27 de set de 2015

Brasil: Arquétipo, Destino Coletivo & Zeitgeist

“A ordem perfeita só se revela na morte
Todo progresso constrói estradas para o abismo...”

   Quando se alinham o arquétipo coletivo de um povo com o espírito do tempo por qual ele passa o que se desvencilha no horizonte da história é um ponto de chegada, a conclusão de um processo desencadeado outrora, dentro da noite do tempo.

   Assim podemos ver emergindo dos símbolos de um povo o significado que só muito tardiamente se pode notar, e são eles que carregam em si toda a pré-definição do que seria a aventura deste povo sobre a face da terra. Olhando para nossos símbolos vemos a essência de nosso ser, ou a alma do brasileiro, neles se afirmam a antevisão atemporal de nossa missão coletiva no mundo.

    E a alma brasileira finalmente se abre e desvela-se em sua real aparência nesses tempos de crise. Sendo justo com os fatos, há uma eterna relação do Brasil com crises, a própria palavra ‘Brasil’ se refere à um estado não tão fresco de mente, fazendo justamente transparecer o clima meteorológico e ético dos últimos anos. Nesse braseiro é justamente o fogo de palha da civilização que se instala.

   Não creio que haja alguém inteligente que realmente acreditou um dia que os dias ruins de crise do passado nunca mais voltariam, e agora vem em seu pior caráter, a economia séria e a sociedade estática sempre invejada da America do Norte e da Europa agora irrompem em nossa sociedade que alcançou com os poucos anos de governo FHC e Lula o status de nação capitalista e liberal, agora quem não tem nada a ver com capitalismo e liberalismo é chamado a pagar a conta pelo capital e pela liberalidade sem nunca termos usufruídos os louros do capitalismo que tão veementemente os loucos que colocam pingos nos ii defendem. Não existe desenvolvimento eterno, de eterna só a estupidez humana!

   Mas existem coisas, às quais pouca atenção é dada, e isso é o meu interesse central neste texto: Símbolos.

   Quando falo que a “alma brasileira” finalmente se revela por inteiro nesses tempos, isso se deve ao fato que agora sem nenhuma intermediação e sem subterfúgios se pode de vez observar o verdadeiro rumo que nós escolhemos como sociedade. Aprendemos agora que as benesses são colhidas por indivíduos, mas as punições são pagas coletivamente, ou seja, estamos aprendendo da pior forma o que é ser povo.

   Outra manifestação dos fatos que tem grande carga simbólica nesses tempos é justamente a inversão no discurso político, o encontro cârmico do PT com tudo aquilo que sempre lutou contra e agora eles tem que aceitar, e mais: praticar! Isso é o que o dito popular chama de “pagar a língua!”, sua língua grande, vermelha e usada para mentir e mentir, e de vez em quando salivar um sorriso fingido nos debates das campanhas presidenciais. Do pau-brasil enfim conseguiram extrair a brasileína vermelha para rubrar suas faces... mas nem tanto, pois toda a classe de desclassificados políticos do Brasil não tem vergonha nenhuma.   


    Como finalmente o Brasil receberá os Jogos Olímpicos, grande festa religiosa da antiguidade transformada em visceral disputa ideológica entre as nações pelos oligarcas do início do século XX, seria interessante refletirmos sobre os arquétipos gregos que adentram em nossa alma.

    Pois nem só de PT e PSDB vive a alma e a política brasileira. Hoje, andando pelas ruas, assistindo TV, nos campos de futebol e nos Fevereiros que passaram e nos que virão, a alma brasileira sempre quis ser possuída pelos eflúvios de Dionísio, o deus do vinho e das orgias. Digo “sempre quis” porque nós, em nossa lenta destreza tropical, assim tivemos que lutar contra a pulsão de Apolo que sempre vem junto à Dionísio nas plagas arquetípicas da consciência humana, pois as coisas tem que ser equilibradas para que haja a farsa da “ordem e progresso”.

