15 de jan. de 2026

R/P

 

Estranheza
   que me remete à uma realidade paralela
Não lá, não outra
   essa aqui...!

De repente tudo descompassa
   & certas coisas que chegam nunca foram
Um velho panorama desaba aos olhos
   como uma grande novidade

Uma notícia, um evento
   uma música, uma pessoa
O mundo me diz que estiveram aqui
   sempre foi, mas não me lembrava

& fica o abismo da dúvida
   assolando a textura do pensamento:
Qual foi o desvio que peguei
   para vir parar em uma outra realidade



11 de jan. de 2026

Dormingueira

 

Das nuvens transnoitadas
   emergem naves que cruzaram o espaço
Escondidas na água suspensa
   de nossas certezas
A madrugada passa pelo moedor da manhã
   até ter o azul sem sal do dia
Onde se apaga a sonolência das cores
   & o despertar em dores
Através da ida à lida
   através das lembranças da noite de suor
      pela culpa por ser inocente
         pelo que o amanhã proverá
Vejo nos rostos de cada um
   as taras-mil mal disfarçadas
      pela quais todos passam
         ou prosperam emperrados
No caminho para castração
   desenbainho como nave que sai da nuvem
O prefácio flácido
   que verga como vibora
      à procura da mordida
Até que o pão de toda fome recém assado
   nas cordilheiras lisas ao leste
      queime ao chão & exale o cheiro
         das engrenagens mal lubrificadas
      que erguem o sol
         & o cenário de domingo
            onde ato nenhum
               acontece
...mas sobre...viverei...



10 de jan. de 2026

Ex-Quinas

 

Pelas quinas
Arredondei as coisas

Nas redondezas
Cheias de e
                   s
                   q
                   u
                   i
                   n
                   a
                   s
Se circula
& volta ao lugar

Um mundo disforme
Perambula pelas quadras
& enquanto segue
Toma forma... de algo... de nada...

Pontiagudas para repelir
Redondas para entrar na onda
Disforme para se formar

Alguém se perde
Nas próprias proximidades
Alguém se acha
Nas próprias profundezas

Tudo é casa quase perto
Tudo é dobra & meta
Que colocamos no espaço

Só o tempo descasca
Tudo é ida & volta
Reta & quina



7 de jan. de 2026

Ninfa

 

Borboleta, ser completo
Forma, cor, textura, ideia
   entra na vida, no pensamento
      pelos olhos, pela porta da frente
         pelos sentidos que a recebe
             em todos os deleites...
No imago já erra o âmago
   & não se sabe se o seu voo
      é para vir & ficar onde não se esconde
         ou se vai deixar se levar pelo vento
            pela onda, pela corrente, para longe...
Então se torna crisalida
   se fecha para mim
      no casulo de sua própria distância
         no muro da ignorância
            na porta fechada que um dia foi certo
               a cor & as asas leve
                  de um sorriso aberto...
Agora não é mais que larva
   se arrastando por ali
      diante dos meus olhos, de minha vida
         lavada de você momento a momento
            largada no pó de um desvio
               nessa estrada única do estranhamento...
Dessa distância que observo os ovos
   embriões de uma amizade & paixão
      abandonados no não-ninho de silêncio
         de olhares que não se cruzam mais
           de tudo reunido & separado pelo vento...
Pois se falar
   é compartilhar voos
Se olhar nos olhos
   é reconhecer a existência mútua
Como duas asas espelhadas
   de uma borboleta adulta
Que por não bater mais
   reverte na desesperança
De uma praga
   depositada na flor
      em uma metamorfose reversa
   do que um dia poderia ser um amor.



5 de jan. de 2026

Poesia.:.Bruta

 

Qual sentido tem uma poesia feia?
[.]
Eu aqui
querendo arrancar da palavra
do verbo, da frase... algo mais!
Querendo torcer sentidos
criar termos, poedesmimetizar...
Porque ainda há
coisas banais a se dizer
ainda há profundezas a se expressar!
Passar a língua no rasgo aberto do inaudito
& fazê-lo gozar!
[:]
Ainda há brutalidades a se poetizar
Violências doces
Amoreamargura, mel & sal
da morada do ser-em-nós!



2 de jan. de 2026

Cultura

 

Mal assisto mais filmes...
Mas antes
    deixei de ler gibis
    deixei de ver revistas
    deixei de ficar em casa...

Filmes, vídeos
   são rápidos suceder de imagens
      com cores & sons
         que querem suspender a realidade
Eles se chocam com a imaginação
   em um embate entre superfície
      & profundidade

Ainda leio livros
Ainda escrevo
Ainda trabalho
Ainda imagino

Negando ou aceitando
   o condicionamento digital
O dentro & o fora da caixa
   não é mais uma necessidade
      nem uma desistência
         ou revolta

É apenas o cansaço de uma época
   que chegou cedo
Pois nesses tempo
   tudo é rápido
& ainda precisamos de lentidões
   para crescer
      & pensar por nós mesmos



1 de jan. de 2026

Hoje/Amanhã

 

H
O
J
E
não senti diferença nenhuma
   na mudança da D
                                A
                                T
                                A
caminho de rato a seguir
buracos de minhoca a transitar
já que somos seres de trilhas
que abrem estradas
erguem P
              O
              N
              T
              E
              S
lançamos foguetes no espaço
& bombas em pessoas
um dia a mais próximo ao dia final
que afinal sempre fora o A
                                            M
                                            A
                                            N
                                            H
                                            Ã



31 de dez. de 2025

Diante Ano [00h00]

 

Meia-noite
   esse tempo eterno
      que habito aqui & lá...

