8 de fev de 2014

A Caricia do Musgo



   Piso na macia manta de musgo que se estende por toda varanda da velha casa que ninguém agora habita…

   Da altura de quase um centímetro de minha sandália de borracha, sinto o toque da umidade que o lodo cede à superfície por causa do peso de meu corpo, esse é o máximo que posso me afogar no líquen do limo, um breve e frio toque de água, um lânguido instantâneo e fino fio de água cedida de dentro das entranhas da planta rasteira que toma todo o estreito corredor.

   De todo reino vegetal, que se espalha por toda a orbe, que adentra na terra e alcança o céu, que vem desde os recônditos inóspitos das florestas até dentro de minhas veias, a planta que mais me fascina é o lodo…

   Esse tapete veludoso, de um verde florescente e forte, espalhando-se onde a umidade e o esquecimento se instalaram, ali cresce o limo, o esperma do lótus, o campo das Ninfas, o verde das ausências.

   Vejo o lodo ganhar o corredor de minha casa, ali onde pouco se pisa e o sol esquece de passar no inverno. Trilha por ali calma e tediosa minha gata nos dias mais amenos, e por ali se deita desleixada do limo quando o sono lhe recomenda.

   Descendo pela escada íngreme, e virando a esquinela para a soleira da casa de minha infância, sigo lento com a gatinha até o portão sem tranca que dá para a floresta de lodo, aquele mar de matéria orgânica que animal nenhum faz uso, mas é ali que me afogo um centímetro, é ali que a gata pisoteia com um quê de seu asco felino a coberta fria e úmida de verde esmeraldina de inverso valor.

   Sigo o espírito sem por que da gata estar ali e a gata me segue pela presença constante que ela me dedica em todos momentos que decido percorrer caminhos que deleitem sua curiosidade.

   O silêncio da velha casa vazia e trancada emana e repercute no silêncio volumoso do chão que impede de me afundar até o centro da terra. Excitado com um sentimento que não tem nada de sexual, retiro meus pés da chinela de borracha e piso com as palmas lisas de meus pés de sagitariano no lodo frio,  eu sinto… a textura… da inutilidade… Eu sinto… o toque… da imensa maciez…

   Os pomos macios das patas da gata também sentem o mesmo que eu, mas ela só se importa com o incomodo da umidade. A gata não gosta muito do limo, mas me acompanha silente naquela comunhão com o resultado do abandono.

   Satisfeito, deixo o enfim o local do lodaçal particular, em minha alma volte-ia lembranças nunca fundadas de palácios decrépitos abandonados em terras esquecidas, sinto a brisa quase nula de profundezas imersas em fossos amazônicos onde antigos templos agora repousam. Vem-me á mente o espírito dos calabouços e necrópoles não visitadas de mundos distantes, e por um instante estou a tocar todas as crostas de pedras que não rolam das florestas frias das regiões quase árticas de meu próprio mundo.

   O sol ensaia sair às três horas da tarde, e sei que o lodo ali sofrerá um pouco com isso, mas ele permanecerá até a próxima estação seca e fria. Então, depois, daqui à alguns meses, eu e minha gata voltaremos para visitar o musgo que ali ainda estará.

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