24 de jan. de 2022

Vertente (Arcano XIV)

 

Verte
   cântaros 
      de temperança...
Tempera
   com sabor de água
      a doce presença da serenidade...
Anjo
   & mulher
      guerra em paz...
Sóbria
   sombra de árvore
      regato fresco...
Todo dia
   é o que me acorda
      & me faz deitar...



21 de jan. de 2022

colapso

 

mistura de carne
no tempoespaço
encolhenrijece
tudo

carnes quais
queremos perto
carnes quais
queremos distância
vir-a-ser & foi-será
que nos incomodam

enquanto o mundo mói
em carnificina
& fornece vermes para o ato final...

o universo se estende
véu de rastro
insondável
imensidão & frieza

& nós
tentantes tentados
apenas tentamos
nos acalmar
no meio do desespero

vamos
em colisão
com tudo & com todos
nos escarificando...



18 de jan. de 2022

Fédor

 

Afasto-me das pessoas que tem certeza
Pois a certeza tem o mesmo fedor
   que suas fezes...
& fezes por fezes
   deixe-me apenas
      com o cheiro das minhas
   que deponho,  dispenso, despacho...

Afasto-me das pessoas que tem certeza
Pois a certeza me repugna
   ao tornar seu portador
      um palhaço sério
& não preciso de vergonha alheia...

Lancinantes demonstrações de razão
Orgulhosos autos de depreciação
Sórdidos sorrisos de menosprezo
O odor da pobreza de caráter
A loucura, o delírio da superstição
Viver de lendas alheias...

O medo,
                 o medo,
                                 o medo!
É isso que qualquer certeza
    quer esconder.
A fraqueza,
                     a fraqueza,
                                           a fraqueza!
É isso que qualquer fé
    quer disfarçar.



14 de jan. de 2022

*Pilhas Não Inclusas

 

Por que insistimos em nos tornar PRODUTOS?
   em estantes lotadas
     instantâneas propagandas de 15 segundos
Vitrines trincad@s
                  plágio, repetição, absurdos, banais
Expost@s ao valor da demanda
    onde o que manda é a massificação!

Quanto mais... mais baratos...
   a proletária prótese digital não deixa ver
"Smart"phones, metamorphose paralisante
   made in vazio
    made in consolação
     made in aculturação
      made in adaptação
                                           sem ação
                                              só repetição_ _ _ _ _

Para uns, conversão
   ao modelo do ano
Outros, para a liquidação
   rápido, todos tirados de linha
      das ondas do 5G
         & mais outra reGeneração

Propaganda existencialista
   neofilosofia do exibicionismo
                                       meta-inexistencialismo!
-Alguma coisa nisso é mentira!!!
Produto ou refugo
   pagos em moeda de espaço$tempo
Em plata$forma que só se tem
   inteligência sintética
      consciência artificial

No que não se desliga, ninguém liga
   vitrines lotadas
      estantes totalibertárias
         instantes replicantes
Deletamos a tristeza & a imperfeição
   que outrora era não ter, não ser...
Deletaremos os sentimentos
   que outrora era não aprender, não poder...

& tudo será, só será...
Contato
   sem tato, sem com...
Produtos nunca retirados
   de dentro da embalagem
                                                Made in ®



13 de jan. de 2022

O Homem Inadequado

 

Na esteira do nada
   & do tudo que só se define
      mediante nossas limitações
Cortejando a graça
   de algumas coisas esquecer
      & outras querer
          mais do que as memórias,
Pois na devassidão
   do nada ter por muito ser
Trocariamos muitas recordações
   pela presença...
Pois é assim,
   o homem inadequado
Mais do que viver
   ou experimentar
      se contenta em imaginar,
Mas a imaginação
   guirlanda de ervas viciosas
      não é tão só a fuga
                             a simpatia
                             o refúgio
                             ou a compensação,
É a essência de se ser inadequado
   que por não realizar ou ter a chance
      soube moldar
         de imatéria
            aquilo que devia ser,
& na imaginação
   a memória é abolida
      do esquecimento do que foi
         pelo que poderia ter sido...
O homem inadequado
   é só o homem mais comum
      que não se adaptou
          à fugir do medo, do parco,
                                                 & da dor...



