24 de ago de 2015

A Imobilidade da Noite

“Eu entendo a Noite
como um oceano
que banha de sombras
o mundo de Sol...”

                                   Zé Ramalho
                                  (Beira-Mar)

Noite imanente
domina tudo que há,
O repouso profundo da criação
Nela habita como aborto,
o eternamente acontecido....

Imperturbável perfeição
sem nome e sem acesso
Eu com palavras apenas sonho
infames formas de te diminuir
para que caiba em minha imaginação...

Que acidente inconcebível?
Que erro voraz
fez conceber de ti a ferocidade da luz?

Mistério nenhum há aqui
Inconsciente noite
sem ligar para seus próprios sonhos
Deixou perpetrar o erro que é a realidade...
pois não há por que
naquilo que é capaz de ter porquês!

Noite imanente
ainda domina tudo que há
Enquanto aqui, no vão de um abismo,
nós nos iludimos que exista sentido
na existência
Só porque a luz a circula insana

por entre artifícios de informação desconexa.


Micro-obra: Liber NOX

3 de ago de 2015

Cavernas Cotidianas: Ambientes internos & Saídas

    Estudando a República de Platão, somos apresentados à ideias e conceitos de como é a realidade humana, qual é nossa condição neste mundo belo e ao mesmo tempo cheio de coisas feias.

   Um livro tão conhecido e estudado quanto a Bíblia, A República se insere como um dos maiores e mais importantes livros já escritos na História. Como uma emanação original da Filosofia grega, o relato de Platão paira entre o mitológico e o lógico, entre o espírito e o corpo, assim, trazendo à terra todo o limiar de esperanças transcendentes que a alma humana carrega.

    De toda forma, lendo A República, prestando ou não atenção, somos chamados à reflexão... Passados quase dois mil e quinhentos anos, agora no auge de nossa competência científica e civilizatória, podem dizer, finalmente, que Platão não fala nada de novo, afinal suas ideias vêm circulando por aí já há muito tempo.

    Mas mesmo assim, ainda vem alguém e diz: “hei! acorda! preste atenção nisto aqui... o que você acha dessas ideias?”, e nos apresenta a Alegoria da Caverna.

   Muito lida e muito interpretada, relatada em estórias em quadrinhos e em diversos filmes famosos, a premissa da Caverna é simples: “Imagine que o mundo em que vivemos é uma ilusão, e pior, é uma prisão feita para nos enganar quanto à realidade das coisas e a verdade”.

   A Alegoria pode ser lida então em diversos níveis de interpretação: como se fossemos prisioneiros dentro do universo construído pelo Demiurgo. Como se fossemos todos alienados sociais, enganados pelos que tem uma vida realmente boa e digna de ser vivida. Ou como se vivêssemos de ilusões: comprar um carro, ter uma calça de marca, ou pentear o cabelo igual a um jogador de futebol bacana ou a modelo bonita.

   Levado ao debate, principalmente nas salas de aulas pelo mundo, ao perguntar se os alunos concordam ou não com essa proposição de Platão, a maioria se alinha com o filósofo, alguns poucos não. Apesar de mal saberem argumentar pró ou contra a ideia de que vivemos em estado de escravidão, o que é compreensível, pois Platão transcende em sua argumentação do simplesmente físico às ideias, literalmente. Os próprios argumentos prós e contras já se misturam em uma gama de interações pseudo-racionais e irracionais de cunho prático e religiosos nos dias de hoje.

   Mas levando avante a proposta da crítica filosófica, admitindo que estamos sendo enganados, se este mundo é feito de ilusões e somos prisioneiros, o que seria a Realidade e a Liberdade?

   Primordialmente, o que nos fala Platão é sobre justamente isso, a Caverna da Ignorância, da não reflexão sobre as coisas, a prisão de não questionar as coisas do mundo. Não faz diferença se somos prisioneiros do Demiurgo, do Estado, do Capitalismo, das Drogas, o importante é, para Platão, buscarmos conhecimento, sermos educados, e termos subterfúgios para argumentar.

   Na caverna, essa “educação” acontece à força, mas esse “forçar a aprender” se assemelha ao “forçar ou executar um parto”, a educação está munida de um caráter de necessidade imprescindível.

