7 de abr. de 2026

O Olho no Escuro

 

"O que um scanner vê?, perguntou-se. Quero dizer, vê de verdade? Dentro da cabeça? Até o coração? Um scanner infravermelho passivo, como os que usavam antigamente, ou um scanner holográfico em forma de cubo, como os que usam hoje em dia, a última moda, consegue me ver — a nós — com clareza ou em obscuridade? Espero que sim, pensou, que veja com clareza, porque não consigo mais me ver por dentro. Só vejo névoa. Névoa por fora; névoa por dentro. Espero, pelo bem de todos, que os scanners sejam melhores. Porque, pensou, se o scanner só enxerga em obscuridade, como eu mesmo, então estamos amaldiçoados, amaldiçoados de novo, como sempre estivemos, e vamos acabar mortos assim, sabendo muito pouco e errando também nesse pequeno fragmento".
-Philip K. Dick in "O Homem Duplo (A Scanner Darkly)"



Eu sou só um analisador de tensões acumuladas
Um fiscal das vazões antes represadas
Um observador cínico do rumo errático das coisas...

Eu vejo a ordem prosperando
Derramando sua bagunça para todo lado
As coisas se acumulando sobre a mesa
As ruas se enchendo, a casa lotando
A mente sobrecarregada, a agenda cheia
As boas intenções lotando o inferno
O barulho do mundo carregado de desinformação
O silêncio do céu inconectável

Enquanto a gravidade puxa a carne para baixo
A inteligência declina, a visão acaba
As naves somem, as guerras prosperam
Os filósofos morrem, os néscios aumentam
As nuvens chovem ácido, as vacas parindo bifes
As bocas beijam sapos, os sorrisos demenciam
A fé fetida aumenta, os bolsos esvaziam
O desespero aumenta

O vigiado convocado a vigiar
O escravo obrigado a escravizar
O cego guiando cego
O demente que venceu na vida
O canalha que prega no púlpito
O bandido condecorado herói
O ladrão na presidência
O ditador democrata
A peste que medica

& tudo,
Aos olhos do observador
   do fiscal
      do analisador
Parecem normal!



5 de abr. de 2026

Fædro

 

Nós que estamos sempre prontos para ser amado
Talvez nunca estejamos propensos a dividir

Esse egoísmo ancestral 
Que queima a colheita para não se fartar
   & planta novas sementes que não sabe se irão vingar

Essa coisa atávica no peito
Que se parece coração
   mas é um cofre de carne & couro

Nós que estamos sempre prontos para amar
Talvez nunca estejamos dispostos à deixar ir

Essa memória infalível
Que todo dia se esfrega de novo
   no espinho da rosa

Esse lado do corpo que é alma
Que intoxica um
   para o outro se sentir limpo & forte

Nós que vencemos sem lutar
Conquistamos tudo & não temos nada

Sonhamos chances
Repetições do que foi bom
   mas nunca acordamos para afirmar

No amor
Somos Anjos caídos
   & Demônios arrebatados

Nós... sempre dispostos
Nós... nunca disponíveis


 

3 de abr. de 2026

desAfeto

 

Há muito
viemos
desaprendendo
o que é
Amor.

...tem que aceitar o amor que você acha...

Tanto veneno escorrendo por aí, nas veias abertas de todos relacionamentos... lamentos...

O que eu quero é só próximo do que você quer. O que queremos para nós & o que queremos para o outro, agora... com certeza... é quase crime!

Quem estragou o amor?
Quem desconectou a conexão?
Que desencaminhou o encontro?
O que desintonizou a sintonia?

Fingimos não saber... Mas lá dentro sentimos... A sensação insensata de que nada basta em cada um que se acha demais!

...pois agora é a nova lei... o direito de ser infeliz... o dever de ignorar o outro...



1 de abr. de 2026

Inadequado

 

De repente
   o Relâmpago
Essa razão inadequada que me instrui
   & me faz um estranho
Tolo, possuído, indiferente, além-homem
   finjo, atuo, aturo, ignoro, sei, transpareço

...só sei que sei que sei...
    ....que sei que nada sei que nada sei que sei...

