7 de jul de 2015

Educação pela Filosofia na Filosofia da Educação

Ao longo da História humana o pensamento voltado para si construiu aquilo que conhecemos como Filosofia. Assim como asseveraram os antigos pensadores sobre os deuses, que primeiro veio Caos, e só depois Amor, do mesmo modo então, no rol dos saberes humanos, que deviam ser nossos únicos deuses, primeiro veio a Filosofia, e logo depois, a Educação.

   Assim, depois de engendrada e posta para funcionar, a máquina filosófica lançou-se destemidamente a usar da interdisciplinaridade para alcanças seus objetivos educacionais dentro da sociedade, o deus louco do caos se metamorfoseou para se tornar o deus louco do amor, de tal forma que em uma síntese sedutora, caos e amor deram a luz à Sophia, a deusa da Sabedoria, nem tão louca, nem tão racional, como a quer os mais cautelosos.

   Em sua gênese ponderada, a educação tem o sentido de “por para fora”, seja um parto, uma fuga da caverna ou um expurgo catártico. Educação sempre foi um processo traumático em sua essência, isso porque, desde cedo também foi percebido, que no mundo, circulava uma nota desarmônica, de irracionalidade, possuindo todas as coisas em seu estado natural, inclusive o ser humano e suas potências mentais.

   Da relação próxima entre Filosofia e Educação, a primeira, não como mãe, mas como madrasta, não permite que a segunda, sua pupila, se torne dogmática, ou muito menos, se cubra da função de adestradora dos seres humanos, afinal, mesmo esse sendo um animal, ele é racional.

   Nos dias de hoje então, depois da longa história do desenvolvimento das filosofias, e se pretendendo lançar um olhar de reflexão sobre a própria educação humana e social com bases no que mais de sublime o pensamento pode pensar e a educação pode educar, sob o professor, o mestre, o pedagogo, a Filosofia vem então qualificar esse que é o supra-sumo de todo e qualquer sistema educacional, para que ele não se estagne dedicando-se apenas à transmissão técnico-científica para qual se preparou.

   Viu-se, dentro de uma sociedade que seja ainda que só um pouco consciente de seus perigos, a necessidade de se formar mais do que técnicos em educação, especialistas em disciplinas isoladas, mas que esse indivíduo tenha ao menos uma chance de ser original, na medida de sua potencialidade, até genial. Isto é reconhecer, mesmo que talvez inconscientemente, a grande potência que é o ser humano.

   Com a Filosofia da Educação se abre espaço então para que um professor de química, de física, de gramática, etc., tenha também respaldo para influenciar o aluno em política e na reflexão sobre o que seja a existência.

   Agregando a Filosofia ao currículo do pedagogo (que é um termo filosófico para professor), convida-se esse à uma purificação, não, antes, à uma iniciação para a autoreflexão, o que lhe permitirá então estar livre para conduzir também o aluno à esse nível de existência mental.

   Se exige para isso, não a Filosofia, mas a Filosofia da Educação, tirando da própria Filosofia, mais um dos tantos pesos que ela carrega, desde que assumiu naturalmente a responsabilidade de esclarecer o ser humano sobre sua condição no mundo.

   Tal gabarito educacional possibilita então uma relação humana possível entre aquele que está aberto a ensinar com aquele que está aberto, ou deve ser aberto, à aprender. Desta forma se introduz na educação um jogo superior, um jogo satisfatório tanto para o professor quanto para o aluno, denota um respeito para com o processo de ensino.

  
   Esse jogo está presente desde o surgimento da Filosofia como método de ensino, com Sócrates e latão, onde a finalidade do filosofar era a condução, via Maiêutica, de o “professor” fazer com que o “aluno” fizesse vir à luz aquilo que ele já sabia.

   É claro que há nesse processo um pouco de cinismo do que vem a ser o “ensinar” de Sócrates, a saber, que o professor já sabe o que é a verdade, o conhecimento correto das coisas, e que astutamente conduz todo o processo maiêutico para um fim premeditado. Munido somente de ignorância, Sócrates desmantelava ironicamente seu “aluno”, assim como uma parteira sabe exatamente o que retirará do útero no final de sua atuação, não sem dor, sangue e emoções contraditórias...

