23 de dez. de 2025

Intempérie

 

Como se esgotasse o tempo
De tanto falar nele... destemperando-o

Eu só quero agora
Falar do espaço... reespecificando-o

Pois o tempo denota urgência
Quando não emana eternidade

& o espaço apela presença
Além de nos dar o lugar de descanso

A barra temporal
É a crista do espaço

Nos cristais do tempo
& no barro do espaço



22 de dez. de 2025

Cristal do Tempo/Barro do Espaço

 

Os pés poeirentos incrustados de lembranças triste do caminho, cristal & barro amassado, pisoteado pelos pés...
   Eu pactuo com o trabalho da vida & também imagino coisas tristes que não aconteceram;
   O trabalho de todo homem é desafiar a consciência a suportar o imaginável
   & assim talhar a pedra da memória para o pior, vivendo o melhor possível;
   Dessa forma debulho de talhe em talhe a compacta rocha da consciência cravando nela as marcas da resistência,
   Cada corte na pedra refinando cristais do tempo,
   Que espatifadas no chão pulverizam a carne moldando detalhes refinados & entalhes grotesco da passagem do tempo,
   Que se resume em imagens, símbolos, riscos de uma vida vivida & outra paralela, simulada;
   Mas ambas reais, na medida que experenciada;
   Na pedra imaterial que esculpimos está a forma de nos distanciarmos do tempo nos aproximando do espaço,
   Como a lava que emerge, se concretizando em terra, ouro, mármore, cristais, barro... assim é a consciência que sonha, desperta & adormece
   Em uma vida sonhada entremeada à uma vida vivida.



21 de dez. de 2025

NostroTempus

 

Toda nossa experiência
Essa autorreflexão de existir
Que se passa... passa... dentro do tempo
Cada minuto milhões de repetições
Cada instante uma breve novidade
Cada momento uma raridade

Entretanto... de tanto novidar
Envelhecemos... enviesados em desgastar
É o relógio da carne com data de validade
Movido à química eletricidade
A máquina-macia de perdurar
Habitada pelo fantasma desassombrado
Que permite ficar nessa clareira desabrigada
Vendo tudo passar sem parar
Entre a experiência de quase vida
& a essência da quase morte

Aquilo que nos devora & recompõe
É nossa própria aleatoriedade em ser
Nossa graça, nossa sina, nossa sorte
De ser vida & depois morte
Em ter sido antes nada
& agora sermos tudo que podemos
Na flexão de possibilidade
& a vontade de poder



20 de dez. de 2025

Passageiro

 

O tempo passa muito rápido
& nós dentro dele
Passageiro...

Eu vejo ele por ali
Descascando cabelos preto
Até não ter mais o que debulhar

Eu vejo ele acolá
Com seu peso de pluma
Contorcendo ossos até claudicarmos

Eu vejo ele transpassar
A pele enrugando
Até as memórias da forma falhar

Eu vejo ele... aliado/adversário
Me feli/faci-fali/citar
Mais um aniversário

O tempo passa muito rápido
& nós dentro dele
Passageiro até o ponto de apear



19 de dez. de 2025

Penas & Pés

 

O tempo sussurra
Para nós dentro dele
Fala fraco para que saibamos
Que não temos a eternidade

...& veio o tempo
   & me falou com voz de anjo
Com sussurros que lembravam penas
   Saindo de sua boca
A mandíbula triturando plumas
   & os ecos fracos de palavras aladas
Que caíram por terra & se tornaram prantos
   Antes de nascerem raízes
Ao tocar o chão...

Mas dessas penas decepadas
   Fez-se manto, tapete para os pés fincarem
Pois só sabe quem viveu
   Mais do que existiu ou passou
Que sobre essas asas cortadas
   Aos longo da vida
Demos passos ao encontro do que somos

Deixa, deixa apenas o tempo voar
Nós somos seres da terra, é dela a carne
O devir, a soma & amor, o parecer
Daquilo tudo que podemos ser

Se rastejamos
É porque diante do tempo
É melhor ter os pés no chão



16 de dez. de 2025

Ultra Kontrole Mental

 

Humana é a arte do esquecer...

Vem a chuva forte & reconfigura tudo
A realidade de ontem apagada & tudo esquecido
Porque ontem saímos pras ruas & destruímos tudo
Mas hoje não lembramos de nada

Casas em chamas & o sangue nas mãos
Violência solta & acertos de contas
Injustiça perpetrada & a liberdade da barbárie
Mas de repente, depois da chuva, tudo volta à uma normalidade

Esquecemos da euforia do conflito
Esquecemos da bruta animalidade
Voltamos a ser os vermes covardes na pele de cordeiros
Voltamos a ser o rebanho do abate

Os campos de extermínio das igrejas locais, reformados
A escola da promiscuidade digital, reformada
A indústria da fome & doença precária,  reformada
A guerra entre o ruim & o mau, reformada

Esquecemos totalmente, como se fosse irreal
& o mundo desperta de novo como se o antes de ontem fosse hoje
Deslembramos do monstro que realmente somos
O dia da fúria entre dois dias banais

Eu temo a tempestade, porque ela é das águas do rio do esquecimento
Sei que quando ela vem tudo será reiniciado
Para o acúmulo de pressão para um novo ciclo de conflitos
& eu não lembrarei dos crimes que havia cometido

Humana é a falha do esquecer...



