31 de dez. de 2025

Diante Ano [00h00]

 

Meia-noite
   esse tempo eterno
      que habito aqui & lá...

É quase sempre tudo
   & sempre quase nada
Fração de tempo
   grão de espaço
Onde um ano que passou
   se confunde por um instante
      com um ano todo que virá

& agora que certamente
   o que fora devir
      é maior que o porvir
Acumulando nas costas
   um instante nulo de cada vez
      que se torna constância & vida

Noite meia
   dia inteiro
Instante imediato
   intermediada instância
Frente ao fim
   & ano à frente
Nos próximos
   meio-dias...

Onde no relógio
   marca o mesmo:
Meia-noite aqui
   meio-dia em outro lugar
Fim de um ano nesse instante
   ano novo um instante depois
& nós diante os ponteiros
   por um momento olhamos os dois!

& assim não estamos aqui nem lá
   pois tudo é & não é
      o mesmo tempo & lugar...



30 de dez. de 2025

Alheiamentos de Dezembro

 

Então o tempo parece desacelerar
& as portas do esforço fechar

Parece combinado com todo mundo
Já deu o que tinha que dar

& agora é só esperar
Depois das festas passarem o ano acabar

Dezembro de cançasso & da falsa alegria sentimental
Dezembro da recompensa por viver no deserto da realidade
Dezembro por nascer & morrer no mundo
Dezembro pelo sino pequenino que surrupiou o sol invicto

Na infância o feitiço funcionava bem
Mas espere só pelo ano que vem

& mais um tempo de contos de fadas
Até a idade mostrar suas garras

Agora conservar o espírito puro
É proteger os inocentes do expurgo

Dezembro das noites felizes até o primeiro velório
Dezembro da saudade do que nem se sabe
Dezembro do modo/medo de vida ocidental
Dezembro que nos tornou felizes & tristes ao longo dos anos

Comemos & bebemos, consumimos uma festa
Nas cores & estação de outro hemisfério

Cantamos canções na véspera
De uma lenda que virou império

Mitigamos em nosso calor
A proximidade que no norte se tem no frio

& nos presépios representamos um amor
Tolo & pobre de um deus esvaziado

Esperando só um ano acabar
& outro começar

Para a procissão de dias preencher com rapidez
Até de novo desacelerar



29 de dez. de 2025

Outros & Eu

 

Não sei
   se a tristeza me acompanha por isso

Não sei
   se o amor que tenho está contido

Pela falta
   de que tenho para eu dar

Pela abundância
    de quem se presentifica para eu negar

Mudanças
   sempre foi a tônica da vida

Carência
   sempre é a o fato das coisas

& eu aqui
   ponderando entre a aprendizagem & a inércia

Se o resultado da nossas escolhas
   nunca aparentemente é a totalidade

Se o total do que sentimos
   aparentemente é a confusão

É porque nos misturamos tanto
   ao que não somos

& não  sabemos que o que não somos
    é apenas uma parte de nós que não vivemos no foco

O outro, por mais diferente
   é um diferente ângulo do possível

& se somos parte
    parte de tudo é a soma de todos nós




28 de dez. de 2025

Vago Lume

 

O raro perilampo
   riscou seu fio de luz
      na minha frente
Era noite
   & as estrelas brilhavam menos
      que um vago lume além da solidão
Era noite
   sobre os terrenos baldios
      vizinhos de grandes construções
Na avenida construída
   onde era o fundo de um rio
      eu subia à pé contra a correnteza
& o raro perilampo
   riscou seu fio de luz pequeno & solitário
     como a consciência
         sob as estrelas ~*



27 de dez. de 2025

A Terceira Vinda

 

"Jesus disse:
Se a carne foi feita por
causa do espírito, é isto
maravilhoso. Mas, se o
espírito foi feito por causa
do corpo, é isto a maravilha 
das maravilhas. Eu, porém,
estou maravilhado diante do
seguinte:
Como é que tamanha riqueza
foi habitar em tanta pobreza?"
-Evangelho de Tomé, logion 29


