6 de dez de 2015

O Vazio d’Ela...

   Segue entrementes, por um vazio que se instala no meio de tudo, sem sinal de onde vem ou para onde vai, no devir de cada dia que intui ser uma repetição distante, porém com algo que falta.
   Em seu peito uma saudade que não tem fundamento, um sentimento de nada que às vezes é confundido por ele com carência.
   Mas um dia, cruzando uma praça vazia, evacuada por uma forte chuva que logo cessara & então queimava no sol de verão do meio dia, fluindo névoa no calor, ele enfim percebera que tal saudade era o rastro da ausência de alguém que devia estar em sua vida, mas não está! Como ele poderia entender isso?
   Sim! Era a falta dela, uma falta já eterna cuja presença sempre foi também eterna & terna, mas desde essa existência apenas... O que ele intuía então o sabia inferindo por aquela ausência atroz que lhe falava de uma parte sua faltando, uma mulher que ele amou eternamente, mas que agora, nesse círculo do eterno retorno, não mais estava junto dele.
   A praça vazia, o peito agreste, o clima cerrado, o coração oco, a mente saudosa, tudo era o sentido da falta, do “devia ser” porque “sempre foi”. Mas agora não mais era...

   Ele é um vislumbrador, alguém que viu os raios de sol do grande meio dia, e há muito tempo andava pelos mesmos lugares de outra vida, porém sem a presença daquela pessoa, que havia enfim partido do círculo incessante deste hades hilético.
   Nas infindas idas e vindas do eterno retorno do mesmo ela alcançou a saída & ele repermanecera no ciclo eterno, por isso agora ele seguia esse vazio desconcertante por entre as praças, os cômodos, os lugares em que ia, dentro do ônibus, nas ruas lotadas, dentro dos bares, olhando para o lado, esperando vê-la, seu sorriso, seus olhos, o que sempre fora o melhor de sua vida, e que não é mais.
   Eles percorreram juntos trilhões de vidas, sempre a mesma, nunca outra, eternamente revivida, onde um dia se encontravam; trilhões de primeiros beijos todos iguais, agora não mais beijados...  trilhões de palavras trocadas todas iguais, agora não mais proferidas... trilhões de afetos & carinhos recíprocos depositados no relacionamento, agora não mais relacionado... & mais, um resto que agora ele jamais saberá, pois falta ela... Ela não veio mais... Ela alcançara a liberação, & ele sentia que logo iria atrás, para o grande nada, a ignorância dos filósofos.

   Quando disso, todas as energias do Universo vibram como se abortando um pedaço de si, todas as realidade paralelas infindas, mas não infinitas dissonam, em todas as vidas possíveis que eternamente se repetem uma se modifica & a própria totalidade dos devires se abala, uma delas foi desassimilada enfim, & dentro daquele túnel os dados extraviam-se naquele jogo de cartas marcadas, alguém urdiu uma trapaça, uma galáxia perde uma estrela, e os anos cósmicos ressente-se, em um sistema planetário um Arconte urra de ira, seu cárcere diminuído, & por um momento, ao meio dia em um planeta insignificante, uma pessoa morre e não mais nasce, saindo pela tangente ao que sua plataforma astral curva perpendicular & escorre dali um fio de espírito furioso arremessado para longe do tabuleiro, alguém se livrou do eterno retorno do mesmo, alguém se libertou... Um anel foi rompido.
   O Arconte pensa: “Um se foi! Que falta faz?”, & remoei a dor de sua própria perda.

   Alhures & agora, foi ela, ele sente, ele intui, ele sabe... A ferrenha saudade & a descomunal solidão diz que um dia algo foi diferente, houve ela... & que agora não mais é, agora ela se foi, definitivamente para todo o sempre.
   Quereria ele outra vez, & só uma mais, esse amor-fati? Suportaria ou suportou isso por quantos aeons? Suporta agora? Deseja sinceramente isso? É preciso só dizer sim! Resignado perder para ganhar.

   Em sua triste & alegre exultação ele persevera, pois sabe de tal grande êxtase de felicidade, & sabe ser possível ele se ir também, deixando saudades sem fundamento para quem ficar.
   Logo ele irá, ele sabe, ouve o chamado nulo dela imperando no céu de seu mundo, uma paixão que não aconteceu, um amor sem igual, mas que outrora sempre acontecera, sinal de uma desilusão significativa ao extremo, sinal de que ambos então estarão juntos... no nada... em plenitude!

   É meio dia no mundo inteiro...
                   O coração cheio de luz negra...
                                          O eterno retorno evitado...
                                                           Os ventos cessados...
                                                                         O Anel enfim rompido...
                                                                                      É Meio Dia no mundo inteiro...




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