   Por quê? Porque com educação, com conhecimento, teremos mais chances de saber exercer nossas escolhas sabiamente. Ou não?! Mesmo pessoas inteligentíssimas fazem coisas estúpidas! Hoje existem até “religiões inteligentes” sendo vendidas por aí! Daí dá para se ver a diferença operativa que há entre inteligência e educação; podemos dizer, entre o que é natural de cada um e o que cada um pode adquirir por esforço e hábito.

   Isso impetra não um conforto de se repousar na mediocridade e na facilidade, mas revela que todos nós, invariavelmente, temos o potencial de sermos mais do que somos, mesmo que sejamos naturalmente dotados de inteligência ou não.

   Então chega a um ponto que educar-se, ou seja, ter a verdadeira educação, é justamente isso: ter a consciência que mesmo enganados, deixamos isso acontecer por escolha própria! Ser educado é liberar nossos potenciais para poder reconhecer a verdade, e conhecendo a verdade ela te... revoltará!


   Comparamos A República à Bíblia no começo deste ensaio. Enquanto livro as origens da Bíblia se perdem na História, seu coronário emana de diversas fontes, justamente por onde o povo que a compilou esteve, geralmente, como escravos: desde um idílico Éden, à Mesopotâmia e o Egito.

   Da relação com essas culturas, formou-se os livros antigos que os povos que formaram os hebreus e depois o povo judeu e depositaram o conhecimento espiritual e sua relação pessoal com a Divindade.

   Paralelamente, próximo até geograficamente, os povos helênicos desenvolveram sua visão de mundo em relativa liberdade, tiveram mais “paz” para observar o mundo, a formação das cidades, e disso proporcionou-se o surgimento de pessoas que pensassem sobre a condição humana no mundo levando em conta não só a providência divina, mas também a responsabilidade e liberdade humana de se fazer presente neste mesmo mundo. Nessa linha surgiram os eleusianos, os físicos, os sofistas, e por fim, os filósofos.

   Aqueles primeiros povos apresentaram-nos o Pentateuco, os últimos apresentaram-nos A República, e em dado momento posterior, a união desses pensamentos, na presença de pessoas dessas duas nações, surgiu a Gnose Ocidental, crítica histórico-cultural que delineou posteriormente o Sionismo e o Cristianismo, dando-nos o complemento daquilo que chamamos Bíblia como um novo testamento da reafirmação do pacto com Deus, ou com o autoritarismo.

   Isso se deu por detalhes importantes, profundos, e nem por isso agregado à História humana, pois geralmente os verdadeiros fatores que determinam a inscrição nos anais do que seja realmente o fundo criador da realidade passa ao largo do que a mente humana é capaz de contemplar, mesmo sobre si mesma e a sua condição no mundo, o que só nos dias de hoje começamos a ser capazes de entender e levar em conta em nossa forma de ver o mundo e a condição humana nele.
   Esse fator determinante da maneira de como o ser humano procede não é simplista como a História oficial, é complexo, e por isso ao dizê-lo aqui ele mais parecerá como argumento de poder, mas é justamente o oposto. Mostra-se abrupto simplesmente por que descrevê-lo exigiria mais espaço, o que para essa momentânea reflexão não convém.

   Esse fator, a saber, é que o caráter humano, os princípios que regem nossa forma de pensar, começou a ser formada antes de o povo judeu ter contato com os egípcios ou mesopotâmicos, antes dos povos helênicos terem travado a guerra de Tróia ou terem notado o espanto filosófico.

   Cerca de quatro mil anos antes disso, a mente humana já vinha sendo compactada pela experiência de estar no mundo sobre a pressão da brutalidade da natureza e do próprio ser humano, hoje já são mais de seis mil de cunhagem autoritária nas relações sociais e culturais. A opressão é a marca de nossa conduta no mundo, como definiu Sigmund Freud e Wilhelm Reich.

   O judaísmo respondeu a isso com a eleição de seu povo a sócio da maior força de autoritarismo que o ser humano pode imaginar: Deus. Enquanto os povos helênicos responderam se alinhando à outra maior força de autoritarismo: a Razão.

