20 de set. de 2020

Arcano 19

 Vai chegar um momento na vida,

depois de milhares tardes de Domingo,
Que vamos ter que reinventar
o sentido dos dias,
& gritar contra toda uma falsa calmaria,
mecanismo que faz tudo reiniciar
pela forma semântica da semana...
Pois submetidos aos sete até o Deus foi,
& o descanso não passa de um fôlego
no afogamento deste soma temporal
que nos descama,
Ao que a tarde de Domingo
sempre se parece com o mais próximo
de um momento fora do tempo,
quando morre qualquer esperança
de algo realmente ser diferente
de agora para frente!
É quando a mesmice salta de novo sobre nós
& finalmente afogados nesse silêncio,
cheio do medo pelo que retornará:
Labuta, batalha, sustento,
celebraremos então cada dia
como uma suspensão não do Tempo para o outro,
mas do Espaço que é só nosso,
Pois todos os dias
são dias de sol, com a noite além,
& os dias finalmente,
não pertencerão à ninguém!



18 de set. de 2020

Anacrônico

 Vou a lugares 

que sei que você não está
para te encontrar,
Cometo pecados
pra nos santificar,
Eu faço orações
para demônios
que sei que não vão me ajudar,
Isso tudo para me provar
que o que está perdido
é o que nunca deveria se encontrar.

Tenho oceanos profundos
para mergulhar,
& marés transbordantes de gozo
& insatisfações
para me enganar,
Teus passos perdidos no mundo
bem do lado dos meus
Me falam que apesar
do muito querer
deve-se levar em conta o 'nada a ver'.



8 de set. de 2020

Anuário

 Ciranda do Tempo

Ampulheta do Espaço
em conjunção
fornicam retorno & peso,
Ali, meus passos incertos
sobre minha própria & única sina...

É preciso vastidões
de florestas, campos, mares & desertos
para se perder & encontrar-se!

O Tempo circula
& ejacula permanência
onde não devia haver coisa alguma,
& o Espaço desaba
destroços que se amontoam
no campo onde dançamos com o nada...

Viventes & existentes
coabitam nesse abismo do eclipse
Cindindo cada um
entre o retorno & o novo
de novo & de novo &...

Quem é vivo
se afoga no tempo...
Mas quem existe,
cruza os espaços!



4 de set. de 2020

O Novo Terror

 Quando o medo,

ah! o medo...

Doma o demo, essa coisa do desejo;
Quando o medo
é maior que o tesão,
não tem jeito,
é o medo, é o medo, só & medo!

Assim, não deitamos,
nem amanhecemos,
repousamos, no medo, com medo,
Sem respirar, sem tocar, sem amar,
É, o medo!

Quando o medo,
ah! o medo, de medo, no medo,
Nos toma o desejo, a vontade, o enredo,
nossas vidas...
no medo, em medo, de medo,
não tem jeito,
é só temor!

Assim, não vivemos,
nem sequer morreremos,
já parecemos, no medo, com medo,
Sem viver, esperando, em cada dia,
sim, o medo, que já chegou!

Quando o medo
dita a meta: temer, tremer, tê-lo, terror
ah! esse medo, essa não-métrica
de passo para trás,
de deixar de viver;
Sinta-o,
mas não faça dele, modo de ser!



1 de set. de 2020

Gravitar

 Em nosso imaterialismo 

a mente à deriva
como monolito a orbitar
cacos de mundos, acima
um satélite de consciência
que perdeu a rota,
é impossível naufragar nesse nada
são só saudades, vislumbres,
em um exílio sem tempo nem lugar...

Tão alto, maior a queda,
que nunca chega
& há de começar
para quando cair, nunca mais parar
como a Terra em volta do Sol
& as quatro luas que vieram o chão beijar
& o Sol que baila
em torno de um poço sem fundo
é toda nossa sina a retornar...

Lá fora, no escuro, coisa profunda,
o silêncio & o silenciar
da mente que não pensa
repetindo que no início
não foi a luz nem foi o mal
mas foi o peso do nada a não se suportar
que fez tudo começar,
desde o átomo até o desmoronar
da matéria & do corpo a amar.