30 de mai. de 2022

A Estrela

 

Na penumbra dos beijos
   quando o escuro entra pelos olhos fechados
      ali, começa-se a procurar o vazio no fim de tudo...
Mas o começo desta busca
   vem do caos em nós!
De braços & abraços
   nada & tudo, tudo & nada
      geram Amor
& ao abrir os olhos
   lá, decidimos se isso vai nascer & crescer
      ou será abortado.




   O ser humano é um seer tal, que é embalado no berço do mito, cresce dormente no jardim da inocência, despertar de vez no impacto da solidão, atravessa o deserto da vida, & se vai, aos pouco, entre o desespero da loucura ou da sanidadedo seu próprio sentido, conquistado com renúncia & a graça do que encontra...
   Os mitos o acompanham, como máscaras, fantasias que se vestem das pessoas que encarnam, no eterno retorno do mesmo de todas as coisas já vividas, já experimentadas...
   Só no encontro de duas pessoas (somos todos únicos), no desfrute dessa colisão de insanidade & busca, onde se disparam as sincronias & sentido, encontra-se a cura que corta no meio a ferida do vazio & do caos que é a finalidade da existência... a volta ao começo, ao sim à vida!



"Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante. Eu vo-lo digo: tendes ainda um caos dentro de vós outros. Ai! Aproxima-se o tempo em que o homem já não dará a luz às estrelas; aproxima-se o tempo do mais desprezível dos homens, do que já se não pode desprezar a si mesmo. Olhai! Eu vos mostro o último homem. Que vem a ser isso de amor, de criação, de ardente desejo, de estrela? — pergunta o último homem, revirando os olhos. A terra tornar-se-á então mais pequena, e sobre ela andará aos pulos o último homem, que tudo apouca. A sua raça é indestrutível como a da pulga; o último homem é o que vive mais tempo. “Descobrimos a felicidade” — dizem os últimos homens, e piscam os olhos.

Abandonaram as comarcas onde a vida era rigorosa, porque uma pessoa necessita calor. Ainda se quer ao vizinho e se roçam pelo outro, porque uma pessoa necessita calor. Enfraquecer e desconfiar parece-lhes pecaminoso; anda-se com cautela. Insensato aquele que ainda tropeça com as pedras e com os homens! Algum veneno uma vez por outra, é coisa que proporciona agradáveis sonhos. E muitos venenos no fim para morrer agradavelmente. Trabalha-se ainda porque o trabalho é uma distração; mas faz-se de modo que a distração não debilite. Já uma pessoa se não torna nem pobre nem rica; são duas coisas demasiado difíceis. Quem quererá ainda governar? Quem quererá ainda obedecer? São duas coisas demasiado custosas. Nenhum pastor, e só um rebanho! Todos querem o mesmo, todos são iguais: o que pensa de outro modo vai por seu pé para o manicômio."

(Nietzsche, "Assim Falava Zaratustra")




23 de mai. de 2022

Intimidade

 

Eu acredito que há um mistério no mundo
   Uma mística nas pessoas
   Um encanto nos encontros
Eu acredito que há um segredo nas palavras
   Uma simetria escondida nas formas
   Um enigma na consciência

Do mundo
   O não revelado
      Que emerge mágico
No sentido do coração
Na alucinação da vida
Na inocência das crianças
Na indiferença do deus
Na intimidade dos mortais
Na imaginação do ser humano
Na capacidade de sentir
   & transformar isso em sedução

Cada pôr do sol
   Que acontece em lugares vazios
      Onde ninguém o vê
Em cada ascenção da lua
   Por entre os vales escuros
& a sina do universo
   Em produzir estrelas
      Para todos lados, todos os lados
Do vazio do éter
   Àquelas que brilham nos olhos
      Preenchendo qualquer escuridão
Dando rumo ao que está perdido
   No centro daquilo que existe



22 de mai. de 2022

Uso & Desfrute

 

"O amor é
a compensação
da morte".
Schopenhauer


Em volta
   aqueles que simplesmente não acreditam na paixão,
O deserto & o vazio inútil
   dos outros te abraçam
& sorriem com desdém
   de quem optou
      por sentir...

A noite cobre à todos
   com indiferença fria,
Mas se o profundo da vida é sentir,
   espalho minha tristeza
      na forma de sorriso sem mácula
& recolho os espinhos
   de cada ferida que herdei,
Com eles conto as rosas...