   Ambas as experiências de estar e responder ao mundo caíram, de sua forma, no complexo de extremo autoritarismo, justificando-o e asseverando que a vida é um jogo, uma disposição a se entrar na ilusão por vontade própria, ou seja, permitir que no fundo de todas as relações humanas prevalecesse enfim, subentendida, em uma Grande Farsa.

   A “grande farsa” no mundo é justamente a disposição de meio de controles erigidos, já argumentativamente de má-fé, que proponha legitimar o poder minoritário do mais forte sobre as massas dos mais fracos. Na Política isso se dá na forma do Estado, na Cultura isso se revela como Ideologia, na Religião aparece o Misticismo, na relação humana temos o Patriarcado, na divisão de espaço temos a Propriedade, na divisão do tempo a Economia. Tudo isso são formas de controle, pensadas como princípios muitas vezes divinos e sagrados, de administração da força transformadora do mundo, que é justamente o ser humano.

   Então, em todos os lugares e épocas da história humana existe uma “grande fraude”. Platão quis ensaiar singelamente que só a Educação é que pode possibilitar cada um desmascarar essa grande fraude em que cada um foi implantado dentro e ajuda sustentar.


   O que nos leva a perguntar hoje: qual a grande fraude de nossa época? É a crença de que tudo que está aí deveria ser como é! Que tudo está certo, que tem que haver ricos e pobres, tem de haver consumo para a sociedade funcionar, que não devemos criticar o sistema, pois ele é a melhor forma de garantir nossa segurança contra o mais forte, etc.

   E como detectamos onde está o cerne da farsa do mundo em que vivemos? Façamos assim, chamemos para o debate, e quem não comparecer é que é o guardião desta farsa.

   O Estado comparecerá e dirá que nos defende do mais forte; a religião comparecerá e se descabelará dizendo que proporciona alento e paz aos corações, além é claro, de dizer que detém a verdade sobre a vida; o sistema financeiro dirá que garante paridade e retribuição a todos conforme merecem; a família argumentará que vem se adaptando aos tempos; e a cultura, bem, a cultura dirá que ela é criada por todos, e que é apenas reflexo do que as pessoas, em seu conjunto, pensam, sentem, fazem...

   Poderes! São todos poderes! Eles se justificam em uma via argumentativa de profunda alienação que na verdade sabem ser cinismo exacerbado, mas não dizem isso, pois se convencionou entendê-los, por isso são farsas, como um jogo útil para a humanidade prosperar, ou pelo menos, subdesenvolver-se permanentemente.

   Mas, como vemos cotidianamente, um dito “quarto poder” não comparece ao debate. Ora, onde está ele? Se perguntado ele diz ser imparcial, que pode até estar ali, mas somente para relatar o ocorrido, cobrir com luzes e microfones a fala de cada um que compareceu. Esse poder se diz garantidor de que esse ou qualquer debate ocorra. Temos ali acabrunhado em sua magnanimidade garantidora da democracia e generosidade humana... a Mídia!

   Justamente quem hoje se exacerba quando criticados, a mídia com o argumento da liberdade de imprensa, mas eles são muito mais do que isso, permanecem fora do debate. Se você critica um jornalista, ah!... Parece não haver, para eles, argumentos que seja justificativo para tal. Como deixaram impetrar a pecha de “poder” sobre sua função já é um mistério, mas nisso se revela a falácia que deixaram transparecer como “ato-falho” de sua atuação.

   Mídia é muito mais do que informação, em sua origem refere-se ao setor da Comunicação que lida com Propaganda, e que nos dias de hoje se convencionou, com a importância voltada ao poder econômico no mundo, onde só a propaganda poderia os munir de recursos para atuar, chamar todo esse setor com o glamorosamente iníquo nome de “mídia”.

   Comunicar quer dizer justamente “tornar comum”, de uma asserção mística ou religiosa da mesma fonte que “comungar”, compartilhar os mesmos valores e ideias, no caso da mídia, o que é recrutado como seu fundamento, liberdade de expressão, democracia, esse, um valor ou ideal advindo da Grécia racional, mancomunado nessa origem com a ideia latente de governo dos mais capazes, ou seja, daquele mesmo ideal religioso dos judeus de servos eleitos por Deus, hoje porquanto, sendo a voz do povo a voz de Deus, temos a democracia como governo do povo e seus baluartes, os meios de comunicação.

