5 de mai de 2015

As Grandes Sombras

“Viajavam no céu noturno de maio, como sempre viajam, três ‘grandes sombras’.
  Seres soturnos, sem explicabilidade, singram juntos ou sós, as imensidões atmosféricas sempre a Oeste, para onde a noite vai.
   Lá no alto, pouco abaixo das poucas nuvens de uma noite de quase Inverno, longe, iam as três, os três, em três. Jambalalauum, Godagarumnam e Blooommuk, três sombras, três coisas mais escuras que o céu da noite, três seres sem explicação.
   Atravessavam mansas um planalto, acima de várias paragens esparsas, pequenas fazendas, um imenso pasto total, duas cidades próximas, três rios pequenos, quatro estradas que se cruzam e a soma de toda natureza esparramada pelo chão que naqueles momentos o oceano da noite banha com sua ausência de luz em descanso, parte natural das coisas, o complemento do dia.
   Há de se dizer sobre esses seres que existem às centenas neste nosso mundo. Pouco se sabe de sua natureza, como nascem, como crescem, como morrem. Os meios de se saber tais coisas são inescrupulosos e há poucos que pagam tal preço de obsessão, uma nutrição psíquica profunda.
   De sua natureza de caráter são mansos como bois, mais entendido pela sua lentidão geral em se mover, como se estivessem em câmera lenta. De seu caráter real só se sabe de sua curiosidade impessoal e até destemida, de uma intrepidez transcendental em desvendar e vencer as resistências daqueles com os quais eles se decidem comunicar, têm um senso de humor estranho para nossos parâmetros humanos e sabem muito bem fazer-nos ver suas observações sobre coisas erradas, não um moralismo, mas um impacto de constatação lógica e sentimental ao mesmo tempo, que desfalece qualquer argumento.
   Xamãs, pajés, médiuns das matas, feiticeiros, ocultistas, estudiosos do misterioso afins as definem como se fossem bisões a cruzar os céus, não só pelo seu tamanho, também por sua mansidão, mas principalmente por sua indiferença por tudo mais a não ser quando querem realmente entrar em contato com quem os interessa.
   Não que sejam mesmo mansos, mas para padrões humanos e da natureza selvagem em geral, não são realmente violentos, esses seres tem sua característica personalidade, se é que se pode se incluir criaturas tão estranhas em tais parâmetros humanamente conhecidos. Eles tem um ímpeto superior, indiferente à tudo que não lhe devem motivos, são mesmo como sombras que seguem sempre para onde a noite vai, e isso revela mais de suas personalidades do que qualquer outra coisa.
   Às vezes, no entanto, algo ou alguém chama sua atenção, e eu tomei conhecimento desses seres em uma dessas situações onde eu fui alvo dessa sua atenção intensa e narrarei mais adiante, uma aventura dentro de um deles, e ele dentro de mim mesmo.
   Aquilo que chama a atenção deles em uma pessoa seria um estado peculiar de consciência, aquele estado em que a mente fica depois de passado o efeito de um tal veneno conhecido como “veneno para o ego”, chamado de Ayahuasca, e popularmente difundido sob a alcunha de hoasca, o “vinho dos mortos”.
    Depois de se ingerir tal substância, o individuo fica cerca de algumas horas na embriaguez psíquica produzida pela bebida, e depois de se passar o forte do efeito, durante algum tempo ainda ficam os ecos ressonantes das experiências vividas durante o transe referido, ainda tendo o indivíduo o que se chama do sombreamento causado pelo efeito de tal experiência, um ressabiamento colateral. É sob estas situações que as grandes sombras têm sua atenção desperta para com um ser humano, nesse êxtase e no pós-êxtase particular que chamam muito sua atenção.
   Voando em grandes alturas elas podem sentir tal emanação da mente humana, é como se elas sentissem de longe o odor de tal químio-gnose, como animais mais dotados de grande poder olfativo sentem o cheiro do cio das fêmeas de sua espécie, outros sentem o cheiro da morte em cadáveres e outros são atraídos pelo odor de flores. Para essas sombras, tal estado da mente é um convite irresistível para se aproximarem e intercambiar com tal pessoa.