É longe, longe cada caminho de volta,
Melhor sempre seguir em frente
   onde novos erros nos esperam,
Deixem conosco, quem sente,
   recolher da estrada a poeira que se forma
      pelos passos perdidos & cegos
   daqueles que não entenderam nada
      do porque de se viver
         & ter que encontrar alguém...

Sei que por aí,
    dentro da boca faminta da noite,
Falam de nós como tolos,
   desesperados, insanos,
& elevam seus dons de granito
   a frieza, a manipulação, a cobiça, a riqueza...
Mas o que nos une na mesma dança
   são as duas faces da moeda da necessidade:
Uso versus desfrute!

Assim se separa
   as duas hordas que se arrastam pela longa estrada,
Uma portando em seu corpo & coração
   o que a outra quer,
Se anulando no fim das contas
   enquanto o que virá disso
      nunca irá nascer...
Afinal estamos aqui
   para morrer.



18 de mai. de 2022

Frio Fogo

 

O frio de fora
     contra
o frio de dentro
                               faz tremer antes de o vencer
O fogo afora
     penetra
fogo adentro
                                       em vias de fuga, centrifuga
Afasta... aproxima...
        o caos
dessa nossa entropia
                             nosso jeito de ser & desaparecer
Somos fogo frio
   em queda
ao frio fogo
               somos oposto do contrário do esmaecer
Jogo quente
   de deixar
esfriar o lance
                   nosso erro, nosso além, nossa chance
Assim o faz
   a vida, a morte,
o vir à sorte: amor forte!
                                              esse nosso corte



16 de mai. de 2022

A Invenção do Fogo

 

A alma é rara
    & doce...
Mas procura
   essa raridade & doçura
Em outras carnes
   outras pedras
       outros pares...

É pouco doce o sangue
   bastante comum
      o seu sabor de sal & metal
Em outros corpos
   sem alma
      arrastando-se por aí...

Só porque é quente
   não quer dizer que há fogo
O gelo das pedras frias
   queima mais que o sol
& toda vida começou
   em uma pedra fria perdida no éter
      mas a alma foi invenção do fogo do espírito...

Agora gira
   orbitam-se frio & fogo
Alma & vazio
   nos corpos
      que se atraem, traem & repelem
Em busca da raridade:
   amor & paz no fim.



12 de mai. de 2022

Além

 

Sonho longo
   sem descanso
                               da vida...
Volta & meia
   eu te encontro
                               nesse outro mundo...
Quando não estou vivo
                                          & nem morto...

Passam-se os dias  
   as luas, os meses
      passa tudo, menos você...
Que revêm
    por uma química aleatória
       das minhas memórias...
& eu te enlaço
    de abraços & escuridão
        te embaraço de sono & solidão...
Te consumo
   como se fosse a última vez
      que vou te ver...

Foi-se o tempo
   quando acordava para te ver
      & agora que eu ou você estamos além
Além da memória
   do tempo, do espaço
      lá, só o querer alcança...



11 de mai. de 2022

Do Pó ao Pós

 

Nós comemos o pó desse chão
   suspenso na atmosfera
      pela convulsão de nossos corpos
& respiramos o ar que vaga
   por entre as ondas elétricas
      emitidas do magma endurecido
         que incandesse por todo lado
            em formas mil...
As memórias
   depois dos atos
Tecidas do impacto da carne
   contra a teia da realidade
Falam loucas do que passou
   & quer se repetir
Pressageiam um futuro
   alinhado em comum com a cova
      & o coma de todos os êxtases...
& brotam por todos os lados
   raízes de asas
      que primeiro voam com os sonhos
         & depois com os pássaros
Para nos levar aos braços do céu
   onde as nuvens já carregam
      a água para matar
         a sede de nossos pés
            por caminhos úmidos
Encharcados com o gozo das tempestades
   que somos nós...
      o raio & o pós
         estrondo do trovão!