   Não quero adentrar aqui em discussões sobre a democracia, nada de criticas ou sugestões a ela, assim como também não quero falar de religião, terrorismo, sistema financeiro, indústria, proletariado, jornalismo, etc.

   Quero falar de nossas vidas cotidianas. Vamos tentar detectar a caverna imediata e simples em que vivemos, a ‘grande fraude’ de nossa época, próxima e ao alcance das mãos, ou do controle remoto. Falo diretamente para quem está ao meu lado, nas ruas, nas salas de aulas, no trânsito, nas arquibancadas dos estádios de futebol...


   Qual é a estória que repetidamente viemos repetindo na cabeça para nós mesmos, a historinha, a lenda que contamo-nos e contamos e debatemos com os outros em nossa volta todos os dias?

   É justamente a que vemos na TV, que lemos nos jornais, escutamos no rádio, acessamos na internet, que ouvimos em muitas letras de músicas, que compartilhamos em sentimentos com os amigos nas conversas, que está lá na Bíblia e na República, que é justamente a estória que nos conta a Alegoria da Caverna: SOMOS ESCRAVOS! Que existe algo ou alguém que nos esconde a verdade! Que somos constantemente oprimidos! Que os bandidos estão nas ruas e nos presos dentro de casa...

   O fato de nos dias de hoje esse pensamento ser algo disseminado comprova que nós, em nossos tempos, estamos enfrentando a última ilusão que o mundo poderia impor-nos, que nos dias de hoje está ocorrendo uma luta decisiva entre a realidade virtual (RV) e a “verdade real” (VR) acerca da condição humana no mundo, na sociedade.

   Como? Perguntariam confusos alguns! Resposta: É que quando nos falam que não temos liberdade, que temos que lutar pela nossa liberdade, o que na verdade acontece é que temos sim liberdade, e o que nos dizem é que devemos nos dispor dela. Devemos sinceramente desejar não sermos livres, e nos tornarmos escravos! É o que querem dizer quando dizem que não temos liberdade, que a liberdade está em perigo, que criticar a mídia é querer censurá-la, acabar com as liberdades, etc.

   Platão mesmo não disse que não éramos livres dentro da caverna, ele disse que havia seres acorrentados, privados de sua liberdade.

   O fato de nos dias de hoje a Educação ser a instituição mais atacada e de mais difícil execução prova perfeitamente isso. Não que ela seja atacada diretamente, com reportagens ou críticas dizendo que é ruim estudar, ou coisas assim, seria descabido dizer isso diretamente, e nunca ouvi de ninguém tal coisa, a não ser de alguns anarquistas sob pseudônimos ou diretamente em uma letra de música: The Wall, do Pink Floyd, mas ali a crítica é outra, é sugestão de outras formas de educação.

   No senso comum a educação é tida em alta conta. Socialmente se diz que estudar é a chance de “ser alguém” na vida, na mesma conta que trabalhar e crer em Deus, nessa ordem de importância.

    Porém estabelecida esta escala de valores no discurso, o que vemos é o professor tendo que, por exemplo, rivalizar com a tecnologia (aparelhos de comunicação), com a música de ditos formadores de opinião como Lady Gaga ou Waleska Popozuda, com as redes sociais, que são espelhos virtuais distorcidos das relações humanas, tudo isso mostra onde está o entrave da Cultura atual e da própria força da educação em si, travando sua própria gigantomakia.

   A Educação, que como Platão deu a entender, deveria ser a primeira e última força exercida sobre o ser humano, mas além de perder, sua força é anulada diante outras forças maiores engendradas e apresentadas como representação da evolução da civilização, manifestações irreversíveis da inteligência humana, sinal dos tempos, mas que nada são além de negócios rentáveis, meios de controle exemplares.
   As pessoas ao se sentirem livres, ao procederem com desdém para com a educação, estão levando a si mesmo para a total escravidão!

