17 de set de 2019

Domingo

Voltei para esse lugar pequeno
   não quero mais ficar aqui...
Sai para observar
   mas lá fora está árido...
Voltei para esse lugar pequeno
   o qual chamei uma vez de exílio...
Não quero mais ficar aqui
   sai para fora...
& lá não tinha mais sentido sem você
   voltei para esse lugar pequeno...

15 de set de 2019

Duka

Tudo tem perdão nesse mundo
menos dizer "Eu Te Amo"
Coisas lindas & terríveis de mão dadas
Paixão & esperanças

Grande ferida aberta no peito,
Que escorre para o desdém
sua dor sem valor

Essa loucura é tanta
& tanto é seu poder
Que realmente cremos
ter que pedir perdão

Grande ferida aberta no peito
Ensinar é seu valor
a vergonha para quem acha que entende de amor

As músicas que cantamos
não tem sentido algum para nós nas festas
& os poemas que amamos
são terapias reversas

Grande ferida aberta no peito
Por você ficará leve tudo que é pesado & em vão
Transformando sentimento em sensação

Aqui quem continua seguindo
Tolo, no caminho do meio
Entre a luz da razão
& da indiferença na escuridão

Grande ferida aberta no peito
Dos que ainda tem coração
Se da ferida sai, por ela também entra

Mesmo que a ciranda insista
& dancem decepção & júbilo
Prosseguindo no ímpeto de acertar
achando que nossa essência é errar

Grande ferida aberta no peito
Sua raiz é o grande deleite alojado no peito
Não tem fim, só um chamado para cessar os dois

14 de set de 2019

Saudade Afim...

Saudade,
   falta de você...

Não devia ser assim
   devido a esse pouco tempo juntos;

...nós ainda nem começamos...

Mas se nosso tempo for maior:
   desdobrado de uma dimensão ampla;

Não seria pelo amor
    onde estaríamos rolando
Um para cima do outro
   desde sempre a partir de ontem?

Afinidade,
   vontade de você...

Inventando & descobrindo
   novos espaços para estar,

...nós já nos encontramos...

Em direção um do outro,
   inconsequentes & impunes como nos sonhos;

Seria pela paixão,
   como duas transparências,
Sobrepostos um ao outro
   nós descobrimos
      a forma que teremos juntos
         desde o primeiro beijo!



11 de set de 2019

Galáxias


...pela manhã,
   ao invés de flores,
         te mando Galáxias...
é claro, flores a gente come,
          Estrelas não...

...elas que comem a gente
    mordendo pelo olhar
      que perdemos ao admirar...

...essas coisas pequenas
      de tão longe que estão,
mais desejadas que flores,
    juntos podemos alcançar então...

...mais do que saudade
as galáxias distantes provam
   que já estamos na eternidade...



9 de set de 2019

Tempestade


Estranhamente calma
   a tempestade do gostar
      entorna raios & graças
         em quem saiu pra se molhar;

O céu acima
   é do sol, da lua
      & da estrela morta do Amor,
         ela come o som de nossas palavras
            & a fome que acena à tez
               no horizonte antes de ser engolida
                  para sempre até a próxima vez;

Nós, de lá pra cá
   parados no mesmo lugar,
      inconscientes nos damos
         o que o outro não receberá,
            enquanto o amor chove de graça
               sem molhar o deserto sob nossos pés;

Estranhamente calma
    a fome que ali está não dói
       & a tempestade acalma
           o que devia curar mas corrói,
               só nas coisas da paixão
                  o zerø é muitø
                      & guardar é dar vazão!





8 de set de 2019

Noite...

Noite
Com o peso da música
Com o peso da luz
Com o peso da dança
Com o peso do beijo

A experiência dentro da noite
Essa coisa viva dentro do tempo
Os atos que cobrem o espaço
Toda essa coisa dentro de nós

Noite
Com a força das pessoas
Com a força das palavras
Com a força dos desejos
Com a força dos amores

Noite
Festa
Vinho
Sorrisos

As memórias de canções
O grito preso libertado
O significado do encontro
Um romper a solidão

Noite
Qual o nome dela?
Qual esse perfume?
Qual esse sabor?
Qual a sorte grande?

Essa é a sua vez
De ter um sonho realizado
& a prova viva
Que coisas boas acontecem

Noite
Só mais uma hora...
Só mais um olhar...
Só mais um doce...
Só mais uma noite...

Um caminho aberto na confusão
Na rigidez da possibilidade
Que nos prova obscura
A arte a qual nos dedicamos

Noite
Quanta beleza abandonada
Quanta saúde sacrificada
Quanta amizade afirmada
Quanta véspera do resto da vida

Ter ainda os dons da noite
Encantar-se com a pedra bruta
Estender a mão para o carinho
Ter a capacidade de fazer outro feliz

Noite
Dedico ela a Baco
Sacrifico ela a Ariana
Estamos todos no labirinto
Vamos todos para a praia

Vamos noite adentro
Música afora
Lábios colados
Relembrar no dia que vira...






3 de set de 2019

Tornar-se

Na perfeição de nossos defeitos
   o que temos de mais forte
      são nossas fraquezas!

O que nos indefine
   além de toda essa imposição repetitiva
   é a chance de errando
      sermos únicos!

Alegrar-se com o que se tem,
Viver com o que conseguiu,
Ser feliz com o que ganhou!

Tornar-se o que nasceu para ser...

2 de set de 2019

Semente de Trovão


A realidade
   é um deserto
      polvilhado em um jardim;
O céu, tempestades elétricas...
Colha suas escolhas
   & marche
      pensando dançar...