6 de mai. de 2022

Em cruz Ilhada

 

A árvore caminha
   não é árvore & nem se move
   não está no caminho
      nem no mundo, universo ilha afora
É um sonho
   & assim se erra
      perde & se encontra
   entronca-se, encruzilha-se
Se erra no era
   no será & no é
Se erra por ser estar
   sonha caminhar...
A árvore caminha
   na sua nudez imóvel
   por entre sombras & desertos
   praias, florestas, fundo do mar
   pelo ar, éter de estrelas, rotas sem registros
Passa por quartos em penumbra
   é necessário passar
   por entre confluência de corpos
Busca no escuro outras árvores
   camas, covas, cantos, arestas
      corpos para se deitar
Deleitar outros caminhos
   até o fosso profundo com água no fundo
      para se enxergar...
A árvore caminha
   na vida de outro vivente
Tortuosa estrada,
   encharcada, barco no rio
      enlameada pela tempestade do prazer
         de caminhando, colidir
No fundo do poço vê
   que não é caminho
      é abismo
      onde se cai de gozo em gozo
   na encruzilhada do encontrar...
A árvore caminha
   não é caminho infinito
      mas circular, ilhado por oceanos de limites
         por todos os lados
A árvore vive
   como planta encravada
      como cruz suplantada
Fincada no umbigo de um outro mundo
   no fulcro da pessoa, árvore, viva, desejada
Ancorada em sua ceifa, seu naufragar
   da árvore flutua
      um no do outro oceano
   a se abraçar, frutificar...

     


 

3 de mai. de 2022

Considerações Contemporâneas - Doença Mai/2022 - Xamanismo vs. DemiUbik

 

"doença nos permite deixar à espreita,
ela nos dá outras perspectivas. Doentes, 
ficamos à beira do mar do conhecimento, 
usando a dor como isca".

– Nietzsche, Gaia Ciência

   A estranheza iluminada que se alcança com a enfermidade, com o cérebro cozido pela febre, sentindo a película da realidade se separando de si mesma em camadas cada vez mais finas...
   Uma matrix dentro de uma matrix dentro de uma matrix...
   Se você parte de uma falsidade não consegue nenhuma verdade, por isso o gnosticismo está sempre no fim/início de todo momento relevante, de toda verdadeira crise, da vida de um indivíduo, da cultura de um povo, da história da humanidade...
   A Caverna de Platão, o Demiurgo, o deus enganador, Matrix, a era da (des)informação... tudo se sobrepõe & desfibrila em mais & mais camadas de falsidade, visando nos entorpecer...
   Basicamente, a grande síntese, o desmascaramento disso tudo, não está em nenhum livro sagrado, mas na literatura, & principalmente, está em Nietzsche, está em Jung,  está em Philip K. Dick,  & espalhado aqui & ali...
   O Xamanismo casual que nos leva de erro em erro à uma explicação das coisas que nos encurrala enfim perto do "escathon" da era digital, tão superficial & frio como um celular sem carga.
   As sincronias apontam sempre para fora da máquina onde se disponibiliza os analgésicos & as infecciosas reflexões para esse nosso terceiro aborto na realidade cósmica (leia "cósmico" como farsa, como algo cômico).
   Fomos abortados do nada & do silêncio para a existência no turbilhão da existência, depois abortados do Éden de carne do útero & agora todo útero universal que suporta a vida consciente nos enche de doses massivas de informação, virulenta ou esclarecedora, para ejetar quem tem alma dessa realidade enfim...
   Parecemos doentes, baseados diante das evidências de nossa própria incompletude & aquilo que seja a Totalidade... sereno afastamento da feira de idiotia que é o mundo.
   Então se desvela a maior das piadas... uma humanidade inteira doente de corpo & alma, poderia enfim avançar de vez ou finalmente se extinguir. Eis ponto em que estamos!



2 de mai. de 2022

Ulteriores

 

O que passou
   não está no tempo nem no espaço
Está somente na memória
   de quem pouco ou muito viu
      de quem bem ou mal viveu...
...não se perdeu, mas não nos acompanhou...
Queime seu livro
   Anjo do castigo
Arranque as páginas
   Demônio da culpa
      onde escreveram algo sobre nós...
Nós que deixamos para trás
O lugar...um porque...qualquer motivo...
Nós que levamos para frente
O novo...tal afirmação...nossa razão...
Nós que trocamos a memória pelo sonho
& o sonho pela realização
& a realização pela verdade
& a verdade pela felicidade...
Encontramos longe daquele tempo
Fora daquele espaço
   depois da noite, o dia
      a saciedade depois da fome
         depois da loucura, a sanidade
            a sombra depois do fogo
               depois da vergonha, o carinho
                  a calma depois do desespero
                     depois da paixão, o amor!



(Poema para uma futura felicidade)
Abril - 2022