   Assim, a Filosofia da Educação ratifica essa visão de ensino. Para isso é preciso então que o professor seja instruído na “arte subversiva” de conduzir, ele deve se munir conscientemente de todo o estofo produzido pelo pensamento humano até os dias de hoje, pelo menos de seus pontos chaves, seus gatilhos. Bebendo na própria fonte, essa água saciará não só sua sede de saber mais original, mas também o respaldará quando diante da classe de aula, possa, não afogar os alunos, mas ensinar o caminho dessa fonte.

   Seria assim interessante o candidato à pedagogo despir-se de todo idealismo banal, resguardar para si a realidade sagaz sobre a Filosofia (que ele, o professor, já sabe das coisas, mas... será que sabe mesmo? Aqui se revela a condição de ignorante emanada por Sócrates!), para assim poder sinceramente propor ao aluno adentrar no Jogo de Aprendizagem, abrindo assim a passagem que possibilita retirar do aluno aquilo o que realmente quer ensinar para sua vida, que vai valer a pena aprender: viver autenticamente! (Relembro nesse momento a anedota do barqueiro e do sábio, o qual achando saber sobre tudo que se podia saber morreria afogado então por não ter saber nadar).

   Esse jogo só, por si, garantirá que o aluno se interesse pelos estudos, pois que ali não tenha nada de interessante naquele momento diante as perspectivas de vida do aluno, terá pelo menos sinceridade, paixão, leveza... notas, nuanças de coisas apaixonantes.

  

   Assim como a Filosofia, também a Filosofia da Educação tem interesse primordial no ser humano, mais precisamente, deve conceituar o que é “ser” humano, para assim poder se aproximar disto que tem noção saber o que é e poder enfim exercer sua finalidade, que é educá-lo. O pedagogo, como o filósofo, deve-se tornar amigo do ensino, mas nesse caso, essa amizade deve ser guiada ao objeto de ensino, não a disciplina, mas o estudante, o aluno, distinguindo-se assim o pedagogo do filósofo, impetrando-o da marca sublime de enfim esse ser um filósofo prático.

   Voltado para a prática do ensino dos conhecimentos, ele se pergunta, ou perguntaram por ele e até para ele, para fim de conscientização: O que é o ser humano?

   E muitas respostas surgiram. Muitos conceitos, dependendo de cada “via de abordagem” ao fenômeno humano: as filosóficas disseram coisas como é “um animal racional”, “ um animal político”, um “agente da história”, um “ser para a morte”, etc.; a religiosa definiu que é “uma criatura feita pelos deuses”, um ser para “servir a Deus”, etc.; e antropólogos o caracterizaram como “homo-sapiens”, etc.

   Mas a Filosofia impõe a premissa de dizer o que são as coisas, pois ela pensa sobre o pensamento. Assim, já em sua fundação ela debate duas visões a respeito do que é o homem.

   Platão define o homem mediante sua alma imortal, portadora das lembranças da verdade das Ideias, sua natureza ou finalidade é ser feliz ao recordar sobre a verdade da realidade em que vive, e assim, munido de amor à sabedoria, poder se livrar de destinos infelizes a partir de escolhas no outro mundo.

   Aristóteles por sua vez não define o homem, pois o homem é como todas as coisas da natureza, um eterno devir, só podendo ser definido finitamente pela sociedade, sua finalidade de vida também é ser feliz, mas agindo eticamente, livre para tomar suas escolhas na vida, dentro das limitações do mundo material.

   E destas duas visões se desenrolou mais de 2.600 anos de definições do que é o ser humano. Em ambos os casos, porém, se precisou a finalidade da vida humana aqui como a busca pela felicidade. Ser humano é ser livre para ser feliz!

  
   A Educação, e a Filosofia da Educação, parecem ser um esforço para por fim à esse falatório, e rumar para uma definição útil que possa principalmente ajudar na finalidade que a educação tem para a vida, justamente observando aquele princípio prático e recorrente na definição de homem, que é fazê-lo saber-se livre e propenso à felicidade.

