1 de jun de 2011

Texturas do Abismo: "Rasgar o véu da realidade"


    Rasgar o véu da realidade...
   Eis a proposta que me apareceu hoje, uma intuição quando eu andava insone pelas ruas, observando ao mundo, escutando seus sons, apreciando as beldades, vendo o movimento de tudo, inclusive o meu pensamento.
   Então esta tarefa surgiu, como um exercício para recobrar a sanidade que se esvai de mim.
   Fui andando, descendo a avenida de carro, e constando toda a plasticidade da realidade que se desvencilha diante dos meus olhos, como aquilo tudo me pareceu tão irreal e fraco naqueles momentos em que eu encarava-a de frente.
   E observei o mundo, o céu, as nuvens, os muros, as pessoas, todas aquelas pessoas também, como eu, mentes pensantes onde o fluxo de pensamento também não cessava.
   E se desvencilhou para mim o tempo que sustém todas as coisas em suas costas largas, como o aparato que carrega em si o fio condutor da realidade, fazendo com a “vida” tenha um sentido comum. E se só existisse aquele momento em diante? Se tudo iniciasse-se no momento em que tomássemos uma certa consciência da realidade e por ali ela seguisse então, trazendo consigo uma memória de fundo que possibilitasse a sanidade cronológica como apego maior para se “ir seguindo”.
   Fui raciocinando assim, tentando achar uma falha estrutural permitisse me apegar para dali escapar do fluxo continuo que é o real, afinal tudo que temos é a realidade e a capacidade de inquiri-la, cogitar que ela seja realmente uma grande criação de nosso aparato cognitivo, de cada um de nós, se misturando o máximo possível, criando a cadeia das existências.
   Se tudo está realmente em minha cabeça, as cores, os sons, os movimentos, as sensações, então aquelas outras coisas não passam de impulsos relativos e muito pouco alheios ao que sou.  Se for eu que crio a realidade, eu também devo ter alguma faculdade que possa “rasgar o seu véu”!
   Uma “faculdade”, um argumento, um ponto inegável, um disparate cognitivo qualquer que faça com que tudo se dissolva e mostre primeiro a realidade como falha, e dali encontrar a ponte de escape para esta realidade, para o controle final do que venha a ser a existência aqui e assim...
   Vou por essa senda e espero mais uma vez das casualidades a resposta para se chegar à resposta que procuro. Espero ir encontrando então as migalhas pelo bosque do real que me indique o próximo passo para achar tal resposta. Seguindo o fio dentro do labirinto.
    Mas percebo que tal fio poderia mais uma vez ser justamente esse véu de ilusão, disponibilizado pelo deus enganador, por Maya, a Ilusão! Como poderei confiara nisso? Tenho fé na capacidade que o “Desvencilhador das Ilusões” esteja infiltrado, telegrafando uma mensagem subliminar por entre as arquiteturas de ilusões do real, mandando as migalhas no chão da floresta.
   Então seria “fé” um fator crucial nessa “iluminação”? Sim, fé que tudo seja ilusão, fé que haja algo, alguém que zele por nossa liberação deste labirinto de sofrimentos! Uma fé que não é cega, pois cona com um fundo intelectual que almeja desfazer também a intelectualidade, pois essa muito se pauta no fluxo do “continuum” no qual estou imerso.
   Essa seria uma fé mística então. Uma crença que confirme que o que pressinto sobre a realidade seja mesmo verdade, que a parede descascada à minha frente tenha existência somente dentro do continuum dentro de minha cabeça e que com o argumento certo eu possa transcendê-la, eu possa comprovar sua ilusoriedade.
   Uma ciência física já atesta isso. Mas para além dessa, seria necessária para mim uma práxis mais cotidiana. Mas... Por quê?
   Devo me ater nisso! Por quê? Para comprovar de forma irrefutável e a fé se tornar ciência também! Devo me ater a isso? O isso seria algo vindo do continuum de ilusões? Acredito que não! E me respaldo para atestar isso pelos ensinamentos do budismo, da ioga, e dessas crenças que se tornaram ciência também, pois o argumento para isso é a familiarização, para quando da falência do aparato cognitivo poder se transcender com mais propriedade o véu da realidade e me desvincular totalmente com o mundo.
   Então só com a morte final seria possível essa liberação factual? Parece-me que sim! Enquanto isso temos só poesias, religião, luta, mas é necessário tornar essa luta e esse esforço corretos, para um menor gasto de energias, para um melhor treinamento que nos deixe prontos para quando do desencarnamento, estarmos preparados para nós mesmos nos liberarmos dos véus da realidade.