    Eu não entendo...! Como podemos ficar passíveis diante da televisão, ao ver um jogo de futebol ou uma novela, como podemos nos aquietar para ver notícias de violência e simulações inúteis de romances, mas em uma sala de aula, p.ex., exercemos plenamente nossa liberdade, fazendo o que queremos?

   E a grande farsa segue acontecendo...


   Isso leva a pergunta: O que é liberdade? O que é escravidão?

   A Filosofia não responde a nada disso. A verdadeira filosofia não produz listinhas com frases legais para decorarmos e saber responder prontamente diante das situações como clichês da moda, como versos nos raps, não se faz filosofia requebrando, apesar do amigo da sabedoria poder dançar, dispersando toda “incompatibilidade entre corpo e consciência”.

   Platão mesmo, ao notar a marca de irracionalidade na alma do mundo, a opressão, propôs somente a atitude realmente livre para combater isso, sair da caverna, recordar o bem, O Bem, e voltar, agir, contar a todos.

    O gnosticismo mesmo, em sua síntese do platonismo com o esoterismo judaico, a Cabala, posicionou-se para esse combate, mas pareceu ser subjugado, já no início, para com a totalidade dessa tarefa, aceitaram a morte quando viesse, mas antes procuraram se apartar do mundo. Talvez por se consolarem com aquela “incompatibilidade” permitiram surgir o Catolicismo e todas as fogueiras que vieram depois, as da inquisição, da vaidade e da “libertação”.

   Desde então a grande farsa se aprofundou cada vez mais. Erigimos uma civilização com as bases psicológicas do próprio cristianismo institucionalizado, a única coisa verdadeiramente internacional que houve, com seu apelo ao humanismo incompatível com as ciências humanas.

   A função da Filosofia mesmo é só incomodar, por um grilo na cabeça e deixar o pensamento banal desassossegado, ela não pode dizer nada a ninguém, pois não pode ser Poder, cada um tem que tomar a decisão por si próprio, enlouquecer, virar a mesa e dizer:  “Ei! Eu tenho valor! Sou livre!”.

   A função da Filosofia é só essa: fazer-nos lembrar que temos um valor muito maior do que dizem por aí, para além das coordenadas que suscitam as propagandas na mídia. Somos livres! A liberdade “despenca” sobre nós como um raio!

   Mas você deve perceber por si próprio que estão deixando as coisas ficarem tão liberadas (≠liberdade) para que finalmente não suportemos essa “liberalidade” e desejemos que tudo pare, que haja escravidão! Platão alerta sobre isso quanto aos sistemas em que decaem as formas de governo, quando a irracionalidade da grande farsa continua em seu movimento. O “grande irmão”, em 1984 de Orwell, não queria destruir as pessoas fisicamente antes que essas mesmas pessoas não o amassem e desejassem sua influência conscientemente.

   Nesse momento, eu estou propondo-lhe tirar de suas correntes no fundo da caverna, te obrigando a sair para fora de seu mundinho seguro e aconchegante, e dizendo: “aqueles que dizem que você não é livre, e que dizem para fazer o que quiser... são eles que te querem escravos!”.  

   Somos todos um só corpo no final das contas, nossos destinos se convergem junto ao conceito artificial de povo que acalentamos, e devemos também pensar no conjunto ao agir, em toda e qualquer ocasião. Deve se tornar hábito educacional, dentro do sistema de ensino, fazer todos aprenderem a pensar no outro, a ter um senso ético de coletividade, mesmo que essa palavra tenha se tornado feia mediante uma filosofia de vida liberal que querem disseminar.

   A mensagem de Jimi Hendrix ainda é válida: “Quando o poder do amor for maior que o amor ao poder, nós encontraremos a paz!”, porque um organismo (um todo) em guerra consigo mesmo, está condenado a se enfraquecer, ser manipulado, e se resistir, ficar mais fácil ser destruído, como dito por Carl Sagan no Zeistgeist.


   Veja a própria Grécia. No decorrer de dois mil e quinhentos anos, depois de sua religião primordial ter sido encaminhado ao status de mitologia, seu pensamento maior, a Filosofia original, doada ao mundo e convertida em especialidades acadêmicas, agora, dentro do jogo da grande farsa paga o preço da insustentabilidade, da própria forma de economia que nos impuseram para controlar o mundo sob o argumento falacioso da liberdade de escolha, agora se mostra também como a primeira nação desenvolvida inviável como Estado.

