26 de abr de 2014

Sobre “Pedras, Plantas e outros Caminhos”


"Pedras, plantas e outros caminhos" é um documentário que conta a história de um AT (Acompanhamento Terapêutico) feito por Thais, a acompanhante, a Ney, o acompanhado. O filme cartografa encontros, agenciamentos coletivos que foram tecendo e se tecendo no vínculo entre a acompanhante e o acompanhado: gestos, tons, olhares, risos, gritos, cantos, ventos, conversas, plantas, pedras... estórias que compõem esta intensa e difícil busca de produção de cuidado e autocuidado em saúde mental, acontecendo ali onde vive o acompanhado, na rua, tendo ele um transtorno mental grave e fazendo uso prejudicial de drogas. Trata-se de uma complexidade em processo, de onde o filme foi apenas um recorte, um traçado a respeito de uma experiência clínica, e que somente poderia ser contada de uma forma poética. O filme funciona como intercessor para que se possa contar esta exitosa experiência de cuidado a céu aberto. O que se espera é que o documentário possa fazer proliferar outros saberes e práticas de cuidado e reinserção psicossocial, funcionando como um dispositivo ético, estético e político de resistência e produção de subjetividade e cuidado em saúde mental.
Este filme foi realizado pelo Coletivo de ATs com a coordenação do prof. dr. Ricardo Wagner Machado da Silveira do Instituto de Psicologia - IPUFU; em parceria com a equipe da TV Universitária, com a produção de Sheila Nogueira; trilha sonora do Grupo de Percussão da UFU com a direção do prof. dr. Cesar Adriano Traldi do curso de Música. 
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   Assistindo o documentário sobre o atendimento psicológico de Acompanhamento Terapêutico (AT) desenvolvido por estudantes da Universidade Federal de Uberlândia, o qual gira em torno da figura do morador de rua Ney que habita nas imediações da Praça da Igreja de São Cristovão no Bairro Brasil, tive muita coisa para pensar.
   Gostaria primeiramente deixar claro que não sou um terapeuta, me atenho ao lado filosófico e espiritual da situação humana, então tudo que direi aqui não passa de “teorias”, não haverá, para muitos, nada de prático, como o precioso trabalho executado pelos membros do Coletivo de ATs e seus esforços em divulgar seus métodos. Minha reflexão circundará a situação humana e procurará estender esse exercício filosófico à sociedade, para por fim ser um material de crítica social e daí ter alguma função, que seja pelo menos psicológica.

