26 de jul de 2011

Budismo Subversivo

O Budismo Radical e o Paradoxo da Aceitação

"Apesar de sua crítica ao budismo ser um pouco desinformada, Slavoj Zizek oferece uma boa visão sobre o perigo de interpretar mal toda a prática e as técnicas de conscientização budistas."
A opinião é do escritor norte-americano e professor budista Ethan Nichtern, em artigo para o sítio The Huffington Post, 20-08-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
=Eis o texto:
O crítico teórico Slavoj Zizek tem uma crítica dura e interessante do budismo ocidental e das ferramentas de meditação que ele utiliza. Enquadrando sua crítica em termos marxistas, ele argumenta que o budismo é a tradição espiritual perfeita para ser cooptada pela nossa sociedade autoabsorvida, destrutiva e consumista.
Para ele, o budismo representa a ideologia perfeita para a aquiescência passiva ao mundo como ele é, uma panaceia de paz interior que se encaixa perfeitamente em uma cultura da publicidade, na qual, até agora, "esteja presente" poderia muito bem ser o slogan de uma empresa de cartões de crédito quanto uma instrução de um professor de meditação.
Zizek escreve que "[o budismo ocidental nos permite] participar plenamente do ritmo frenético do jogo capitalista e, ao mesmo tempo, manter a percepção de que você não está realmente nele, de que você está bem consciente de como o espetáculo é inútil – o que realmente importa para você é a paz do seu eu interior, da qual você sabe que sempre pode se afastar".
Em outras palavras, para Zizek, o budismo, no contexto de uma cultura consumista ocidental, permite que o indivíduo acredite estar transformando sua mente sem, na verdade, alterar as condições de sofrimento que moldam a sociedade individualista. Isso representa um tipo perigoso de paz interior – uma paz não baseada em um insight verdadeiro sobre a natureza interdependente da realidade, mas, ao contrário, baseada no afastamento a um casulo mental, a um oásis pessoal isolado da agitação do mundo lá fora.
Nesse casulo, o mundo inteiro pode ir para o inferno, e o meditador pode – dito de forma simples – ficar de bem com isso. De fato, o meditador pode até ser um ator disposto em um sistema que ajuda nas grandes opressões e mesmo assim pode viver comodamente, porque "tudo está bem", afinal. Pela prática da "aceitação", simplesmente nos tornamos confortáveis com o status quo.

Claro, assim como para a grande maioria das coisas ditas pelos teóricos críticos contemporâneos, o melhor ponto de Zizek é dito de forma mais convincente e artística por outra pessoa, neste caso, Stevie Wonder: "Tenha certeza de que, quando você diz que está nele mas não é dele, você não está ajudando a transformar este lugar naqui lo que às vezes se chama de inferno".
 
Apesar de sua crítica ao budismo ser um pouco desinformada, Zizek oferece, de seu próprio jeito, uma boa visão sobre o perigo de mal interpretar toda a prática e as técnicas de conscientização budistas.



