 de out. de 2026

Aléns & Aquéns

 

O espaço que nos separa
A informação que nos transpassa
O tempo que nos une

...
   & fluxo
      & refluxo
         & repuxo
            &...

As dimensões colapsam
   umas sobre as outras
Formandos realidades exiladas
   auto-excludentes

Vem de cima
   a redução
...quinta na quarta na terceira na segunda...
Ascendem
   as adições

Como se
   as realidades também
      procurassem encontrar seu Deus
O uno,
   ponto unidimensional,
      é o fundo & a superfície de tudo

Vivendo dentro de buracos negros
   dimensão maior colapsada
      sobre dimensão menor transpassada

O tabuleiro de malha
   em fluxo
      & refluxo
         & repuxo
            & desfluxo
               &m influxo...



24 de set. de 2026

PrimaVerão

 

A lua
   como um olho vivo
      dentro de um crânio morto
Sequestra uivos
   de lobos urbanos

A lua nos olha
   & nos molha
      de luz & garoa

Bocas de lobos 
   bueiros abertos
Exalam o bafo de decomposição
   calor químico sob o asfalto

A chapa está quente
   sob os pneus
      & pés que se perderam

O céu encoberto
   de primavera debutante
Convulciona frio & quentura
   convocando todos os brotos
      a se abrirem flores

Deflorados sob o olhar
   renascendo no verão
      que veremos antecipado



19 de set. de 2026

Ida(s)de(s)

 

Com o Tempo
Nunca em paz
& sempre entendendo-o

Aceitando sua inevitabilidade
Mas revoltando-se
Contra tudo de ruim que traz a idade

Entre um & outro essa disparidade
Distância não de espaço
Mas de permanência nessa propriedade

Nossos corpos dispostos no mundo
Quem chegou antes, quem chegou depois
Nisso tudo se resume a história de fundo

Diferença de idade
Cerca amoral
Cerceando nossa vontade

Passarão ainda noites
   encontros nunca sonhados
Quando de repente nos constatamos
   perdidos & achados
Entre um olhar que se encontra
   & rápido foge
Menos por medo
   mais por dote
Nos seduzindo
   & repelindo
Nunca tendo tanta sorte
   que trinta & tantos anos de diferença suporte



15 de set. de 2026

Acabamento

 

Tintas sobre tintas
Que repintam a realidade
Impõem vibrações sobre vibrações
Que nenhum Feng-Chui tateante
Enxerga, mas percebe
Com a bússola Bá-Gua

No campo aberto óptico
De um quarto fechado
Revolvem energias pairando
Nos gases caópticos
Que respiramos & transpiramos
Desde a caosolina queimada que vem de fora
Entrando pela janela
Já nela & em nós despertos

Tintas & vernizes
Dispostos à maquiar & perdurar a forma
A realidade em volta
Cerceando a real idade que tenho & sou
Aconchego-me aqui
Louco para ir para fora
Como a troca de gases & cores
Do desejo de extasiar & rir





9 de set. de 2026

Fins de Mundo

 

Agora vamos
Enfrentando fins de mundo
   a cada segundo

Coisas que o valha
A cada semana
   cada hora agora

Apocalipses particulares
Depois de cada dia
   invadindo nossos lares, coxias

Armangendons medíocres
Culpa de nossos egos
   fiados em aço desfiado de pregos

Agora vamos
Enfrentando fins de estradas
   lugares a que fomos sem prever

Situações enredadas
Sem começo premeditado
   mas com fim escancarado

Não que tenhamos
Errado caminho
   mas caminhos que se formaram cruzados

Um pouco de caos de cada um
Formando no fim a bagunça total
   da qual não podemos sair

Só deixar acontecer
& suportar da melhor forma
   fingindo fazer o que temos que fazer

Até que então, à esmo
Tudo acaba
   & continua tudo o mesmo



5 de set. de 2026

OHA

 

Nada é tão novo como um velho vivo
por
  isso a
    palavra
      'ontem'
         é tão
            desconcertante
Se referindo ao passado ela parece ser presente

