27 de mai. de 2026

Solaris Mundi

 

O Oeste é sempre o Leste
   de um outro lugar
Um lugar mais ao Oeste
   para o sol erguer & minguar

O que não acontece
   com o Sul & o Norte
Onde nada debaixo
   cai para cima

O Ocidente do Ocidente
   nunca será o Oriente
O Oriente do Ocidente
   é como para todos, seu próprio umbigo

Não tenho culpa
   se todos viemos do centro do mundo
Do afroútero do globo
   perto & longe de tudo
      & tudo que importa está abaixo ou acima

Perdidos nas direções
   convenções de rumos
Do Norte não subimos ao Sul nem ao Sol
   nem estaremos na orientação de um acidente sideral

Ainda há o espaço a se considerar
   sem Norte sem Sul
Só fossas abissais a se afundar
   depois de Leste Oeste deixarmos
      o único rumo que há é o Sol

Poucos sabem, menos entendem
   esse caminho de Leste a Oeste
Quem o completou foi só a Estrela
   & não há Ocidente ou Oriente para ela



15 de mai. de 2026

Carbono

 


A porta que finalmente se abre
Com a luz inundando o ambiente
Derrame-se pelo chão
O núcleo que nunca existiu
Agora existirá
Os ossos do que havia antes
Cada passo, cada batida
Cada pensamento, cada respiração
Tudo anseia
Cada vento, cada onda
Cada céu, cada nuvem
Cada túmulo anseia
Puxando você do céu
Assim como o amor faz
-Ben Frost, "Opening Titles"
de Raised by Wolves


Iluminados pelo cansaço
Curados pelo sono
Na curva da vida,
  na queda da cachoeira
No vazio do espaço
   o silêncio do deus
Fortalecidos pelos sonhos
Blindados pela pele
   que desaprendeu com o chicote
Abençoados pelo esquecimento...

A língua trincada
   da secura atmosférica
Ar de deserto do hálito
   água de mar das lagrimas
  seca carne do coração
exaurido de pulsar sangue & etanol

O cu doendo
   de tanto defecar
Pois o conhecimento
   é o excremento de toda experiência
& não paramos de experimentar
   & saber
  & ignorar

O corpo alinha na rinha
   entre dor constante
  & prazeres cada vez mais fugazes
Ficamos mais inaptos em sentir
   & excelentes em fingir

A mente oxigena rápido
   até os pulmões queimarem
  para estantanear
o que não cessa de passar

Da inconsciência vem reverberâncias
    essa música repetida
   essa situação que não passa
  esse incômodo que não identifico
essa história repetida que sou eu

Do sono
   o melhor é o tempo não vivido
  que passou & não vimos
Do sono o bônus da indigestão
   que causa os pesadelos
  que nos fazem agarrar
o despertar

O cotidiano então parece
      um papel caborno que se usou muito
     folha após folha, dia após dia
    copiando em duas vias o que se viveu
   & o que se deixou de viver
  uma via para arquivar
outra para jogar no fogo do sol
Que um dia assim como nos iniciou
   nos encerrará



9 de mai. de 2026

Desvio

 

Qualquer dia eu não chego lá...
Qualquer dia eu me perco
   no meio do caminho
Qualquer dia
   eu sou abduzido rumo ao serviço
& sumo sem deixar vestígios
Qualquer dia realizo meus sonhos
   & a vergonha alheia me extingue
Qualquer dia paro no tempo
   & viro erva na beira da calçada
Qualquer dia a morte me encontra
   ou a vida me arrebata
& vou ser outro
   por um desvio na estrada



4 de mai. de 2026

Desdito

 

Quem... não... sabe...
Somos homens & mulheres
   com a cabeça em outro lugar
      ...nesse... incomodo... de dizer

Tenho inobservado a mim mesmo
Tenho desvisto outras pessoas
Tenho procurado a menor parte
O caminho mais rápido
   mas nada, nunca, por enquanto, vem...

Quem... por si... sabe...
Somos seres reles... homens & mulheres...
Nem o sentir na pele nos impele
   nos ensina ou impede
   ...pertos
         tão certos
            são tortos
               de tão retos...

Tenho vivido dois dias em um
Tenho esquecido três décadas
Tenho redefinido o tempo
   nas épocas que fui feliz
      em preparar o caminho para tristeza

Assim mesmo... o esmero
Urge em se reinventar
Voltando ao básico
   para não mais se poder interpelar
      o que foi, o que é & o que será!



1 de mai. de 2026

A Antiga Redondeza Quadrada do Lar

 

Eu lembro
Eu gostava

Dar a volta no quarteirão
Em sentido anti-horário

Eu sabia de cor
A posição de cada coisa

As frestas dos passeios no chão
A cor desbotada de cada muro

Os cheiros & os sons em cada comércio
Os velhos residentes em cada casa

Os mistérios que me chamavam em cada janela fechada
As liberdades recorrentes dentro de cada portão aberto

De manhã, de tarde ou de noite
Dando a volta no quarteirão

Eu cruzava com os mesmos vizinhos
Eu avizinhava a mesma cruzada

Eu revia os mesmos cães & gatos
Eu revia as mesmas árvores & matos

Pisava os mesmos passos
Dobrava as mesmas esquinas

& era tudo tão normal & querido
Que quando dormia ainda sonhava

Com as coisas do outro lado da rua
Com os quintais escondidos daquelas casas

Com os telhados além das fachadas
Com tudo enfim que o quarteirão integrava

Eu me lembro
Eu imaginava

O quarteirão era um planeta
Cada casa um país & os passeios praias & a rua mar

Pelas fronteiras de muros cordilheiras interiores
Em nem todos eu perambulava com os pés ou o olhar

Porque eu conhecia o mundo por fora
Só minha casa por dentro, mas todas eu amava

& pela infância passando
Passou também ser aventura dar a volta no quarteirão

& hoje só restou os sonhos
Porque todo o quarteirão foi mudado

Já não há a maioria das casas
Já se foram muitos de nós

A rua, aquele mar, ainda é a mesma
Mas os lugares onde ia já não estão mais lá

& se volto vez em quando só em sonhos
É porque nunca sai desse lugar

Sempre dando a volta eterna no quarteirão
Nunca mais podendo ali pisar