22 de abr de 2010

Da Poesia

A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de mudar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual , é um método de liberação interior. A poesia revela este mundo; cria outro.

Pão dos eleitos; alimento maldito; isola ; une. Convite à viagem; regresso à terra natal. Inspiração, respiração , exercício muscular. Pregação no deserto, epifania , presença. Exorcismo, conjuro , magia. Sublimação, compensação , condensação do inconsciente. Expressão histórica das raças, nações , classes. Nega a história: em seu seio se resolvem todos os conflitos objetivos e o homem adquire enfim consciência de ser algo mais que transitório. Experiência, sentimento, emoção, intuição , pensamento não-dirigido. Filha do acaso;
fruto do cálculo.


Arte de falar numa forma superior ; linguagem primitiva.


Obediência às regras;
criação de outras.


Imitação dos antigos, cópia do real , cópia de uma idéia. Loucura, êxtase, logos. Regresso à infância, coito, nostalgia do paraíso, do inferno, do limbo. Jogo, trabalho, atividade ascética. Confissão. Experiência inata. Visão, música, simbolo. Analogia: o poema é um caracol no qual ressoa a música do mundo e metros e rimas não são mais que correspondências , ecos, da harmonia universal. Ensino, moral , exemplo, revelação, dança, diálogo , monólogo. Voz do povo, língua dos escolhidos, palavras do solitário. Pura e impura , sagrada e maldita, popular e minoritária, coletiva e pessoal, nua e vestida, falada, pintada, escrita , ostenta todos os rostos, mas há quem afirme que não possui nenhum , o poema, é uma certeza que oculta o vazio; a bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana.


Poesia e Poema Octavio Paz - Introdução de O Arco e a Lira

13 de abr de 2010

Wabi-Sabi



na boca, no canto
   riso, ruga, ranhura
o olho, dissidentes
   vergo, visgo, vesgo
em pele
   cicatriz, tatuagem, arranhado
feridas na alma
   trincados na parede
      limo fresco na sombra dos muros
uma flor morta e seca
   por entre as páginas de nosso livro predileto
e essa sua discreta imperfeição
   que tem minha afeição
      tua linda forma não exposta
         na flor da pele lacrimal
             sinopse sudorosa sonora
               sincera rosa humana
discreta ranhura
   que leva a mente ao cerne da tua coisa qualquer
      desse seu jeito impermanente
         de permanecer em esplendor vivo
quase incomodo
   em minha memória.

1 de abr de 2010

Sombras de Árvores

Fotografando sombras
Rasgando caminho por mais essa ausência
Sombra de árvores

Sombra de gente

Prédios em sombra

Sobras de alinhamentos & interposições

Quase ausência de luz & querências de visões
Nas sombras
um repouso de silêncio não solicitado
e o esforço dos olhos por mais um significado.