9 de out. de 2021

Rito Vício

 

Purificação
   perfume do pecado
      escorre em gotas, secretas
   no rito autônomo da embriagues,
Antes
   o dia vislumbra a noite
enquanto
   a noite ainda sonha com o dia...
Santificação
   pela satisfação...
Cores escuras, que fogem da luz
   engendram paredes
      de alcova opacas
         com paisagens de colisões
empregnadas pelos cantos...
Mínimos espaços se abrem
   & o êxtase emerge
      pelas feridas do vício...
Desde sempre,
   relembre,
      a morte sonha com a vida
& dois corpos vivos se matam
   sujando & purificando
até o fim da fome
   (noite...)
& início da solidão
   (dia...)



8 de out. de 2021

Pendu

 

Em força...
   o enforcado
Judas juras ajuda
   pende rude acima do chão
      pés goela olho mão
& sua ereção

Sob o abismo
   beira nada mar falha ar... pendão
Entropia & excreção
   pendurado
      ainda dança pendular
   em sua tensão

Voltar pra casa
   o teu aberto carmin vão




6 de out. de 2021

Carbono23

 

fluxoextasia
  entropia da realidade
sono sonho soma de nós & sós
da medula incha & infla retorno
   o sangue crustaceando ossos
      unha cabelo cornos,

coma das marés
    em sumo sal carvão...

corpomar em suas marés
   de sangue lágrimas suor sêmen apreensão
ondas arremessadas
   quebrando na praia emocional
fadiga oceânica idílica
   em remanso de esgotamento
sob pressão atmosférica ampla
   aneurisma onírico prisma manso
agride, inflama
   essa derradeira
      súbita satisfação.



5 de out. de 2021

Shakti

 

Sobreviver à própria vida
   estando inconsciente ao jogo
      cruel & banal
         do cotidiano...
(Ela mergulha cega
   em cada renúncia,
   em cada peso sobreposto
   na apreensão ao acaso
   de ser quem é...
& dispersa
   inconsequente
   em si
   não se reconhecendo...
Eu sou atraído
   como matéria morta
   pelo buraco-negro
   no centro dessa confusão galática...)
Eu imagino, só me deixo levar
   pelas colisões aleatórias
      que formam um novo drama
Um antigo novo drama
   no repertório casto
      do eterno-retorno...
& releio as memórias
   redefinindo o presente
      eu caio
         na dança-tonta da realidade...
& remassacro
   velhas falhas
      nas quais estou em repouso
Na velocidade estonteante
   do espaço em que se percorre
      abaixo da luz das estrelas
Repasso lugares diferentes
   & sorvo do Corpo de Glória
      conspurcado de outra mulher...
Todos no mundo
   estão doentes
      insanos casos sem cura
         causados pela existência
Mas ao me alinhar à você
   busco a imensidão do erro
      que sou chamado a corrigir
          dentro & fora
              deste todo nosso
                  Kali-Yuga.



4 de out. de 2021

Convulsão

 

Sonhos
   em convulsão
Campos oníricos
   sob tempestade
      de areia & luz alheia...
A ternura
   o único hábito
      que ainda nos falta
Surge na vida
   & migra
      para dentro do sono
          querendo nos despertar...
Na titanomaquia
   dos dias
      caímos & nos levantamos
Engolindo pó
   & cheio de feridas & de gozos...
Mais cançados ficamos
   do que se açoitados
      pelos excessos & pelo nada
Cançados de sonhar
    convulsivamente com o amor...



2 de out. de 2021

Contato

 

O conflito da vida
   agita os átomos mais velhos
      que aleatoriamente compoem
          essa máquina-macia
& remete ao fundamento
   de que antes devíamos
       transformar o animal em máquina
           & agora temos que transformar
               a máquina em animal...
Eu desfruto do contato
    com tua carne aleatória
        lançada no tempo & no espaço
            para perecer,
Eu desnudo a verdade
    que podemos fazer
        bom uso desse choque de interesses,
Nos colidir & tremer
    desfrutar do contato
       antes de morrer...
Na noite que engendra abortos sem sentidos
   do querer & poder
       como o fruto da gratuidade
           & nos damos felicidade...
Na noite vaga aberta entre os dias
    rememoramos a dor afastando-a
       & lançamos a vergonha
           na falácia breve
               que mesmo assim a destrói:
Nós nascemos para acabar
& enquanto duramos
   nos curamos com contato!



