24 de set. de 2026

PrimaVerão

 

A lua
   como um olho vivo
      dentro de um crânio morto
Sequestra uivos
   de lobos urbanos

A lua nos olha
   & nos molha
      de luz & garoa

Bocas de lobos 
   bueiros abertos
Exalam o bafo de decomposição
   calor químico sob o asfalto

A chapa está quente
   sob os pneus
      & pés que se perderam

O céu encoberto
   de primavera debutante
Convulciona frio & quentura
   convocando todos os brotos
      a se abrirem flores

Deflorados sob o olhar
   renascendo no verão
      que veremos antecipado



19 de set. de 2026

Ida(s)de(s)

 

Com o Tempo
Nunca em paz
& sempre entendendo-o

Aceitando sua inevitabilidade
Mas revoltando-se
Contra tudo de ruim que traz a idade

Entre um & outro essa disparidade
Distância não de espaço
Mas de permanência nessa propriedade

Nossos corpos dispostos no mundo
Quem chegou antes, quem chegou depois
Nisso tudo se resume a história de fundo

Diferença de idade
Cerca amoral
Cerceando nossa vontade

Passarão ainda noites
   encontros nunca sonhados
Quando de repente nos constatamos
   perdidos & achados
Entre um olhar que se encontra
   & rápido foge
Menos por medo
   mais por dote
Nos seduzindo
   & repelindo
Nunca tendo tanta sorte
   que trinta & tantos anos de diferença suporte



15 de set. de 2026

Acabamento

 

Tintas sobre tintas
Que repintam a realidade
Impõem vibrações sobre vibrações
Que nenhum Feng-Chui tateante
Enxerga, mas percebe
Com a bússola Bá-Gua

No campo aberto óptico
De um quarto fechado
Revolvem energias pairando
Nos gases caópticos
Que respiramos & transpiramos
Desde a caosolina queimada que vem de fora
Entrando pela janela
Já nela & em nós despertos

Tintas & vernizes
Dispostos à maquiar & perdurar a forma
A realidade em volta
Cerceando a real idade que tenho & sou
Aconchego-me aqui
Louco para ir para fora
Como a troca de gases & cores
Do desejo de extasiar & rir





9 de set. de 2026

Fins de Mundo

 

Agora vamos
Enfrentando fins de mundo
   a cada segundo

Coisas que o valha
A cada semana
   cada hora agora

Apocalipses particulares
Depois de cada dia
   invadindo nossos lares, coxias

Armangendons medíocres
Culpa de nossos egos
   fiados em aço desfiado de pregos

Agora vamos
Enfrentando fins de estradas
   lugares a que fomos sem prever

Situações enredadas
Sem começo premeditado
   mas com fim escancarado

Não que tenhamos
Errado caminho
   mas caminhos que se formaram cruzados

Um pouco de caos de cada um
Formando no fim a bagunça total
   da qual não podemos sair

Só deixar acontecer
& suportar da melhor forma
   fingindo fazer o que temos que fazer

Até que então, à esmo
Tudo acaba
   & continua tudo o mesmo



5 de set. de 2026

OHA

 

Nada é tão novo como um velho vivo
por
  isso a
    palavra
      'ontem'
         é tão
            desconcertante
Se referindo ao passado ela parece ser presente

Tudo é tão atual como uma nulidade suspensa
por
  isso a
    palavra
      'hoje'
         é tão
            desconfortável
Se referindo ao presente ela parece ser atemporal

Nada é tão velho como um jovem morto
por
  isso a
    palavra
      'amanhã'
         é tão
            deslumbrante
Se referindo ao futuro ela parece ser passado

   se vive no
ontem
   se morre no
hoje
   se sonha no
amanhã



3 de set. de 2026

Caminho para Ur

 

Assim que o Atlântico congelar
   atravessaremos andando
      para os velhos mundos
Arrastando os pés no gelo
   que unirão continentes
Deixando rastro que serão apagados
   pelo vento frio de novos desertos
& os polos serão trópicos...

Nuvens altas passarão atrás de nuven baixas
    moendo em fricção
      enxames de gafanhotos
Que migrarão para o rodízio hemisférico
   enquanto insetos & parasitas banqueteiam
      morreremos das fomes sazonais
Coletores do que plantaram & não plantaram...

& a Terra voltará à sua origem
   não será mais Inferno
      mas Paraíso
& anjos símios transgêneros
   reinarão nos céus
      sem inveja do Criador
Pois serão primatas secundários...

As massas de terras reagrupadas
   unirão reenfim em tribos
      sociedades antes separadas
         por fronteiras & mares & ares
Sob a tutela de continentes que se chocam
   no abraço telúrico
      eras & eras separados
         à deriva no impulso não da história
Mas da geopsicologia dos indivíduos...

Os futuros continentes
   serão psicológicos
Fervendo em água quente
   ou congelados trópicos
Haverá um caminho rente
   quase ontológico
De volta ao útero inerente
   ou puramente escatológico
      para o que nunca foi nossa casa
         mas é nosso berço...



1 de set. de 2026

Estória

 

Inconscientemente combinado
   entrando em acordo
      sobre a necessidade
          de preservar a palavra
             "estória"
          em nosso vocabulário,
Sabendo
   de uma forma ou de outra
      que tal palavra é a única
         que pode definir o que vivemos juntos
            & a isso tudo
                remetermos
             sem erro de definição;

Os contos requintados
   sobre os cantos escuros que passamos
As narrativas desregradas
   das noites bêbadas nos bares
Os laudos de loucura
   de ambas as partes
Os boletins de ocorrência imoral
   na nossa ajuda mútua de fazer o outro trair
As lendas escaladas
   sobre o que sentimos por dentro & fora
Nos lugares, na pele
   no tempo que passou
Coisas que só nós que experenciamos
   & sabemos que queremos fazer parecer
      mas não foi ficção
& agora são apenas estórias que contamos
   para adultos acordarem.