17 de out de 2016

Um des-sonho: Amortandante

                                                                       Nosso ethos
                                                                                        de Thanatos & Eros
                                                                                  É o tributo à finitude:
Única eternidade que possuímos!



Dou passos sobre cadáveres
Enquanto andante sou águia
   & com minha visão de abutre
      enamoro-me de uma mariposa amarela...
No tempo que a frequento
    um cão negro enxerga minha disposição
      & se aproxima de mim
Fujo dele, como crianças de estrondos...

(eu lhe falei que a mariposa estava morta?)

Sigo a estrada, estada seta
   até um robusto arbusto com folhas glosas
É irresistível a vontade de mordê-las
Línguas vegetais de intuídas lambidas
Mas todo abaixo daquele arbusto é casa de detritos
Testamentos das pessoas
Eu sigo... eu sigo...

Olho para o gramado deserto
Extenso campo de ninguém
Cercado, duramente não visitado
   pelos olhos de um qualquer
      & pelos pés de alguém
Cruzando-os, faraós mendigos passam além...

Foram até aqui três passos para além da cova
Foi uma eternidade
Um cão, um colo, uma vespa, uma árvore...
Uma saudade do Nada que vibra no meio de meus átomos, à toa...
Morada do Não-Ser que poetiza nadessências pela manhã
Agora, que tudo está ganho... & perdido!





[Esse é um ‘des-sonho’, pois o tive acordado, Sábado quando fui na UAI. Será que estava acordado mesmo? / Nós sempre estamos pisando em coisas mortas, onde quer que vamos, a cada passo arrastamos cadáveres de insetos, restos de animais, sem contar dos micróbios que ali reciclam esse material orgânico / Então, da altura de nossos olhos, somos como águias cegas a voar lá no alto, enquanto um campo santo se estende sob nossos pés / Nesse dia eu via pelo caminho o cadáver da mariposa amarela, brinquei com ela com o pé, para ver se voava, mas ela estava vazia já, apenas aquela flor-não-rosa jogada no caminho, morta / Me parece que a disposição de brincar com aquele inseto abriu minha aura, e o cão se aproximou muito contente, como se dissesse, ‘ora, brinca comigo também que estou vivo!’ / Não sei como ou porque, mas de alguma forma aquilo me assustou, meu corpo reagiu institivamente, tal como se estivesse nu em público, e sai cheio de pudores de perto do cão / Agora entendo: eu estava em um espaço e tempo alterado, devia parecer uma candeia energética impar / Alguns passos à frente havia esse arbusto, muito verde, com as folhas em forma de línguas, sua cor me pareceu crocante, vegetalmente sinestesicamente falando / Quis mesmo morder uma folha, mas olho para o pé do arbusto, lá em seu recôndito, e havia muito lixo jogado, coisas da humanidade, e perdi a graça de cometer o crime de insanidade de abocanhar um arbusto em publico / Do lado desse caminho, ficava cercado o jardim da frente do local onde eu ia e ainda não havia aberto, sentei no carro e fiquei a olhar a grama, parecia tudo limpo e organizado, mas era estranho, pensei que ninguém dava valor para aquilo, passavam à esmo não contemplando a beleza simples ali, e mais ilógico ainda, era cercado mesmo, para ninguém pisar, para crianças não brincarem, só para se olhar no máximo, então para que exigir olhares mesmo? / Então uma vespa insistiu em me visitar, ali no dedo que eu digitava no celular minhas impressões, ela foi e voltou umas três vezes, e já estava querendo dar um nome para ela, mas ao fazer movimento para fotografá-la ela sumiu, foi-se... fazer parte do chão em alguma hora desse dia / Esse tolo Sartori então se ampliou, na minha consciência perscrutando o sentido de tudo isso, três minutos de variações... Entrei rápido em mim, do pó dos cadáveres incontáveis no chão ao pó de meus átomos, e de lá senti a saudade que emana em retrospecto, convidando-nos a voltar para sua perfeição nadificadora / Tudo está ganho: a vida, a existência, e tudo isso está perdido também, quando formos para o cremador da cova que nos espera / Lembrei da aula sobre Deleuze e Espinosa de Sexta pela manhã, “A ética é um tributo à finitude”, assim faço da minha ética um louco poematizar...]


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