Invisibilidade dos meus atos & sonhos
   só para meu prazer
Essa propriedade natural
   de ser & estar recôndito
Como clareira na mata

Sem dar satisfações
Sem aparecer
Sem laços
Sem sei

...o mundo mudo imundo
    desvairado & insano é tudo que é o caso do ocaso...

& eu
   amanhecer... crepúsculo...
O simples
    calado
       turbulento
          caminho do meio!



30 de mar. de 2026

Outonal

 

Hoje amanheceu mais cedo
A luz do sol refletiu na lua em meus olhos
Faca de prata cortante no céu
& ganhamos mais uns minutos de dia

Esses dias no prepúcio do horizonte
O sol jorrou sua luz
Estrondando antes no alto dos edifícios
Refletindo luz parda sobre as ruas parcas

Essas ruas escuras
Tão remendadas como nós
Camadas sobre camadas
Para pavimentar nossas feridas necessárias abertas

Cada dia amanhecendo mais tarde
Uma manhã diferente nos cai no colo, quente, seca, iluminada
Como o Outono presságio de Inverno requer
Como se dissesse: continue confiando na luz...



26 de mar. de 2026

Para os Além

 

Essa é para aqueles & aquelas
Que não passam, mas ficam
Que não chegam, acontecem...
Esses que revertem o inverno
   nos galhos secos das árvores
Esses que ensinam a dançar
   não conforme a música, mas ao som do trovão
Essa é para esses & essas
Que não precisam carregar nas costas os outros
Para quem faz tudo leve para se lidar
& lidam com o desejo & o asco
   com um sorriso para cada um nos lábios
Esses que valem a pena nos limparmos
   nos rios que só se entra uma vez
Esses que fazem canções & poemas
   para se ouvir & cantar
      por entre os estrondos dos fim do dia
Os que não cobram
Os que abençoam
Os que acrescentam
Os que não são nem bom demais nem mau demais
Os que despertam
Os que sonham
Os raros
Isso é para essas & esses
Que reinventam todo o tempo os espaços
   que nos unem & nos separam
Para quem faz tudo belo
   além do bem & do mal!



24 de mar. de 2026

(inconect@do) Para Fora da Internet

 

"O que foi feito do sonho anarquista,
do fim do Estado, da comuna,
da zona autônoma com duração,
da sociedade livre, da cultura livre?
Devemos abandonar esta esperança
em troca de um acte gratuit existencialista?
A idéia não é mudar a consciência,
mas mudar o mundo".
-Hakim Bey

Se toda marcha da vida é em direção à morte
Se tudo que cresce ruma ao colapso
Porque esse deslumbre pelo progresso
   ele nos levará sempre à opressão

A sequência de toda linha
   é o nó que a amarra à linha seguinte
O futuro do rebanho
   é o abate
A planta cresce
   para ser colhida

& não importa quantos
   verões, outonos, invernos & primaveras
      virão
Essas repetições é a decadência
   que se estabilizou temporariamente
      no eterno rumo da ordem para o mal

Agora mesmo tramam contra a liberdade
   os perversos sempre a odiaram
      eles não podem coexistir com o que é livre
Agora mesmo conspiram
   para te revelar o que você sempre foi
      um pescoço carnudo para boca dos vampiros
Agora mesmo te darão proteção
   em troca da quietude & silêncio
      o ambiente ideal para as sanguessugas prosperarem

Será melhor aceitar ou afastar?
Será suportável o preço a se pagar por participar?

A vida é só uma insurreição
   nesse vasto reino material
Onde a opressão do inanimado
   sempre vence!
Agora o importante é continuar a viver
   & não mais se submeter ao que impõem
      como o necessário para se participar
         desta cultura de falsidade!



22 de mar. de 2026

Cada Dia...

 

Cada dia...
   um fim da estrada
   um meio de estrada
   um começo de estrada
Horas marcadas
   pelo corpo corpromisso corprimido
   entre o dever,
      a razão,
         a vontade,
            o desânimo
               & além...
Cada dia...
   entre o foi & o será
   entre o dormir & o acordar
   entre o lavrar & o folgar
Minutos fulminados
   pela consciência insípida dispersa conscisa
      se lembrando,
         convulsionando,
            revelando-se,
               entregando-se
                   iluminando-se escuridão...
Cada dia...