   Morando no Bairro Brasil, cresci frequentando com meus pais a Igreja de São Cristovão. Ali acompanhei desde cedo a triste sina existencial do menino Ney, e ao longo dos anos, mesmo não comparecendo frequentemente à igreja, vejo constantemente o Ney pelas ruas do bairro, aqui e ali. Noticias de sua condição ainda me chegam em casa, entre uma conversa e outra com meu pai ou até com amigos e comerciantes das imediações.
   Do pouco que sei da vida do Ney é que cedo ele começou a usar narcóticos, tal iniciação, em minhas lembranças, parece ter sido uma espécie de constatação de certa forma sem escândalos na comunidade da igreja, da qual seu núcleo familiar é vizinho. Lembro de um dia meu pai citar que o Ney estava “afundando na droga!”, ou algo assim, isso a cerca de uns quinze anos atrás, se a memória não me engana.
   De lá para cá o degradamento humano do rapaz saltou aos olhos. Dissidências com a família, sua avó, que pelas línguas alheias era um relacionamento tumultuado. Internações e recaídas até que ele “saiu de casa”, mas nunca saiu das imediações da praça.
   Ao longo desse tempo, desde sua tal “iniciação no mundo das drogas” até hoje, o ambiente dessa espécie de submundo sofreu uma alteração terrível e com ela toda nossa sociedade, quando as plantas começaram a ser substituídas por pedras na vida dos adictos. Nossa sociedade descobriu muito tarde, anunciado um dia finalmente na TV domingo à noite sobre a nova epidemia de drogas representada pelo Crack.
   Depois desses tempos, o álcool, o cigarro e a cannabis pareceram ser rebaixados em seu status de moléstia social e familiar e o poder deste subproduto do refino da cocaína nivelou os seus usuários à um nível quase inumano. O Ney é uma dessas pessoas, que por sorte ou azar da vida, sobrevive ao longo de muitos anos carregando o fardo pesadíssimo do vício em Crack.
   Se toda nossa sociedade acordou tarde para os perigos do Crack, a comunidade em volta da Igreja de São Cristovão não só perdeu também a hora de acordar, como dormiu profundamente dentro de um pesadelo que zelou com olhos cegos de indiferença ou tamanha inocência provinciana, que hoje este rapaz se tornou a materialização da vergonha de nossa inconsciência social.
   Digo isso porque o Ney cresceu e diminui ao lado de todos nós, praticamente dentro da Igreja. Neste período passaram por ali talvez uma dezena de Padres, uma centena de participantes costumazes da paroquia, e mais milhares e milhares de pessoas em busca de Deus, e mesmo assim, pouco se fez para desviar o Ney de um caminho tão nefasto. Alguns tentaram ajudá-lo sim, mas sempre prevaleceu aquilo que todos viam como a escolha pessoal dele, e não a vontade das pessoas que o tentaram ajudar.
   É claro, não estou aqui culpando ninguém da Igreja pelo que acontece à vida deste rapaz, mas me abisma (e podem dizer que sou cínico ao dizer isso) ele ter se tornado o que se tornou diante de toda uma comunidade cristã organizada.
   Isso me lembra um mote que certa vez ouvi em um filme que assisti: “Por que é tão difícil salvar alguém?”
   Todos temos respostas para isso, desde as preocupações com nossas vidas, os problemas que temos dentro de nossas próprias casas, o fato de alguém não querer ser “salvo”, a periculosidade que gira em torno dessa situação especifica, onde há também a figura do traficante, das bocas de fumo, e a sempre presente covardia humana escondida sob todas essas, até justas, respostas.
   Esse é apenas um ponto de minha reflexão, uma vergonhosa mea-culpa que não leva a nada, como toda teoria, mas que capacita a reconhecermos que o Ney não é só uma caso de mais uma pessoas estraçalhada pelo vício em drogas, mas é um produto de nossa própria incapacidade ou coragem de fazer uma coisa melhor pelas outras pessoas, mesmo que elas não queiram, mesmo que elas sejam fracas em vontade e que a dependência seja tão forte, etc. Existe sempre algo a se fazer, e em situações como essa a palavra Coragem sempre surge no meio da práxis, por isso me admirou profundamente o processo levado a cabo pela Acompanhante Terapeuta do Ney, Tais. 
 No simples ato de estar presente, de se aproximar que não fosse para dar esmolas ou rir junto ou ridicularizá-lo, ela tenta dar ao rapaz uma coisa que talvez ele nunca teve, um ponto humano para se apegar. O acompanhamento, eu vi assim e me corrijam se eu estiver errado, é uma espécie de ancoramento à realidade de um indivíduo que se desfez.
   Estar ali, chamar para conversar, cantar junto, denota uma situação imprescindível para qualquer um recuperar sua humanidade perdida, pois a humanidade de cada um de nós nunca é sentida quando estamos sozinhos, a humanidade é um sentido coletivo que carregamos individualmente, uma parceria no mínimo, e foi isso o que talvez nenhum de nós da comunidade nunca tenhamos feito pelo Ney.
   Esta menina magrinha, de olhos extremamente tristes, mas que mostram um espírito profundo, é uma espécie de lume no meio de toda escuridão e tortuosa irrealidade que se apoderou da mente do Ney, e lhe disse, em silêncio: “Olha aqui Ney, olhe para mim, fale comigo, eu sou uma porta aberta por onde você pode voltar para o mundo…
   Mas mais do que isso em relação a ele, ela é também um sinal para todos nós, para todos os que passam diariamente por aquela praça, por aquela igreja, ela fala também com nossos próprios problemas, com a doença social que carregamos dentro de nós, talvez muito mais nociva do que o vício em drogas, ela representa, junto com seu Coletivo todo, uma salvação para nossa condição humana também.