   A mente em tal estado está na situação favorável para a conexão que tais sombras podem conseguir, e nisso elas tiram proveito, como uma diversão, ou um estudo, ou até como um ato de nutrição para elas próprias. A mente humana, assim estando, proporciona para essas grandes sombras a possibilidade de uma simbiose onde elas podem saber o que a pessoa contatada sabe, ter acesso à sua memória, vivenciar seus sentimentos, fruir por entre sonhos e pesadelos, ver pelos olhos desses à quem elas se incorporam pelas vias expandidas da mente embriagada pelo transe ayahuaski.
   Esse interagir tem dois lados bem diferentes.
   A pessoa obsedada pode apenas ver de relance o forma disforme total da sombra, mas sente plenamente sua presença manifesta através de percepções nunca antes sentidas do meio em que está envolto, como se todo um mistério noturno ganhasse coragem de se apresentar também aos olhos do individuo, mas na verdade estes mistérios se apresentam aos olhos das sombras que normalmente os enxergam mesmo nas distâncias das alturas e na escuridão da noite. Podemos perceber então aquilo que se esconde nas sombras, nos relances, na fumaça, no fogo, dentro do torvelinho, escutamos as sobras dos estrondos e os odores das alturas vencidas em chuvas de serenos, entramos como que empurrados nas mediações da noite enoitecida pelos próprios seres que só vivem aí, com a pouca luz e calor doados por uma estrela que agora ilumina outra parte da esfera planetária, a natureza das costas do planeta...
   Os conhecimentos que uma pessoa pode em retribuição ter em uma jornada tal são os conhecimentos da penumbra, os conhecimentos dos sonhos despertos de uma criatura fantástica, raramente notada e com suas pulsões próprias. Adentramos em um saber de ser sem intenções maiores, como o saber particular de cada animal, de existência vertical, mas no caso de um ser como essas grandes sombras há algo a mais, uma consciência de amplidões catatônicas, um saber intra-real, pós-experiência, uma intermediação sensorial plena.
   No caso da grande sombra o que ela ganha, ou toma posse, é deveras mais interessante. Não podendo ver o dia, elas nutrem-se da memória da pessoa das coisas desses dias, da luz do sol, estranha a eles, pois ao mesmo tempo essa luz quer dizer sua fuga e sua cova, sua impossibilidade de existir, mas a possibilidade do ser humano e das coisas da natureza existirem, um estranho alinhamento de perigo e aviso sempre renovado para se manterem distantes, mesmo que as coisas no final dependam de tal luz.
   Além dessa memória em particular, as sombras acessam os sentimentos humanos, tão caros para quem não os tenham, pois podem se deleitar em sentir essas coisas como quem assiste a um filme ou lê um livro, um ser tão imenso e complexo brincando de catarse com uma criatura tão simples como os homens.
   As grandes sombras parecem também se alimentarem nessa simbiose, elas sugam restos finos do liquido misterioso circulante nas veias e intestinos dos indivíduos, além da energia particular que perpassa na mente do psiconauta. Talvez mesmo por isso é que são atraídas justamente por essa situação especifica, ao assediarem um individuo em plena fruição da gnose ayahuaski faz com que tais sombras se compenetrem em plena miração extática, revelando muito de sua presença e de seu ser, mas sempre de acordo com sua vontade.
    Há de se fazer notar que alguns conhecedores da existência desses seres especulam sobre suas intenções e sua natureza. Uns creem que eles fogem do dia por não poderem existir à plena luz, sendo desintegradas, pois sendo elas um reflexo, uma idéia de uma interseção, aquilo que as desmascarasse as faria inexistentes, que um dia por um fator especial, uma interposição de corpos impares e luzes desconhecidas, tenham surgido suas sombras e por um ímpeto de algo exterior, fez-se necessário, ou não, elas serem. E desde então correm da aurora, sempre dentro da noite do mundo, vão pastando luares, bebendo sonhos humanos e animais, migrando com os ciganos, sempre.