10 de jan. de 2022

Arrasto

 

Nós aqui
      caindo no fosso
                             do sol
Quase que
    para sempre
               decaindo
                    fugindo
                         recaindo
Nos braços raios
          abraço ardente
                         da estrela
Extrema
        mente colapsada
                    no decaimento
De átomos
         pesando cada vez mais
                em sua insustentável leveza
Caindo
       indo ao fundo
                   sem fundo
Fundamento
              ou
                   fim...



8 de jan. de 2022

Cura

 

Zelo por uma forma de loucura
   que se misture ao êxtase
      & inverta os dias
         que só represam insatisfação ~~~
Procuro uma forma
   de gozo repentino
      que seja recorrente como a memória
   & exile os traumas
      nas plantas abandonadas do jardim
      na poeira das ruas paradas
      no calor antes da chuva ~~~
Engendro uma forma de satisfação
   que não exija visão
      tato ou alma
   que seja carne sobre carne
      & re-velação alcançada ~~~
Uma gnose libidinoso
   que comece & acabe
      com a transgressão
         do cuidado, da ânsia, da depressão ~~~
& depois disso, a fome
   seja só um suspiro
      da falta de obsessão ~~~



6 de jan. de 2022

Vento Inverso

 

Quando me sinto cansado
   & os sonhos se distanciam
      com o peso do vento lento da prostação,
Quando me ressinto assim
   com não poder estar de imediato
      na euforia de todo o tesão,
Revogo a imaginação,
   devoro tudo que é feito de espaço & tempo
      & esqueço da benção que é esquecer.

Poderia dizer que em nossa totalidade
   somos mesmos inexplicáveis,
Assim como não defino
   o desejo que me acomete na exaustão;
Acho que por demais
   pensar na simplicidade
A complexidade ilusória de tudo
   vem como contra-maré ao meu nada.

Mas o mundo & as coisas
   que chamam de coisas continuam lá;
Queria, antes, as encontrar
   para poder destruí-las,
Porém de tanto me extasiar
   com as paisagens imperfeitas & destruídas de meus sonhos,
Não concedo à esse mundo
   a mínima chance de me agradar.

Aqui, por entre a gravidade,
   a seriedade & a morte,
Há pouca coisa que me prende
   na carne & no medo, mas também no querer;
Meio século passou,
    passaram-se milhares de aeons,
& ainda pondero
   na carne, no espírito,
Por que queremos o que não temos
    se não temos o que outros querem...?
                                            nem nós mesmos
                                                 nem nós mesmos!



2 de jan. de 2022

Cascos

 

O tempo
   nas costas da tartaruga
      pesa tanto
         quanto cada passo que dá
O peso do tempo
   é não deixar nada no lugar,
Cascos que movem
   pisando a terra
      ou tocando o ar.
Como pode
   algo feito de coisas tão velhas como nós
      serem sedentos de novidade,
Mas não somos sedentos do novo
   somos apenas insaciáveis
      por medo da morte & carentes de vida.
Então... me componho
   de tudo que a loucura do universo expeliu
      mas dentre as partículas de bilhões de anos
Encontrar a centelha do amor
   ainda é o novo
      que sempre esperamos.
Assim a novidade
   cavalga até nós
      atrelada como nódoa no casco de uma tartaruga.
Mas disparamos rápido
   sempre em direção contrária
Queremos tanto encontrar
   que não paramos para esperar...

Tornamo-nos desesperados
   & não esperançosos
      como tudo que é velho deveria ser...



1 de jan. de 2022

Aurora

 

Quando menos esperamos
   o Agora já é depois
      & o esperado desespera...
Destino é apenas
   como se chama
      a soma de todas nossas ações...
Na aurora
   não nasce o Sol
      mas gira esse mundo...
& conosco em cima
   arrasta de lado todos os Sonhos
       aos quais estamos amarrados...
Quando menos esperamos
   o depois já é Agora
      & não espere mais do que a soma das nossas ações...