30 de ago. de 2022

(120 Dias de Sodoma)

 

Nós nos perdemos muito tempo atrás, antes de nos conhecermos. Já vínhamos tão errados, por causas naturais, por decisões morais...

& adentramos no labirinto do tempo, cada vez mais dentro & profundo & escuro & irretornável... Nós nos perdemos muito antes de perder um ao outro.

Nos encontrar foi apenas a colisão de dois corpos sem rumo. Jogando a fantasia da alegria em plena compulsão da insanidade. Incontroláveis, cada um em sua ilusão, fugindo da tristeza & de si mesmo...

Só encontramos, um no outro, novas maneiras de nos ferirmos mutuamente, nada mais! Desde o olá sem "Olá!" & o adeus sem "Adeus..."

Perdido já estávamos...  & seguimos assim depois do pouco tudo que tivemos juntos!

A memória do tempo antes de nós já perdemos, a lembrança do que passamos juntos é duvidosa, e tudo ruma para ser esquecido, como sempre... & sem... & se...



22 de ago. de 2022

Correnteza

 

Tempo água
   dai-me de beber,
      preciso me afogar...
Eu me encharco
   do amor líquido
      que minei
De dentro dos poros
   torturados
      pelo roçar da carne...

Dizem dos homens oceânicos
   que perdem tudo que quiseram,
Que eles só tem a sinceridade,
   inevitável,
Nua como veste
   crua como pedra,
Assim sou eu
   rio, nuvem, lágrima
Sem mar, chuva, choro...

Água tempo
   da seca do amor próprio,
      preciso me afagar...
Eu me banho
   do amor líquido
      que caiu como chuva
Por entre os poros
   ressecados
      pela seca do coração...



18 de ago. de 2022

...continuar

 

eu
tenho
que
continuar...
por pirraça,
por birra,
só pra provar
para os vivos
&
para os mortos,
os sentimentalistas
&
os insensíveis...
para
além
dos
muros,
dos murros,
do reboque
&
a maquiagem que se lava...
eu
tenho
que
continuar
a acreditar,
a praticar,
a perseverar...
por contrariedade,
por convicção,
por ideal,
poesia,
tesão,
dor...
no frio & no fogo,
quando
eu como,
bebo,
cago,
choro,
gozo,
fujo,
beijo,
eu só quero
continuar
sentindo...
eu tenho que seguir assim,
na luz,
nas trevas,
no verde,
pink,
azul,
sépia,
carmin...
eu tenho que ter,
dar,
receber,
falar,
escrever...
no papel,
na carne,
na casca das árvores,
blogs,
na minha
&
na sua memória,
tenho
que
continuar
crendo mais do que descrendo,
...no Amor!
odiando menos do que adorando,
...o Amor!
& do mesmo tanto,
viver
...do Amor!



9 de ago. de 2022

Esque_Cimento

 

Espera a luz passar
   como passa o vento do teu hálito
      sobre minha língua...

& dá um brinde ao fim do mundo
   com o licor grosso agridoce
      destilado esses meses...

Tudo ficou imóvel de repente
   & como tudo que para
      começa a ser puxado de volta,
         para trás, de onde saiu...

Nos braços nada
   como se nada houvesse havido antes
      & é como a morte, não há o que dizer...

Esperar a luz passar
   o sol baixar, o vento cessar
     esperar morrer tudo de fome, sede, silêncio...

Dar um brinde ao fim do mundo
   enquanto tudo tudo acaba
      acaba de egoísmo & distância...

Enquanto a poeira levanta
   & engana nossos olhos
      calcificando as lágrimas para elas serem pilares, esque_cimento,
         para uma nova dor!



8 de ago. de 2022

Logo eu...

 

Logo eu, devoto do Caos
   tentando nadar contra a correnteza
Tentando dobrar o brilho das estrelas
   para dançarem conforme
      a música bonita de um amor idealizado...
Logo eu, habitante do Abismo
   tentando fugir do fundo poço
Tentando por a cabeça pra fora
   da tempestade plantada
      com as sementes de brisa da paixão...

& agora
   quando o buraco negro arrasta tudo
      para a inexistência
Tento amarrar com desespero
   aquilo que é incontrolável
Mas ainda vou dançar,
   caoticamente, em plena queda eterna,
      ao som da música da esperança
         que chamam Eterno Retorno...

Eu sei
   eu estraguei tudo
Mas eu trabalho para o buraco negro
   eu trabalho para o Caos
      & para o fundo do Abismo eu arrasto tudo
Incontrolável
   devorando galáxias
Só escapa da minha fome
   os fantasmas que vagam perdidos
      por entre a escuridão do espaço...



5 de ago. de 2022

Teatro da Vida

 

Teatro da vida
   devida, nunca paga, sem créditos
Drama das Quintas-feira
   seu corpo, quase incorpóreo
      sem sorriso, sem acesso
Nos excessos que provamos
   para nossa secreta desaprovação...

Sobe as cortinas
   encena uma tragédia
Brinda à Baco
   no vácuo que deixamos
      para a platéia que assiste
Na simulação bem ensaiada
   que é nosso "olá!" & nosso "adeus!"