    De tal modo o brasileiro sempre flertou com Dionísio, festejando o carnaval, mas gracejando com a morte através da corrupção, da inconsequência para com as leis, do desleixo para com a distribuição de renda, a educação, a saúde, o combate às drogas, e uma vontade caótica de se divertir, aproveitar a vidaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhh!, que os digam os calouros de qualquer curso universitário, e os digníssimos formandos também...

    Os impulsos Apolíneos deveriam se fazer presentes, mas foram sublimados pelo cristianismo, que o substituiu em nossa sociedade. Assim o otimismo que é característico de Apolo dá lugar ao apelo da prosperidade, pois foi aceito que só dinheiro dá felicidade, e afinal se provou que isso é real, pois fizemos nossa realidade assim, agora todos precisam de dinheirooooooooooo$$$$$$$$$$$, que o diga o Governo, as Igrejas e o Itaú. E claro, as pessoas comuns também, e  até o deus.

    A cultura e a música que são a junção das potências da alma, a sintonia fina do ser humano em seu tempo e lugar, trilha sonora do Zeitgeist coletivo de um povo, vem expressar tudo que o brasileiro é: festivo, medíocre, erotizado e estúpido. A começar pela gênese apolínea em nossa cultura, aquele que atraindo para si as conotações cármicas deste povo brasileiro, se declaro “brasa” (Braga – moro bicho!!!). O Rei do Brasil é claudicante, e a Rainha é dos baixinhos... infelizes atos falhos de nossa cultura que se desenrolou em latinos e popozudas.

    Então, se os cultuadores (mesmo inconscientes) de Dionísio buscam o caminho de volta à infância perdida, buscam fugir da realidade adentrando no transe da terra, tentando, via ilusões, escapar da pobreza material e intelectual e da morte, mesmo que por um curto período de tempo. Um povo assim ruma ao êxtase religioso místico, que hoje é ofertado principalmente pelos pastores midiáticos na TV ou em pelo menos três lugares diferentes por quarteirão no centro de qualquer bairro da cidade. Nossa consumação não está sendo no carnaval de alegrias passageiras, mas nos cultos de eterno pesar e lamentar por nossos pecados, dores, doenças, ignorâncias, etc.

    E o que nos reserva o futuro depois da conclusão desse ato de totalização que estamos vivendo hoje e que chamamos de crise, a crise final do Brasil? Diz-nos a História que Apolo sempre triunfa, ou seja, os conservadores sempre vencem porque são os que sempre apelam aos argumentos da razão, na crença dos poderes instituídos (mesmo se corruptos, devem existir), e os reacionários podem suportar a vida como processo de servidão, já que seus baluartes, formadores de opinião ou lideres foram os que sempre governaram, dando assim ao grosso das massas populares que justificam o poder dos conservadores via urnas um descarrego psicológico admoestando a lavagem das escadas e das mãos, como se dissessem: antes a bruta ordem do que qualquer carinhosa desordem. Antes meus direitos do que todos os nossos deveres.

   Porém essas verdades simbólicas entrevistas no atual momento de nossa sociedade não prediz o futuro em si, eles apenas fazem o papel do símbolo, do sinal, apontar a direção, o que se resumirá realmente e será o início do próximo turno de nossa sociedade é uma incógnita.  Parece-me que o acerto de contas não será realizado, a não ser por parte dos reacionários que procederão com sua vingança contra a “esquerda” que, merecidamente, por usa incompetência e falta de zelo para com a oportunidade histórica que foi lhe dada e que eles venderam ao preço do barril de petróleo, por nefasto egoísmo de proletariado ou guerrilheiro, ou seja, por ganância ou por vendeta, acalentaram crenças errôneas da perenidade de sua permanência no poder, agora devem pagar com dinheiro e até sangue sua pena, pois os reacionários sabem cobrar contas, ah! como sabem: são como agiotas sociais nossa classe média-alta!