    Porém existem também aqueles que digam que na verdade elas procuram o dia, perseguindo-o, mas procuram justamente um dia especial em si, aquele onde a luz que as criou retorne para que elas possam então penetrarem em tal disposição das coisas e serem outras, talvez evoluírem, talvez descasarem. Vão assim perseguindo o crepúsculo de sua completude, até encontrarem o fim do dia em especial em que terão algo de sua própria natureza, algo que tenha um sentido só para elas. Talvez ainda cumpram uma missão e tenha que permanecer na sombra de toda consciência.
   Caminham então séculos e séculos dentro da sombra da Terra, seguindo uma sina de sombras dentro da sombra, nem felizes nem tristes, nem temerosas nem esperançosas, pois também morrem de velhas e nascem em novidades, de cópulas auto-induzidas e parição de aparições, são.
    Talvez nesses particulares de sua estranha natureza, o pouco que sabemos sobre elas, possamos entender sua função, seus porquês, como vivem e questões desse naipe. O caso é que respostas para tais questões são impossíveis de se ter, ficando tudo nas conjecturas e suposições, e assim como não recebemos respostas às perguntas que fazemos aos animaizinhos de estimação que agarramos em nossos braços, são elas, as grandes sombras que arrancam respostas de nós, por uma ciência da simbiose transcendente, que naturalmente elas fazem uso.
   Pois então um desses seres, aquele de nomeação Blooooommmuk, que no inicio citei, em uma noite de Maio, quando eu e mais dois amigos voltávamos de uma jornada ayahuaski na área rural de nossa cidade, ela nos interceptou. Nesse dia, nessa noite adentro, aquilo que para mim eram estórias de pajés contadores de mitos indígenas, se tornou uma experiência intrigante, onde pude começar a entender os motivos ensombreados destes seres.
   Havíamos ido tomar ayahuasca em uma chácara à cerca de uns trinta quilômetros do centro da cidade. Lá, por volta das oito horas da noite tomamos uma boa dose do liquido em volta de uma mesa sob um teto de palhas de coqueiro e por horas vagamos livres por entre paragens mentais e nos astrais da porta entreaberta pelo elixir da desintegração das amarras psíquicas, vendo lugares fantásticos, assistindo desdobrar de cenas indescritíveis e recebendo ensinos dos mestres dos astrais, nossos guias e auxiliares espirituais e tantos outros guias dos sonhos que tem a permissão de nos ensinar.
   Depois de findada aquele ritual arquetípico, passado o grosso do efeito do chá das mirações, voltamos então para a cidade em meu velho carro. Eu na direção indo levar meus dois companheiros para o outro lado da cidade, para a claridade apagada das nossas casas em repouso na hora do sono das coisas, vi no céu as três grandes sombras. Eram como três anti-reflexos arranhados no céu escuro.
   Na estrada escura, ao terminar de subir uma extensa ribanceira leve, tive na minha frente a visão ampla do grande planalto que servia de contra-forte ao acesso das imediações da cidade, sem que porém ainda as luz da cidade interferissem em qualquer visão do céu ou dos arredores. Era tudo noite sem luzes artificiais.
   Percebi pelo canto do olho, dispostos à minha esquerda, como se rumando à nordeste, onze horas do ponto de vista em que eu estava, a procissão ínfima daquelas sombras. Foi de relance, mas instantaneamente tomei ciência de suas presenças lá, pois nesse exato momento elas também tomaram ciência de mim e de minha percepção delas. Estava dado, pois, o contato.
   Aquelas três “coisas” podiam ser qualquer coisa. Podia ser uma nuvem, podia ser um OVNI, podia ser um avião, mas a sensação indiscutível de quando as percebemos não deixa duvidas, há uma espécie de vida sentida ali, para ser mais preciso, uma existência, uma grande e sombria presença.
   Meus dois companheiros dormiam, exauridos pelo baque posterior da forte dose ayahuaski que tínhamos tomado, mas no momento que tive toda a percepção das sombras murmurei que tinha notado algo, disse uma frase como “- Olha só!!!”, engolindo o comentário posterior que pareceria estranho até à mim se o dissesse em voz alta, mas o que pensei como complemento daquela interjeição fora algo como “- São três grandes seres lá ao longe... seres sombras...”.