Cada um
   vive dentro de si
      ao longo da vida
A experiência
   de salvar
      a si mesmo
Então
   quando o deus dos mitos alheios
      retornar
Virá para todos
   no fim dessa linha
      de individualização
Não será
   uma ressurreição
      mas um nascimento
Para uns
   o salvador ressurgirá
      pela sua fé
Para outros
   retornará pelo
      seu desprezo & loucura
Para outros além
   nascerá pela suas
      carências & defeitos
Uns haverão
   sido salvos
      outros salvarão a si mesmos



26 de dez. de 2025

Vox

 

Parece que essa voz que fala comigo
   não fala com você,
Pelo menos não
   as mesmas coisas que me fala.
Parece...

& nem que eu ouvisse em grego
   nem que eu entendesse sânscrito,
Ainda que eu falasse a língua dos anjos
   & conversasse com as feras,
Eu saberia porque eu ouço
   & você não!

Assim em meus delírios do tímpano
   eu não só escuto, converso
& converto o estrondo de insanidade exterior
   no tom de serenidade interior



25 de dez. de 2025

Chamada Relativistica (3 Sonhos)

 

Nos sonhos
Ganhei o bastante para fazer
   uma chamada relativistica de lá para cá
Uma ligação telefônica de algures
   do além-vida para a vida-amén
Uma conexão entre mundos
   mas não me lembro para quem
      ou para falar o quê...

Nos sonhos, antes
Conheci uma garota que se chamava Agora
   & prometi a encontrar depois
Talvez fizesse uma ligação para ela
Uma chamada relativistica
   para Agora, ontem ou amanhã
      antes ou depois
Quem sabe... como é
   quando encontrar o amor
      no meio do conflito & do caos?!

Nos sonhos, depois
Passeei pelo shopping na pós-tempestade
   & pessoas assistam um show
      dentro da água da enchente barrenta
& eu passeava por ali
   entre a luxúria & a insalubre insanidade
Então acordei
   & você me mandou uma mensagem
      me chamando para ir ao shopping
Agora passeio ao seu lado
   & se você é meu agora
      só o amanhã dirá!



24 de dez. de 2025

NøZ

 

Nós, esses 99,666999%
   desses que não terão ninguém
   para contar nossa história:
Nem livro de biografia
Nem filme no cinema
Nem manchete de jornal
Nem seriado na TV
Nem matéria em revista
Nem uma reportagem local
Nós que desapareceremos
   na bruma dentro
      da ranhura do tempo...

Meus quinze minutos de fama
   Foram nas palavras de quem conheci
   Através de uma rede social
   Nunca a vi, nem sei se realmente existia...
Meus quinze minutos de fama
   Foi a ideia fixa na mente de uma bipolar
   Que depois me esqueceu
   Pois não se falar é o mesmo que não se lembrar...
Meus quinze minutos de fama
   Ficaram lá atrás
   No tempo em que fama era aparecer em um tubo
    Que lançava nosso espectro momentâneo no ar...
Meus quinze minutos de fama
   Foram cinco likes e duas compartilhadas
   De uma carta niilista em forma de poema
   Sem rima & riso que postei para quem não leu...

Nós
esses 99,999666%
   desses que não terão ninguém
   para se lembrar...
Nem vídeo no youtubo
Nem blog no googul
Nem perfil em sócio-rede
Nem nada digital
À não ser as finas ranhuras
   nas pontas dos dedos
      que ninguém mais tem igual...




23 de dez. de 2025

Intempérie

 

Como se esgotasse o tempo
De tanto falar nele... destemperando-o

Eu só quero agora
Falar do espaço... reespecificando-o

Pois o tempo denota urgência
Quando não emana eternidade

& o espaço apela presença
Além de nos dar o lugar de descanso

A barra temporal
É a crista do espaço

Nos cristais do tempo
& no barro do espaço



22 de dez. de 2025

Cristal do Tempo/Barro do Espaço

 