    O que é isso? Pesadelos no profundo sono dentro da caverna! Mas esse pesadelo grego revela que tudo dentro da grande farsa do mundo é insustentável. E a insustentabilidade irá aparecer cada dia mais nas notícias não refletidas dos jornais e em nossa vida cotidiana, como um espectro que ronda nossa civilização.


   A mensagem final da República é só uma, entrevista no Mito de Er, pouco comentado, pois academicamente é difícil desvencilhar suas aparentes contradições com a Alegoria da Caverna se não se explicitar a crítica à grande farsa do mundo real. Platão não diz que não somos livres, diz que estamos como que escravizados.

   Ali, no Mito de Er, Platão diz que esta nossa vida é só de passagem, não deve ser levada a sério a não ser em relação à educação pela Filosofia, que é o mais importante então. Pois naquele outro mundo, de purgação depois da morte do corpo físico, a alma imortal prossegue, recebendo pagamento pelos atos bons e maus que cometeu no mundo físico, e se não procurou levar daqui para lá o que de lá se traz de importante para aqui, a Sabedoria, o mundo mesmo continuará a decair, e a farsa continuará só piorando para alma que eternamente transmigra para um corpo.

   Para Platão, é importante que nos tornemos filósofos... Dispa um pouco esse termo de tudo que lhe ensinaram o que ele é, as coisas ilusórias, e entenda que ser filósofo é ser amigo do saber, o que remete a uma vida justa e feliz. E então entenderá também
a forma de proceder neste nosso mundo, procurando não matar com a estupidez as oportunidades que ainda temos de sermos livres. Não mate, psicologicamente e nem fisicamente, quem vem lhe falar sobre o Bem, não cometa em sua vida cotidiana os mesmos crimes cometidos na História pelos agentes do autoritarismo, sejam eles generais, papas e pastores, cientistas, políticos ou qualquer tipo de líder, você é o único líder de sua própria história.

   Seis mil anos de má-educação na escola da estupidez não foram capazes de matar na alma humana o sentido de graça e liberdade que há em existir. Agora cinquenta anos de propaganda foram capazes de degradar nossa juventude a um estado de apatia desalentadora nas classes de aulas das escolas e nos espaços públicos, falar da grande farsa rende até bilionárias bilheterias no cinema, a Bíblia e A República se tornaram repertório de ladainhas, perderam qualquer força de suas origens opostas, de liberdade e de conhecimento do transcendental. Tanto que se confunde ao nível da irracionalidade ser livre e ter medo, nenhum deus munido da verdadeira onipotência que um Ser assim requer deixaria confundir ser e ter a tal ponto.

   Nossa cultura, ao falar de paz, de liberdade, fraternidade e igualdade só fazem remoer o placebo para passar pelas gargantas sensíveis que é o fosso por onde passa tudo na formação do ser humano contemporâneo, liberal, inteligente, pio, politicamente correto ou rebelde, saudável e higiênico, tudo que diz ser, mas não é. Temos a cultura de morte da grande farsa.

   Podemos sair da caverna, podemos ver a farsa, podemos escolher ser o que quisermos, desde que escolhamos por nós mesmos, assim nunca escolheremos a opção errada, pois mesmo o erro, se reverte com o uso da sabedoria a fator educador.

   Escolher causa angústia, a angústia engendra o medo, o medo é pastor da morte enquanto ferramenta de defesa.

   Mas há ainda a amizade, o amor.

   Entre iguais, em sociedade, espantamos o medo, a angústia se minimiza a seus papeis existenciais que geram até as belas artes, a arte é a casa dos sentimentos, e de tais sentimentos fazemos aparecer uma verdadeira cultura de paz, uma cultura de vida.
 
   Assim, como tanto a caverna como o mundo das ideias existem aqui, dentro de nós e ao nosso redor, você pode sempre escolher entre o medo e o Amor! A morte ou a Vida! A saída da caverna... é aqui & agora!