   Usando o poder latente da ayahuasca para me concentrar na estrada, no ato de dirigir, o fato de perceber as grandes sombras fez com que minha consciência se expandisse novamente, abrindo o sinalizador para que uma dessas grandes sombras seguisse o sinal até mim.
   Em sua imutabilidade Bllloooommuuk me pressentiu e desgarrando-se das demais sombras ela fez uma manobra densa, uma enorme volta baldeando por quilômetros e quilômetros, e lentamente veio emparelhar à grande altitude sobre meu carro, isso quando já havíamos nos aproximados dos bairros mais periféricos da cidade. Ali em cima de nós, ela voou vários minutos sentindo o odor psíquico que exalava nosso pós-êxatse, já emanando em nossa direção também seus ecos de sombreamento, no que pude perceber uma alteração sutil da iluminação em volta do carro, só sendo possível ver isso graças ao estado de percepção e acuidade causado pela ingestão da ayahuasca.
   Foi como se no volante, percebesse uma diferenciação de iluminação da própria estrada, parecendo diminuir o grau de escuridão natural de estrada não iluminada, uma diferença de luz como se de repente uma noite de lua crescente se tornasse noite de lua nova.
   Tal penumbra se abateu sobre nós com o pouso da grande sombra sobre nosso entorno, penetramos no próprio ser e sonho da sombra, seu corpo feito de efeito óptico e intersecção, sua própria existência... seu mistério próprio...
   E de imediato ela fez sua conexão quase mística conosco, e a partir deste ponto só posso falar por mim. Meus amigos em seus sonos mais se aprofundaram e a grande sombra mergulhara também em seus sonhos e pesadelos, lembranças e sentimentos sonâmbulos em suas vivências oníricas. Ao mesmo tempo a grande sombra estabelecera sua ligação comigo, e se por um lado ela dormia e sonhava junto a meus companheiros, por outro ela via e sentia comigo, enquanto por sua vez me doava um estado de consciência impar, extravasando ambos estados fisioquímicos e psíquicos que geraram em mim a atenção da penumbra, o encanto do eclipse perene, o dom da noite.
   Minhas veias e espírito alterados, tornados rubro-escuro o meu corpo e alma. Tudo se tornara outra coisa, nem aquilo nem isso era algo que era, mas entretanto não era mais até que o beijo sombrio do ser sombra me abandonasse.
   Fui guinado e sendo guiado e posso dizer que não agradava à grande sombra o semi-ato de guiar um maquinário, a desagradava o fado de ser conduzido, mas a isso de certa forma, de sua forma, se resignou tendo-a como uma experiência a mais.
   Eu de minha forma aquietei um certo pânico e uma certa repugnância de obsessão e me quedei no estado estranho que me causava uma percepção diferenciada do mundo. Naquele momento eu sabia que ali ao meu lado, em mim, havia aquele ser que eu notara no céu e que atrairá sua atenção, no momento do contato eu me lembrei das histórias e de tudo que eu sabia sobre elas, além de ela própria me esclarecer sobre sua presença junto a mim, de certa forma para me acalmar, como se dizendo que nossa permuta seria mais do que justa para comigo.
   Fui então seguindo na estrada.
   Em minha mente eu ouvia uma espécie de canção, como se fosse uma ventilação de idéias da própria grande sombra que cantarolava sua cantiga de estrada, um fio condutor de tranquilidade, ela cantava algo assim:
   “... blooooooooooooommmuuuuuuuukuuuuuuuummmooooooooooooolb...”
   E variava tão palavra, seu próprio nome, como um mantra, alterando sonoramente a altura de cada som, e intercalava versos, que ouvi na nossa língua:
   “... bloooommuk... aqui/ali/lugar-nenhum para a ti ver/sentir/cheirar/ouvir...
       ... emanações de escuro/claro/penumbra de mente/corpo/nódoa presença nossa...