20 de mar. de 2026

0

 

rezo ao zero
"que dele flua as bênçãos para o mundo"
circundado, mapeado, equacionado
na boca do copo da sede
no halo da bolha passageira
no centro do rasgo de uma racha

rezo ao zero
"sois nada & dá ao resto ser muito maior"
circuncidado, prepúcial, emasculado
sem perder seu centro de nada que é um
canal que valha sua função & jorra
corre das pernas até o vácuo da boca

rezo ao zero
"o que éramos antes do princípio & seremos depois do final"
órbitas, staurus, rodas, anéis
orbes onde despencam os pecados
moedas nos olhos que se fecham
no fundo do bolso que se abre
dando o troco da vida

rezo ao zero
& dou esse nulo amém!



17 de mar. de 2026

Fim de Verão

 

Quando isso vai terminar?
É a pergunta durante toda estação...

& um órgão que não existe mais
   vai parar de telegrafar conforto
Um sentido, uma inspiração
   que esquecemos como usar
Vai parar de nos desassossegar
   essa é a esperança & o desespero
De um órgão atrofiado
   pelo calor & pela chuva...

Não faz muita diferença
   para quem já perdeu tudo
      para quem nunca teve nada
Mais de uma vez
    ganhar ou perder
       & de novo, de novo
Enfim, na diferença que não faz
   temos indiferença, não paz...

Nos engendramos na busca
   por entre selvas
      mais rasteiras que o lodo
Por entre feras
   mais covardes, mais tolas
Que nem sabem porque querem
   o que querem
Não uma busca por si mesmo
   nem pelo outro, mas pela graça...

Longe das feras, das selvas
   durante cada tarde de chuva
Nas horas mais distantes do sono
   sonhamos... sonhos de nuvens secas
      sonhos com um clima fresco
Que vai se resfriando
   como todo cadáver
Um quarto da crosta da Terra
   em transe, férrea...

Quando isso vai terminar?
É a pergunta no fim de toda estação!



12 de mar. de 2026

Astropassione

 

Nas distâncias relativisticas dos caminhos ao encontro // O número de casos & acasos para se colidir // Pesa mais ou menos do aqueles para nos afastar?

...se estamos quase na velocidade da luz // não há espaço a nos separar...

As curvas do coração sempre mostram caminhos tortuosos // Mas é igual para todo mundo // Todos tem um coração no peito & um coração na mente em formato igual!

...se estamos no mesmo compasso no tempo // só há momentos para nos unir...

Eu penso em correr, mergulhar // Às vezes sobrepõe a fissura de fugir // Mas o que é para ser // Dá a volta no Universo // No Inferno & no Paraíso// & nos acha...

...nossa velocidade da luz se chama amor // nosso espaço curvo se chama paixão...





9 de mar. de 2026

Fim de Férias

 

...Vazio das férias
Fé & ferida sanada...
Carne é tempo
Serviço é matéria
Remuneração é espaço
Espírito é nada
Dialética que os dialéticos
   nem sabem que existe!

Volto
   ao túmulo que me dá vida
Me enterrarei ali
   por mais um ano
Sendo a peça
   na máquina de terra que funciona
De um lado entra carne
   no meio do processo serviço
   do outro sai remuneração

Somos enfim um ser... viço... so...
   um ente de fazer algo
No trabalho
   para além de tudo no ócio
Até o esforço máximo
   para economizar migalhas
Mil galhas da carcaça
   do boi desviante que puxa carroça

Vou adentrar nessa tumba
   me transformar em silêncio
   que reorganiza o barulho
Vou cumprir a tarefa
   representar a farsa do trabalho
   para receber o agrado do salário
Vou gargalhar para mim 
   sorrir para os outros
   & chorar para ninguém

Pois o trabalho não liberta
   ele só nos aquieta
   dentro de sua servidão compensada!



