30 de nov. de 2019

Simulações


(...trovões ao longe...)
Lá fora todo mundo dorme
mas o Facebook é
só um sono mais profundo...
Vamos brincar com a carne
antes que não
sintamos mais nada.
Encontre seu oráculo
para ouvir do espelho
suas verdades necessárias,
Enquanto a luz ainda brilha
poderá haver de tudo,
Menos ignorar que interagimos...
(...trovões bem próximos...)



apesar...


Apesar da solidão
nunca senti que não precisava de alguém...
Agora, penso com os pés
apenas caminho...
Não estar no mesmo lugar
é um compromisso com o coração...
O que pode dar errado
aconteceu sempre antes...



25 de nov. de 2019

Saudade

Saudade não é um sentimento,
é uma ruptura no tempo,
Um nó que nos ata à momentos
que paralisaram...
Eu estou esperando
só esse nó romper,
Estou esperando
só o relógio voltar a mover-se
para poder chorar mais...
Porque isso vem
& me pega de surpresa
parado no sinal,
no meio da noite,
a lembrança de você...
Eu estou esperando
poder desabar,
Estou esperando
encontrar o tempo
para poder continuar...
Saudade é uma exaustão
procurando revigorar
O tempo que era
antes de quem amamos
partir...



21 de nov. de 2019

electra

trovão macio
triturando o som
na acústica de uma rosa,
treme o chão
na onda de impacto
que também tremula a flor da pele...
desnorteado beijo intacto
guardado para o ano novo
repousa como jóia
dentro da ostra do tempo...
ensaia tua dança ao som do trovão
que no beijo verá
eletricidade compactuando
com o que os póros exalam...
porque o raio também remenda
os corações...


19 de nov. de 2019

Advento

Agora são tempos
das coisas a terem começado
muito tempo atrás...
Tempo perdido, recuperado
Tempo partido, remendado
Tempo sem tempo, momento
de viver o que foi adiado
& adiantado... alcançado...
Agora é tempo
de deixar de ser tempo
& se tornar evento!


17 de nov. de 2019

A Paz do Fogo

Se despeça de você
sua auto-visão irreal,
a loucura que você espalha no mundo.
Não há amor que preencha uma alma,
temos apenas o entulho das paixões...
a chama seca que nos consome.
Corações se tornam lugares irreconhecíveis
depois da demolição,
com o pó & as cinzas que ali decantam.
Mesmo que você seja daquelas coisas
que brilham no escuro,
está pronta para se apagar...
tua oferenda para o mundo.
Fogo frio
Chama-se fluorescente
Chama de flor nascente, natimorta...
a planta venenosa que cultivamos.
Quer incendiar-se no vinho,
acordar no sono,
cair no mundo...
cravar raízes no nada.
É pena que sonhos não peguem fogo,
pois os donos do fogo são anjos iletrados,
Seres que nunca dormem...
No fim vamos querer só distância deles
& a paz de renascer das cinzas!




11 de nov. de 2019

As Nuvens

Às vezes procurando entre nuvens
o que no céu há de melhor,
o mesmo que escorre dos olhos
ou dos lábios o trovão, o pior!
Às vezes esperando a terra se abrir
& dali sair o magma, sumo, suor,
Alcançar por suave força
o retorno da serenidade do ardor,
Olho para o passado
para tudo que foi bom
& tenho a certeza
se fui outro,
eu mudei só para poder
voltar a ser o que era
pela força do amor.


9 de nov. de 2019

Anti-Carnaval

Anti-carnaval em Novembro
Unindo a todos
calor insuportável
chuva temerária
A arte de fazer gado alegre
A arte de fazer gado enfurecer
um mal-estar na alegria
outro mal-estar na fúria
O abatedouro é livre
A democracia risível
toda essa transformação
não passa de imobilização
Não é Justiça
Apenas auto-preservação


6 de nov. de 2019

Amador

É importante saber & importante dizer que você não me feriu. A ferida já estava lá, não foi você.
Você só me fez tocar nela de novo...
Agora sinto-me disforme & bidimensional como uma pintura de Francis Bacon.
É doloroso fingir que não se tem afeto. Ainda bem que a rede é fria & nos anestesia...
Que sintoma é esse que transforma o bem querer em algo amorfo?
Qual a cura desse afeto passivo que esvazia & pelo qual minha sombra se aproxima para dançar?
Me dê um milhão de anos-luz de descanso... Me dê espaço para enterrar esse corpo-de-glória esfacelado...
Atuando no ato final desse Teatro do Absurdo, enceno em câmera lenta a farsa do esquecimento. Comédia será sempre o estilo de quem só tem o que sentiu.
Ainda não somos trágicos o suficiente para o "sim" necessário à tristeza. É isso que a vida quer de nós: Aprender a terminar!


