8 de dez de 2013

Os Mistérios do mistério humano

“Todos os mistérios do mundo parecem leves em
comparação com o minúculo segredo do sexo”.
- Michel Foucault

   Esta semana estava eu no corredor de um hospital público aguardando atendimento médico para o caso de uma inflamação em minha perna. Ali para espantar o tédio lia um livro, e entre a sonolência da espera demorada e a ponderação da leitura, e vez ou outra sendo distraido por algumas poucas beldades enfermas, ao lado de idosos calados e crianças choronas, uma voz mais alta começou a se destacar no corredor.

   Na frente da sala de ultrasonografia, um grupo de mulheres se acomodava nos duros assentos de alvenaria, e entre elas uma senhora, lá com seus 40 anos de idade, começou a contar passagens de sua vida de uma forma muito especial.

   Em voz alta, logo qualquer um ao longo do corredor de uns 50 metros pode ver, e ouvir, que ali ela estava a proclamar seus testemunhos.

   “Eu passei anos com meu marido, sofrendo de tudo, ele era mesmo um espírito satânico em minha vida, me agredindo de todas as formas que vocês podem pensar, e só Jesus pode operar um milagre em minha vida e transformar a maldição que me atingia através de meu marido... Ele foi uma desgraça para a mãe e para as irmãs e também comigo…”, ela ia admitindo, alto e bem entoada. E a história desse período de sua vida foi contada ao longo de uns 15 minutos.

   Incomodados, outras vozes no corredor tentaram atropelar o discurso da mulher com conversas diversas. Tudo ineficaz, pois ela cumpriu sua missão divina de dar esse testemunho de fé para todos ali, não só para as mulheres ao seu lado, até o final.

   Quando ela terminou seu ato-de-fé, ela se levantou e passou à minha frente rumo ao fedegoso banheiro  público do hospital. Olhei sua face, marcada por inteira pelo sol da labuta, e seus olhos, que expressavam apenas resquícios da exitação de sua atividade findada, um misto de vergonha e coragem, vi neles uma espécie de blindagem contra outros olhares, contra todos os olhos que a encaravam ali; nós eramos alvo de seu amor a Deus expressada pela força de sua fé em sua religião, o que fazia de certa forma que ela tivesse um eficaz desprezo contra todos que ela não encarava de forma alguma.

   Pensei primeiro que aquele devia ser o olhar de todas as pessoas de fé no mundo, desde aquelas que tinham o impeto de proclamar suas histórias de vida em lugares públicos, assim como de explodir bombas ou condenar outras pessoas às fogueiras.

   Nas mãos ela carregava um livro, que logo vi não ser a Bíblia, mas sim um livro muito popular ultimamente, graças às reportagens que mostram enormes filas em volta de livrarias no Brasil e no mundo inteiro.

   Fiquei ali então pensando sobre essa mulher, sobre qual seria sua condição de vida, sobre aquelas coisas que ela havia prontamente contado, como ela seguiu para ali com aquela proposta na mente, sobre aquela sua face e seu olhar e sobre o livro que ela carregava.

   Enquanto ela ainda falava me lembrei ironicamente de uma passagem biblica, uma carta de Paulo, o grande pregador, que admoestava para não se deixar as mulheres discursarem na assembléia dos cristãos. Pensei “agora sei porque ele instruiu isso!” e achei graça de minha própria piada desleixada, e ainda ponderei que aquela mulher talvez estivesse falando ali por não poder falar no altar de sua igreja.

   Eu sabia que isso não era verdade, que hoje mulheres pregam em nível de igualdade com homens,  e até crianças, nos altares cristãos, falam em programas de rádio e televisão, tanto evangélicos como católicos, etc.

   Deixei para lá minha mistura de misogenia religiosa, e naquele momento tentei me concentrar em minha leitura pois sabia que aquela era apenas uma inferência de meu ego para suportar calado o discurso dela, uma atitude de ironia enquanto ela enchia o corredor com as passagens lamentáveis de sua vida, que ser humano nenhum merece passar.

   Enfim vencido pela desconcentração, meu raciocinio então se voltou para o que ela falava, e comecei a argumentar, não com ela, mas mentalmente para mim mesmo, pois não tenho o impeto de confrontar as pessoas a não ser que elas se dirijam diretamente a mim, aí gosto de debater, mas não era esse o caso.

   A mulher não queria debater, ela queria apenas, de uma forma um pouco bruta e até mal educada, pela altura de sua voz e o ambiente, propagar sua fé, contar a todos sobre o que ela entendia da manifestação de Deus no mundo.

   Reverti então seu discurso mentalmente, prestei atenção no que justamente ela não contava, essas coisas que não falamos mesmo em público, até quando damos testemunhos de vida tão contundentes e intimistas.