   Por isso o pedagogo não pode querer que o aluno seja objeto, mas sim sujeito da ação. Sua posição diante o aluno deve fazer reverberar o sentido do próprio verbo Ensinar, que mesmo antes de significar “transmitir conhecimento, no latim revela sua essência fundante, que é insignare, algo como “deixar sua marca”, conceito tal que transmite a noção de um espaço de complementaridade, na mais profunda acepção jungiana de totalização, ou seja, ensinar está no âmbito do possibilitar que o ensinando seja tudo que ele é. Cabe ao professor o seduzir para que ele venha a ser, é preciso por pra fora, pois naturalmente, tudo tende à inércia ou à entropia.

   Platão reconhecia a existência de uma marca de irracionalidade na alma do mundo, e Aristóteles parecia propor que tal irracionalidade podia ser sanada através da educação, levando o ser humano a entender, se conscientizar que é livre e responsável por suas ações e suas escolhas éticas.

   É nesse jogo principalmente que a Filosofia da Educação introduz primeiro o educador, para depois esse introduzir o educando, e com isso evitar paralelamente a estagnação e a desordem de ambos e da sociedade.

   Assim, como sugestão e guia entre todos os pensamentos sistemáticos humanos, proponho o uso da Ética como lume da própria Filosofia da Educação, em um primeiro momento introdutório. Nada marca mais apaixonadamente a alma humana, principalmente nas idades mais tenras, do que as noções propostas pelas Virtudes. O pensar sobre a ética seria a iniciação e o cume de qualquer educação, pois é a partir das virtudes que se pode finalmente propor e fazer uma crítica sobre nossa realidade.

   Nas virtudes giram ideias e ideais arquetípicas da alma humana, como o heroísmo, a coragem, o sacrifício consciente, o amor ao belo, a justiça natural da alma, etc. A Ética nos aproxima assim de uma pulsão pragmática qualificada para a Educação, nesse ponto já encontramos o retorno meditado do que é se saber humano, homem e mulher.

   Cabe então ao pedagogo, munido de profunda ética, não só apresentar aos alunos as ciências práticas, mas também se exige que ele conduza o aluno a uma reflexão transcendente dessas disciplinas, e mais, o posicionamento deste “ser humano aluno” diante da vida cotidiana, social, ou seja, não formar um aluno, mas formar um ser humano, como o professor é, em sua mais profunda essência liberta.

   O fato de se requerer uma disciplina como a Filosofia da Educação parece apontar para o fato de quem em algum momento o sistema educacional se viu perdendo a luta contra a irracionalidade natural do ser humano. Será?

   Ou será que em um excesso de zelo, ou vontade de dormir, não definimos demais as coisas, será que não definimos demais o ser humano, e assim, psicologicamente, fizemos o trabalho de tirar do ser humano sua principal característica inata, a liberdade de escolha, a liberdade para agir eticamente. Ora, muitas das vezes definir o ser humano remetendo-o somente ao seu ambiente de trabalho, à fábrica, ou à sua ideologia não faria trabalho mais informativo ou libertador do que lhe mostrar as correntes com a qual ele mesmo deveria se aprisionar no fundo da caverna. Isso vale tanto para o aluno como para o próprio professor!

   A Filosofia da Educação nos leva a refletir então dentro de nosso próprio tempo, infiltra-se subversivamente com o nome de filosofia para nos contaminar com o que de mais perigoso tem o próprio pensar, que é estar sempre em movimento.

   Adentramos em nossos tempos, olhamos em volta, gira em torno termos e conceitos caros a todos nós, mas que talvez estejam ainda impensados corajosamente, conceitos tais como Democracia, Justiça, Civilização, Cultura, Ensino, Arte, Sabedoria, etc.

   Pensamos aqui talvez como gregos, talvez como cristãos, mas o próprio tempo já exige que pensemos mais amplamente, interdisciplinarmente, complexamente, como o mundo agora possibilita que pensemos em tudo, em rede.

   Eis a grande fronteira paradigmática apresentada ao pedagogo, ao filósofo da educação, o qual talvez só queira garantir o pão de cada dia, ou mesmo que tenha o dom de ensinar... Essa pessoa terá que inevitavelmente operar dentro de um sentido de restauração da instituição de ensinar. (Quem já esteve dentro de uma sala de aulas do ensino público vai entender ao que estou me referindo!).