Tudo é tão atual como uma nulidade suspensa
por
  isso a
    palavra
      'hoje'
         é tão
            desconfortável
Se referindo ao presente ela parece ser atemporal

Nada é tão velho como um jovem morto
por
  isso a
    palavra
      'amanhã'
         é tão
            deslumbrante
Se referindo ao futuro ela parece ser passado

   se vive no
ontem
   se morre no
hoje
   se sonha no
amanhã



3 de set. de 2026

Caminho para Ur

 

Assim que o Atlântico congelar
   atravessaremos andando
      para os velhos mundos
Arrastando os pés no gelo
   que unirão continentes
Deixando rastro que serão apagados
   pelo vento frio de novos desertos
& os polos serão trópicos...

Nuvens altas passarão atrás de nuven baixas
    moendo em fricção
      enxames de gafanhotos
Que migrarão para o rodízio hemisférico
   enquanto insetos & parasitas banqueteiam
      morreremos das fomes sazonais
Coletores do que plantaram & não plantaram...

& a Terra voltará à sua origem
   não será mais Inferno
      mas Paraíso
& anjos símios transgêneros
   reinarão nos céus
      sem inveja do Criador
Pois serão primatas secundários...

As massas de terras reagrupadas
   unirão reenfim em tribos
      sociedades antes separadas
         por fronteiras & mares & ares
Sob a tutela de continentes que se chocam
   no abraço telúrico
      eras & eras separados
         à deriva no impulso não da história
Mas da geopsicologia dos indivíduos...

Os futuros continentes
   serão psicológicos
Fervendo em água quente
   ou congelados trópicos
Haverá um caminho rente
   quase ontológico
De volta ao útero inerente
   ou puramente escatológico
      para o que nunca foi nossa casa
         mas é nosso berço...



1 de set. de 2026

Estória

 

Inconscientemente combinado
   entrando em acordo
      sobre a necessidade
          de preservar a palavra
             "estória"
          em nosso vocabulário,
Sabendo
   de uma forma ou de outra
      que tal palavra é a única
         que pode definir o que vivemos juntos
            & a isso tudo
                remetermos
             sem erro de definição;

Os contos requintados
   sobre os cantos escuros que passamos
As narrativas desregradas
   das noites bêbadas nos bares
Os laudos de loucura
   de ambas as partes
Os boletins de ocorrência imoral
   na nossa ajuda mútua de fazer o outro trair
As lendas escaladas
   sobre o que sentimos por dentro & fora
Nos lugares, na pele
   no tempo que passou
Coisas que só nós que experenciamos
   & sabemos que queremos fazer parecer
      mas não foi ficção
& agora são apenas estórias que contamos
   para adultos acordarem.



22 de ago. de 2026

Dia de Folga

 

Acordo cedo, dia sim dia sim. Passo o café, encho o vazio & despacho. Passo o café com o trigo fermentado para dentro, & ainda penso: para onde expulsamos o sono?
   Acordo cedo, depois do café, do rapé, do sopé, retorno à cama, luz acessa, pois a terra ainda não rodou o suficiente para o sol, o sono expulso, as remelas lavadas, barriga sossegada, vou ler. Onde guardamos os sonhos, guardo esse momento acordado!
   Imbuído na manhã, no silêncio que não há, pássaros & vento aventam... esse silêncio da ausência de motores, de trânsito & velocidade, repouso os olhos no livro, que também não está repousando, mas aberto no ângulo entre a luz & os olhos...
   Atravesso páginas até o sol raiar, intrometer-se pelos véus das cortinas, assim como se intrometem os sons da cidade & das horas das urgências de cada dia. Transponho do livro para mim o avanço na estória, & o logo, depois de horas, o sono retorna, à reboque do pequeno esforço mental de ler. Terminado o capítulo capitulo mais uma vez ao sono & fecho os olhos; hoje é dia de folga, li & posso retornar ao sonho... vou acordar mais tarde...



