14 de set. de 2021

AlémAntípodas

 

Da convulsão dos vermes
   à dor megalomaníaca
      das estrelas que morrem,
Passando pela quietude móvel
   de uma caminhada ao fim de tarde,
Meu corpo & pensamento
   pairam em queda lenta
      diante de descontinuidades
         no cotidiano...
Embrenho-me pelo labirinto mapeado
   das ruas da cidade
& assim
   meus olhos veem
      novas paragens...
O improvável
   o inimaginável
      o desapercebido
          está à um instante
              medido pelos passos
    em uma nova curva do caminho...
& as rotas no tempo & no espaço
   se sobrepõem
Antípodas experimentais
   entre o desvelar & o dessaber
      me deslocam mais
         ao Sul do Sol...
Adentro portas nunca impostas
   trilhas redesconstruídas
      esperando passos aleatórios
         redefinindo imediações
            & mediando a imaginação...
Então me perco
   à poucos metros do que repiso
      & a mente se delicia
         em vivenciar a magia do imprevisto
Lugar nenhum dentro de nenhum lugar
Descortinando
   coisas que uns conhecem
      & outros não...











13 de set. de 2021

Relés Irrelevância

 

"A sabedoria é o
excremento da
experiência."
-Austin Osman Spare

Na maioria das vezes quero falar de nada
(Nada sei & o para além disso me cansa)
Escrever sobre insignificância relevantes
    de ser & estar...

Na maioria das vezes a inspiração não emana
& concordo que é isso:
   -cada um é um ponto único
    da miríade quase infinita
    de experiências na existência...

Sei que o importante
   é experiênciar
Mas não sei para quem
   ou para o que isso importaria...

Se é só para mim
    então sou o sumo do vir-a-ser
Se é para um deus
    então sou só um ponto no tecido
        nos perigos do ser-a-vir...

Mas sigo na correnteza
   dessa vir...tu...alidade...
Como um "programa" senciente
    que implantado no mundo,
        não me importando com os resultados
            de minha passagem por aqui,
Apenas desfruto...

Dizem que herdarei uma estrela
   prefiro pensar que trilharei uma estrada
Dizem que a natureza me teceu
   enquanto se pode experimentar de tudo
      mas prefiro filosofar sobre o nada...

Me sinto
    no fim de todas as coisas
Experimentando princípios
    de dissolução....



10 de set. de 2021

Nous

 

Querendo ficar fora,
   deixe-nos longes
      do santo sacrário
         de todo meio-dia ou meia-noite...
Bailamos com a música imaginária
   soma de todas as canções reais
& celebramos nas transições
   onde corpo & alma
      estão de pé dispostos a pular
         nos abismos dos limites...
Auroras & Ocasos
   são nossas cores
      nossas bandeiras de guerra
         & refrão de discordia
            com a qual insultamos
               os cegos os surdos os vivos...
Abraçados na queda
    em que estamos
      de saber não sabendo
         de tudo & do nada...



6 de set. de 2021

Benção do Dissolver

 

Dores distintas
   arranham & mastigam a carne
& faz certas partes do corpo
   existirem
      mais do que outras.................

Penso na vida
& em cada morte
   que uma dor pode representar
& tremo
   terrormoto até a possibilidade
      de poder tudo esquecer.................

Vivendo em tempos
   de mortes iminentes
Aprendemos à ignorar
   tendo as coisas sempre em mente
Como se a morte, esse dissolver
    não fosse um cançasso ancestral
       de toda carne
          & espírito....................



5 de set. de 2021

Encrave

 

O espaço é nossa herança
   panaceia contra o cancro do tempo
Onde tendemos ao repouso
   & o perdão antecipado
      por toda nossa errância
Ali se aloja teu corpo esquelético
   que venero mãe das caveiras
Nas farpas onde
    arranco conforto
& colido com minhas maneiras
O tempo tende em separar
   pelo esquecimento
      & a distância dos dias
Mas é no espaço que brotam as coisas
   a flor
      a fauna
         teu corpo
            a saudade
               & tudo mais...
Mas há também a senda
    sem começo nem fim
Onde te encontro
   perdida
      apesar dos meus "Sim!"



4 de set. de 2021

Sabbah

 

a tarde passa
   deitada nas presas da sonolência
longo calor
   breve profundidade do sono
& no ar
    a morte da inteligência
sempre presente
    no clique do controle remoto

Eu me intero
Eu me remonto
& distancio-me mais
Do moderno toque da porcaria da TV...
Onde fantasmas revividos
Caminham assombrando a razão

todo o toque do arrebol
   penetra do lado oposto do Oeste
& acumula de penumbra de 6 horas
   a tumba casa
onde em desespero
   faço planos de abandonar

Mas não há para onde ir
Não há fuga para o outro lado do dia
Tudo é uma lonjura do normal
Tudo é um ficar incondicional
Sem encontros de corpos
& nem sequer promessas sobrenatural

 


 

2 de set. de 2021

No fogo...

