15 de mai. de 2021

CircuLar

 

Circular
   caminho sem ida
  cada esquina
    desdobrada
   a saída
     & entrada
   da vinda
  de passagem
     à vida

Suscinta
   estrada infinda
  de tudo que sinto
    breve imensidão
   do oceano de se afagar
     na sede de amar
  mergulhado em superficialidade

Eu dobro
   circulo às cegas
     pago para ver
   o que é melhor:
      Ser ou não ser
   ainda não sei
Breve é o riso
   & o risco de estar.



12 de mai. de 2021

Ser & Nada

 

Como é fácil & difícil
ser
o oposto do oposto do oposto do oposto...
aqui, ali, lá, onde, não sei
sempre, nunca
com certeza...
Nossa, sua, deles
época
É a lixeira & o luxo
da História
do fim, começo de tudo...
& nós, eu, vocês
aqui, ali, lá, quando, não sei
pagando barato caro
pra ser, não ser
Soberbos & nada.



5 de mai. de 2021

Sepulto

 

Se enterre em mim,
sou um cemitério de animais de estimação,
Aqui jaz um coração de criança
& um estômago dilacerado
por vários tipos de fome,
Mutações de todos os tipos
da vida & pós-morte...
Sepulte aqui
suas raízes andarilhas
& as veias secas sem sangue
de seus desejos irrealizados,
As vísceras flacidas
& carnes corroídas
enterre junto
ao meu corpo tumular...
Eu recebo como útero
& acolho como boca,
em um beijo de terra & umidade
junto ao cadáver
todas as coisas que teve que abandonar
em tristeza mútua
& descanso eterno...


1 de mai. de 2021

Nunca/Sempre

 

O que tem que ser
se confunde
com o que 'nunca' era pra ser...

O tempo circular
não evita
um choque de realidade...

Nossas cabeças à prêmio
para a consciência da vida
& o 'sempre' a pairar acima...

Coroa-nos com inevitabilidade
brinda-nos com o indefensável
faz-nos cansados de sono...





24 de abr. de 2021

Canção de Ninar

 

Sem orações,
já que as horas
também se perdem no tempo,
& se vai
com tudo que se aprecia
nas preces.
A pressa
com que a vida se esvai
é muita para nossa vã passagem...

Eu fico
com outra forma de orar
para os meus que se foram & ao que permanece,
Eu prezo à esses
com cantigas de ninar
& assim todos nós nos embalamos
nos braços do que virá
& nos unirá
novamente, docemente...

Feche os olhos, se acalme...
É breve o que passou
Eterno o que não passará
Repouse a mente no que mais ama
Depois da vida, viverás...
Depois da ida & da vinda
como antes será.



22 de abr. de 2021

EUlisses

 

Sereias
desastres
Ser rei
preso à quilha
Rumo eterno
à ilha... da coroação.
Desregras
ao mar
Tormentas
de venda vais...
Rumo terno
ao termo... coração.



19 de abr. de 2021

mahapralaya...

 

um estalo instante
no fundo da realidade
& consumado está
toda a feira do tempo
& espaço inalcançáveis

instantâneo
um gozo nulo
fim do movimento
& primeiro rumo ao último:
ventos cessam
sons ruem
luz implode

imediato
em todo canto
ao mesmo tempo

...mahapralaya.



13 de abr. de 2021

Blackout Lockdown

 

Apagão no lockdown
calou-se a rede
& na casa escura
Convoquei à sala
coisas que emitiam
sua luz mínima na escuridão
Minh'alma a que menos brilhava
em todo o rol de oposição

Uma canção de Leonard Cohen
explodia baixo & longe
Blackout de tentação
em um número indefinido
de certezas rumo à sua extinção
O mundo intenso, local
totalmente imóvel
como se extinguiu a luz no vão

Só quero entrever algo
que produza um pouco de sombra
dentro da escuridão
Algo viscoso & luminoso
o tentáculo do polvo
a asa da mariposa
o chiado da sua voz
Em vez de toda essa luz artificial
que finalmente se apagou




8 de abr. de 2021

Delírio de Saudade

 

Procuro qualquer refúgio aqui:
Eu sei... Não hei de encontrar...
Além da mente, além dos sonhos,
as lembranças fogem ou acusam
o inevitável, o irrevogável!

Essa mente que desiste em desmentir
a fuga da esperança,
Dormente em insistir
sua fraqueza contra a experiência:
Enche de fadiga
os minutos, as horas  os dias...

A existência
não diminui nem aumenta,
Ela apenas perpassa imune
o bloco massisso de tempo
no qual aleatoriamente,
diante toda inevitabilidade,
caímos & ficamos & seremos expelidos:
tão logo escoemos desse tempo
como aborto!

Não há nada a se dizer à só.
Não há nada mais em solidão...
Estamos condenados a vagar
& colidir com o que nunca nos entenderá
enquanto significamos tudo:
sem muito significar...



5 de abr. de 2021

Peso

 

Peso
represado
   anelos em toneladas
      de gestos & marcas
a nós recusadas
   & que recusamos...
Há algo leve
    não, antes,
      imponderável, inapreensível
na alma que convulsiona
   dia & noite, sem tempo definido
Por vencer qualquer gravidade
   ou imobilidade
      que a faça menos do que é...
& a pressão aumenta
   calor, peso, erupção
Há algo, quem nem se sabe,
   à saciar...
É sede de deserto
   fôlego de fossa abissal
      fogo ártico
         luz no éter
É tudo no nada
   & nada no caos...
& o seu peso, sopesado
Vê, é força, simples força
   para continuar
      em queda, em voo, em colisão
         com seu grande amar.



1 de abr. de 2021

Ao Tempo

 

A mais alta forma de oração
É orar ao Tempo...

Contemplação pura
Da constante passagem...

Perseveramos na inquietude
Que a tudo decompõe...

Ergo os olhos ao firmamento
Que nos oprime em gravidade...

Do azul
Ao profundo negror...

As mãos encarnadas
De suplícios ineficazes tremem...

Somos uma ideia que ganhou forma
Aleatoriamente...



27 de mar. de 2021

Æter

 

Deve ser no mínimo estranho, se sentir estranho a si mesmo... & de coisas mínimas já me cansei.
Cada vez mais me encontro com um muro de falácias que cada um ergue, & me faz delirar de rir saber como esse muro é baixo, pois é feito de coisas mínimas...
O que mais me cansa não é esse muro baixo, mas sim, tanta coisa para rir!
Enfim... O niilismo...

Encomeço... pior que ser estranho, é ser conhecido, não ter mistério em si, não ter mais porque se desvelar.
Para os homens impuros, a maior vergonha é estar nu, pois isso é coisa de homens, pois foram os primeiros a estarem nus, mas não se envergonhando diante outros homens, mas sim na frente do Deus.
Mas para os homens puros... Ah! Não existem homens puros!
Enfim... O cinismo...

Encomeço... a pureza está em algo estranho, não porque conquistado, mas inconquistável, depor, não perder, a humanidade.
Se chama Além, mas nada de além do que se possa humanamente, bondosamente,  ou anti-humanamente, maldosamente, pensar, ou agir, ou intuir...
Além do bem & do mal!
Enfim... O Fim & o Começo... Unidos em um abraço, um beijo, uma mordida...