20 de ago. de 2026

O Novo Inútil

 

Pague
   & eu mastigo para você!
Sou um "criador" terceirizado
   copiando a realidade... com inutilidades

Que os seus olhos sorvam
   o absurdo mínimo
      de uma "luz" de silício
      que se transforma em cifras
         em um cofre digital

Estando mais interessado
   em excretar novas distâncias
Convulciono no pensamento crítico
   contra tudo disponível na rede
Interessado ainda
   no corpo, na forma, na carne
Garimpando ainda nisso
   a fonte do sustento
Encaro o nojo contra o simulacro de vidro
   & tela
Uma defesa da vida contra a artificialida
   mesmo me sentindo assim
      mais iso-exo-exililado

Pague
   dê a eles seu suor
      seu sangue, tempo, sua atenção
Em "troca" pelo que pouco antes
   não precisávamos pra viver
& então tente se enluvar
   instalado em um espaço
      que não precisa para ser

Talvez daqui meio século
   outros futuros cadáveres
   venham a compreender
      onde erramos
      & isso seja visto como acerto
Para explicar, apaziguar a consciência,
   sobre esse novo modo de existência
Ou melhor
   novo modo
      de insistência social



16 de ago. de 2026

VibrAção

 

(Vi Abra Ação) 

Véu sobre Véu
   compõem
      velam & desvelam
         & revelam
            veras meras
               eventualidades
Campos
   de marés imensas
      vibram & interagem entre si
         quebrando simetrias
Energia
   fluxo, interação, desarmonia
      estabilidade, harmonia, refluxo
Perturbação no tecido
   entremeado de nada
      & possibilidade
         & de repente
            tudo



12 de ago. de 2026

Bom Dia

 

Dão-nos 'bom dia'
Aqueles que se levantaram
   & se jogaram aqui fora
Impulsionados por uma tarefa
   ou pelo hábito de sair...

Aqueles que se levantaram
   & se jogaram aqui fora
      te veem como eles
         protegidos na luz...
Assim, 'bom dia'
   é um contato
      uma senha, um toque
         entre os que acordaram!

Passam os sonâmbulos calados
   & dão-nos 'bom dia'
      aqueles que se levantaram
Eu ouço
   & até respondo
      os 'bons dias' desses que acordaram
Mas gostaria de saber
   o que tem a dizer
      os despertos...



10 de ago. de 2026

Vida

 

Quem sabe a vida não seja apenas
   um processo de cura contra a inexistência, 
      contra o medo, contra a morte...
Quem sabe a vida não seja apenas
   uma forma de purgar a matéria
      de sua falta de sentido...
Quem sabe a vida não seja apenas
   a alucinação que dê lucidez ao universo...

Imersos na decomposição
   lutamos inconscientemente
      aleatoriamente
      instintivamente
      amorosamente
         contra todas dispersões
Portando somente
                                     a vida!



4 de ago. de 2026

Vidario

 

As coisas engastalhadas
Que pensamos que as águas do rio da vida
   Tivessem levadas...
Muitas vezes emergem de novo
   Na época de seca
Eu tenho medo que elas voltem para ficar
   No final da vida...

Lembranças ruins, erros que cometemos
   Coisas que pensamos ter perdoado
      Esquecido, enterrado, superado
Essas coisas que ficaram engastalhadas
   Na margem do rio da vida
Que pensamos ter deixado para trás
Eu tenho medo que voltem
   Emerjam, estejam lá, na mesma margem
      No mesmo lugar, ou na foz do rio
         Onde ele desagua no mar...

& muitas vezes pensamos que estamos no rio
A correr com a água
    Cremos estar no fluxo, no curso
       Pensamos ser um barco na correnteza
Mas somos um barranco
    Erodindo na correnteza
Muitas vezes somos enseadas
   Ou fundo do rio onde tudo afoga
      Remansos calmo ao lado da corrente
Muitas vezes somos fossos de remoinhos
   Valas cobertas de água pesada
      Que só guarda lama

Rolam as águas
Mas vez ou outra volta lembranças dos engastalhos
   Funis, cachoeiras, quebradeiras,  sumidouros
Muitas vezes voltam falhas
   Pecados, ressentimentos
      Que as águas não levaram
   Ou apenas se puseram deitadas
      Encobertas pela alta água
         Riovida mais abaixo

Barrancos, sevas, balsas, pesqueiros
Galheiras, bancos de areia, mangues
Engasta-anzóis, barreiros, pântanos
Nascentes, vida rio, foz...
Nos meios, beiradas, rasos
Fundos de tudo... nós!