Os pés poeirentos incrustados de lembranças triste do caminho, cristal & barro amassado, pisoteado pelos pés...
   Eu pactuo com o trabalho da vida & também imagino coisas tristes que não aconteceram;
   O trabalho de todo homem é desafiar a consciência a suportar o imaginável
   & assim talhar a pedra da memória para o pior, vivendo o melhor possível;
   Dessa forma debulho de talhe em talhe a compacta rocha da consciência cravando nela as marcas da resistência,
   Cada corte na pedra refinando cristais do tempo,
   Que espatifadas no chão pulverizam a carne moldando detalhes refinados & entalhes grotesco da passagem do tempo,
   Que se resume em imagens, símbolos, riscos de uma vida vivida & outra paralela, simulada;
   Mas ambas reais, na medida que experenciada;
   Na pedra imaterial que esculpimos está a forma de nos distanciarmos do tempo nos aproximando do espaço,
   Como a lava que emerge, se concretizando em terra, ouro, mármore, cristais, barro... assim é a consciência que sonha, desperta & adormece
   Em uma vida sonhada entremeada à uma vida vivida.



21 de dez. de 2025

NostroTempus

 

Toda nossa experiência
Essa autorreflexão de existir
Que se passa... passa... dentro do tempo
Cada minuto milhões de repetições
Cada instante uma breve novidade
Cada momento uma raridade

Entretanto... de tanto novidar
Envelhecemos... enviesados em desgastar
É o relógio da carne com data de validade
Movido à química eletricidade
A máquina-macia de perdurar
Habitada pelo fantasma desassombrado
Que permite ficar nessa clareira desabrigada
Vendo tudo passar sem parar
Entre a experiência de quase vida
& a essência da quase morte

Aquilo que nos devora & recompõe
É nossa própria aleatoriedade em ser
Nossa graça, nossa sina, nossa sorte
De ser vida & depois morte
Em ter sido antes nada
& agora sermos tudo que podemos
Na flexão de possibilidade
& a vontade de poder



20 de dez. de 2025

Passageiro

 

O tempo passa muito rápido
& nós dentro dele
Passageiro...

Eu vejo ele por ali
Descascando cabelos preto
Até não ter mais o que debulhar

Eu vejo ele acolá
Com seu peso de pluma
Contorcendo ossos até claudicarmos

Eu vejo ele transpassar
A pele enrugando
Até as memórias da forma falhar

Eu vejo ele... aliado/adversário
Me feli/faci-fali/citar
Mais um aniversário

O tempo passa muito rápido
& nós dentro dele
Passageiro até o ponto de apear



19 de dez. de 2025

Penas & Pés

 

O tempo sussurra
Para nós dentro dele
Fala fraco para que saibamos
Que não temos a eternidade

...& veio o tempo
   & me falou com voz de anjo
Com sussurros que lembravam penas
   Saindo de sua boca
A mandíbula triturando plumas
   & os ecos fracos de palavras aladas
Que caíram por terra & se tornaram prantos
   Antes de nascerem raízes
Ao tocar o chão...

Mas dessas penas decepadas
   Fez-se manto, tapete para os pés fincarem
Pois só sabe quem viveu
   Mais do que existiu ou passou
Que sobre essas asas cortadas
   Aos longo da vida
Demos passos ao encontro do que somos

Deixa, deixa apenas o tempo voar
Nós somos seres da terra, é dela a carne
O devir, a soma & amor, o parecer
Daquilo tudo que podemos ser

Se rastejamos
É porque diante do tempo
É melhor ter os pés no chão



16 de dez. de 2025

Ultra Kontrole Mental

 

Humana é a arte do esquecer...

Vem a chuva forte & reconfigura tudo
A realidade de ontem apagada & tudo esquecido
Porque ontem saímos pras ruas & destruímos tudo
Mas hoje não lembramos de nada

Casas em chamas & o sangue nas mãos
Violência solta & acertos de contas
Injustiça perpetrada & a liberdade da barbárie
Mas de repente, depois da chuva, tudo volta à uma normalidade

Esquecemos da euforia do conflito
Esquecemos da bruta animalidade
Voltamos a ser os vermes covardes na pele de cordeiros
Voltamos a ser o rebanho do abate