            ... você(s) flor(es)/planta(s)-inversa(s) blooommmuk inversa-presença...”
   E assim ia e se repetia tal cantiga de nuvem-sombra onde um termo quereria dizer várias coisas e seu próprio contrário ao mesmo, uma intelecção da noite em sua natureza expandida até aquele ser.
    Depois de algum tempo se calou e fomos nesse silêncio pela senda obscurecida pelos meus próprios olhos. Atravessamos a cidade assim e pouco reparei na soma total das coisas, mas apenas certos detalhes fantásticos que a vida toda se tornara.
    Bloooommmuuk tinha mais de 300 anos e suas lembranças viam à todo momento se fundir com algum detalhe da estrada ou das coisas da cidade. Uma curva da estrada era então uma curva da estrada de minha cidade e era a curva de uma estrada nos confins do Peru onde serpenteava rumo ao litoral desde os Andes; uma qualquer árvore era uma árvore qualquer, mas era também uma árvore de uma floresta sem nome que fora consumida no calor de uma noite de verão por um incêndio de diversos dias e quase todas as árvores foram durante alguns instantes árvores em chamas ardentes vistas de cima e pelos olhos de um índio em comunhão de yagé pelas matas onde fugia.
    Tudo que eu via ganhava um apêndice temporal e memorável da memória da grande sombra ou talvez de diversas grandes sombras e assim o caminho se tornou uma jornada ao profundo esquecido dos tempos e lugares onde a memória da grande sombra mais parecia um redemoinho de conexões e amplidões dimensionais.
   A certa altura chegamos à cidade e o luminar elétrico fez fugir de lugares profundos lembranças das primeiras cidades assim iluminadas e como com o passar dos anos e o sobrevôo das grandes sombras para cada vez mais longe de seus centros luminosos, as luzes cresciam como um fungo na superfície da terra.
   Um poste de luz de concreto se tornou uma fascinante recordação de antigos postes de luz à gás e postes de madeira, assim como de diversos outros tipos, mas a luz era o ponto perene entre todas as recordações e nisso inserido um certo receio que se fosse sentido por mim eu chamaria de sentimento ancestral de medo.
   Passamos por um grupo de pessoas que andavam tarde da noite pelas ruas, talvez um pouco embriagadas e vi emanar delas certos eflúvios que diria serem espiritual, um miasma metafísico dissonante espalhando por toda rua como uma certa decepção material onde a própria matéria gritava de revolta contra o desperdício de tempo e energia por aqueles seres ali, se matando de uma forma lenta e dolorida.
   Em frente a certas casas eu via suas fachadas se transformarem e se remeter ao passado e de suas portas via sair seres, ecos de lembranças da grande sombra por onde outra hora passeou pelos escuros das ruas das noites do passado. Um relance, um susto, um sentimento qualquer, todos repousando no mesmo lugar, guardados na memória da sombra.
   Cruzamos a cidade assim e ao chegar à casa de um de meus amigos, a dificuldade em despertá-lo foi grande, se ergueu como um morto, tenso, pesado e meio sonâmbulo saiu do carro, adentrando na sua residência.
   Andando mais uns poucos quilômetros deixei o outro companheiro e ao contrário de outras noites onde sempre fazia esse itinerário e ali com este amigo, meu xará, sempre prolongávamos nossas conversas, desta vez ele se despediu sonolento, e foi logo para dentro de sua residência sem sequer dar atenção aos seus cachorros.
    Sozinho, então tomei caminho o rumo de minha própria casa que não estava a menos de uns sete quilômetros de onde eu deixara meu último passageiro do sombreio, peguei caminho e uma efusão então tomou conta de mim, como se a grande sombra concentrasse então toda sua presença e atenção sobre mim.
    Pelas ruas escuras os cães latiam insistentemente para mim enquanto passava e gatos corriam desesperados ao me ver de longe, corujas e outros seres da noite ficavam confusas ao me verem passar e se espantavam ou recolhiam quietos à qualquer refugio de bichos.