   Pensei nas dimensões psicológicas daquela mulher, sobre sua vida sexual com satã, quer dizer, com seu marido alcoolatra e violento, com quem o destino, ou Deus, fez com que ela se casasse. Pensei no misto de satisfação e dor que se encobriam mutualmente em uma relação como aquela, o que seria para ela o amor carnal, o que seria o descarrego do gozo, ao que remeteria a vibração da carne recebida de alguém que fazia a face também doer… O que seria para ela dar a ele essa outra face também?!

   Pensei nas artimanhas da vida e da sociedade, que gera a pobreza, as ânsias, as frustrações que um dia se extravazam infalivelmente na existência das pessoas e atinge primeiro os mais fracos, mulheres, crianças e idosos, no impulso de se “descontar” todas as raivas e ignorâncias internamente cultivadas, de todas as exigências recusadas de uma forma ou de outra.

   Percebi como ela em nenhum momento expressou o fato de o marido ter mudado pelo “milagre de Jesus Cristo”, em seu discurso foi a vida dela que se transformou com sua própria conversão à fé incondicional a “palavra de Deus”, ou seja, a própria bíblia de Paulo e outros mais. Em meu pensamento seu marido era como um objeto disposto ali, em um canto de sua existência, pois era assim que ela o comparava em suas palavras, e principalmente no que não dizia.

   Esse fato me sugeriu um paradoxo, o qual interpretei como parte daquela própria blindagem nula que seus olhos e face expressavam. Não havia uma comunhão terrena na sua história de vida, nada carnal era abrangido, apenas a vida da alma dela, e de forma indireta de seu marido-material, que repousaram ambos enfim na benesse da transformação. Tudo havia mudado por ela, e a mudança de seu esposo era apenas parte do que mudara em sua vida, pois no reconhecimento do mal que agia sobre ela, apenas o marido era o agente. Parecia até que ela iria deixar o marido no curso de sua história, mas ao final ela anunciava a confirmação do matrimônio, a união refeita, o união sexual reafirmada.

   A fé dela transformou sua condição de vida, e o egocentrismo de suas palavras transcendia na deficiência de seu discurso até o outro homem e assim toda sua familia, a sua gratidão era tamanha que ela era o intrumento, o foco, a fonte, a luz de todo o bem daquele milagre que Deus lhe concedeu.

   O que ela não dizia, e que ninguém geralmente conta, porque não compreende, é que seu mundo é igual ao de todos, cristãos ou não, onde a pobreza (material e de espírito) não precisa dos conceitos de fé para que a interpretem, que somos apenas parcos animais doentes que buscam encontrar a felicidade e a paz que nossa animalidade latente, seja a violência de um marido ou a fé cega e indiferente de uma esposa, tenta nos distanciar. Afinal bem-aventurados são os pobres de espírito…

   Essa não compreensão e opção pela explicação fácil e parcial dos tramites da existência nunca conta que a relação das pessoas com Deus sempre requereu esforço, e isso quer dizer que sempre há uma contraposição do bem e do mal para se chegar até Ele.

   Fiquei irriquieto por isso, pelo fato de as pessoas não entenderem o desgastante jogo da vida que sempre requer o mal, o erro e o pecado para se chegar a patamares mais elevados. A avenida iluminada dos milagres divinos sempre passa pela escura trilha aberta pelos impulsos naturais da animalidade humana.

   Será que aquela mulher um dia chegou a cogitar dentro de si, calada e sozinha, o quanto foi parte do trabalho do mal do marido que colaborou com aquela beatitude que ela professava? Será que ela seria a fiel que é sem o pecador que o outro foi?

   Isso talvez nunca venha ao caso para ela, e talvez para ninguém que tenha fé. A pergunta até poderia não ser procedente diante de uma dimensão de fé e dogmas que tem em Jó seu ápice de expressão e leitura consoladora em vieses de reparação ao final da estória biblica. Ali mesmo em Jó só se fala do lado dele, que Deus deu em dobro e em triplo, etc. tudo que Ele permitiu que Satanael Satã lhe tirasse, mas e a vida da mulher, dos filhos, dos animais de Jó? Para as pessoas… quer dizer, para o Deus das pessoas isso não tem importancia, tudo foi dado a mais, o que foi morto era a parte do diabo mesmo!

   Fiquei curioso em saber qual resposta a boca daquela mulher proclamaria sobre essa questão, do mal que causa um bem. Ela talvez me citaria a Bíblia ou clamaria a grandiosa sabedoria de Deus no caso? Aquilo que não nos cabe julgar?

   Para mim fica apenas a noção de uma animalidade, de desconhecimento dos mecanismos verdadeiramente sábios de Deus, representados em conceitos não-cristãos, de Karma (Compensação), demonizados pelos evangélicos, e o de Maya (artificio da realidade), desconhecido por todos os cristãos de uma forma geral.