É quase sempre tudo
   & sempre quase nada
Fração de tempo
   grão de espaço
Onde um ano que passou
   se confunde por um instante
      com um ano todo que virá

& agora que certamente
   o que fora devir
      é maior que o porvir
Acumulando nas costas
   um instante nulo de cada vez
      que se torna constância & vida

Noite meia
   dia inteiro
Instante imediato
   intermediada instância
Frente ao fim
   & ano à frente
Nos próximos
   meio-dias...

Onde no relógio
   marca o mesmo:
Meia-noite aqui
   meio-dia em outro lugar
Fim de um ano nesse instante
   ano novo um instante depois
& nós diante os ponteiros
   por um momento olhamos os dois!

& assim não estamos aqui nem lá
   pois tudo é & não é
      o mesmo tempo & lugar...



30 de dez. de 2025

Alheiamentos de Dezembro

 

Então o tempo parece desacelerar
& as portas do esforço fechar

Parece combinado com todo mundo
Já deu o que tinha que dar

& agora é só esperar
Depois das festas passarem o ano acabar

Dezembro de cançasso & da falsa alegria sentimental
Dezembro da recompensa por viver no deserto da realidade
Dezembro por nascer & morrer no mundo
Dezembro pelo sino pequenino que surrupiou o sol invicto

Na infância o feitiço funcionava bem
Mas espere só pelo ano que vem

& mais um tempo de contos de fadas
Até a idade mostrar suas garras

Agora conservar o espírito puro
É proteger os inocentes do expurgo

Dezembro das noites felizes até o primeiro velório
Dezembro da saudade do que nem se sabe
Dezembro do modo/medo de vida ocidental
Dezembro que nos tornou felizes & tristes ao longo dos anos

Comemos & bebemos, consumimos uma festa
Nas cores & estação de outro hemisfério

Cantamos canções na véspera
De uma lenda que virou império

Mitigamos em nosso calor
A proximidade que no norte se tem no frio

& nos presépios representamos um amor
Tolo & pobre de um deus esvaziado

Esperando só um ano acabar
& outro começar

Para a procissão de dias preencher com rapidez
Até de novo desacelerar



29 de dez. de 2025

Outros & Eu

 

Não sei
   se a tristeza me acompanha por isso

Não sei
   se o amor que tenho está contido

Pela falta
   de que tenho para eu dar

Pela abundância
    de quem se presentifica para eu negar

Mudanças
   sempre foi a tônica da vida

Carência
   sempre é a o fato das coisas

& eu aqui
   ponderando entre a aprendizagem & a inércia

Se o resultado da nossas escolhas
   nunca aparentemente é a totalidade

Se o total do que sentimos
   aparentemente é a confusão

É porque nos misturamos tanto
   ao que não somos

& não  sabemos que o que não somos
    é apenas uma parte de nós que não vivemos no foco

O outro, por mais diferente
   é um diferente ângulo do possível

& se somos parte
    parte de tudo é a soma de todos nós




28 de dez. de 2025

Vago Lume

 

O raro perilampo
   riscou seu fio de luz
      na minha frente
Era noite
   & as estrelas brilhavam menos
      que um vago lume além da solidão
Era noite
   sobre os terrenos baldios
      vizinhos de grandes construções
Na avenida construída
   onde era o fundo de um rio
      eu subia à pé contra a correnteza
& o raro perilampo
   riscou seu fio de luz pequeno & solitário
     como a consciência
         sob as estrelas ~*



27 de dez. de 2025

A Terceira Vinda

 

"Jesus disse:
Se a carne foi feita por
causa do espírito, é isto
maravilhoso. Mas, se o
espírito foi feito por causa
do corpo, é isto a maravilha 
das maravilhas. Eu, porém,
estou maravilhado diante do
seguinte:
Como é que tamanha riqueza
foi habitar em tanta pobreza?"
-Evangelho de Tomé, logion 29


Cada um
   vive dentro de si
      ao longo da vida
A experiência
   de salvar
      a si mesmo
Então
   quando o deus dos mitos alheios
      retornar
Virá para todos
   no fim dessa linha
      de individualização
Não será
   uma ressurreição
      mas um nascimento
Para uns
   o salvador ressurgirá
      pela sua fé
Para outros
   retornará pelo
      seu desprezo & loucura
Para outros além
   nascerá pela suas
      carências & defeitos
Uns haverão
   sido salvos
      outros salvarão a si mesmos