    O grande primeiro e sempre presente trabalho atual, pessoal e interior, do pedagogo é meditar sobre a ética e a moral, para, livre dessa armadilha cultural, poder levar sua presença à sala de aula. Só depois de se “purificar” (termo tão caro a Platão e Aristóteles), poderá enfim indicar o caminho de purificação ao aluno, marcando-o assim com seu signo pessoal de professor, pois professar é reconhecer-se publicamente.

   Tal Gigantomakia, outro termo que os filósofos estão acostumados a terem em mente quando pensam, essa “luta de gigantes” que é a do ser humano disciplinador diante uma sociedade falida em princípios éticos, cheia de moralismo, com a visão voltada ao material, e pior, para o lado mais miserável do materialismo, o consumismo, com a ditadura da aparência, se põem em público o pedagogo, munido só com saber, só com Filosofia, amor ao saber.

   Com o apoio da Filosofia da Educação o pedagogo vai pisando em ovos – política, economia, religião, apatia juvenil, propagandas enganosas, indústria da diversão – (ovos bem indigestos e espinhosos, diga-se de passagem!), o professor se apresenta diante a sala de aula, e do grande palco da vida, que é a sociedade.

   Ele terá de dar mais do que foi exigido “oficialmente” dele, pois ele também veio desse sistema de ensino, a qualquer momento terá o conforto de poder ouvir dizer dele que “veja só, não consegue ensinar nada, mas também pudera... é só um fruto dessa árvore...”, mas pode se negar a repousar na comodidade, e abraçar a Filosofia como parâmetro de ensino.

   Ao abraçar a “causa da educação” ele terá que, por vontade própria, eticamente, buscar se munir com algo mais, uma coisa que é um grande vazio, que é justamente a própria Filosofia, e só ela tem a capacidade, a substância, para ajudá-lo a transcender as muitas pedras no caminho, (e como há pedras hoje em dia!), e não ser ele mesmo mais uma pedra dentro da caverna, ou mais um tijolo no muro...

   Isso remete finalmente à essência da própria transcendência espiritual séria, onde se exige que cada um salve a si mesmo, o professor tem que ser o “salvador salvo”, nada mais poderá o ajudar dentro da sala de aula, a não ser sua formação a mais perfeita possível, como admitia Aristóteles, “querer sempre o melhor para si, e fazer o máximo possível e impossível para merecer o melhor para si”.

   Sócrates, ensinando a Platão, que depois ensinou Aristóteles, sabiam que o ser humano devia desejar ir o mais alto lugar no céu, mas que devia se fazer merecedor disso aqui, no mundo.

   É nesse sentido que já dizia Sócrates à Platão: “aquele a quem a palavra não educar, o porrete, a violência, também não educará!”. E Aristóteles, educado na palavra, como que complementou: “o aluno que não supera o mestre, demonstra a falha do próprio mestre em ensiná-lo”.

   Nessa exposição de mestre e aluno, não podemos deixar de falar então do aluno mais famosos de Aristóteles: Alexandre.
   É que o aluno de Aristóteles veio como se para fazê-lo pagar pelo que disse, e se mostrou o contrário de tudo que o seu professor o ensinou.

   Por tudo que fez Alexandre foi nomeado “O Grande”, mesmo depois de todas as insanidades que cometeu, talvez seu grande professor tivesse sido realmente o pai, Felipe, a quem com certeza superou em irracionalidade, mas a História foi justa, a seu modo, se não olharmos os homens como as aparências exigem, mas como a luz da verdade os ilumina.

   Aristóteles, com a palavra, com o pensamento, ganhou mais mentes em muito mais reinos que Alexandre poderia imaginar ou saber que existissem, conquistou como professor e não como o deslumbrado inconsciente aprendiz. Que isso fique como exemplo e parâmetro a todos os professores, quando na lida diária, se verem diante de um mundo de sombras que já possuiu parte da alma e da atenção de seus alunos, mas sabendo que ainda ele tem a chance e o poder de os seduzir com o uso da Filosofia.

   Assim, astutamente, desbanalizamos o banal!


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