9 de mar de 2015

Textura Surreal: Epinoia Caracol

Inconformado pela constatação de que não poderia permanecer de um modo são em um lugar sem dimensão nenhuma, fez o carro rodar mais um pouco. O pensamento rápido lhe passou pela cabeça enquanto acelerava, mas devagar.
Só restou a ele perambular pelas ruas com seu carro ouvindo heavy-metal.
Indiferente ao rancor e ao desdém dos habitantes dos passeios e das faixas de segurança para com sua forma de presença. (Avançou o sinal vermelho...)
Sua mente estava em um amplo grande-pequeno lugar sem nenhuma cor, mas que pela força da impossibilidade de se imaginar tal locação desprovida de tudo, ou seja, o nada real, ele imaginava-o todo branco, mas se esforçava em ter a conotação de consciência que aquilo era cor-nenhuma, era um nada incolor, que pela medida da distância imponderável, poderia denotar branco pela simples conclusão ad-infinito da sem-referência localização.
No “salão incolor branco” com seu carro ele finalmente não sabia se estava parado ou se movendo, desligando o motor e descendo do carro, de pé fora dele, não podia saber se estava caindo ou subindo, mas de uma forma como queria se impor a lógica, pensava que provavelmente estava caindo, e é diante disso que surge a primeira duvida maior:
Em um nada sem referência, como poderia a mente saber se o corpo estava se movendo ou parado?
E outras questões:
Como saber o tamanho daquele local? Era infinito ou era delimitado? Seria esférico ou disforme? Haveria oxigênio ali? Etc.
De pé fora do carro, vento nenhum se movia implicando queda, não havia vertigem, então os fatos dos sentidos só existem se houverem pontos de referência para se comparar? Eis aí se impondo a velha relatividade, mas não pertencia ela àquela situação!
Estava no local não-local desprovido de intermediações. Não havia nada e aquilo ali poderia ser um cômodo de 4 por 4 que ele nunca saberia dizer qual era sua dimensão. Nunca alcançaria seu limite, pois não havia a possibilidade do movimento, ou o movimento era tão constante entre ele e o carro a um metro de distância que ambos decaiam ou ascendiam com a mesma inércia.
Um súbito susto o alarmou, afinal havia então dois pontos, ele e o carro, e poderia então medir distâncias pelo ponto fixo. Deu uma volta no carro e ao completar o percurso pasmou com mais uma coisa notada, o tempo que levou para percorrer a distância, ele não saberia dizer quanto tempo foi, se foi 30 segundos, se foi um século, alguma coisa decaia em sua mente, talvez a própria propriedade de perceber as coisas, ele estava sendo contaminado por algo, sentiu.
Depois daquele tempo que estava ali ele sentiu extremo cansaço, era um peso na mente & no corpo que o fizera ficar postado enfim, sentiu distender na mente, mais precisamente em um lugar na cabeça que não podia enxergar, é claro, de uma apreensão volitiva diferente, como nunca sentira, era uma constatação, uma sensação, aquela como infecção, sua consciência estava sendo desfeita.
Na fuga dos parâmetros exteriores se decaia também noções interiores, tão próximas que eram compreendidas como crenças, que transpassavam como pensamentos à priori da mente, & foi como se uma bolha de sabão estourasse: “pup!”
Estava desfeita a realidade, ou melhor, estava desfeita qualquer conexão com o real, assim, em um mínimo instante, como um “pupar”, “pup!”, & ainda com um pouco de consciência ou razão na cabeça ele sentiu que aquilo tinha sido “a cinco mil anos”, pensou, “não!, ainda iria acontecer, daqui a dez milhões de anos, de séculos, de anos, de segundo, de...
Uma pinóia!”, proferiu, insensível já. “Caracol!”. Riu, enlouquecendo, não havia nada ali, nem ele, nem carro, nem nada, quase. Ainda reverberou, um pensamento, ou dois ou três: caracóis atravessando os espaços vazios entre as galáxias, deixando um rastro de gosma em micro-diamantes intergalácticos tão frios como o zero absoluto; então, o pensar final, a última volição de nada presente, pensou: “Qaw lah qaw!” & “Epinoia!”.

Tudo estava consumado, ele havia se salvado...


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