O que me fascina é que a sua crítica é semelhante – na linguagem da teoria cultural – à cautela pessoal que a maioria dos meditadores iniciantes têm sobre a prática da meditação, especialmente com relação a 1) como a conscientização realmente funciona, 2) ao que a aceitação realmente significa, e 3 ) a quão genuína é a transformação que acontece.
O primeiro palpite que devemos ter de que a meditação não é um afastamento passivo para um escudo mental é este: meditar é realmente muito difícil! As coisas que são passivas tendem a ser fáceis, certo? Assistir "Project Runway" [reality show norte-americano] por meia hora é muito fácil. Assistir sua mente por meia hora, nem tanto.
A verdade é que a conscientização – prestar muita atenção naquilo que os nossos pensamentos fazem no momento presente – não é totalmente pacífica, pelo menos não no sentido "fácil" da palavra. Qualquer pessoa que tenha tentado meditar regularmente sabe disso.
Por que é difícil? Porque voltar ao momento uma vez e outra é uma verdadeira revolução contra o hábito, uma rebelião contra a nossa tendência cultural de sempre evitar o que estamos sentindo e experimentando. É essa fuga crônica de nós mesmos (e não a prática rigorosa da autoconscientização que fazemos sobre uma almofada) que está no cerne da cultura consumista inconsciente. Sem ter uma prática real, no entanto, não há forma pela qual Slavoj Zizek ou qualquer um de nós possa realmente ver a ironia dessa realização.
Claro, para pessoas que não praticam, a meditação pode aparentar e realmente aparenta ser um clichê perfeito de passividade perante o status quo. Quando você olha para alguém sentado lá, você pode pensar: "Sério, o que aquilo faz para eles? O que isso realmente muda com relação à sua situação? Como isso melhora o mundo?".
Fazemos essas perguntas céticas porque o que queremos merecidamente não é apenas a habilidade de prestar atenção, mas também a habilidade de transformar as nossas circunstâncias. Queremos mudanças nas quais possamos acreditar, tanto interna quanto externamente. Essa é a recompensa que estamos procurando. Sem a recompensa da transformação que vem em algum ponto do caminho, a meditação é inútil. Os professores budistas podem pregar que "não há nenhum objetivo" tanto quanto quiserem, mas a maioria dos alunos também não vai ficar esperando muito tempo para ouvir as sutilezas do que isso realmente significa. E há objetivos na meditação, a propósito, só que não o tipo que pode ser alcançado em "30 minutos ou seu dinheiro de volta".
Transformação prática é o que a prática budista é. Também é uma questão de mudar o mundo. Praticar meditação consistentemente serve para ir fortemente contra a onda de materialismo que está quase literalmente matando o planeta. Mas a transformação é, na verdade, o passo três em um processo de três passos.
O primeiro passo é a prática muito menos sexy da conscientização. A conscientização é o método científico natural da mente. Um cientista usa um microscópio, um meditador usa a conscientização. Precisamos nos dar conta de que vivemos em um estado de profunda suposição sobre como a mente funciona, o que depois se estende para a nossa compreensão do mundo. Raramente experimentamos alguma coisa diretamente, sem primeiro acalmar e prestar atenção.
Um cientista não deveria fazer afirmações com base em alegações infundadas, e um meditador não deveria tentar mudar qualquer coisa até que a conscientização esteja decentemente estabelecida. Sempre que tentamos mudar alguma coisa antes de a entendermos, nossa tentativa de transformação, na verdade, vem do hábito e da suposição, não da sabedoria. As soluções que vêm do hábito, como indicou Albert Einstein, apenas acabam reforçando o problema. Isso se chama samsara, devido à estrutura sempre circular da lógica habitual.
O segundo passo é o trabalho de aceitação, e acho que é o verdadeiro sentido da aceitação em sentido budista que Zizek e outros fundamentalmente interpretam mal. Quando nos tornamos conscientes, percebemos o quanto de nós mesmos nós realmente não gostamos. Esse é o motivo pelo qual a meditação é três milhões de vezes mais difícil do que assistir um "reality show" na TV. A questão é que a nossa autoaversão corre muito mais profundamente do que nossos impulsos voyeuristas.
Para que a transformação aconteça, na verdade, temos que ser amigos da nossa mente. Temos que aprender a gostar de nós mesmos. Isso é o oposto de um esquema "fique rico rapidamente". Não existe nenhum produto que possamos comprar para ajudar nesse trabalho. Ele só vem com a disposição de estar consigo mesmos, nua, aberta e amorosamente, uma e outra vez, durante um longo período de tempo. O que significa que temos que passar um tempo conosco mesmos. Muito tempo. E o tempo que gastamos conosco mesmos sobre a almofada é o oposto de passivo. Muitas vezes é difícil, geralmente é intenso e leva a uma vitória árdua, lenta e revolucionária sobre o ódio por si mesmo. Na verdade, podemos chegar a gostar de nós mesmos. Gostar de si mesmo é o resul tado da aceitação. Chamar a aceitação de "radical" – como faz Tara Brach – é, na verdade, um eufemismo grave.
Pessoalmente, não conheço muitas pessoas que dizem ter se dado conta do estado radical da autoaceitação. Aqueles que se deram conta são poderosos agentes da mudança global. Será que o tipo de autoaceitação que as técnicas de meditação budista sistematicamente cultivam no indivíduo realmente mudam o mundo? Bem, não, não sozinhas. Zizek está certo sobre isso, assim como com o perigo de pensar que a aceitação é o fim da viagem e de acreditar que, de alguma forma, estamos "nela, mas não somos dela".
Finalmente, você tem que se levantar e fazer alguma coisa. Mas tentar mudar a sua vida ou o mundo sem um método real para mudar a sua própria mente é algo inerentemente fadado ao fracasso, porque a sociedade é apenas uma matriz de corações e de mentes daqueles que nele habitam. Construída sobre os fundamentos da conscientização e da aceitação, a transformação radical, para além do hábito e da suposição, pode ter início.

