29 de out. de 2021

o Agora

 

o Agora
   é um Lugar
      que não nos cabe mais
de tanta Saudade
   de tanto Prazer
      & de tanta Dor
o Presente se prolongou
   em Gozo extenso
      ou extensa Insatisfação...

encontro o que Quero
   & o que Não quero
na carne do teu Corpo
   na saliva da tua Boca
tudo que evapora
   esvai, seca
      & se umidece
no Bejo, no Coito
   na Perda...

colisão
   que é o início do Futuro
      & o indício do Passado
suspensos em Choque vamos
   entre uma & outra
      Realização
         Falha
            Repetição
o Agora é Queda
   onde
              caindo
                           estamos
                                             então
                                                           ...



25 de out. de 2021

Desrota

 

Saí para andar
    & ver se a lua estava em seu lugar
Pela rua afora
    os passos perdidos de qualquer hora
Saí por aí
    nos últimos dias desse mundo onde caí
Sem querer voltar
    mas também sem achar um outro lar
Lá fora pra ver
    que tudo está à perecer
No céu as estrelas
    no chão as mazelas
Saí para andar
    & nunca mais voltar



20 de out. de 2021

Sonhar...

 

Os sonhos
   trazem consigo
      o despertar...
No sono profundo
   tudo é um esquecimento
      um nada onde repousar...
Volem as águas
   da superfície de contato
      com a realidade & seu pesar...
Pululam imagens móveis
   turbulências
      para nos acordar...
A alma ativando-se
   para a luz, o dia
      para o sólido estar...
Deixa para trás
   o além do bem & do mal
      para novamente se limitar...



19 de out. de 2021

Abraço de Abismo

 

Fundo rasgo em abraço
   às águas abissais
Abismo bebe abismo
   água para vertigem da sede

Cabe na tua boca
   entrada do fosso labiríntico do teu corpo
Tempestades de samsara
   & calmarias de nirvana

Abismo que verte fundo
   comporta,
      segura,
         repousa
            águas & vazios de abismo

Água celeste
   pesada, cortante
Vazio infernal
   leve, cicatrizante
Valas oceânicas incorpóreas

Abismo bebe água de abismo
Abismo respira ar de abismo
Abismo engole abismo
    sorve céus, terra
       & dilúvios, amor

Há de se ter mil & nenhum braço
   para esse abraço
      líquido abissal
Fundo do poço
   chão dos nossos pés
Palco dos enlaces



18 de out. de 2021

Águas do Abismo

 

Vamos, sem pressa & medo
   desnudando nossas imperfeições.
Isso é só corpo,
   fazemos tremer o interior.
Contatamos a carne,
   misturamos a mente.
& o espírito paira
   acima das águas do abismo
      que se misturam,
         com violência & candura...

Cada colisão
   é um processo de negação.
O tempo
   em que unimo-nos,
Renega o espaço
   que nos separa.
Isso é da nossa natureza,
   o animal gozozo que somos...

Assim sorrimos, sofremos
   assim conquistamos, tememos
      & seguimos
         na noite escura
            & racional que nos cerca, devora,
               mas não consegue nos engolir...



17 de out. de 2021

Extra Vazar

 

"O tempo andou
  mexendo com
  a gente, sim!"
  - Belchior

& no silêncio
   da solidão
Encobrindo soluços
   de insolução
Encontramos a necessidade
   de procurar
      novas formas de ser feliz... ou mais...
Pois o corpo
   o copo, o pico
   essa capa
      de massas inócuas
   máscaras, camadas
      de tempo & espaço acumulados
   não servem mais
      para conter & deixar extra-vazar
         o que flui desde a insatistafação...
& nem servem mais
   para o que deve
      ser preenchido
         ou esvaziado...



12 de out. de 2021

Calendas

 

Esquecer datas
O nome dos dias
   meses, estações
      anos, vidas...
Rebelar
   ao controle incontrolável do tempo
      & da morte, do fim, do não & do sim...
Proibir os calendários
   queimar
      começo & meio & fim
         nas chamas da desrazão...
Trocar
   o sol pela lua
      a lua pela estrela negra
         a estrela pelo buraco negro...
Aquiescer
    ao eterno feriado
  Véspera de nada
  Amanhã do dia esquecido
  Ano zero
  Século nômade
  Era perdida
Acédia
   descaso
      descanso
          ocaso...



10 de out. de 2021

Constante Inconstante

 

O universo é
   uma fábrica
      de eventos tristes...

O espaço se abre
   mais rápido que a luz
Escuridão que avança
   útero de tudo
Que não engendra
   só gesta aeons de solidão sideral

Tanta engenhosidade
   para gerar
      distâncias & finitudes...