28 de set. de 2021

flor esta

 

fechada mata
   dos sonhos meus
         seus
    selvagens, nós
danadas feras
   domadas pela distância
   dominadas pela fome
      feridas de vazio, em
árido jardim
   de carnívoras rosas
      com espinhos elétricos
   que se devoram ao contrário, no
pomar de heras vinhas
   & alucinógenas frutas
       de fúria amanhecer, nesse
             bosque de sussurros
         dentro do abismo, esse
                outro incontinente
      explorado por quem não retornou
não-lugar, refúgio
    onde flor canibal devora
            & ao bem soa
                                                               ali, além...
  


 

25 de set. de 2021

Arcano X

 

Era dia, era noite
   eras & eras se passaram assim
      ergui, finalmente, a cabeça
         para fora do monte de escombros
            onde mergulhei
   pó & restos & medos & traumas & tudo mais
Ali onde cai
   por causa de ti
      derrapei nas tuas curvas
         na pista suja em sua volta
Mas curva que joga para fora
   é curva que joga de volta
      para o jogo
                     do amor
Volta completa
   na Roda da vida
Em baixo em cima
   em si mesmado
      em ti
         longe
            do mesmo
               do outro
                   lado
Perdido & salvo
   pelo que mata
      & pelo que cura
   esse querer
      crucificado
          salvador salvo
Erguendo a cabeça ou falo
   a ferida aberta
      fechada
         nunca cicatrizada
Só se pode conviver
   se portar diante de sua dor
      não calá-la
    alimentar de seu lascivo
        grito
& dele fazer canção
Era, agora é outra coisa
   & depois será outra
Dos restos
   resta se livrar.



21 de set. de 2021

instante

 

instante de prazer
    lágrima que quer ser chorada
instante de luz
   dos olhos fechados
rogai
   rasgai
      por nós
         nossa carne
            em desencarne
convulsão confluência
tudo irá acabar
   mas
      ainda não...
por um instante
   ainda não...



20 de set. de 2021

A Intensa Gratuidade

 

_ _ _ descontinuado
   passos largos
      cada dia
   tudo que passou
foi um presente
                      no passado
A memória convulsiva
   quer a infinita instantânea
                                       permanência
Mas tudo que tem
             é o pós_ _ _ _

Ao que o corpo quer chorar
   como um rito
      de fúria do despedir

Já não bastante qualquer chance
   ou promessas de repetição
Quer-se o INTENSO do perdido
   quer-se voltar ao lar abismo
em queda, vertigem
                           eis nossa origem
   & estado natural

O que nos lembra
   o riso, o toque, o gozo, o deslize...
      a GRATUIDADE!
          a santificada gratuidade...
   que muitos, a maioria,
      na fartura de suas pobrezas
          não sabem reconhecer
                 o mel que brota
                       sob a areia
                           de seus
                                      _ _ _de_ser_tos_ _ _



18 de set. de 2021

Notas dispersas no sábado eterno da sobrevida

 

Gasto vasto tempo
   dobrado & redobrado sobre si
Mácula de um mesmo dia
   tornam, retornam, entornam
& só eu sei
   só eu sinto

A vida encurta
   a chaga aumenta
& ainda estou
   no mesmo lugar
A vida estende
   experiência acumula
& ainda sou
   o diverso tempo

Apesar de pouco moço
(...me sinto são & salvo & forte...)
   & recinto louco perdido fraco...

Sábados passados, morri
   nesse sábado não morro‽



15 de set. de 2021

Refúgio Refugo

 

Não há mais refúgio lá fora
   todas as realidades materializadas
      não deixam espaço nem tempo
         para o amor.
Procuramos  uma espécie de sossego
   mas abalos sísmicos
      tiram o chão de nossos pés
         à cada excremento de conexão.
Avançamos no túnel, circular
   espiral de insanidades & involução
      & perdemos de vista
         o que seria melhor.
Não há mais beleza lá fora
   todos os sonhos foram roubados
      por ladrões que tinham nossa permissão
         para nos enganar, nos drogar.
Perdemos o que não sabíamos que tínhamos
   o chão, o corpo, a cara, coragem, coração
      & quando sentimos falta de asas
         descobrimos que nunca tivemos.
O refúgio ainda é o amor...
A quietude ainda é o carinho...
O melhor ainda somos nós...
Mas... outros valores nos assolam
& agora há os poucos que tem alma
   & a multidão que a perdeu...