   Ao longe, em uma avenida muito comprida e reta, parecendo mais reta e comprida do que de costume, pude visualizar um bando de cães na rua e ao me aproximar vi que eram três cães e tive a impressão que comigo, naquela noite eu não havia visto três grandes sombras no céu, mas vira três cães e um deles me perseguiu desde o mato até ali; mas então lembrei que eu não havia visto três cães no mato, mas vira três grandes peixes em um lago e um desses peixes me seguira pela margem do lago; mas me confundi, eu na verdade vira três abutres magníficos que voavam em torno de três cadáveres que se moviam pelas estradas do mundo rumo à suas sepulturas... e fui assim durante breves momentos em cerca de duzentos metros tendo essas reminiscências violentas e fantásticas onde eu vivenciava cada uma dessas experiências diferentes ao longo do caminho, antes ou depois dele...
   E aquilo era um forte desnorteamento de tempo, lugar, espaço, e sentia meu próprio corpo e alma plenamente confundidos da sua mesma existência onde a estrada nada mais era do que a ilusão do movimento e o tempo a percorrê-la uma fantasmagoria de fuga de outros planos e hemisférios do cosmos. Talvez de outras realidades paralelas.
   Nisso, Bloooommmuk me disse então que era o fator da desintegração, a despedida, o futuro começo de uma mahapralaya que eu buscava incessantemente em minhas aventuras psiconaúticas pelas matas e nas substâncias do mundo, ele potencializara essa própria experiência como um dejeto de sua experiência pelas ruas sujas da humanidade.
   Diminui instintivamente a marcha do carro, ou a grande sombra fez isso. Ao longe ainda, no fim daquela avenida, pude observar um eflúvio estranho, fumaça saia de um monte de coisas que queimava na noite, talvez um monte de capim e entulhos de um terreno baldio, mas pude ver de forma clara, dentro daquela fumaça, coisas muito mais estranhas que a forma da fumaça sendo levada pelos ventos noturnos.
   Pude ver, e quando vi acreditei ser real, que estava por detrás da fumaça uma manada de elefantes correndo, e seguindo-os uma manada de cavalos selvagens sem ninguém os montando e cogitei rapidamente que alguém devia ter soltados os elefantes e os cavalos de seus currais.
    Aquelas esdrúxulas constatações, que por alguns instantes pareciam serem muito plausíveis e sérias para mim, foram interrompidas por algo mais estranho ainda, e só posso pensar que a gargalhada de Bllooommmuk seria o som mais estranho que já ouvira, mas essa impressão logo se perdeu no reconhecimento chocante que aquela última visão na fumaça havia sido nada mais do que uma piada da grande sombra, uma forma dele descontrair-se e despedir-se de mim, e foi como o fez.
   Logo após tal fenômeno muito insólito também, tão ou mais insólito que tudo que vivi naquela noite, o senso de humor da grande sombra deu o toque finalizador em nossa simbiose, me aliviando do peso daquela possessão.
    Nem tristeza nem alegria senti, apenas tive a sensação de como se um enjoo passasse. Cheguei em casa e só no outro dia, depois de desperto e sob a luz do sol comecei a me lembrar desta aventura. Muito tempo depois só a comentei com meus outros dois companheiros e deles não colhi impressões nenhuma daquela noite. Eles apenas dormiram e sonharam sonhos que não se lembravam.
    Quanto à essas grandes sombras, tenho comigo sempre o risco de poder encontrar outras delas pelos céus noturnos após um ritual de ayahuasca, e sei da inevitabilidade de fugir delas, então prefiro não pensar do quando tal experiência ocorrerá de novo, mas me mantenho atento e firme, pois posso qualquer hora dessas ser tomado novamente, e tenho que praticar a memória, pois esse é o único ganho que nós humanos temos ao sermos possessos por esses estranhos seres.”


(Capitulo do livro "Belatrix - Paradoxo das Sombras" de Eduardo Moura Tronconi - Baixe a obra completa aqui: https://pt.scribd.com/doc/264293893/Belatrix-Paradoxo-Das-Sombras)




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