7 de mar. de 2026

Chuva nos Trópicos

 

A chuva cai
  na manhã de sábado como surpresa
Ela pega os planos, a pressa, o calor
  & os enxagua em enxurradas
    rumo aos bueiros
      em sua simples urgência gravitacional
O trânsito que já se assanhava febril
  recua a marcha
    & começa cantarolar splashs de pneus
      em velocidade reduzida
& em cada casa da Vila Angélica
  um útero de meso-escuro se fecha mais ainda
    para preservar o sono justo ou injusto
      de quem não saiu para ruas
        por causa da chuva
Eu passei meia hora no claro
  lendo o 'Trópico de Câncer' desabar
    sobre meu tesão recolhido
      enquanto o estrondo da chuva
        refrescava os planos
          & o fim de verão lá fora
& então deitei no deleite
  do escuro-claro das sete horas
    que invadia o quarto como brisa
      através da lente da cortina de não-tecido
É tudo uma suspensão vertical agora
  enquanto a água se decanta
    de nuvens à poças
Nelas não boiam planos para a noite,
  não tesso tramas para encontros
    para encobri-las como filtros
Nos monumentos fixos de meus desejos
  caem gotas transitórias do que foram
    aventuras recorrentes & sortilégios
      que aconteceram uma ou duas vezes
        ou dezenas & centenas
Diferente da chuva que sempre cai:
  igual à ela que demora mas retorna
    & nada parecido, que chega de surpresa
      em uma manhã de quase não mais... 
        verão...
Mas, ainda assim...
  estação das coisas quentes!



3 de mar. de 2026

Estrada Extensa

 

"Aurota, Poentre"
São meus espaços no tempo
Sempre.


Há essa estrada extensa
Com uma aurora
   ou um poente

Veja bem
Nela é tudo longe
   por entre retas & curvas

O sol, o destino
A encruzilhada
   a partida ou a chegada

Nela tudo é próximo
Não perto
   a parada, a entrada, a saída

Essa estrada comprida
É nela que vem, que vai
   o sentimento do coração

Não há como se perder
Metro a metro percorrido
   você aumenta, você se desgasta

Metros de euforia
Quilômetros de saudades
   ela é ida & volta ao mesmo tempo

Há essa extensa estrada
Com um poente
   ou uma aurora



2 de mar. de 2026

Outra Estação

 

Apego-me na
Certeza do sonho
Que tudo passa

Se vai
   as chuvas
Lavando
   um mês, um ano
      meia década & mais
Firmes
   no lugar que é nosso
      vemos passar
         estações, tempos, gente
O que os sonhos
   em sua semiótica comunicam
      nós permanecemos firmes & atentos
         para testemunhar acontecer
& aí
   passou...
Passou esse tempo
   essa estação... quem desembarcou
      ficou para trás, abandonado na fossa
         que a água abriu, para beber terra
Passou essa época
   essa conturbação... o romper
      do verme remoendo o que não era para ele
         cada tempo dá o que não te dará mais!
Até passar...
   & passou!



24 de fev. de 2026

Sutra

 

rsgjbcthxguvfrhbdeasghcdjklloigvdsggrdhssg
dhvhjgvyuhv  ou você fala de sua vida  jbkjftw
uijvgjhghh  ou fala do clima  gvjytchuyrhcsgnn
mhhfgggyhcgyv  ou de fantasias...  gchjjmllfd
gnnvdsaaqdghjjgijjopjgjiollkbnvcdxxzssgguig
cblijgv  Sabemos...  vchjhhjhdsqqdgxxzbnmlp
acnnyghhy  a única coisa real que existe  bzat
erghujfh  é a Realidade  ihygdeafsqchbvbkljvc
ghltoidafrchjbfuhdchiorexbguvreqabjywjllphhj



22 de fev. de 2026

Transcidade aos Domingos

 

Na cidade
Os mortos & os vivos
Enterrados acima do solo
São a própria cidade a se decompor


Praças que não se podem circular...

(então, por causa do espaço, o tempo se quebra como suástica)

O mundo entregue à uma técnica
   para preservar gastos de um cadáver...

(aquilo que não se move, mas está sepulto por debaixo das vias que transitamos, & assim permite o movimento do que é vivo)

Linhas de ruas traçadas há muito tempo atrás....