   Philip K. Dick escreveu em uma nota final de seu livro “O Homem Duplo” que todos os que “brincam” com a vida são finalmente punidos (Dick, pp.305-307), ele se refere ao uso abusivo de drogas, e dita que o “inimigo”, o punidor desses, foi a própria escolha errada de brincar com a vida. No caso do Ney não sei se isso vale, pois por mais que me lembre do rapaz feliz e bem vestido cantando músicas sertanejas nas festas da igreja, parece que quem brincou nesse caso foi a nossa comunidade. E qual será nossa punição?
   Sempre quando vejo o semblante do Ney, um ser humano desfigurado, alguém que facilmente poderíamos dizer que teve sua alma despedaçada pelos tóxicos e agora vive como um animal pelas ruas, sempre sem camisa, rindo e conversando sozinho, dormindo sob marquises… um frio corre na espinha e sinto que nossa punição…, não, a minha, é que também perdi um pouco de minha alma ao não ter feito nada por ele.
   Se é verdade que somos seres coletivos, que a humanidade somos cada um de nós em uma soma final, então a dor e confusão de cada indivíduo humano despedaçado pelas drogas é também a dor e confusão de todos. Em que tragédia estamos metidos!
   Essa tragédia então é maior quando de repente não estamos falando mais do Ney, mas de nossa sociedade inteira, estamos falando sobre o “problema das drogas”, e as coisas se tornam muito mais amplas e complexas.
   O método de AT revela uma simplificação, ele não quer mudar o mundo, isso não é possível. E em organizações de Ajuda em Grupo, as primeiras coisas que aprendemos é reconhecer nossa doença ou deficiência moral, entendermos que podemos ajudar a nós mesmo, um dia de cada vez, etc.
   Entender que mudando a nós mesmos mudaremos o mundo é uma coisa aliviante, pois o que há de menos abstrato nesta equação é o indivíduo, somos nós mesmos, e assim o indivíduo se abre também como porta de mudança para a sociedade. Salvar um é salvar todos!
   Como disse William Burroughs no livro “Almoço Nu”, “o viciado nas ruas… é o único fator insubstituível na equação” da droga” (Burroughs, p.245 e ss.), ou seja, quando não mais houver dependentes não haverá tráfico de drogas, e em uma geração pode-se acabar com os problemas das drogas, teoricamente.
   E aí podem rir da simplicidade da constatação, mas por que ainda não o fizemos? Vão dizer, por justamente não ser simples assim?! Mas é!
   Para encurtar esse ponto de reflexão, posso dizer que existem medicamentos, somados à terapias que podem livrar as pessoas de qualquer vício, até do Crack, o que falta é interesse de cima, pois gira em torno das drogas muito, muito dinheiro, dinheiro legal e principalmente, dinheiro ilegal. E nosso sono vai gerando um monstro cada vez mais forte!

   De uma forma muito contundente a existência do Ney adentra e se confunde com a existência de cada um de nós, se tornando arquetípica a situação desse rapaz diante nossa comunidade principalmente, e eu enquanto pensador não posso me refutar a pensar sobre isso.
   A doença que ele carrega, seu definhamento público, passa por um problema de saúde física particular a um problema de saúde mental de todos nós, um problema espiritual. Vejo a sincronia destas relações se desenvolverem ao lado de minha vida, de minha família e meu lugar de existência com severidade, como sempre enxergo as questões psíquicas que me envolvem, pois é disso que tiro o substrato para minhas reflexões e meu autoconhecimento. O Ney faz parte de mim, e gostaria que os meus vizinhos, o pessoal da igreja de meus pais e todos no bairro pudessem ter a sensibilidade de refletir um dia assim. “Gostaria”, não sei se um dia um ou dois por aqui irão. Talvez existam os que tenham feito isso…