9 de dez. de 2025

Chuva/Feed

 

Toda essa água caindo
Todo esse calor subindo
A mente em entropia
Resfriada pelo frio do feed

O vento fresco veio trazendo a chuva fina
& a chuva fina trouxe o frio doce
Mas não varreu a certeza do calor das ruas

Dentro do meu jarro de osso craniano
Calculo o atraso para chegar em casa
Repasso os passos pelo desabrigo da tarde
   que se vai em noite

Dentro dos tambores rolantes
Os deslumbrados que rolam o feed
   estão todos tele-encantados
Com um futuro que ninguém vai ter

Olhando a tela
São iguais a quem olha o clima
   uns pra baixo, os outros pra cima
Só não percebem
   que cada estação tem seu espaço
      & que a tela come seu tempo

& para nós que não nos perdemos em pensamento
& nem nos entretemos em passatempo
Fica a liberdade de escolher
   entre a raiva & a resignação

É claro que há uma terceira opção
Mas a serenidade é como o passar do feed
   ou o passar da chuva
Ela comporta um espectro de liberdade que só quem zela
   do que entra pelas olhos, pelos poros,
      sabe entender



8 de dez. de 2025

[0verdrive]

 

Eu tento uma fuga sensitiva
   em virtual iniciativa
Tenho que conceber ideias ativas
  que levem o pensamento
      à outras intromissões
Eu não sei quando chegar lá...
   [...dimensão 0]
Para além do mal estar
   um passo depois
      do ruído branco nos ouvidos
         embasso da vista
& o embrulho leve no estômago
   com gosto de algo que nunca saboreei
Eu sei quando chego lá...
   [...em/brião 0]
Mente confusa no meio do dia
    calor & entropia
Depois de sonhar com pessoas & lugares
   que nunca vi vivi ouvi ou vi por inteiro
Depois de me negar a pensar
   sopesar ou lembrar de personas ou algures
      que não quero mais ter pesar
Eu quase nunca chego lá...
   [...a/borto 0]
Assim nessa distorção do sentir
   no tesão do caos a agredir
No turbilhão leve desse desprazer
   eu tramo vinganças contra mim
Pois a vingança só ao deus pertence
   & nunca sei que deus me encarna
Nunca sei que pensamento me gaba
   nas fugas no meio da tarde...
   [Eu//nu//un //cá//x//ego//à...]



5 de dez. de 2025

Moto Incotinuum

 

A velha engrenagem quebrada
   que ainda gira
      engrenada
Besuntada de óleo macerado
   do que sobra
       quando a lágrima evapora      
       quando a carne seca do sangue
       & da língua evaporou a saliva
A velha engrenagem carcomida
   que ainda roda
      desgrenhada
Arrasta a corrente folgada
   o pivô & o pinhão
       que gira ao infinito
       as forças que não reconhecemos
       & que comandam o movimento


 

3 de dez. de 2025

Plus [+]

 

Sê mente desperta...
sementes adormecidas
   já não somos mais
pela terra em descanso
   não deitamos mais

somos já ultra/passados
   já existimos o que tínhamos que existir
agora não mais
   já rumamos, arrumamos
      transitamos pela vida

manhãs de domingo
   não irradiam mais
férias de verão
   não virão mais
festas de natal
   não encantam mais

Passamos, usufruímos, desgastamos
   toda imanência de vontade & inocência
Nada mais faz o sentido de afetos
   que tínhamos
Nem as mentiras felizes que zelavamos
   resistiram
Nesse mais de tudo
   nos tornamos menos



2 de dez. de 2025

Vɛřvŭŕå

 

Falo uma língua nova
Às vezes nela grito, escrevo, esqueço

Ela flui da interioridade, de uma anterior idade
Ou de uma posteridade procastinada

Eu falo em uma língua nova
Língua quase extinta de um homem só

O sânscrito dos sãos, o inglês dos anjos
Grego das egrégoras, português dos urgentes

Metalinguagem original
De meus sentimentos

Falo uma língua nova
Que reverbera o que vim para falar

Fala que não tem ouvidos para a escutar
Palavras que ainda irão ser encontradas

É a prosa da rosa, a poesia da ousia
Verve da fervura, canto dos encantos



1 de dez. de 2025

Placebo

 

Na manhã incendiada
   enquanto me curo dessa minha febre
      pelas próprias forças de meu corpo,
Pago o preço desse remédio barato
   que é abrir os olhos,
      mexer os músculos,
         negar a dor
            & seguir...

Ali fora
   novembro vai se despedindo
      em cada manhã queimando
Como se padecesse de incêndio
   tudo que ficou para trás
      enquanto os dias vão esquentando
         mais & mais...

Assim dezembro decide amanhecer
   & o ano entra no mês crepuscular
      ambos verão verões passar
& que os céus leve a febre
   em seu rubro clarear
      como o banho frio
         ameniza a cólera
            & desperta o corpo para o dia ultrapassar!