22 de fev. de 2026

Transcidade aos Domingos

 

Na cidade
Os mortos & os vivos
Enterrados acima do solo
São a própria cidade a se decompor


Praças que não se podem circular...

(então, por causa do espaço, o tempo se quebra como suástica)

O mundo entregue à uma técnica
   para preservar gastos de um cadáver...

(aquilo que não se move, mas está sepulto por debaixo das vias que transitamos, & assim permite o movimento do que é vivo)

Linhas de ruas traçadas há muito tempo atrás....

(fixas em seu sentido como um mistério a se decifrar)

Eu saio para perambular...

Atrás ou à frente
   de um desconhecido estado de ser & estar...

No centro, com as ruas "vazias"
   sinto um cheiro que pode ser de alguém
   mas é o cheiro de todos
      é o cheiro de um lugar...

Eu simplesmente me
   des-loco
      mas localizo-me lá...

Em uma esquina
   um homem grita
   mendigando uma informação
      perguntando se hoje é
          Sábado ou Domingo

Em outra
   idosas vão à missa
      & imagino se quando jovens
         elas eram tão pias como agora
         mas não a quem pedir tal confirmação

As portas dos comércios
   todas fechadas
      estancam o sangramento
         de dinheiro & trabalho da semana
         que não se lucra nesse dia

Ao longe & acima
   a tempestade de verão se arma
      & eu não sinto nem pressa
         nem lerdeza de chegar de volta ao lar
         pois sou espectro que perpassa

Prolongo a estadia no exílio
   dentro do exílio
      através do vagar devagar
         que não me levou a lugar nenhum
         em todos os lugares que estou

Mas em cada ponto que passo
   um pensamento ou quase do lugar
      vem sobrepensar
      como lembrança & experiência de passar

São pedágios do espaço-tempo
   são obessessores de amores
      & inimizades a me cobrar
      a moeda da época do descansar

O vagar se torna solidão
   como toda solidão que tento compensar
   como toda solidão que tento afirmar
      mesmo antes ou depois
         de se perambular

Há todo um conflito desimportante nos bastidores
Como se a realidade fosse o passado & o futuro
Que ditam o entre-teatro do pensamento
Mas não influenciam o ato do deslocamento
Presentes ali o desejo & a indiferença
Presentes ali o agora & o passado
Presentes ali o que fiz antes de ontem
   & o que farei depois de amanhã
Mas o presente, o momento, o instante
   sou só eu passando pelo centro da cidade
      que não é mais o centro da cidade
& que não é mais o centro que conheci
Pois hoje tudo está
   deslocado
     & transloucado

Pois é Domingo
    "até a meia-noite"
& assim posso me localizar no tempo
   mas há muito fui expelido do espaço
      que mudou
...talvez por isso me ponho a vagar.



Nenhum comentário: