Eu lembro
Eu gostava
Dar a volta no quarteirão
Em sentido anti-horário
Eu sabia de cor
A posição de cada coisa
As frestas dos passeios no chão
A cor desbotada de cada muro
Os cheiros & os sons em cada comércio
Os velhos residentes em cada casa
Os mistérios que me chamavam em cada janela fechada
As liberdades recorrentes dentro de cada portão aberto
De manhã, de tarde ou de noite
Dando a volta no quarteirão
Eu cruzava com os mesmos vizinhos
Eu avizinhava a mesma cruzada
Eu revia os mesmos cães & gatos
Eu revia as mesmas árvores & matos
Pisava os mesmos passos
Dobrava as mesmas esquinas
& era tudo tão normal & querido
Que quando dormia ainda sonhava
Com as coisas do outro lado da rua
Com os quintais escondidos daquelas casas
Com os telhados além das fachadas
Com tudo enfim que o quarteirão integrava
Eu me lembro
Eu imaginava
O quarteirão era um planeta
Cada casa um país & os passeios praias & a rua mar
Pelas fronteiras de muros cordilheiras interiores
Em nem todos eu perambulava com os pés ou o olhar
Porque eu conhecia o mundo por fora
Só minha casa por dentro, mas todas eu amava
& pela infância passando
Passou também ser aventura dar a volta no quarteirão
& hoje só restou os sonhos
Porque todo o quarteirão foi mudado
Já não há a maioria das casas
Já se foram muitos de nós
A rua, aquele mar, ainda é a mesma
Mas os lugares onde ia já não estão mais lá
& se volto vez em quando só em sonhos
É porque nunca sai desse lugar
Sempre dando a volta eterna no quarteirão
Nunca mais podendo ali pisar

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