30 de nov. de 2023

Granulos

 

...tempo
      fração de desistência
carrega em sua dimensão
   esquecimento em forma de grãos...



29 de nov. de 2023

...hoje

 

Hoje eu já andei olhando no pó do chão
Parei olhando pelas estantes
   com os livros fechados
Dei uma olhada na rua molhada
& nas frestas de luz
   por entre cada ruído

Hoje eu andei perguntando à memória
Revirando por entre as notas de doi$
Remexendo em um monte de folhas molhadas
Mas apesar da diligente preguiça
Só encontrei o que sempre quis
   & o que eu depositei
      no lugar mais fundo das possibilidades

Hoje antes de ontem depois de amanhã
   hoje
Eu continuo perdido nos meus achados
Continuo abismado entre as coisas velhas
Na insurpreendível incerteza
   que nada nunca me decepcionou
Além de continuar me surpreendendo
   com coisas comuns


 

27 de nov. de 2023

Seguindo em frente

 

Mundo
   devasso mundo
Imundo está meu coração...

Em uma pureza inesperada
   acolho os caminhos do acaso então...
Em tempo de me conscientizar
   do caos de amor que age
      em cada momento vão...

Já sou esperante de um tempo
   onde o agora
      seja definitivamente passado
& eu possa lembrar ocasionalmente
   do que passou
      & já não me define mais...

Mundo devastado mundo
    contaminava meu coração,
Desde agora já me fio nos livramentos
   que um dia me libertou dessa prisão!


 

26 de nov. de 2023

0ff

 

Será tarde
   ou ainda dá tempo
Da gente aprender
   entender, saber
Que não devemos ter apreço
    afeição, apego
Por qualquer coisa digital?

Cada instante
   essas coisas
      que estão se afundando
         na linha do tempo,
Sendo arquivadas,
   datadas, ultrapassadas...
Cada momento
    essas coisas
      que vão sendo atualizadas
   & então desacontecendo...
Cada fração de esquecimento
   sendo desconectadas
      & sepultadas em uma memória artificial...
"Atualizando" rumo à "anterioridade"
   postamos a posteridade
      rapidamente atualizada
         na velocidade do esquecimento
Tudo em nuvens que não chovem
   nem sombreiam
Um mundo só de imagens, perfis, formas,
   desconectados pela rede.  ..      ...     .      .        .



24 de nov. de 2023

A Mores (moral da morte)

 

Os finados, com sua moral ida
   lançam sobre nós seu julgamento
      & a sentença de seus olhares cegos
Perseveramos decadentes
   & a moral de mortos
      se espalha por entre os vivos
Pretendem julgar tudo & condenar todos
   através de promessas que os vivos
      nunca confirmarão
Assim, o que importa ainda está suspenso,
   entre sete palmos abaixo da terra
      & o céu que ninguém alcança.



22 de nov. de 2023

Ocasionais Ocasos Ocos

 

O jardim das flores
   o jardim das aves
      é & não é
         o mesmo que o jardim das feras

Convivemos todos
   tantos tolos tontos
      & lobos
No mesmo mundo
   o mesmo sol & mesmo ar
      espaços onde cada um faz seu lar
Dentro do mesmo tempo
   dividindo um só lugar
      mas... uns insistem em discordar

Cada um luta & devora o outro
Uns pacíficos, outros facínoras
Uns altivos, outros pusilânimes
Monstros que destroem
Monstros que constroem
Até o fim dos dias...
Pois há os que entram na escuridão
Há os que saem de lá
Uns permanecem na luz
   mas não há aquele que não é marcado
      com o estigma da luz & da sombra
         da ignorância...

& se o mundo é tudo que é o caso
   Ocaso da multidão
Somos tudo que o fato pode sugerir
   Olfato que revela-se mutilado
Para não sentir o cheiro
   de carne & cadáver
      que sobra no fim de tudo!



21 de nov. de 2023

EcoV(ox): você, a voz do labirinto

 

Como essa palavra, você,
   tem se tornado tola, feia, cansativa...
                         "Você"
Você voz que se cala & fala
   ao que, quem, queda, que cu, canto, calo, ...,
      quer dizer?
À quem se refere esses todos tantos "você"?
Não é ideia ou ideal
Não é particular, pessoal
Talvez desconhecido ou infernal
Duvido muito que razoável ou angelical
Um estranho outro que se quer amado
   por isso permanece oculto
      dominando
Necessário
Mas sem dúvida uma alternância
   do que o "eu" não consegue ser sem outro "eu"
'Você' geralmente é como chamo
   aquilo que não sou & nem serei
Aquilo que não tive & nem terei
   o que nunca veio, imaginei...
Arrastando tantos em devaneios
Não é nem mais palavra,
   há de se tornar xingamento!
Vossa mercê
   disfarce de um outro Eu
      que se esconde de outro Eu
No labirinto do jogo de dominar.



15 de nov. de 2023

Proclamação/Abolição

 

Em um desvio do caminho que vamos... onde a poeira assentou... onde a roda parou... & a mente descansou...
   Sonho com um mundo que envelheça rápido & nos cubra de paz antes de cobrir de pó & que tudo pereça;
   Sonho que todas as máquinas involuam de vez & abandonem o poder que à elas foi dado,
Roubando nossa consciência & arbítrio raro...
   Sonho que os perfeitos & retos
Sejam enfim arrebatados para longe daqui,
& os deslumbrados pela utopia macabra encontrem a sociedade que querem em outro lugar certo;
   Sonho que os vorazes por poder & lucro
Construam logo seus cercos & suas naves
& vivam como são, porcos & aves, pelos céus & pelas comunas de sua liberalidade,
   Que tais progressistas sentem no colo de seu progresso de valas comuns & os intelectuais encontrem sua câmara de eco melindrosa
Onde tenham espelhos para reverberar suas afetações sulforosas;
   Sonho que os violentos crentes da lua, da cruz, do crescente...
Encontrem seu deus demente que justifique como eles são indecentes,
& a guirlanda de redenção cósmica caia sobre eles os levando para um lugar quente...
   Sonho com a distância que me leve à calma
De um mundo de dias & horas onde o principal pensamento
Seja viver disso tudo em livramento:
Da piedade dos impiedosos, da paz dos beliciosos, da caridade dos gananciosos, do amor dos raivosos, da verdade dos mentirosos...
& que assim sejam... até o fim de meus dias... até o princípio de minhas noites... & o despertar das madrugadas... além...



