12 de nov. de 2021

Kinbaku (緊縛)

 

Nós
   que desfazemos
      a pureza
& tomamos de assalto
   o paraíso
Nós
    que apertamos
         forte
O que é bom & mau
   perto do corpo
Nós
   que caminhamos
      torto
Da inocência finita
   à tristeza suprema
Nós
   desde sempre
      entrelaçados
Feitos & refeitos
   nossa imagem & insemenlhança



8 de nov. de 2021

D i l a c e r a d o s

 

A alma engendra tragédias
   para além do que o corpo
      supõe suportar
Para um dia
   descobrirmos que somos
      mais fortes do que imaginamos

& nos caminhos destraçados
    em que nos embrenhamos
       nesse labirinto de ratos
Vamos lambendo as feridas
   antigas & as que ainda
      serão cravadas

Feridas profanas & sagradas
   abertas pela gratuidade & merecimento
      feridas das idas & vindas
Na vida desassossegada
   que não sabemos viver
      mas improvisamos muito bem



7 de nov. de 2021

per... lon...

 

no sonho
a parte você que sou eu
   emerge quântica
      amnemônica
perto tão longe de mim
dançado cores & estilhaços de vida
   para me ferir

nessa auto-mutilação onírica
só há de fundo o intenso sentimento
   de você perto tão longe
      de mim
sentimento vibrante
   de um ato sem começo
      nem fim

acordo disperso
   como a forma de um vento que passou
      & revirou o ar de meus pulmões
com a alma triste
   & o resto de um odor acima dos lábios
que foi onde num sonho
   eu senti você
      perto tão longe de mim



2 de nov. de 2021

Matéria

 

Carne que derrete & se transforma
   em eletricidade que recompõe
Teias magnéticas tecendo
   êxtases que nos justificam
Levando à convulsão
   & o cansaço
      de encontrar o que buscamos

Repousando nesse desassossego
   no tempo que se aprofunda
Em um fundo fosso
   de dormência atávica
Nós somos partes decompostas
   de um todo que visa ápices
      sejam quais forem

Na morte, no sexo,  no esquecimento
   o calor máximo, o frio extremo
A tortura limite, o maior prazer
   somos pouco para tanto
Mas a potência nos pertence
   vivemos uma vez
      & nos basta a querência que impulsiona



29 de out. de 2021

o Agora

 

o Agora
   é um Lugar
      que não nos cabe mais
de tanta Saudade
   de tanto Prazer
      & de tanta Dor
o Presente se prolongou
   em Gozo extenso
      ou extensa Insatisfação...

encontro o que Quero
   & o que Não quero
na carne do teu Corpo
   na saliva da tua Boca
tudo que evapora
   esvai, seca
      & se umidece
no Bejo, no Coito
   na Perda...

colisão
   que é o início do Futuro
      & o indício do Passado
suspensos em Choque vamos
   entre uma & outra
      Realização
         Falha
            Repetição
o Agora é Queda
   onde
              caindo
                           estamos
                                             então
                                                           ...



25 de out. de 2021

Desrota

 

Saí para andar
    & ver se a lua estava em seu lugar
Pela rua afora
    os passos perdidos de qualquer hora
Saí por aí
    nos últimos dias desse mundo onde caí
Sem querer voltar
    mas também sem achar um outro lar
Lá fora pra ver
    que tudo está à perecer
No céu as estrelas
    no chão as mazelas
Saí para andar
    & nunca mais voltar



20 de out. de 2021

Sonhar...

 

Os sonhos
   trazem consigo
      o despertar...
No sono profundo
   tudo é um esquecimento
      um nada onde repousar...
Volem as águas
   da superfície de contato
      com a realidade & seu pesar...
Pululam imagens móveis
   turbulências
      para nos acordar...
A alma ativando-se
   para a luz, o dia
      para o sólido estar...
Deixa para trás
   o além do bem & do mal
      para novamente se limitar...



19 de out. de 2021

Abraço de Abismo

 

Fundo rasgo em abraço
   às águas abissais
Abismo bebe abismo
   água para vertigem da sede

Cabe na tua boca
   entrada do fosso labiríntico do teu corpo
Tempestades de samsara
   & calmarias de nirvana

Abismo que verte fundo
   comporta,
      segura,
         repousa
            águas & vazios de abismo

Água celeste
   pesada, cortante
Vazio infernal
   leve, cicatrizante
Valas oceânicas incorpóreas

Abismo bebe água de abismo
Abismo respira ar de abismo
Abismo engole abismo
    sorve céus, terra
       & dilúvios, amor

Há de se ter mil & nenhum braço
   para esse abraço
      líquido abissal
Fundo do poço
   chão dos nossos pés
Palco dos enlaces



18 de out. de 2021

Águas do Abismo

 

Vamos, sem pressa & medo
   desnudando nossas imperfeições.
Isso é só corpo,
   fazemos tremer o interior.
Contatamos a carne,
   misturamos a mente.
& o espírito paira
   acima das águas do abismo
      que se misturam,
         com violência & candura...

Cada colisão
   é um processo de negação.
O tempo
   em que unimo-nos,
Renega o espaço
   que nos separa.
Isso é da nossa natureza,
   o animal gozozo que somos...

Assim sorrimos, sofremos
   assim conquistamos, tememos
      & seguimos
         na noite escura
            & racional que nos cerca, devora,
               mas não consegue nos engolir...



17 de out. de 2021

Extra Vazar

 

"O tempo andou
  mexendo com
  a gente, sim!"
  - Belchior

& no silêncio
   da solidão
Encobrindo soluços
   de insolução
Encontramos a necessidade
   de procurar
      novas formas de ser feliz... ou mais...
Pois o corpo
   o copo, o pico
   essa capa
      de massas inócuas
   máscaras, camadas
      de tempo & espaço acumulados
   não servem mais
      para conter & deixar extra-vazar
         o que flui desde a insatistafação...
& nem servem mais
   para o que deve
      ser preenchido
         ou esvaziado...



12 de out. de 2021

Calendas

 

Esquecer datas
O nome dos dias
   meses, estações
      anos, vidas...
Rebelar
   ao controle incontrolável do tempo
      & da morte, do fim, do não & do sim...
Proibir os calendários
   queimar
      começo & meio & fim
         nas chamas da desrazão...
Trocar
   o sol pela lua
      a lua pela estrela negra
         a estrela pelo buraco negro...
Aquiescer
    ao eterno feriado
  Véspera de nada
  Amanhã do dia esquecido
  Ano zero
  Século nômade
  Era perdida
Acédia
   descaso
      descanso
          ocaso...



10 de out. de 2021

Constante Inconstante

 

O universo é
   uma fábrica
      de eventos tristes...

O espaço se abre
   mais rápido que a luz
Escuridão que avança
   útero de tudo
Que não engendra
   só gesta aeons de solidão sideral

Tanta engenhosidade
   para gerar
      distâncias & finitudes...

& o corpo, espaço do espírito
    também se desdobra em suas distâncias
Expande no tempo
    seu ser & estar
Onde a felicidade não alcança as bordas
   aprisionada & engolida pela carne

Com tudo se distanciando & acabando
   por que, então, não começamos
      a nos aproximarmos mais...?