(fixas em seu sentido como um mistério a se decifrar)

Eu saio para perambular...

Atrás ou à frente
   de um desconhecido estado de ser & estar...

No centro, com as ruas "vazias"
   sinto um cheiro que pode ser de alguém
   mas é o cheiro de todos
      é o cheiro de um lugar...

Eu simplesmente me
   des-loco
      mas localizo-me lá...

Em uma esquina
   um homem grita
   mendigando uma informação
      perguntando se hoje é
          Sábado ou Domingo

Em outra
   idosas vão à missa
      & imagino se quando jovens
         elas eram tão pias como agora
         mas não a quem pedir tal confirmação

As portas dos comércios
   todas fechadas
      estancam o sangramento
         de dinheiro & trabalho da semana
         que não se lucra nesse dia

Ao longe & acima
   a tempestade de verão se arma
      & eu não sinto nem pressa
         nem lerdeza de chegar de volta ao lar
         pois sou espectro que perpassa

Prolongo a estadia no exílio
   dentro do exílio
      através do vagar devagar
         que não me levou a lugar nenhum
         em todos os lugares que estou

Mas em cada ponto que passo
   um pensamento ou quase do lugar
      vem sobrepensar
      como lembrança & experiência de passar

São pedágios do espaço-tempo
   são obessessores de amores
      & inimizades a me cobrar
      a moeda da época do descansar

O vagar se torna solidão
   como toda solidão que tento compensar
   como toda solidão que tento afirmar
      mesmo antes ou depois
         de se perambular

Há todo um conflito desimportante nos bastidores
Como se a realidade fosse o passado & o futuro
Que ditam o entre-teatro do pensamento
Mas não influenciam o ato do deslocamento
Presentes ali o desejo & a indiferença
Presentes ali o agora & o passado
Presentes ali o que fiz antes de ontem
   & o que farei depois de amanhã
Mas o presente, o momento, o instante
   sou só eu passando pelo centro da cidade
      que não é mais o centro da cidade
& que não é mais o centro que conheci
Pois hoje tudo está
   deslocado
     & transloucado

Pois é Domingo
    "até a meia-noite"
& assim posso me localizar no tempo
   mas há muito fui expelido do espaço
      que mudou
...talvez por isso me ponho a vagar.



17 de fev. de 2026

Mardi Gras

 

Essa noite vamos brincar
   de querer esquecer
Vamos simular não querências
   que nos desfaçam
      em tolas exigências
...ao toque de caixa de bumbo
O caminho da noite é largo
   de tão cheia que é
     de curtos atalhos
Pois os pontos de chegada estão no escuro
   mas temos olhos nas lembranças
      & sua luz obscura
...como velas acesas ä meia-noite
& ali queima o fogo do que desejamos
   ou repugnamos
      entre confetes & serpentinas
& que nada cura
   nada dura, nada muda
      entre energéticos & morfina
...& o suor & saliva & outras bebidas
Em noites como essa
   eu ando com outros pés
      pés pesados de asfalto
& a saudade é palácio
   do baile das minhas fraquezas
      ou a missa da fúria que liberta
...desfiles que se tornam procissões
Tem certas noites que parecem
   que vivo com outra alma
      de tecido anoitecido colorido
Alma despida de pudor
   & fantasiada de santa meretriz
      que passou da hora de ir
         se deitar!



16 de fev. de 2026

Vivo Mato


 

A grama, o mato
   Que amanhã estará cortado
& apenas perpetuado
   Por ter sido visto & ignorado,
Nascerá de novo... & de novo...
   Até o chão ser cimentado.
Mas enquanto não,
   Tudo desse quase nada
Será renovado!



15 de fev. de 2026

Sonos de Verão

 

Cada sono, seu torpor
Até as nuvens me oprimem
   à cair no sono no meio do dia
      com seu teatro
      de metamorfoses letárgicas

& as sedações do quimo
   que empurram à um torpor
   em meio à ereções
Que sonham lúcidas orgias
   de pesadelos gozozos

& vem a lucidez do meio das tardes
   nos deitarem sol querente
Funambulando entre suores
   & sangue frio
Frescos desejos que tanto faz
   realizar

Cada sonolência exigindo
   sonhos & levedelos
Expulsam para as bordas abismais da consciência
   onde copulam em ambiente líquido
   vigília & dormência



13 de fev. de 2026

No Éden

 

Qual era
O amor de Adão
Por Eva?

