7 de mar. de 2026

Chuva nos Trópicos

 

A chuva cai
  na manhã de sábado como surpresa
Ela pega os planos, a pressa, o calor
  & os enxagua em enxurradas
    rumo aos bueiros
      em sua simples urgência gravitacional
O trânsito que já se assanhava febril
  recua a marcha
    & começa cantarolar splashs de pneus
      em velocidade reduzida
& em cada casa da Vila Angélica
  um útero de meso-escuro se fecha mais ainda
    para preservar o sono justo ou injusto
      de quem não saiu para ruas
        por causa da chuva
Eu passei meia hora no claro
  lendo o 'Trópico de Câncer' desabar
    sobre meu tesão recolhido
      enquanto o estrondo da chuva
        refrescava os planos
          & o fim de verão lá fora
& então deitei no deleite
  do escuro-claro das sete horas
    que invadia o quarto como brisa
      através da lente da cortina de não-tecido
É tudo uma suspensão vertical agora
  enquanto a água se decanta
    de nuvens à poças
Nelas não boiam planos para a noite,
  não tesso tramas para encontros
    para encobri-las como filtros
Nos monumentos fixos de meus desejos
  caem gotas transitórias do que foram
    aventuras recorrentes & sortilégios
      que aconteceram uma ou duas vezes
        ou dezenas & centenas
Diferente da chuva que sempre cai:
  igual à ela que demora mas retorna
    & nada parecido, que chega de surpresa
      em uma manhã de quase não mais... 
        verão...
Mas, ainda assim...
  estação das coisas quentes!



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