    Assim o futuro do Brasil para os próximos anos é pagar a conta: a conta de nossa inconseqüência política, a conta de nosso descaso com educação, a conta de nossa vida desregrada a churrasco e cerveja, a conta da Copa do 7 a 1, a conta da Olimpíada que ficaremos para baixo da 7ª colocação no quadro de medalhas, a conta do nosso sistema eleitoral, etc. Essa não é só a conta do PT, é também a conta do golpe em Collor, a conta de Malan, funcionário do Império Britânico no nosso caixa nacional, a conta da venda do país por FHC, a conta de 20 anos de militarismo, a conta da construção de Brasília, a conta dos anos Vargas... 


   Interessante notar uma sincronia final onde a Grécia antiga e atual vem finalmente encontrar o Brasil: jogos olímpicos e crise financeira, o legado do ocidente inconsciente por mais de 2500 anos, tempo em que zelou de pesadelos e monstros de êxtases místicos e discursos morais, planos políticos e ensaios econômicos, um rol de impossibilidades humanas decaídas na latrina do tempo que um dia provará finalmente que os conselhos de Sileno à Midas seriam mesmo as melhores coisa para o ser humano, e principalmente para os brasileiros.


_Espírito  do  Tempo_
(Adeus Setembro de 2015)

Já não basta nosso suor, agora querem nosso sangue!
Já não basta nada... querem tudo...
E o que parece restar é só a violência!
Chorar sangue é nosso novo labor...

Isso é um encontro cármico,
Uma cobrança da História
Uma ironia de nossos deuses interiores
   que disputam a Copa do cinismo...

Dionísio moribundo, na alma do Brasil,
   enfim será morto pelos anjos de Thanatos vestindo Pólo
      vestindo DG, travestidos de rabinos, 
         bebendo vodka,
            cantando sertanejo
                belas crianças semi-analfabetas nas universidades
                   decidindo, enfim, nossos destinos...

Ando pelas ruas, dobro as esquinas, entro nas casas, encontro pessoas
   e em todo lugar vejo a nódoa da grande sabedoria popular:
cristianismo & futebol
egoísmo & diversão

“Viva a cor amarela, morra o maldito vermelho!”
Isso quer dizer muito de teu espírito! Isso quer dizer muito do teu caráter!
Alegria desvairada dos últimos lideres, eleitos na derrota,
Vencidos pelos eleitos na mentira:
demagogos, alcoólatras, viciados, depravados...
A mentira ainda venceu a lembrança do passado de entreguismo...

Quero falar da morte, pois os poetas e os filósofos só têm a morte como lume...
Nós a farejamos sempre, & quando se escancara a cova,
   somos nós que devemos apontar  a trilha para as fileiras em procissão
     não errarem o fosso, e deixarem de adiar o fim.

Nossa bandeira é um olho se fechando, um olho cego
Moribundo, em decomposição final
Chorando lágrimas de sangue
Ensinamentos da história:
A ordem perfeita só se revela na morte
Progresso é construir uma estrada rumo ao abismo.

Salta de nosso inconsciente enfim a pulsão de morte que sempre tivemos
Dionísio decapitado como Tiradentes
Apolo envaidecido como um pastor com um milhão de votos
Thanatos redivivo, nação-zumbi
Braseiro eterno,
Freud explica, Jung define, Reich reconhece:
“A exuberância tropical deve ser punida!”
   dizem os velhos! Velhos de 18 anos, de 50, 100 anos.
“Elevação da beleza feminina para punir a violência masculina!”
A opressão só muda de lado na esfera
Inversão de pólos...

O olho moribundo vê o céu estrelado,
Estrelas são a potência da transcendência.
Fecha-se sob a trave que não se difere de um cisco
‘Ordem’ nunca causou progresso
A corrupção é nosso lema...


Trilha sonora do post: Luiza Lian: "Escuta Zé"

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