   Por enquanto vale então esse esforço de procurar, aprender, exercitar a mente na matéria de dissolver a matéria, para que nada nos seja estranho, para que o gatilho esteja armado quando da oportunidade de atirar.
   Se todo o véu das ilusões é uma artimanha criada para nos aprisionar, o ponto falho nesse sistema é a própria morte, por isso tal questão é fruto de tantas ilusões e medos para o ser humano. Não tendo como criar um continuum consistente dentro da natureza das coisas, como a infinitude da vida, a ilusão só pode usar de subterfúgios para divertir a mente para que não se acostume com a idéia de que tudo morre mesmo.
   Sendo a falha na realidade que ela não subsiste para sempre enquanto nossa existência, então o mais certo é nos divertirmos no mundo, mas nunca se esquecendo de nos informar do saber sobre a transitoriedade, pois usaremos dela para abandonar todas as vicissitudes, as prazerosas e as penosas também. Aqui está o fim da forte idéia de “pecado” instalada em nós.
   Momentos de grandes apegos em nossas vidas, assim como momentos de intenso fulgor sensual trazem em si telegrafados a informação subliminar que tudo isso seria também passageiro em nós, e não nós passageiros destes momentos, há ali apenas informação, e devemos estar preparados para decodificá-la.
   Nos momentos mais tórridos de nossas vidas adentram um grande fluxo de informação exterior à ilusoriedade das coisas aos quais devemos estar atentos se nossa vontade é a de justamente romper o véu das ilusões da realidade. São nesses perigos que se acham a segurança da uma gnose amiga.
   O mundo, suas coisas, estão aqui, dentro de mim, lutando por espaço em minha tela de conscientização momentânea, querendo existir, pois só existe enquanto dou espaço para ele existir. Isso revela um segundo ponto muito importante, o de que algo da ilusoriedade do mundo se instalou muito fundo dentro de nós, e a isso damos o nome de “ego”.
   Esse agente invasor é uma função paradoxal junto à nossa consciência, e talvez nossa própria consciência como tal seja uma “entidade” criada a partir da função do ego em sua relação para conosco e com a ilusão e seu continuum temporal e “histórico”.
   Crer, como ensinam certas religiões, que o ego subsiste a morte é uma vitória da ilusão em seu esforço de penetrar para fora daquele seu limite de ações que a morte biológica demarca. Seria uma boa tarefa inicial para o “aprendiz de feiticeiro” aqui entender profundamente as falácias do ego, em todos os seus âmbitos e buscar uma arqueologia psicológica que desmascare definitivamente tal meta-ilusão. Não devemos confundir características com identidade. Essa é de posse com aquilo que no exterior nos acode, a outra, uma ilusão com o interior que nos ilude. Esta não condiz com “quem marcou nossa testa”, individualizando-nos.
    Tal tarefa de desmascarar o ego também já está bastante avançada nos círculos científicos que lidam com essas pesquisas, a psicologia tem seus refúgios de sanidade para esclarecer isso, assim como o budismo, a ioga, o taoísmo e alguns saberes mitológicos também. Vá atrás!
   Aqui nessa reflexão basta dizer que o ego é um fator profundamente fisiológico e suas atividades de sabotagem são facilmente desmascaradas por mentes corajosas e desapegadas, e refletir sobre uma dita evolução material do mundo é um bom exercício de criticismo ao ego e suas “obras”.
   O mundo está aí, no lugar onde pode estar, nem mais nem menos. As ilusões são incrivelmente tentadoras em todos os seus aspectos. Todo o nexo de confluências que emanam de meu simples ato de acariciar a gatinha que roça minhas pernas enquanto escrevo isso são suficientes para despertar um turbilhão de sentimentos que remetem e relacionam-se ao meu continuum existencial. Os hindus mesmo chamam isso de “Leelah”, que quer dizer “brincadeira”, “jogo”! Devo aprender a usufruir isso e depois descartar...
    Dessa pulsão liberadora muitas vezes surge um fio de tristeza imensa (seria isso espasmos do ego?), mas posso transformar isso em felicidade também, no controle da mente, na coação do ego que quer se impor. E o jogo vai virando ao meu favor, muito lentamente, cheio de reveses, mas vai virando!
   O véu da realidade vai se rasgando.
                                                                      
                                                                                  e.m.t. 
-Fim do Outono de 2011.


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