4 de nov. de 2019

Sobre as Fugas

A intimidade construída com palavras
é uma estrada pavimentada
para se distanciar...
& a distância contém o que fica,
quem lida com as crias da ânsia
sabe disso...

É que sentimentos plantados em canteiros
são projetos de desertos
& desertos são todos os caminhos
cruzados sobre si...
Não há oásis onde se deixa de irrigar,
Não há palácios para se abrigar
o sol & a chuva por dentro...
Não há como modular a atração,
gravidade não cria peso,
apenas conforma carências
que se atraem, distraem & traem...

Os leves atraídos por coisas leves,
os pesados pelo pesar,
Aí sentimos onde os pés atolam
& inventamos asas...
O mundo gira,
mas temamos em retroceder,
É que no passado há um lugar onde não nos conhecíamos...

Agora isso é de mentira,
o silêncio uma mágoa sem porque,
a distância uma precaução relativa...
Depois da colisão
mantemo-nos próximos pelas escoriações...

Ali onde nos ferimos,
encha de indiferença,
carregue de sentimentos errados...
O mundo é redondo
com estradas tortas
só é reto uma ilusória retidão...

Com isso não nos cobrimos
& chegamos a lugar nenhum.
Esquecer não é opção, é violência.
Mas não há outra forma,
Às vezes o melhor
é deixar queimar...
O fogo limpa o campo
& nas cinzas se planta a cor...

Pelo atalho para esquecer vamos empurrando-puxando...
Retalhos são só partes de uma coisa maior que cortamos...
Todos esses são caminhos certos
para sempre se encontrar de novo,
A fuga é circular
& é o mais longo dos caminhos...


2 de nov. de 2019

Ecsistência


Me pego escrevendo como Cioran, tristezas & mágoas quase sem nexo,  se não fosse a beleza, se não fosse a verdade...

Vir a existir é um despertar rumo ao adormecer, um encher gradativo para esvaziar-se repentinamente.

Existir é ter onde caber todos os desejos & não ter por onde os desalojar.
Existir é distorcer uma ilusão até ela não mais ter lugar na consciência & se tornar dor & querida.

Esse descer à vida só pode ser voluntário. Afinal somos masoquistas, nossas errâncias o provam, somos o cisco que na ostra se faz pérola barroca.

Ninguém vem aqui por engano, todos entram nesse artifício da vida por morbidez própria. Somos ousados.

Vamos de encontro a tão só uma sensação, um reconhecimento, que somos velhos, muito velhos... mais antigos que o tempo & existir é vir lembrar isso.
& para quê? Para nos redimir da eternidade & do infinito & do nada em nós:

Amor & imaginação & ignorância.

Coisas que furtamos de outros deuses & tornamos melhor, & como criminosos que somos, tivemos a sorte de no sarcasmo cósmico do Demiurgo, escolher nossa pena: Existir! Com tudo que isso traz.



1 de nov. de 2019

Ela passa...

Ela passa aqui de manhã com os cabelos molhados
Ela passa aqui sorrindo
Ela passa aqui de manhã cheirando a amor
Ela passa aqui com pressa de chegar
Ela passa aqui de manhã pensando distante
Ela passa aqui cantarolando Elton John
Ela passa aqui de manhã com a roupa amassada do ônibus
Ela passa aqui com meu bom dia
Ela passa aqui de manhã com urgência de café
Ela passa aqui & não volta mais
Ela passa aqui de manhã com batom cereja
Ela passa aqui ainda sonhando
Ela passa aqui de manhã...
& ela é a manhã...
& o dia... que passa...