Há esses dois, mulher & homem
Que sempre estiveram em má companhia
Desde que foram criados

Primeiro o Pai, depois a mãe, o filho
A serpente, a prole, o Arconte
Casal, trisal, tribo

Qual era
Por eras & eras, erros & erros
O amor de Adão por Eva?

Essa era, essa erva, essa fruta
Carrega no ventre que se fez costela
Ereta como pedra lapidada na labuta

Barro, osso,
Sopro, nome
Pele & caroço

Jardim, quintal
Véu, hímen
O bem & o mal

Qual era, qual é
Em qual tempo, qual lugar
Que erro, que culpa, que polpa de fruta doce ao paladar

O que mais fez a ave Eva senão
Ciscar no pé da macieira
& atrair a cobra em obra de Adão

Só sabemos então
Que ele amou ela
& Eva também amou Adão...



4 de fev. de 2026

Esquenta (Pré-Carnaval & Culto de Libertação)

 

Essa existência
   de cova aberta ao ar livre
Dentro do clima
   hora temporal,
   hora amarra de calor ou frio
Nos leva inconsequentemente
   ao alvoroço de alguma encrenca
Cobrados por nós mesmo ou pelo fisco
   deslizamos na lâmina cega
      que nunca temos a chance
      de usar contra os outros

Exércitos de parasitas & sanguessugas
   em fileira para nos assaltar
Hordas de bandidos
   pululando no asfalto
   & nas info-vias
Manejando entre a entropia de idiotas
   & mudos funcionais
   que ululam ideologia que secreta
      orações, desinformação & ressentimento
      pelas ruas & ruelas mentais

A festa preparada
   no escárnio ou no desejo de desastre
Já pulam os blocos dos afazeres
   algozes na avenida
      uns contra a moral outros anti-porneia
      todos com seus rancores
         que entidade nenhuma pacificará
Assim ficaremos
   até depois das chuvas
   até depois da epidemia
   até antes da próxima da tragédia
      do corpo ou do espírito se manifestar



2 de fev. de 2026

Aguaceiro

 

...venho de um dia de descanso
   para observar o esforço
Antes que a chuva dê a ré
   & se torne só trovão de novo

Lá fora as ovas dos mosquitos
   já preparam o enxame
Enquanto na cabeça do povo
   inoculam medo & fervor pelo Carnaval de novo

São dias suspensos entre as horas de chuva
   & os minutos de Sol
As noites mais curtas
   & calor tão longo como o temporal

Venho de uma noite profunda
   gestada no ventre da chuva
& abortada como queda em tormenta
   em mais uma segunda...



27 de jan. de 2026

Necropole

 

Minhas lágrimas fluem
   ao final do sonho da vida,
      da pequena vida de cada um...
Dos sentimentos da morte
   a tristeza, a saudade, o medo
O que mais marca é o sentimento paradoxo
   entra a curiosidade do desconhecido
      & a esperança do descanso...
Pois mesmo que o amor
   seja uma compensação
      descompensada pela morte
Qual tipo de amor vence o nada?
Se para superar o nada é preciso ser
   & um dia nós mesmos
      deixaremos de ser... & estar aqui!
Pois somos capaz de amar & sentir...
   mas a morte é uma certeza
      que nos lança enfim
         em toda incapacidade.



25 de jan. de 2026

IrReal

 

É dentro do limite da noite
   que você descobre que sua imaginação
      não pode te levar a todo lugar
         que você quiser

Para além do limite da solidão
   para onde tudo se pode esquecer

Vai haver sempre a urgência
   das coisas pendentes

Vai haver sempre a cobrança
   das carências não atendidas

Vai haver limites lógicos
   com os quais a insanidade não se importa

Vai haver perigos nunca vividos
   mas sempre testados & escondidos

É dentro do limite da noite
   naquele lugar & tempo onde se confunde
      seus sonhos, obrigações & liberdades
         que você descobre que sua imaginação
            não pode te levar a todo lugar
               que você quiser.



