27 de out. de 2026

Ritual

 

   hoje a raiva está menor   trocada por um semi-tesão brochado que remete ao que foi um dia amor por algo   & crença na liberdade
   no meio da leitura de um livro selvagem   penso em um ritual qualquer   para penetrar em toda essa escuridão   me afundar em um modo de não pensar   & ser absorvido pela entidade corrompida que se apossou de todos nós   & alcançar algum nada além que explique e dissolva essa realidade
   espírito do contra-tempo   garotos selvagens   back-rooms   primeiro impacto   guerra civil   revanche ilegal ou imoral   para além da cultura paira nas redes uma advertência para ficar em casa NÃO SAIA PARA RUA   uma reverberação de outros tempos pandêmicos   uma evidente ironia em si
   com tudo engessado em gelo-aço ainda   as relações de armistício de pessoas pacatas   não dispostas a perder sua própria paz    sinto lento se decompor o coração armado   mediante a promessa-desejo de convulsão   & que tudo, sempre, é uma chance para o anarquismo
   cada um cuida de si   mediante as lembranças das poucas horas depois do resultado das urnas   a primeira coisa que pensei ao ver a definição do resultado foi QUE ABSURDO!
   a euforia dos vitoriosos   o choque dos perdedores   cabe à esses acharem um modo de seguir em frente   enquanto aqueles desfrutam da inconsequência de se expressarem imbecilmente alegres

   o ritual inpirado consiste invocar deus-diabo para justificar a derrota-vitória sob a luz das estrelas   & tornar logo ex-treta em cotidiano para que crimes não sejam cometidos   já há in-justiça demais sendo cometidas pelos arcontes   amaldiçoados sempre serão    amaldiçoados sempre seremos   sempre fomos
   sacrifico a criança da raiva   derramo o sangue-suor-lágrima sobre o altar-palco-picadeiro da infâmia   HOJE TUDO EXIGE SILÊNCIO   para que haja um amanhã onde a vergonha de ser brasileiro não esteja na mente de quem ainda tenha capacidade de sentir vergonha   A AÇÃO COMEÇA DEPOIS QUE A RAIVA PASSAR

   é o tempo do esforço profundo para compreender   entre a festa & o luto   o absurdo & o plausível   a raiva & a euforia   não individualizar a culpa coletiva   não socializar a inocência individual   estamos no jogo da kryia-yoga   estamos no fluxo do doloroso despertar   não mais efeitos sem causas   crenças   não mais atos sem consequências    impunidade   mas o momento da colheita   onde tal coincidência de opostos sonâmbulos emanam enfim o consciente desperto
   & assim do ritual emerge o que pode haver de mais sagrado & banal   força & paz interior   & que se propague...



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