12 de nov. de 2025

Fachada

 

Você é só fachada
Qualquer um é só fachada
Eu sou só fachada
   & uma hora todo fingimento cai

Sempre há um medo maior
Sempre há um louco mais louco
Sempre há alguém fora de base
   para nos tirar da linha

Use ele o amor
Use ele a violência
Use ele o vexame
   que te fará perder a compostura

Uma hora a casa cai
Uma hora a roda quebra
Uma hora o espelho não mente
   & tudo vai por água abaixo

Então tem o dia do acerto
Tem a hora da verdade
Tem a vez do verme
   & toda a carne vira planta

É aí que você vê
Que apesar do seu esforço
No choque de realidade
   nada escapa da sua falta de controle



9 de nov. de 2025

Palavras Sós

 

Apaixonado
pelas
perdas
& pelo
que
nunca
se
teve
Saber-se
  só
  & ainda
  mais
  só
  depois
  da
  solidão
Enfim descobrir que se pode retirar o pó do fundo do poço & constatar que ele ficou um pouco mais fundo ainda...
& você
é
a
única
companhia
de
si
mesmo
O corpo descontinuado, o silêncio que outro não preenche mais, uma insanidade alheia faltando aqui, saudade até de sua tristeza...

  consigo 
  mesmo
  comigo
  disperso
  no
  fundo
  vácuo
  que
  se
  desdobrou
O mau bom da solidão é que ela não tem mais nada para dividir...



6 de nov. de 2025

Dias desses...

 

Como lidei com esse dia?
Oh! Sim! Hoje fui relapso
Fui vago
Obrigado! Bom dia!
Passaram canções por aqui...
Passaram os mesmos corpos...
...não passou você
Eu não me ultrapassei
Trapaça
Eu ouvi nos entresons
"A felicidade é uma arma quente..."
Eu sei disso
Pela minha carne fofa que enrijece
Inflada de sangue & sede
A solidão não divide nada, aprendi
Eu li, eu sei
Esse dessaber insuficiente
Para me fazer eficiente
É porque eu desisti cedo, antes de decidir
De lidar com esse dia...

Como lidei com esse dia?
Oh! Sim! Senti muita falta de alguém
Fui esvaziado
Boa tarde! De nada!
Passaram silêncios por aqui
Passaram corpos desconhecidos
Não passou você
Eu não! Me ultrapassei
Sinceridade
Eu li nas entrelinhas
"A tristeza é uma arma fria..."
Eu sei disso
Pela minha carne mole esvaziada
Oca de desejo
A solidão não acrescenta nada
Eu ouvi, eu ignoro
Essa benção que não aconteceu
Para me fazer insuficiente
É porque eu decidi cedo, não desisti
De não lidar com esse dia...



5 de nov. de 2025

ªnormal

 

em um dia como esse
eu apelo ao cru
aproximo-me da paz da brutalidade
nessa adicção de anulação

pareço até um homem novo
em um lugar em que nunca estive
arredio... inconsolado...

parece a percepção
que o cérebro processa
ao revés
...me expelindo do real
... ...em um desassossego normal



4 de nov. de 2025

Apego

 

Poderia se dizer
   que em uma realidade
      onde tudo se faz presente,
Construímos um mundo
   onde nada é alcançado!

Irônico movimento da mente
   neste lugar presente
      para ela, esquecer,
         não é não querer
& para o corpo
   atravessando essas distâncias
      de tempo, lugar, solidão
   arruinado
      pois, não ter,
         não significa
            esquecer



3 de nov. de 2025

Ambulare

 

Vou sair essa noite
   para comemorar toda essa tristeza
Serão os pés à sós
   perambulando pela penumbra do sol
Nas ruas esvaziadas
   como se fossem restos de trilhas
      não compartilhadas
         por quem se escondeu

Eu tenho um rumo
   do túmulo ao lar
Sigo um caminho
   entre tantos poucos a andar
Sob o céu de estrelas
   que me faz ir devagar
Ou rápido sob o teto de nuvens
   com a tempestade preste a desmoronar
  
Vou sair esta noite...
Não! Já estarei lá fora!
O que farei é voltar de lá
   com um pensamento de dias
      que não achei no caminho
Mas que comigo levo
   sempre que vou perambular
Pernas & pés
   também são meu lar...



1 de nov. de 2025

Nov...

 

Assim
   como no fim de cada dia
   cada mês, cada ano
No fim da vida
   vem a voz estranha, que desconhecemos
   mas tão natural, destruidora, salvadora
& nos pergunta
   se queremos ser nada
   ou viver tudo da mesma forma outra vez?