2 de ago. de 2026

Tr#nslaç@es

 

-Translações
Como os ventos de Agosto, transitando livres na superfície, vem(to) as texturas...

"As palavras mais calmas
são as que trazem a tempestade,
pensamentos que vem com pés
de pomba dirigem o mundo".
F. Nietzsche

-Tempos Atuais:
A mídia não é o caminho do meio
[pague & tenha o que (não) pediu]
& eu não quero mais do que qualquer um...
PAY
@#
-L.Exp.:
   Em um mundo de quem não sabe o que quer, que escolher causa ansiedade, há os que tem como benção a "graça da obrigação"!
   & assim passam felizes na atividade de se expressarem...
EXPRESSION
#@
-Da "Poesia":
As linhas seguem surgindo
Dizer assim
Desenrolar
É só uma forma de chegar
Até ao que quero dizer
FINAL POINT
@#
-ParAZita:
Reajo, logo existo
Passivo
Parasitando coisas
Que outros criaram
O idiota eletrônico
O analfabeto eletrônico
O parasita eletrônico
Os órfãos eletrônicos
Os rejeitados, enganados, escravizados
Terão suas vidas sublimadas
Por algo mais demente
   que a inteligência sintética
      rotulada ia
Atrator de parasitas
REACTION
#@
-Alimentar:
Em Deus nós desconfiamos
Agora conectados
Não podemos mais parar
Proximidade distante
Frases prontas
Sabedoria milagrosa
Tudo disponível
Pão/Sítio/Circo
FEED
@#
-Infernus:
   Você não ter a verdadeira liberdade de pensar, na pós- escolha, depois que decide algo, compra algo...
   Você não ter privacidade, nem antes, nem durante, nem depois, seja no ato de escolher, comprar, pagar, roubar...
    Suas necessidades reverberadas, distorcidas, desescolhidas, pós-necessitadas, tornadas NADA!

   Estamos constantemente
      Recebendo uma mensagem:
         "Você escolheu errado!"

   Da próxima vez, deixe que escolham por você...
HELL


"Todos os profetas
armados venceram
e os desarmados
foram destruídos".
Maquiavel



25 de jul. de 2026

Submisso/Sumiço

 

& a vida passa lá fora
   Dos meus olhos
   Da janela da casa
   Das câmeras de vigilância
& o trânsito incessante
   Poeiras dos pneus
   Barulho dos motores
   Entra por todos os lados
& a conexão cativeiro
   24 horas por dia
   Segundo a segundo brilha a tela fria
   Com seus excessos vazios
& chega uma hora
   Que os olhos não fecham
   Os ouvidos não tapam
   As narinas escancaram
& a vida lá fora penetra
   As formas invadem
   Os cheiros delatam
   Pensamentos intrometem
& mesmo assim...
   só sentimos vontade de fugir!



24 de jul. de 2026

In-Ø

 

O vazio
   está cheio
      de tempO

pelo qual corremos
   até ex-correrermos

pelo qual temporizamos
   até des-temperar

pelo qual nos esvaimos
   até em-vazar



23 de jul. de 2026

Pétalas

 

Em meio ao concreto, aço & serviço
   ainda rememoramos o caminho do campo
A morada arcaica, o passado no barro
   rememoramos os quintais
      os pés de fruta
         os pés descalços
            o chão da rosa 
               a rosa na mão
               & os seus 'bem me quer'... aceitos!
                  Que nos encantou...

Em meio ao vidro, néon & asfalto
    rememoramos o antigo caminho de casa
A velha rua, a vizinhança do bairro
    rememoramos as festas
        as pessoas com quem rimos
           as pessoas com quem aprendemos
              as lições de vida
                  a simples lição de viver
                     & os seus 'mal me quer'... compreendidos!
                          Que nos fortaleceu...

É a pétala contra os ossos
A pétala versus a memória
A pétala contra o metal
A pétala a favor do final... feliz!