19 de jan. de 2026

Lâmpada

 

(...)
ninguém esquece de acender as luzes
   quando a noite cai
todos não lembram de apagar as luzes
   quando o dia se levanta
(...)
assim a luz atravessa
   no escuro da noite
   na nossa necessidade
& desaparece
   na claridade do dia
   pela nossa displicência
(...)
no excesso de escuridão
   necessidade de claridade
no excesso de obscurecimento
   necessidade de consciência
(...)



15 de jan. de 2026

R/P

 

Estranheza
   que me remete à uma realidade paralela
Não lá, não outra
   essa aqui...!

De repente tudo descompassa
   & certas coisas que chegam nunca foram
Um velho panorama desaba aos olhos
   como uma grande novidade

Uma notícia, um evento
   uma música, uma pessoa
O mundo me diz que estiveram aqui
   sempre foi, mas não me lembrava

& fica o abismo da dúvida
   assolando a textura do pensamento:
Qual foi o desvio que peguei
   para vir parar em uma outra realidade



11 de jan. de 2026

Dormingueira

 

Das nuvens transnoitadas
   emergem naves que cruzaram o espaço
Escondidas na água suspensa
   de nossas certezas
A madrugada passa pelo moedor da manhã
   até ter o azul sem sal do dia
Onde se apaga a sonolência das cores
   & o despertar em dores
Através da ida à lida
   através das lembranças da noite de suor
      pela culpa por ser inocente
         pelo que o amanhã proverá
Vejo nos rostos de cada um
   as taras-mil mal disfarçadas
      pelas quais todos passam
         ou prosperam emperrados
No caminho para castração
   desenbainho como nave que sai da nuvem
O prefácio flácido
   que verga como vibora
      à procura da mordida
Até que o pão de toda fome recém assado
   nas cordilheiras lisas ao leste
      queime ao chão & exale o cheiro
         das engrenagens mal lubrificadas
      que erguem o sol
         & o cenário de domingo
            onde ato nenhum
               acontece
...mas sobre...viverei...



10 de jan. de 2026

Ex-Quinas

 

Pelas quinas
Arredondei as coisas

Nas redondezas
Cheias de e
                   s
                   q
                   u
                   i
                   n
                   a
                   s
Se circula
& volta ao lugar

Um mundo disforme
Perambula pelas quadras
& enquanto segue
Toma forma... de algo... de nada...

Pontiagudas para repelir
Redondas para entrar na onda
Disforme para se formar

Alguém se perde
Nas próprias proximidades
Alguém se acha
Nas próprias profundezas

Tudo é casa quase perto
Tudo é dobra & meta
Que colocamos no espaço

Só o tempo descasca
Tudo é ida & volta
Reta & quina



7 de jan. de 2026

Ninfa

 

Borboleta, ser completo
Forma, cor, textura, ideia
   entra na vida, no pensamento
      pelos olhos, pela porta da frente
         pelos sentidos que a recebe
             em todos os deleites...
No imago já erra o âmago
   & não se sabe se o seu voo
      é para vir & ficar onde não se esconde
         ou se vai deixar se levar pelo vento
            pela onda, pela corrente, para longe...
Então se torna crisalida
   se fecha para mim
      no casulo de sua própria distância
         no muro da ignorância
            na porta fechada que um dia foi certo
               a cor & as asas leve
                  de um sorriso aberto...
Agora não é mais que larva
   se arrastando por ali
      diante dos meus olhos, de minha vida
         lavada de você momento a momento
            largada no pó de um desvio
               nessa estrada única do estranhamento...
Dessa distância que observo os ovos
   embriões de uma amizade & paixão
      abandonados no não-ninho de silêncio
         de olhares que não se cruzam mais
           de tudo reunido & separado pelo vento...
Pois se falar
   é compartilhar voos
Se olhar nos olhos
   é reconhecer a existência mútua
Como duas asas espelhadas
   de uma borboleta adulta
Que por não bater mais
   reverte na desesperança
De uma praga
   depositada na flor
      em uma metamorfose reversa
   do que um dia poderia ser um amor.