Os campos de extermínio das igrejas locais, reformados
A escola da promiscuidade digital, reformada
A indústria da fome & doença precária,  reformada
A guerra entre o ruim & o mau, reformada

Esquecemos totalmente, como se fosse irreal
& o mundo desperta de novo como se o antes de ontem fosse hoje
Deslembramos do monstro que realmente somos
O dia da fúria entre dois dias banais

Eu temo a tempestade, porque ela é das águas do rio do esquecimento
Sei que quando ela vem tudo será reiniciado
Para o acúmulo de pressão para um novo ciclo de conflitos
& eu não lembrarei dos crimes que havia cometido

Humana é a falha do esquecer...



9 de dez. de 2025

Chuva/Feed

 

Toda essa água caindo
Todo esse calor subindo
A mente em entropia
Resfriada pelo frio do feed

O vento fresco veio trazendo a chuva fina
& a chuva fina trouxe o frio doce
Mas não varreu a certeza do calor das ruas

Dentro do meu jarro de osso craniano
Calculo o atraso para chegar em casa
Repasso os passos pelo desabrigo da tarde
   que se vai em noite

Dentro dos tambores rolantes
Os deslumbrados que rolam o feed
   estão todos tele-encantados
Com um futuro que ninguém vai ter

Olhando a tela
São iguais a quem olha o clima
   uns pra baixo, os outros pra cima
Só não percebem
   que cada estação tem seu espaço
      & que a tela come seu tempo

& para nós que não nos perdemos em pensamento
& nem nos entretemos em passatempo
Fica a liberdade de escolher
   entre a raiva & a resignação

É claro que há uma terceira opção
Mas a serenidade é como o passar do feed
   ou o passar da chuva
Ela comporta um espectro de liberdade que só quem zela
   do que entra pelas olhos, pelos poros,
      sabe entender



8 de dez. de 2025

[0verdrive]

 

Eu tento uma fuga sensitiva
   em virtual iniciativa
Tenho que conceber ideias ativas
  que levem o pensamento
      à outras intromissões
Eu não sei quando chegar lá...
   [...dimensão 0]
Para além do mal estar
   um passo depois
      do ruído branco nos ouvidos
         embasso da vista
& o embrulho leve no estômago
   com gosto de algo que nunca saboreei
Eu sei quando chego lá...
   [...em/brião 0]
Mente confusa no meio do dia
    calor & entropia
Depois de sonhar com pessoas & lugares
   que nunca vi vivi ouvi ou vi por inteiro
Depois de me negar a pensar
   sopesar ou lembrar de personas ou algures
      que não quero mais ter pesar
Eu quase nunca chego lá...
   [...a/borto 0]
Assim nessa distorção do sentir
   no tesão do caos a agredir
No turbilhão leve desse desprazer
   eu tramo vinganças contra mim
Pois a vingança só ao deus pertence
   & nunca sei que deus me encarna
Nunca sei que pensamento me gaba
   nas fugas no meio da tarde...
   [Eu//nu//un //cá//x//ego//à...]



5 de dez. de 2025

Moto Incotinuum

 

A velha engrenagem quebrada
   que ainda gira
      engrenada
Besuntada de óleo macerado
   do que sobra
       quando a lágrima evapora      
       quando a carne seca do sangue
       & da língua evaporou a saliva
A velha engrenagem carcomida
   que ainda roda
      desgrenhada
Arrasta a corrente folgada
   o pivô & o pinhão
       que gira ao infinito
       as forças que não reconhecemos
       & que comandam o movimento


 

3 de dez. de 2025

Plus [+]

 

Sê mente desperta...
sementes adormecidas
   já não somos mais
pela terra em descanso
   não deitamos mais

somos já ultra/passados
   já existimos o que tínhamos que existir
agora não mais
   já rumamos, arrumamos
      transitamos pela vida

manhãs de domingo
   não irradiam mais
férias de verão
   não virão mais
festas de natal
   não encantam mais

Passamos, usufruímos, desgastamos
   toda imanência de vontade & inocência
Nada mais faz o sentido de afetos
   que tínhamos
Nem as mentiras felizes que zelavamos
   resistiram
Nesse mais de tudo
   nos tornamos menos