18 de jul. de 2026

Artefato X

 


O céu está cheio
   de ondas & partículas
O céu está cheio
   transmissões & satelites
O céu está cheio
   de desejos & promessas

O corpo
   ...& a alma estão cheios, mas...
      ...o céu...
O céu está
    vazio!

17 de jul. de 2026

Artefatos

 

O céu está cheio
   azul é apenas reflexo
      da invisibilidade das naves
Elas se escondem
   transmutam à olhos visto
      da realidade ao desvelar
Lá em cima uma engenharia
   & toda uma batalha sendo travada
      da alma a desbaratinar
...a metafísica se tornando fato...
Véu transestrelar
   melidrando como cortina
      em disputa pelo sistema solar
O céu está cheio
   & não é de aves ou ar
      cheio de tecnologia
         em seu lento sufocar
Na era do colapso da razão
   diante de sabores artificiais
      os olhos cegos se abrem
         para credos espaciais



15 de jul. de 2026

Abastança

 

Será que os mortos sentem saudade da vida?
Do que será que eles
   sentem saudade daqui?

Eu,
   como morto,
   sentiria saudades do que
      como vivo,
      bebo, cheiro, sinto... mastigo
Saudades do milho cozido
   do cheiro da folha da goiaba
   da estranheza do sabor do coentro
      ou do gosto do teu beijo... vida!

Saudades das coisas do corpo
Transitar no tempo
Se perder no espaço
Plantar, colher
Cozer, temperar
Se nutrir ao máximo

Uma pança pra encher
Um espírito pra saciar
Frutas da estação
Carnes de outros corpos
Temperos em porção
Sabedoria de apreciar

& nos sebos do que comemos
Gorduras que não se acumulam mais
A distância da fome carnal
& a obrigação de estar empanturrado
A alma dobrada
Sob a nutrição sagrada


...meu pai, antes de morrer,
   estava preocupado
   se iria na feira, sábado...
& cada vez, que como & bebo
   é em sua memória!
Pois se lembrar
   também é um sabor
      que nos agrada!


A grande rebelião
A grande resposta
Da vida sobre a morte
   É uma bela refeição
Prosperidade da matéria
Sobre as pobrezas
    De qualquer vã esperança
Nos frutos dessa terra
A superioridade desse mundo
   Sobre qualquer outro



11 de jul. de 2026

Nubis

 

Nuvens cor branca
Com formato continental
   revolvem em cães caramelo claro
      & ursos pardos
         antes de esfarelar-se ao olhar
Contingente & mata & rio suspenso...

O céu não pulsa
   ele apenas metamorfosea
      em lenta transformação
Do azul infinito
   que blinda a luz da galáxia
Até o tapete de água suspensa
   cuja sombra desce da estratosfera
Quimerando-se chuva, sombra
   & meras coisas que não são

Em sua entropia fantasmagórica
   em plena luz do dia
O céu no colo do chão
O chão no útero do céu
O seu olhar
   no que vem & vai
      & não está lá
Anagrama nimbus
   para o que não é meu nem seu nem céu
      mas mais nuvens...



7 de jul. de 2026

Pílula do Dia Anterior


)(
Dai-me a
   pílula
      de esquecer
   o dia anterior

Está lá
   por aí
      a divina arte de esquecer
Aqui

O abandono
  de tudo
      é apenas
         uma troca

Não tudo
   por nada
Algo
   por algo
Mas a loucura
   pela sanidade

Esquecer
Aquiecer
                     Ex quer ser
                     Há que ser

Dai-me a
   saúde
      de lembrar no momento certo
O dia de hoje
   sem mais... o ontem
()



5 de jul. de 2026

+18

 

Nossas brincadeiras de adulto
   cheirar esse pó
      beber esse veneno
         queimar esse entulho
Passamos à esmo no torque
   pela segunda
      terceira infância
         fim de semana de folga no parque
Retorno à pista
   a porta que abre, não fecha
      não cabe no sorriso
         não tem essa pecha
Contorno no desvio
   a porta que fecha, não abre
      não cabe na visão
         nem tudo se resume ao que se sabe
Nossas brincadeiras de adulto
   pegar essa doença
      tomar esse remédio
         pagar por um túmulo