& o corpo, espaço do espírito
    também se desdobra em suas distâncias
Expande no tempo
    seu ser & estar
Onde a felicidade não alcança as bordas
   aprisionada & engolida pela carne

Com tudo se distanciando & acabando
   por que, então, não começamos
      a nos aproximarmos mais...?



9 de out. de 2021

Rito Vício

 

Purificação
   perfume do pecado
      escorre em gotas, secretas
   no rito autônomo da embriagues,
Antes
   o dia vislumbra a noite
enquanto
   a noite ainda sonha com o dia...
Santificação
   pela satisfação...
Cores escuras, que fogem da luz
   engendram paredes
      de alcova opacas
         com paisagens de colisões
empregnadas pelos cantos...
Mínimos espaços se abrem
   & o êxtase emerge
      pelas feridas do vício...
Desde sempre,
   relembre,
      a morte sonha com a vida
& dois corpos vivos se matam
   sujando & purificando
até o fim da fome
   (noite...)
& início da solidão
   (dia...)



8 de out. de 2021

Pendu

 

Em força...
   o enforcado
Judas juras ajuda
   pende rude acima do chão
      pés goela olho mão
& sua ereção

Sob o abismo
   beira nada mar falha ar... pendão
Entropia & excreção
   pendurado
      ainda dança pendular
   em sua tensão

Voltar pra casa
   o teu aberto carmin vão




6 de out. de 2021

Carbono23

 

fluxoextasia
  entropia da realidade
sono sonho soma de nós & sós
da medula incha & infla retorno
   o sangue crustaceando ossos
      unha cabelo cornos,

coma das marés
    em sumo sal carvão...

corpomar em suas marés
   de sangue lágrimas suor sêmen apreensão
ondas arremessadas
   quebrando na praia emocional
fadiga oceânica idílica
   em remanso de esgotamento
sob pressão atmosférica ampla
   aneurisma onírico prisma manso
agride, inflama
   essa derradeira
      súbita satisfação.



5 de out. de 2021

Shakti

 

Sobreviver à própria vida
   estando inconsciente ao jogo
      cruel & banal
         do cotidiano...
(Ela mergulha cega
   em cada renúncia,
   em cada peso sobreposto
   na apreensão ao acaso
   de ser quem é...
& dispersa
   inconsequente
   em si
   não se reconhecendo...
Eu sou atraído
   como matéria morta
   pelo buraco-negro
   no centro dessa confusão galática...)
Eu imagino, só me deixo levar
   pelas colisões aleatórias
      que formam um novo drama
Um antigo novo drama
   no repertório casto
      do eterno-retorno...
& releio as memórias
   redefinindo o presente
      eu caio
         na dança-tonta da realidade...
& remassacro
   velhas falhas
      nas quais estou em repouso
Na velocidade estonteante
   do espaço em que se percorre
      abaixo da luz das estrelas
Repasso lugares diferentes
   & sorvo do Corpo de Glória
      conspurcado de outra mulher...
Todos no mundo
   estão doentes
      insanos casos sem cura
         causados pela existência
Mas ao me alinhar à você
   busco a imensidão do erro
      que sou chamado a corrigir
          dentro & fora
              deste todo nosso
                  Kali-Yuga.



4 de out. de 2021

Convulsão

 

Sonhos
   em convulsão
Campos oníricos
   sob tempestade
      de areia & luz alheia...
A ternura
   o único hábito
      que ainda nos falta
Surge na vida
   & migra
      para dentro do sono
          querendo nos despertar...
Na titanomaquia
   dos dias
      caímos & nos levantamos
Engolindo pó
   & cheio de feridas & de gozos...
Mais cançados ficamos
   do que se açoitados
      pelos excessos & pelo nada
Cançados de sonhar
    convulsivamente com o amor...



2 de out. de 2021

Contato

 

O conflito da vida
   agita os átomos mais velhos
      que aleatoriamente compoem
          essa máquina-macia
& remete ao fundamento
   de que antes devíamos
       transformar o animal em máquina
           & agora temos que transformar
               a máquina em animal...
Eu desfruto do contato
    com tua carne aleatória
        lançada no tempo & no espaço
            para perecer,
Eu desnudo a verdade
    que podemos fazer
        bom uso desse choque de interesses,
Nos colidir & tremer
    desfrutar do contato
       antes de morrer...
Na noite que engendra abortos sem sentidos
   do querer & poder
       como o fruto da gratuidade
           & nos damos felicidade...
Na noite vaga aberta entre os dias
    rememoramos a dor afastando-a
       & lançamos a vergonha
           na falácia breve
               que mesmo assim a destrói:
Nós nascemos para acabar
& enquanto duramos
   nos curamos com contato!