   Uma pessoa usa droga para “anestesiar” uma dor, e todos nós temos uma “dor” latente, física ou existencial. Para aliviar a dor alguns usam televisão, outros cigarros, uns usam sexo, outros comida, há aqueles que usam esportes ou o trabalho para não se concentrarem na dor, alguns ainda fazem uso da religião ou do ateísmo dialético, mas todos são viciados em algo para suprimir a dor constante que surge com a vida.
   Ela está aí, a cada momento, uma dor em forma de preocupações financeiras, uma dor constante em forma de carência amorosa, uma dor na forma de pobreza ou riqueza, uma dor que toma a forma de decepção cotidiana, mas é sempre a mesma, e o Ney a cantou no documentário com o nome de VAZIO, “o vazio que mora no fundo do meu coração”. É essa a fonte da dor humana perene, é ele que nós leva às drogas ou a qualquer compulsão.
   Talvez seja este vazio, mais do que o sangue ou a forma, que nos ligue a todos como seres humanos, como humanidade, e o vazio é sempre fome, e é o que ao final ligue o povo ao líder, o viciado ao traficante, fome. E fome é fome de poder.
   Poder é mandar, sim, mas poder é também potência, então o vazio humano se revela como uma eterna incompletude, uma constante tendência de reconhecer que podemos ser mais, que devíamos ter mais, e psicologicamente vai até ao ilimitado, o infinito que é Deus. Vida e principalmente morte bailam em torno desta questão da potência humana.
   Acerca disto então, como bem lembra o professor Emmanuel Carneiro Leão falando sobre “Juventude e Tóxico”, há um “problema do homem” e não um “problema da droga”, onde “na droga se põe em jogo a própria humanidade do homem(Leão, p.41).
   O professor faz uma profunda reflexão sobre a condição humana que não só cabe aqui então para refletir sobre a questão particular que estou falando, mas se abre à questão existencial humana de tal forma que poderiamos perder o rumo da reflexão se formos propensos a querer continuar cobrindo o sol com peneiras. Mas como eu disse que falaria de teoria, e não de prática imediata, como o trabalho do AT, entro no assunto. Mas não se engane o leitor, da teoria pode surgir uma prática correta também, e isso é a tarefa do pensamento racional que pauta qualquer ciência.
   A sociedade de nossa época vive sob a premissa da equação SABER = CONTROLAR = PODER, tudo que é humano está submetido a isso hoje em dia, desde nossa própria individualidade até nossa comunidade, e quanto mais implementamos isso na vida, menos LIBERDADE temos! Dentro disso se choca principalmente a questão da JOVIALIDADE, dos projetos de vida de alguém feitos enquanto se é jovem, no momento quando dá de cara com a realidade do mundo de hoje, a equação acima e a falta de liberdade impõem-nos então a DESUMANIDADE. Para se entender onde entra as drogas e seus efeitos sociais e existencias em tudo isso é um caminho “psíquico-lógico”. Cito totalmente o professor Carneiro Leão para fazê-los entender, ele pergunta:
“Como a juventude procura realizar a jovialidade no mundo de hoje?”
   E nos dá esta reflexão final:
“Não encontrando espaço para de expansão para suas possibilidades de futuro,a juventude contesta e contradefine o sistema de controle em todos os níveis da linguagem: no verbal e imaginativo, no gestual e perceptivo, no situacional e coletivo. Pois é aqui, na dinâmica desta contradefinição, que se insere o uso das drogas e entorpecentes. O sentido hermenêutico do tóxico é, portanto, essencialmente ambíguo. Articula-se em duas dimensões. Mais profundamente exprime a dinamização de um projeto de jovialidade e de futuro. Mais na superfície, nos caminhos de
sua concretização situacional, desvirtua-se num compromisso com a própria essência da sociedade afluente e da subjetividade moderna. Pois participa da mesma atitude de controle e domínio. É o esforço de controlar a própria jovialidade e de dominar o próprio futuro. É a tentativa de eliminar por uma técnica o próprio mistério do homem. O tóxico, que deveria ser meio de libertação da jovialidade, se transforma, pela dependência, que induz, na pior escravidão. Na escravidão de uma liberdade aparente e artificial. A conversão se torna aversão à jovialidade, a libertação se torna fuga do futuro, o misticismo se torna perda do destino próprio.” (Leão, pp.42-43)