Teatro da vida
   rolando paus & pedras ladeira acima
Cada um, um bode expiatório
   do que desejou
     & finalmente conseguiu
Inutilidades desapercebidas
    quando todo sentimento só vale enfim, o cançasso de recomeçar a amar...


Baixa as cortinas
    corta os dias, semanas...
Agora já medimos o que passou
   pelo silêncio em cena
      até ficar insuportável
Não vamos ter aplauso
    nem beijo de despedida, por abandonar o palco.



1 de ago. de 2022

1⁰ de Agosto

 

Despe a noite & veste a manhã
   Levanta com uma blasfemia estranha
O corpo obedece ao impulso da vida
   A alma não se importa com isso
...
   ...
...
   ...
Já é tarde às 4&30 da manhã
   Nunca parou de terminar & começar o dia
O salto no escuro da novidade
   Convida a lutar & desistir
...
   ...
...
   ...
Pensa já nas 5 da tarde
   Pensa já no dia da morte
Almeja mais do que tudo
   A graça de parar de pensar
...
   ...
...
   ...
Joga as flores no abismo
   Bate uma para o caos em forma de mulher
Toma teu café amargo
   & come o pão das máquinas
...
   ...
...
   ...
As horas não pararão
   Todas as coisas ficarão no lugar
A saudade não vai passar
   & mais esse dia todo acabará outra vez
...
   ...
...
   ...
Quando a noite chegar
   Vai te pegar na rua olhando o sol se pôr
Corre de volta pro sono
   & sonha com o novo amanhecer
...
   ...
...
   ...
Veste a noite & despe o dia
   Deita com uma oração desconhecida
O corpo desobedece só impulso da morte
   A espirito não se importa com nada



27 de jul. de 2022

Instante

 

Abençoado instante
   em que acordei sem saber que horas eram
      & nem o dia, o lugar
         & sem lembrar de você...
Nesse bendito momento
   em que despertei sem lembrar meu nome
      sem saber quem era, quem foi
         eu & você...
A benção do esquecimento
   de um segundo
      me levou de volta
         à paz, mesmo que pouca...



25 de jul. de 2022

Cada um...

 

Cada um
                    sai por aí 
    Sozinho
Para buscar sua cura
Cada um sai por aí...

Na solidão
                       de si
   Desesperados
Para encontrar uma cura
Cada um sai na solidão de si...

Eu não queria estar só
Mas há caminhos tão estreitos
   esses caminhos de volta
Que cada um tem que percorrer sozinho...

Eu não queria deixar você só
Mas saiba, há carinhos tão perfeitos
   que duram mesmo depois do toque
Sinta o meu, eu sinto o seu...

Lá fora, ou longe dentro de si,
Nós saímos por aí, cada um & um,
   em busca de uma cura
Na persistência de um carinho...



22 de jul. de 2022

Apocalipse

 

As coisas não contadas
   Estão contando tudo
      sobre nós por aí

Os segredos escondidos
   Escancaram lá fora
      nossas loucuras

As ruas da cidade
   São testemunhas cegas
      de nossas tramas

Já reguei com lágrimas
   Os jardins que eu queria florir
      antes de te conhecer

Você já fertilizou com sorrisos
   Os desertos baldios
       que eu tentava cruzar

Enchemos abismos
   Com restos de felicidade & tristeza
      que dispensamos antes de trepar

E finalmente se definiu
   O novo conceito de Caos que procuravam
      & estava inscrito no chão onde nosso suor caiu

& nos bares, feiras, bairros, vilas
   Colam cartazes de "Procura-se"
      pela nossa vergonha perdida

Na boca de cada um
   Já não cabe o dicionário
      de escândalos que vivemos

Os dias da semana foram extintos
   Só no tempo existindo
      os dias em que nos vimos

& nós mesmos já somos informantes
   De nossas proezas perante a família
      amigos & estranhos ignorantes

Sabendo viver um apocalipse
   Devoramos cada segundo juntos
      com a fome do fim do mundo

Rumamos sem saber & dizer não
    Para um ponto de não retorno
       onde o 'tudo ou nada' será de novo uma revelação


 

21 de jul. de 2022

Inverno

 

Me arrasto para fora & convido o frio para entrar em mim
Abro minhas portas às folhas secas rolando com o pó do chão
Abro as frestas do meus poros fechados às partículas de gelo
Que contaminam o ar com o peso de sua febre de morte & renascimento
Sejam bem vindas, façam abrigo em mim
& me protejam de qualquer sentimento...

Nesses dias, enquanto o mundo se afasta do sol
Tenho sentido as vertigens da inutilidade de tudo
Imerso em um teatro de desespero
Onde as verdades emergem como se saída de rochas glaciais
Elas exalam como frio em um rodopiante arrasto da entropia
Até o fundo imóvel & dolorido da impossibilidade do que fazer...

Eu só tenho seu beijo, eu só posso te dar meu beijo
& o fio mínimo & desesperado de calor que vem desses lábios
Só tenho para me salvar o paradoxo desespero que sou para você
& a impossível presença perene que você é para mim
Eu convido o frio para entrar & me petrificar
Para que em eras futuras encontrem esse fóssil de homem
Esperando um lugar & um tempo
Onde se possa sobreviver sem te querer...