21 de jul de 2011

"Chão da Rosa" - Homenagem aos 50 anos da UDV

...no mistério de uma miração...

Ah!... Essa Rosa...
Que veio do chão da Rosa...
Ah!... Essa Rosa...
Que nasceu do chão da Rosa...
Ah!... Essa Rosa...
Que floriu do chão da Rosa...

Ah!... Essa Rosa...
Que vem do chão da Rosa...
Ah!... Essa Rosa...
Que nasce do chão da Rosa...
Ah!... Essa Rosa...
Que floreia do chão da Rosa...

Ah!... Essa Rosa...
Que virá do chão da Rosa...
Ah!... Essa Rosa
Que nascerá do chão da Rosa...
Ah!... Essa Rosa...
Que florirá do chão da Rosa...


Em homenagem aos 50 anos da recriação da União do Vegetal , 
publico esse opúsculo com poemas dedicados à “rosa”, 
essa rosa que é a "rosa do mundo", a Luz e a Força para 
toda a humanidade, que há de receber finalmente
a Paz. 

 


UDV: 50 Anos:

19 de jul de 2011

"Cinema Americano" (Composição: Rodrigo Bittencourt)

Tão homem tão bruto tão coca-cola nego tão rock n'roll
Tão bomba atômica tão amedrontado tão burro tão desesperado
Tão jeans tão centro tão cabeceira tão Deus
Tão raiva tão guerra tanto comando e adeus
Tão indústria tão nosso tão falso tão Papai Noel
Tão Oscar tão triste tão chato tão homem Nobel
Tão hot dog tão câncer social tão narciso
Tão quadrado tão fundamental
Tão bom tão lindo tão livre tão Nova York
Tão grana tão macho tão western tão Ibope
Racistas paternalistas acionistas
Prefiro os nossos sambistas


A ponte de safena Hollywood e o sucesso
O cinema a Casa Branca a frigideira e o sucesso
A Barra da Tijuca Hollywood e o sucesso
Prefiro os nossos sambistas


Prefiro o poeta pálido anti-homem que ri e que chora
Que lê Rimbaud, Verlaine, que é frágil e que te adora
Que entende o triunfo da poesia sobre o futebol
Mas que joga sua pelada todo domingo debaixo do sol

Prefere ao invés de Slayer ouvir Caetano ouvir Mano Chao
Não que Slayer não seja legal e visceral
A expressão do desespero do macho americano é normal
Esse medo da face fêmea dita por Cristo é natural


É preciso mais que um soco pra se fazer um som um homem um filme
É preciso seu amor seu feminino seu suíngue
Pra ser bom de cama é preciso muito mais do que um pau grande
É preciso ser macho ser fêmea ser elegante