 

3 de jul. de 2026

Tantos Acasos (Fragmentos)

 

Retalhos, recortes
   pedaços, cacos
Folhas rasgadas
   pano picotado, cerâmica quebrada
Tudo remontado
   costurado, ajuntado
      para formar o que se é

Os cabelos, os dentes
   a pele, as lágrimas
Caídos pelo caminho
   deixados por aí
Onde a corrosão do tempo
   & da vaidade
      vai dispersando nossas pedaços

Mutilados em excesso
   fisicamente, psicologicamente
Nossa autoimagem
   & nosso senso de continuidade
É só uma colcha de retalhos
   um espelho estilhaçado
Emendado ao acaso
   no chão de onde nada passa
      a não ser o cadáver irremediável

Somos tantas partes
   como acasos
Tantos remendos ocasionais
   como inevitáveis escolhas
Partes de nada
   partes de outros
      & partes que escolhemos juntar



1 de jul. de 2026

Ponto de Retorno

 

...amo o calor
      mas é o frio que me ensina!
...o coração sonha
      nas noites mais frias...

Até parece que o amor
   é como a Terra
      em órbita do Sol...

Vai ao limite entre o frio do nada
   escapando do calor da estrela
Para depois ser puxada de volta
   caindo rumo ao fogo

Dividindo & unindo
   o mundo
Que tomba
   mas não cai

Assim o amor...
O calor se vai
   mas a luz nos lembra para onde voltar
Na noite mais fria
   sonhei com você!



28 de jun. de 2026

Carne & Palavra

 

Se não fossemos
de carne
Quereriamos ser
de que?
Pedra ou palavra!

Convidado a comer a carne
...nos sonhos
Pois a carne come carne
& exala querer & palavra
   um silêncio & um ruído

& uma frase sobre aquilo
   escrita em pedra em uma caverna
"...ele experimentou a carne & da carne comeu, em axial se fartou..."

Aquilo se reverberou
   em uma frase eterna
Que se contorcia, desdobrava
   & contorcendo se reinventava
Ramificava serpente
   raiz para todo sentimento
      & entendimento
Incrustada, fora de mim
Mesmo não querendo dizer nada

...sim, é assim
      com a palavra
         & com a carne...

Eu lembro por onde levei minha carne
   & lembro por onde lavrei minha palavra

Os cantos, os trechos áridos
   & os júbilos, festas & funerais

Eu lembro dos entorpecimentos
   & os impactos de lucidez

Observando, ponderando,
   experimentando, imaginando

Absorvendo sempre
   mesmo pagando a taxa de esquecimento

A carne um meio
A palavra o início & o fim

Ferramenta, registro
Pedra, risco

Senso, seixo
Verbo, eixo




23 de jun. de 2026

&xistênc1ª

 

Vamos nós
   Quase sós
Puro pó
   Resistindo como se fosse pedra
Amontoado de fagulhas
   No mundo, de segundo em segundo

Nos ajustando
   Nos apertando
       comprimidos
Para caber em 1 minuto
Da vida dos outros
Na nossa própria
   Existênc1a

Breves passagens
   Massa mínima de manobra
      Planos de voo cego
         Lances de dados viciados
Personagens ensaiados
   Nessa peça de improviso imprevista
      Que é acontecer

Dentro desse nosso já pouco tempo
Trocado pela medida de espaço
   Que temos para desperdiçar
      Para vagar
& ajustar o tempo de cada um
   Em nossa v1da
Caber onde estamos
   & onde gostariamos de estar



22 de jun. de 2026

Amanhedesconhecidos

 

Gosto da madrugada
   quando todos estão calados
Nenhum "bom dia"
   nenhum "olá! como vai?"
Como se nenhum fosse algo
   & nada fosse ninguém
Como se ainda passassemos
   & nos cruzassemos
      & ainda estivéssemos
         ...dormindo!
...pequeninos pedaços de carne providos do
hálito do senhor repousando no profundo sono
desperto que se revive em pé & andando & não
percebendo a presença de ninguém...