   Nesta reflexão podemos então notar não apenas a condição de vida que o Ney demonstra, mas também a da comunidade que o cerca, e de toda nossa sociedade. Todos nós participes inconscientes em maior ou menor grau da destruição do futuro, pelo silêncio e conivência, na questão das drogas, estamos enterrando por nossa covardia, a renovação do mundo. Espiritualmente poderíamos dizer, como convém toda essa situação sincrônica, estamos assassinando Cristo constantemente no suplício da cruz.
   Digo isso não como um subterfúgio alegórico para causar polêmica, mas se entendermos psicologicamente o que vem a ser o símbolo de Cristo no mundo, nossa Personalidade Superior, é isso que definha junto ao Ney na frente da praça da Igreja São Cristovão.
   Costumo dizer, depois que participei de um grupo de ajuda para comedores compulsivos, que ao tentarmos conduzirmo-nos à uma exigido “renascimento espiritual” para nos livrarmos da compulsão, que Deus se revela muito ironicamente em nossas vidas, nos fatos cotidianos. Isso implica aquelas sincronia estudadas por Carl Jung quando do processo psicológico de descoberta e busca pela individuação, algo que deve nos levar à Completude.
   Eu vejo que todo o “Caso Ney” demonstra um pouco disso em nossas vidas aqui no bairro, um processo amplo, uma chance de autoconhecimento, o qual em comunidade não levamos à cabo por estarmos preocupados demais com as “coisas de nossa vida pessoal”.
   O documentário “Pedras, Plantas e outros Caminhos” se centra na explanação do método de Acompanhamento Terapêutico e usa o exemplo do Ney como modo de exemplificar o trabalho que é feito, mas ele fala, pelo menos para mim que me vejo como parte desta história, da situação não só do Ney, mas de todos nós que estamos envolvido nesta história, e por isso me sinto também em processo de acompanhamento pelos doutores, e vir aqui assim refletir e contribuir.
   O método é algo simples, como mesmo exemplifica as palavras finais do vídeo, mas ali estamos lidando com a própria condição humana que carece de ajuda também, e esse é o objetivo final de qualquer iniciativa de ajuda pessoal à um indivíduo.
   Para além do documentário e do tratamento, falo do ser humano em si, não um ator de um filme, mas do autor de sua própria vida, falo do ser humano, de cada um de nós. Grandes desafios e exigências são propostos a nós, coisas que devemos realizar e cumprir, não tanto para com o mundo que não perdoa e pune a brincadeira com o perigo, mas para com nós mesmos, com nossa vida e a forma como escolhemos definir o momento seguinte, nós que podemos quase tudo, nós que temos um potencial existencial tão grande que um vazio do mesmo tamanho se aloja em nós, no velho jogo da consciência tal qual como a herdamos ao nascer nos dias de hoje, dentro da qual volve o consciente e o inconsciente, urgindo por completude, sempre, em todos os casos.
   Rogo para os que me lerem, principalmente os vizinhos e amigos aqui das imediações, onde esse drama se desenrola, que tendemos a nos abrir, a sermos uma rocha firme onde se ancore não só pessoas como o Ney, que andam por aí nas ruas, mas uns com os outros, pois cada um de nós leva dentro de si a dimensão vazia e faltosa que por fim sobrepujou a alma do Ney e que todos nós incorremos em potencial de cairmos assim também.
   Os perigos da queda por causa da indiferença podem atingir qualquer um, vem fazendo estragos em cada casa em qualquer bairro, mal e mal vamos nos dando conta disso. Não falo de um mutirão para ajudar o Ney, ele não é um problema, muito mais ele mesmo é a porta aberta para nossa salvação, pois como na psique, âncora e rocha são dois lados de uma coisa só.
   Não sou inocente em pensar em uma coisa dessa como a tábua de salvação de nossa sociedade inteira, mas pode crer em mim, a coisa passa por aí. Também não me passa pela cabeça em realizar sucessos comunitários assim, mas em potência eles são possíveis, então por que não começar a contrapô-los a aquele vazio?
   Se o objetivo da existência humana, como dizem os gnósticos, é libertar as centelhas do espírito da materialidade, então um dia, cedo ou tarde, teremos que encarar desafios tais, pois nada será deixado para traz, e quanto mais demorarmos a começar a fazer o que autenticamente deve ser feito, mais demoraremos em permanecer aqui adormecidos, sempre acordando tarde dos nossos pesadelos para uma realidade mais terrível ainda. Devemos nós também parar de brincar! Ou a própria vida nos fará parar, como diz Philip K. Dick no final daquele livro: “Fomos obrigados a parar por coisas pavorosas!” (Dick, p.306). E é pavorosa esta situação de vida de um de nós, ali na praça… mas a beleza está lá também, na atitude corajosa de uma terapeuta e todo seu grupo.
   As plantas jazem imóveis, como árvores e construções, elas podem fazer a cabeça, assim como as pedras que calçam o chão aceitam a chuva mansa ou trincam na mente quando sorvidas, mas os caminhos, os caminhos são diversos, e são eles que podemos escolher, os caminhos denotam que ainda temos liberdade.
   Plantas e pedras são dadas, compradas e desejadas furiosamente, mas os outros caminhos dependem de nós escolhermos trilhá-los. Qual escolheremos?
  

-Citações:
Burroughs, William S. ALMOÇO NU. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.
Dick, Philip K. O HOMEM DUPLO.  Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
Leão, Emmanuel Carneiro. APRENDENDO A PENSAR, Vol. I.  Petrópolis: Vozes, 1977.


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