   Não quero aqui, via digital, também pregar alto sobre o que eu acho, sobre minha própria dimensão espiritual. Deixo ao leitor a escolha de refletir sobre sua própria existência incorporando esses dois conceitos que compõem efetivamente a vida humana.

   Não haveria nada sobre isso que eu pudesse também dizer para aquela mulher, isso não mudaria em nada sua forma de pensar. Alegra-me apenas saber que ela cumpre com firmeza seu caminho de evolução, o que o Verdadeiro Deus traçou para cada um de nós, apesar das interferências humanas dos ditos “representantes de Deus”, que do alto dos altares, esses lugares que sempre serviram para decapitar cabeças e arrancar corações em honra à todos os deuses, e de onde, nos dias de hoje, as legiões pregam suas “teologias de prosperidade” e de “fé inteligente”, mas que não são capazes e não podem, dentro de sua lógica interna, falar sobre Maya e Karma para os que querem ter como fieis, ou escravos.

   Disse “legião”, sim, porque foi o que me lembrou o best-seller debaixo do braço daquela mulher forte. O livro me remeteu imediatamente ao que uma vez li na “Filosofia Perene” de Aldous Huxley, que legião gosta de ler sobre legião!”.

   Assim, passa pelo processo histórico natural de evolução decorrida na vida de toda a humanidade, de deixarmos finalmente os preceitos que nos fazem ser legião, que fazem a todos nós o próprio Anti-Cristo 666, a matilha, o lobo do homem, que desconhece sistematicamente os verdadeiros fundamentos da vida, da alma e do mundo, para nos tornarmos enfim seres humanos conscientes, e a partir daí, alcançarmos a verdadeira divindade que Deus quis compartilhar com cada um de nós.

   Pois se legião significa sintonia, faixa de vibração, creio que a mente que vibra na faixa dos milagres, nunca poderá enxergar que o milagre é a própria existência! E a existência própria carrega em si o rol de potencialidades que torna o ser humano como Deus. Lembram? “Sois deuses!”, Ele mesmo disse!

   Então, para longe de tudo isso, dessas referências cruzadas, de toda essa carga de conceitos, pré-juízos e constatações, procuro agora, distante e reflexivo dar a entonação toda para esse caso, não para a pregação da forma como aquela mulher fez, não do meu contra discurso submerso em suas analogia, mas somente a visão do mistério que essa mulher engendrou em mim, mesmo não querendo inferir na questão toda minhas próprias preocupações sexuais na história toda, mas já sem poder não fazer mais isso.

   Sim, confesso que me encabulara essa dimensão não falada, não articulada e difícil de se acertar de fora, tão distante como dois desconhecidos que somos.

   Ali, no hospital, no lugar do corpo, na aproximação da busca pela saúde física, da beleza céptica dos médicos, e no contra erotismo dos corpos que convalescem, ainda o sexo fala onde tudo se cala, esse velho e primordial problema humano, apenas Eros, sem Agape. O mistério do “crescei e multiplicai-vos” da própria boca de Deus…

   Talvez porque as pessoas de fé inquebrantável que mais me marcaram foram mulheres traídas e frustradas, viúvas ou abandonadas, mulheres que não conheceram homens sadios o bastante para realizarem juntas aos esposos os mistérios da câmara nupcial, mulheres que falharam em sua disposição natural feminina de complemetarem-se e complementar o representante masculino de suas vidas, seja o motivo que me ligou tanto àquela mulher do hospital, na espera por um exame genecológico.

   Para tudo isso, vem me esclarer a sincronia que encontrei nas páginas do livro que ela me tirou a atenção de ler, e agora repito a guisa de conclusão dessa minha reflexão:

   “A satisfação sexual libera o homem do seu mistério, que não está na sexualidade, mas na satisfação desta, e talvez apenas nesta, não seja desfeita: cortada. É comparável ao vínculo que une o homem à vida. A mulher corta-o, o homem se torna livre para a morte, porque sua vida perdeu o mistério. Com isso ele alcança um novo renascimento e como a amada o libera do feitiço da mãe, assim, mais literalmente, a mulher o separa da mãe terra, é à obstreta a quem cabe cortar o cordão umbilical que o mistério da natureza teceu.” – Walter Benjamin

   (Agora meditem novamente sobre a condição do marido daquela mulher sob a perspectiva desta citação reveladora. E se quiserem, não poupem esse autor desta reflexão também, assim como qualquer homem!).



***
  
   Ajudou-me nessa reflexão o livro “O Aberto”, de Giorgio Agambem, que eu estava lendo justamente nos momentos em que a minha “irmã” começou seu testemunho, ali por volta da página 98 em diante. É dele que tiro as citações de Foucalt e  Benjamim.

   “Misterium Coniuctionis” da vida que insiste, apesar de nossa loucura natural, em nos ensinar, curar e fazer evoluir.

   Feliz Natal!?!?


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