Não é verdade,
   não há necessidade
      de voltar para escuridão,
São apenas cavernas
   dentro de cavernas
      dentro de cavernas...

Isso tudo
   são coisas da mente,
Menos o nada,
   sobre o nada nunca mentiram,
      sobre o nada nunca te falaram...

Não precisamos
   de verdades para viver,
Somente de algo
   para acreditar,
Você escolhe
   ou escolhem para você...

Há tanto para se falar
   sobre verdades & mentiras
      crenças & enganos,
Mas há algo além,
   no não dito:
O silêncio do prazer
   é o outro nome do amor...

É no escuro que tudo brota,
   para o nada tudo vai,
Antes passa pela luz,
   antes passa pela língua...
É como o relâmpago
   semente de trovão,
Vem, apaga a escuridão...

Nuvens que colidem
   jardim, deserto, desastre...
Decerto
   quero te dar
      o nada de tudo isso...

Então você vem,
   quero encontrar
      na penumbra, no calar,
...silêncio semente...
   cultivar o nada,
      colher prazer...



1 de set de 2019

És Crer & Ver


Em meus livros
    a perda da inocência;
No seu corpo
   o único paraíso possível;
Nessa solidão
   uma dança com a esperança;
& o silêncio
   palco da sonhidão...

Na estante instantes
   flores & espinhos
      viagens & naufrágios;
Cada palmo de carne
   promessas & decepções
      euforias & êxtases;
Nunca longe de casa
   sempre perto do lar...

Comungo no silêncio dos sonhos
   os suspiros que me fazem respirar;
podia ser diferente
   mas preferi a alegria em potência
      à tristeza de me conformar...

Compus você
   & lhe li até a exaustão
      até me perder...

Creio porque vi
   na imaginação...  



30 de ago de 2019

...fim de Outono

Hoje a rua amanheceu sem folhas,
não rolavam mais
no turbilhão de Agosto...
Hoje a rua despediu os sonhos
de coisas caídas
que vagam à esmo...

Pra onde vão as folhas
pra onde vai a poeira
pra onde foi o vento
& o alento do Outono?

Hoje... é o dono das lembranças
marcadas agora desde sempre
no nunca-mais-será
junto a tudo que se foi...
Hoje... tudo sempre vai
para o eterno 'hoje'... só por hoje...
Amanhã & ontem
pertencem aos sonhos
que aconteceram & acontecerão...




28 de ago de 2019

Prosa Vultur: Mortessência

Naquele tempo descobriram algo significante sobre a morte, que ela não era tão fácil de acontecer, pois em cada ser humano acomete três mortes, a do corpo, a da alma e a do espírito...
Logo passou-se a se aplicar a morte transcendente, clínicas se especializaram em conduzir uma morte humana para o corpo e na seqüência uma morte fina para a alma.
O que acontecia era primeiro se matar a alma e depois o corpo.
Já a morte do espírito era mais difícil, aquela centelha fugia ao processo, e as clínicas de morte humana se encarregavam de evitar sua volta ao ciclo de encarnação, forçando o espírito a ir de encontro com seu único fim possível, a consumação no nada além, a cessação de suas volições, aquilo que os budistas chamam de Nirvana, assim deixando de ser.
O processo nas clínicas se iniciava quando então um indivíduo decidia deixar de viver ou era imputado pena social de exclusão, por algum desvio de conduta ou sua não necessidade do circuito social em que nascera. Dessa forma ou da outra, o indivíduo era internado na clínica, para receber então o processo duo-trino de des-existência.
Primeiro erradicavam sua alma. Isso consistia em aplicar uma droga que fazia com que o indivíduo desvanecesse e nesse estado imputavam em seu cérebro correntes elétricas com programas de desestabilização somática-psíquica, fazendo cessar a atividade em certas partes do cérebro e do sistema nervoso, interrompendo o fluxo dos sentidos.
Depois dessa fase o corpo ficava inerte, muito parecido com os zumbis retratados na cultura do cinema. O corpo podia ficar nesse estado indefinidamente, se decompondo, porém a humanização consistia em erradicar o corpo, geralmente usando de morte mecânicas como corte do fluxo sangüíneo ou destruição do órgão cerebral.
O que se dava era que antes da iniciação desse processo de morte, o indivíduo passava por um treinamento para proceder com a "morte" de seu espírito, a dissolução da centelha. O processo todo começava no momento de erradicação da alma, e terminava a cerca de 40 dias depois com a eliminação ou descarte do corpo. Nesse período ocorria o bardo de cada um, que de uma forma ou de outra não tinha como se auferir o sucesso da passagem do espírito a não ser por processo religiosos-espirituais, como consultas mediúnicas.
Porém a ciência avançava e já se usava um capacitor eletrônico que reivindicava medir a presença ou descolagem do espírito do plano material e astral, que estava cada vez ganhando mais notoriedade e sendo tido como eficaz para indicar o sucesso da nulização do espírito.
Tudo que ele fazia era medir no corpo a profundidade da tristeza que o corpo imputava, notada nas confluências orgânicas das secreções e glândulas. Um indivíduo cujo espírito alcançou o nada não produzia mais atividade no Timo, que no ser humano comum "vivo" já era pouca, cessava então. Era isso que se media com um aparelho refinadíssimo, o fim da capacidade de ser feliz!
Assim se executavam as três mortes do ser humano, e ele estaria livre do mundo, da roda da vida, da possibilidade de reencarnar ou da ressurreição. Admitia-se também que tal indivíduo não alcançara nenhum paraíso ou nem perecia em qualquer inferno, apenas alcançaria o nada no fim de tudo.