& como fazemos a cada manhã
   quando despertamos
   à cada mês, cada ano, que seguimos
Escolhemos continuar à existir
   como um dia escolhendo
   deixamos de ser nada
Voltar ao que somos
   os mesmos prazeres
   as mesmas dores, todos os desfrutes...

Somos assim, de sempre em sempre
   um velho nada
   que se torna velha novidade!



28 de out. de 2025

Não-Ser

 

"Eu sou a base nula
de uma nulidade"
-Heidegger

Estou no espaço entre dois abismos
Uma fossa de água suja sob meus pés
Uma parede de areia ao alcance das mãos
Tudo isso sob a aurora estrondosa que carrego nas costas
Tudo isso ao sabor das cores diante minha visão

Eu vejo os animais fingidos passarem ao longe... rumo à ruminação
Eu vejo as bestas de carga depondo seu peso... na força da rendição
Eu vejo belas feras dançarem a ciranda da inconsequência... são mais ferozes que os que rugem & choram
Eu vejo os animais de lata pálidos, cansados da ferocidade... rumo à extinção

Fiz minha casa na correnteza
A estrada... fluxo de pensamento... o futuro passado
Fiz meu lar na procissão solitária
Exílio... peregrinação... caravana de um homem-árvore
Fiz um refúgio caótico cujo centro é o altar de nossas carnes
Nem isto... nem aquilo... nem isto...
Fiz o caminho de costas trocando a noite pelo dia
Amor-fati... eterno retorno... o grande meio-dia...

Entre abismos & bichos voo
Cabe em mim os espaços vazios
Mas nunca a mediocridade
Não coloco barreiras ao prazer
Mas o amor prezo pelo que sei
Defini aquilo que sou
Mas ainda falta muito para o Ser ser o que é



23 de out. de 2025

Netuno

 

Abro meu peito ao frio
Em um abraço invisível de todas lâminas cegas
Que junto ao sopro de Netuno com suas lágrimas de diamantes
Fatia & trança em chibata
A folha alta & velha do coqueiro estéril

Meu peito alvo & desprovido de abrigo
Exposto nesse vendaval, à lâmina, à chibata,
Desola a carne & fribila o verbo
Que recanta de ouvido Zé Ramalho
Nesses amanheceres congelados

É uma momentânea idade das trevas
Um lapso de Inverno dentro da Primavera
Em que se libera do Inferno
Seu bafo frio servido de carnes congeladas
Em um beijo de lábios azuis dormentes
Que nunca acontecerá...



22 de out. de 2025

O tempo (in)definido

 

A ponta aguda
Dos ponteiros do relógio

Seu corte é limpo
Profundo... raso...


Ele disseca a carne
Separa a realidade

Opera a idade
Decepa a as escamas das horas



Eu te dou uma precisão imprecisa
Uma convenção entre iguais díspares

Te revelo uma hora... minuto...
Eu minto, sem importância





Te situo, citando o ponteiro
O corte findo, rápido, momento

Eu te imiscuo de espaço-tempo
Me aproximo... distancio...







Estamos no tempo
& o lemos no vento

O lemos nas trincas
De nossa paciência com tudo




15 de out. de 2025

Achados & Perdidos

 

Esse mundo é tão pequeno
& nossa pequenez é tão grande
   achamos tudo & perdemos... nada
Esse mundo é tão pequeno
& mesmo assim as pessoas somem
   somos coisas nos perdidos & achados
Esse mundo é grande o suficiente
Para se ir embora ficando aqui
   perdemos tudo & achamos... nada
Esse mundo é grande o suficiente
Para nos perdermos & nunca mais achar
   somos achados & perdidos pelas coisas



13 de out. de 2025

Estradas Estaladas

 

Da estrada me interessa muito mais o estar do que o ir, o rolar do que chegar, a caravana que acampa, o acampamento que se levanta

Da estrada me interessa muito mais as trincas por onde brota as ervas que implicam o desleixo & o passar do tempo, do que o pavimento cáustico que um dia foi sinal de civilização

É que essas rachaduras são vislumbre de uma promessa que ninguém me fez, são desejos de algo a se realizar que não depende só de mim, pois na civilização vive o verme & prospera o chacal

Na estrada caminho no aguardo de tudo desmoronar & nunca mais pisar atrás nos passos que passavam ao largo do que me detia, parado; na estrada vive o que se move & prospera o que não preda