2 de dez. de 2025

Vɛřvŭŕå

 

Falo uma língua nova
Às vezes nela grito, escrevo, esqueço

Ela flui da interioridade, de uma anterior idade
Ou de uma posteridade procastinada

Eu falo em uma língua nova
Língua quase extinta de um homem só

O sânscrito dos sãos, o inglês dos anjos
Grego das egrégoras, português dos urgentes

Metalinguagem original
De meus sentimentos

Falo uma língua nova
Que reverbera o que vim para falar

Fala que não tem ouvidos para a escutar
Palavras que ainda irão ser encontradas

É a prosa da rosa, a poesia da ousia
Verve da fervura, canto dos encantos



1 de dez. de 2025

Placebo

 

Na manhã incendiada
   enquanto me curo dessa minha febre
      pelas próprias forças de meu corpo,
Pago o preço desse remédio barato
   que é abrir os olhos,
      mexer os músculos,
         negar a dor
            & seguir...

Ali fora
   novembro vai se despedindo
      em cada manhã queimando
Como se padecesse de incêndio
   tudo que ficou para trás
      enquanto os dias vão esquentando
         mais & mais...

Assim dezembro decide amanhecer
   & o ano entra no mês crepuscular
      ambos verão verões passar
& que os céus leve a febre
   em seu rubro clarear
      como o banho frio
         ameniza a cólera
            & desperta o corpo para o dia ultrapassar!



23 de nov. de 2025

Reverso

 

No meio do oceano
No barco de pedra
Com vento nas velas
Ele encontrou a ilha
& lá estava a máquina do tempo
Temporal, templária, templástica
No medo do oceano
As ondas reversas
No barco das perdas
O bardo inverso
A ilha desencontrada
De lugar & momento
Ele encontrou & desperdeu
Oceano dos anos
Barco dos arcos
Ilha da trilha
Que se entra & sai desencontrado
Na máquinal temposteridade
Alcançando passados & futuros
Inversos translados à bordo
Naufragados na areia
Da ampulheta reversada



19 de nov. de 2025

Simulacre

 

Talvez eu não esteja aqui
Talvez eu seja aquele
   que vive nos meus sonhos
Talvez alguns de mim
   sejam só simulação
& qual de nós vai saber
    qual de nós vai saborear?

Na distância
   nuvens que nunca tiveram outra igual
Mais longe ainda
   estrelas que sempre estiveram lá
Mesmo que não estejam mais...

Esse é o céu que nos (des)protege
Projeta no aberto & no vazio
   ao que nos abrimos
   & nos esvaziamos
Para lançar a semente
   da dúvida certa
Que talvez, tanto faz,
   estejamos ou não aqui!

Mas esse é o nosso grande momento
Essa grande farsa que temos que colaborar
   sendo sinceros na nossa mentira
& para além das nuvens
   além das estrelas
Nesse vazio cheio de nada
   que preenchemos de nós mesmos
A felicidade pode fluir
   da ferida aberta de existir...



16 de nov. de 2025

05h38

 

A luz da manhã
   gratuitamente me impõe
      um breve momento
         de sincera felicidade por dia
Eu quase desejo
   que o tempo pare
      para que eu habite
         naquele instante no espaço

& passo por ali
   no puro momento passageiro
      no meio da estrada
         à beira do caminho
Onde a felicidade é maior que a indiferença
   & muito maior que a tristeza
      a paisagem é estranhamente de vida
         & útero de esperança no tempo

Eu descobri porquê...
Nesse lugar, onde hoje a luz é mais bela
O ar é mais fresco
   & a vista límpida
Logo, mais adiante,
   quando não for mais verão ao sul
Ali é justamente o lugar mais frio
Com ar mais cortante
   & a paisagem mais escura



14 de nov. de 2025

Alinhamentos

 

Alinhamentos do nada & tudo a ver
A sua fome, minha vontade comer
A sua forma, o fato de te ter & poder

Uma nuvem à esmo na estratosfera
Risca no prumo de um fio aterrado
& faz sombra desde a atmosfera