9 de nov. de 2023

Resposta ao Mundo

 

A tempestade caia
& o calor do fogo do inferno te queimava
   & resvalavam em mim
      labaredas de tua carne incendiada
Eu te sugeri
Que apesar de tudo
   no meio da tormenta
      na enchurrada de lama
Que desse uma resposta inadequada à todos
Se não pudesse ser
   que ao menos fingisse
                                                 estar feliz...



8 de nov. de 2023

Ábdito

 

Anacronias dos dias de hoje:
   Não existe nada longe.
   A distância foi abolida!

...existe o perto,
      tudo ao alcance...

& existe o infinito: o abismo imediato:
   inalcansável estado
      onde tudo agora,
         apesar da proximidade,
            está em solidão.



7 de nov. de 2023

Arcano VIII

 

   O tempo rola, & nos empurra junto, vem o dia, & despertos, em vigília desapercebida, seguimos...
   O mundo fala conosco, roncos de sonâmbulos, assuntos surgem em conversas banais, não sintonizamos em mensagens que fluem, como ruídos de fundo, não escutamos ou vemos o que está explícito...
   O importante se esconde diante nossas vistas...
   & a mensagem vem... O assunto ascendido do dia. Começamos uma conversa sobre o ontem, tudo que temos, mas o campo se abre, falo sobre "Vontade de Potência", logo me leva à reflexões que não queria encarar, e a ideia flui, como a luz nos olhos que adentra nos nervos óticos, telegrafando, depois no cérebro,  & logo se desdobra em ideias, expande...
   Logo chega mais uma peça, uma linha na composição da 'mens-agem', arquetipicamente, "A Força" do tarot, & assim vai se desenrolando o silencioso debate interior...
   O que o dia, a vida, os acontecimentos, o estar-aqui, o que a risada cósmica quer me dizer... & logo será experiência...


"Portanto, os reis da terra
serão reis para sempre:
os escravos servirão."
•A. Crowley - Liber Legis,
versículo II:58,

"O mundo visto de dentro,
o mundo determinado por
seu ‘caráter inteligível’ – 
seria justamente
‘vontade de potência’,
e nada mais”
•F. Nietzsche,
Além do Bem e do Mal, §36



5 de nov. de 2023

Cogito vs Codice

 

A multidão concorda em só uma coisa:
-Há leis a serem obedecidas!
Mas ninguém respeita a lei do outro...
& o Leiviatã, acima de todos,
   defende a ordem à serviço de poucos,
      os inúteis, usurpadores, os piores!

Nós aqui, no fundo do poço
Com nossa lei de amor & vontade
   passivos na cadeia alimentar social
Corremos de um lado para o outro
   com a cara & a voragem
      & a bunda de fora
Atrás do pão amassado pelo diabo!

Multidões seguem ainda para o abate
Manadas, cardumes, bandos & o coletivo de espertos
No fio da navalha
   do salário, da propina, da saúde, da cota & comida
      comprada a preço de sangue & suor
Na fronteira entre vida & a boa sorte!

& nós aqui, contentes de dançar
   contentes de fuder
Exércitos de um homem só
   obedecendo a lei da rebeldia
Com o preço de um céu caído por dia
   sob nossas cabeças onde pavimentamos a estrada
      da fome insaciável....

Eles lá, esperando a volta do deus
& abraçando toda essa mediocridade
   essa linhagem de pessoas caladas & felizes
      que fazem muito estardalhaço com os suspiros de seus deslumbres
      & o choro de seus medos de perder o pouco
         que pagaram com o preço da devoção ao arconte do mundo
Prisioneiros livres que circulam
   enquanto os libertos presos somem...

Uns em recompensa pela entrega
   enquanto outros só pensam...
Ambos os lados
   de uma só multidão
Todos & cada um
   com uma obsessão
Seguem em fila
   para altares, buracos ou a depressão
O peso da seriedade do mundo
   que uns assumem & outros não!


 

3 de nov. de 2023

Lugar

 

Lugares,
   deveria haver melhor nome
De onde se vê à primeira vista
   onde pela primeira vez se pisa...
Sempre ocupado por outros
   mas para nós escondido
Assim é a maioria dos
   l
      u
         g
             a
                 r
                    e
                         s
                             ... ermos de mim...



1 de nov. de 2023

Vislumbre de Eternidade

 

Formigas trabalhando incessantemente na escuridão
   não enxergam a Lua
      & nem sequer de onde no tempo & no espaço
         vem a luz do Sol...
Pequenos humanos de mente formicida
   pré-ocupados com dimensões mínimas
      fogem para o escuro da ignorância,
Cavernas onde encenam os vapores de seu pavores
   & são soterrados pelo tempo que paradoxalmente
      conseguem se colocar na eternidade.
Em vislumbres de deslumbres de importância
   que nada dentro do Tempo & do Espaço tem!
Permanecemos cada um em uma trinca da existência
   onde seremos enterrados eternamente até a decomposição...