Prefiro os nossos sambistas



- Cantada por Thais Gulin: www.thaisgulin.com.br/

13 de jul de 2011

Frases de Gurdjieff

  •  Ame o que você "não ama".
  • Para o homem a mais alta realização é ser capaz de fazer.
  • Quanto piores as condições de vida, melhores serão os resultados do trabalho - contanto que nos lembremos continuamente do trabalho.
  • Lembre-se de você mesmo, sempre e em toda parte.
  • Lembre-se de que você veio aqui, porque compreendeu a necessidade de lutar contra si mesmo. Agradeça, portanto, a quem lhe proporcione a ocasião para isso.
  • Aqui podemos dar uma direção e criar condições - mas não ajudar.
  • Saiba que esta casa só pode ser útil aos que reconheceram sua nulidade e crêem na possibilidade de mudar.
  • Se você sabe que isto é mal e, apesar de tudo, o faz, comete um pecado difícil de redimir.
  • O melhor meio de ser feliz nessa vida é poder considerar sempre exteriormente - nunca interiormente.
  • Não ame a arte com seus sentimentos.
  • O verdadeiro sinal de que um homem é bom, é ele amar seu pai e sua mãe.
  • Julgue os outros conforme o que você é e raramente se enganará.
  • Só ajude aquele que não é um ocioso.
  • Respeite todas as religiões.
  • Amo aquele que ama o trabalho.
  • Podemos somente nos esforçar para nos tornarmos capazes de ser Cristãos.
  • Não julgue um homem pelo que contam dele.
  • Leve em conta o que as pessoas pensam de você - e não o que dizem.
  • Junte a compreensão do Oriente e o saber do ocidente - e, em seguida, busque.
  • Só aquele que puder zelar pelo bem dos outros merecerá seu próprio bem.
  • Só o sofrimento consciente tem sentido.
  • Vale mais ser temporariamente um egoísta do que nunca ser justo.
  • Se quiser aprender a amar, comece pelos animais; eles são mais sensíveis.
  • Ensinando aos outros, você mesmo aprenderá.
  • Lembre-se de que aqui o trabalho não é um fim em si mesmo. É apenas um meio.
  • Só pode ser justo quem sabe se pôr no lugar dos outros.
  • Se você não for dotado de espírito crítico, sua presença aqui é inútil.
  • Aquele que tiver se libertado da "doença do amanhã" terá uma chance de obter o que veio procurar aqui.
  • Feliz aquele que tem uma alma. Feliz aquele que não a tem. Infelicidade e sofrimento para aquele que só tem a semente dela.
  • O repouso não depende da quantidade, mas da qualidade do sono.
  • Durma pouco, sem se queixar.
  • A energia gasta para um trabalho interior ativo se transforma imediatamente em nova reserva. A que é gasta para um trabalho passivo se perde para sempre.
  • Um dos melhores meios de despertar o desejo de trabalhar sobre si mesmo é tomar consciência de que a gente pode morrer de uma hora para outra. E isso, é preciso aprender a não esquecê-lo.
  • O amor consciente desperta o mesmo em resposta.
    O amor emocional provoca o contrário.
    O amor físico depende do tipo e da polaridade.
  • fé consciente é liberdade
    A fé emocional é escravidão.
    A fé mecânica é estupidez.
  • A esperança inquebrantável é força.
    A esperança mesclada de dúvida é covardia.
    A esperança mesclada de temor é fraqueza.
  • Ao homem é dado um número limitado de experiências
    - se ele não as desperdiçar, prolongará sua vida.
  • Aqui não há russos, nem ingleses; nem judeus, nem cristãos.
    Há somente homens que perseguem a mesma meta:
    se tornarem capazes de ser.
Link: Instituto Gurdjieff do Brasil

5 de jul de 2011

A Metaphísica dos Pesares


                               Como viver?
                                              O que pensar?
             O que fazer?

Quando o desgastado & inconseqüente corpo
   está por aqui...
Mas a antiga & infatigável alma
   já vaga distante...

E o  coração pétreo
Pedregulho de carne saturada
Afunda & e se afoga
   no frio final das madrugadas
Trazendo das extensas noites
   o imaculado gelo dos pesadelos
Inoculado desde a vigília
   para o desespero real das opressões

Longe paira o pensamento
   buscando alguma satisfação ,
   virtual que seja,
E tal pensar também desvirtua a vida
   quando sopesa na medida da dor
      toda a existência
Arrasta a mente
   ao fundo do foco do qual se aventa
      do agito da água estagnada
Um pesar:
   Que algo
        ou tudo
Poderia ser melhor!

                                                                                                                             e.m.t