 

"O manto do orgulho é a vergonha.
As Prisões se constróem com as
pedras da Lei, os Bordéis, com os
tijolos da Religião.
O orgulho do pavão é a glória
de Deus."
-William Blake in 'Provérbios do Inferno'


Eu não via
   mas sentia como olhar
      que não olha, mas vê & é visto
         percebia
Como cego
   na profunda claridade
      da escuridão

& assim sentia
   mais do que o incontido
      o engasgo do orgulho
Preso, reprimido
   do que seria
      toda aquela conjunção

Pois há pessoas
   que portam o trunfo da vitória
      & da realização de seus sonhos:
É a destruição posterior
   de tudo que tocam
Como fogo
   que queima a lenha

Porém há fogo & fogo
   como o que me tocou
      & que toquei, não era meu
Mas também o tenho
   & assim como veio, incêndio
      outros lancei
& eis que também os preservo
   até que ardam

Eu não via
   & ainda assim previa
Pois há pessoas
   pessoas & despessoas, fogo & fogo
Escuridão, luz
   lenha & cinzas, pra renascer
& todos não enxergam
   mas ardem





1 de set. de 2021

Despertar Setembro

 

   ...a...cor...da...
Como quem desperta/despedaça
   tal qual gota d'água que desaparece
      nas águas de um lago
Espalhando onda
   até os olhos que choram...
Está aí o dia
   para você ondular
      flutuando pela profundidade
         das águas...
Correram-se águas, ondas, horas
   dias, meses, anos
& parece que estamos de novo
   sobre o sepulcro do mesmo momento
      de amor & dor...
Desfaz os nós
   transparente, líquido
Precipita, evapora
   inodoro, incolor
Lágrima, de riso; suor,  de alívio...
A gota arremessa-se
   já confundindo voo com queda
      no precipício da data
         que nem havia terminado...
Até
   enfim
      aquietar-se...
   ...a...cor...do...



30 de ago. de 2021

Samsara

 

Se o objetivo é o Nada
Nossa parca estrada
Só pode ser a senda de Tudo
Em que se resume o mundo

Os deleites
Os delírios
Os defeitos
Os decoros
As memórias
As experiências
As carências
As exuberâncias

Se o objetivo é o Nada final
Percorremos pelo Tudo marginal
& não nos perdemos
Pois não há caminho errado

Chega-se à Eternidade de assalto
Pelo pecado & pelo perdão
Caminha como arauto
Mas também como ladrão
A santidade colateral aos excessos
Dessa lucificação em processo



27 de ago. de 2021

Andarilho

 

Carrega a linha imaginária da fronteira
   ali entre um passo & outro
      o limite da subconsciência...
Depõe a sensação de exílio
   suspende, na pedra que imola
      o vício do silêncio
& zanza entre aqui & ali
   com cantos & sussurros
      borbulhando nos pés secos.

Olha para o Espaço
   como olha duas faces da moeda
& aprecia mais a sorte da cara
    do que o desvalor da coroa
Entretanto, diferente do metal
   cunha ainda um terceiro lado
      cara, coroa, coragem...

& deita com o Tempo
   sem hora para se levantar
Mas surpreende a aurora
   endossando a fogueira
      enquanto ergue acampamento
          para partir
Rumo a outro lugar nenhum.

Parte
   cara, coroa
Racha
   a trinca dos pés
Junta
   Tempo & Espaço no passo
& anda
   sem pressa
      não há onde chegar
Tudo é
   um imenso retorno...



25 de ago. de 2021

Prevalecentes

 

A extensa multidão
   nascida do pó da terra
      do soluço da lava
Que traz mansa magma nas veias
   & percorre com pés descalços
      & as costas carregadas
   as estradas do mundo
Não descansa
   como o Sol
      em suas efêmeras alegrias
         & pesadas tristezas
Mas vivem...
Se ferem, trincam, racham
   pelo peso que o mundo
      dispõe em suas crostas
& espalham pelos campos
   cantos & contos de prevalecência
Rescendem a terra
   de ocre suor, lágrima & fome
Mas inundando, encantam
    com o direito só seu
        de serem chamados
Humanos!



23 de ago. de 2021

Desalinho

 

Vida & cidade
   fora de prumo
      vivacidade
         não acham um rumo
Em desalinho
   a vida, como as ruas
   apesar de retas
      tortas estão
Não olham de frente
   nem as costas dão
      ao Sol & à Lua...

Correm despropositadamente
   de nenhum lugar
      para lugar nenhum
   a vida, como as ruas
      em um traço, um risco
         que não vai
            de Norte à Sul
Perpendiculares ao pêndulo
   & ao penhor
      perdidas...

Cama de gato
   trama, aparato
      mediante meridianos sem escala
   abaixo das Estrelas
       sugados em seus rumos
   pelo Buraco Negro
A vida & as ruas
   por onde passamos
Um emaranhado
   assim em cima como embaixo
Portas da frente, quintais...