Seu olhar cruza com o foco do que vejo
Eu olho as curvas de seu corpo
Enquanto você vê a mira do meu desejo

Estrelas piscam com o tremor do calor
Na face da terra coisas que os astros não influenciam
Mas que sentem calor derivado do tremor

Não percebemos a graça da coincidência
Até ser tarde demais no cançasso
& ver que tudo está em confluência

A tua boca & meu beijo honesto
A minha carência & a sua presença
A nossa disposição & a apatia do resto

Sabemos esperar, temos muito a querer
Nossa ânsia & paciência
Tudo vem, sabemos receber



13 de nov. de 2025

ConeX

 

Somos os homens
   destinados pelo caos
      para viverem nesses dias...
Cabe à consciência agora
   entender o que é existir
Em um mundo que se exauriu
   de todas as formas

Andamos na berlinda
   da transformação de tudo
Valores, cultural, crença, construções...
Logo os mais velhos se perguntarão
   onde foi parar a beleza, o amor,
      a serenidade
Enquanto os mais jovens perguntarão
   para que serve o luxo, a liberdade,
      a sociedade

Somos os homens
   aprisionados pela ordem
      para transviverem esses dias...
Cabe à consciência agora
   se anular em perceber
Que vida ficou ainda mais insignificante
   quanto mais criou-se conexões


 

12 de nov. de 2025

Fachada

 

Você é só fachada
Qualquer um é só fachada
Eu sou só fachada
   & uma hora todo fingimento cai

Sempre há um medo maior
Sempre há um louco mais louco
Sempre há alguém fora de base
   para nos tirar da linha

Use ele o amor
Use ele a violência
Use ele o vexame
   que te fará perder a compostura

Uma hora a casa cai
Uma hora a roda quebra
Uma hora o espelho não mente
   & tudo vai por água abaixo

Então tem o dia do acerto
Tem a hora da verdade
Tem a vez do verme
   & toda a carne vira planta

É aí que você vê
Que apesar do seu esforço
No choque de realidade
   nada escapa da sua falta de controle



9 de nov. de 2025

Palavras Sós

 

Apaixonado
pelas
perdas
& pelo
que
nunca
se
teve
Saber-se
  só
  & ainda
  mais
  só
  depois
  da
  solidão
Enfim descobrir que se pode retirar o pó do fundo do poço & constatar que ele ficou um pouco mais fundo ainda...
& você
é
a
única
companhia
de
si
mesmo
O corpo descontinuado, o silêncio que outro não preenche mais, uma insanidade alheia faltando aqui, saudade até de sua tristeza...

  consigo 
  mesmo
  comigo
  disperso
  no
  fundo
  vácuo
  que
  se
  desdobrou
O mau bom da solidão é que ela não tem mais nada para dividir...



6 de nov. de 2025

Dias desses...

 

Como lidei com esse dia?
Oh! Sim! Hoje fui relapso
Fui vago
Obrigado! Bom dia!
Passaram canções por aqui...
Passaram os mesmos corpos...
...não passou você
Eu não me ultrapassei
Trapaça
Eu ouvi nos entresons
"A felicidade é uma arma quente..."
Eu sei disso
Pela minha carne fofa que enrijece
Inflada de sangue & sede
A solidão não divide nada, aprendi
Eu li, eu sei
Esse dessaber insuficiente
Para me fazer eficiente
É porque eu desisti cedo, antes de decidir
De lidar com esse dia...

Como lidei com esse dia?
Oh! Sim! Senti muita falta de alguém
Fui esvaziado
Boa tarde! De nada!
Passaram silêncios por aqui
Passaram corpos desconhecidos
Não passou você
Eu não! Me ultrapassei
Sinceridade
Eu li nas entrelinhas
"A tristeza é uma arma fria..."
Eu sei disso
Pela minha carne mole esvaziada
Oca de desejo
A solidão não acrescenta nada
Eu ouvi, eu ignoro
Essa benção que não aconteceu
Para me fazer insuficiente
É porque eu decidi cedo, não desisti
De não lidar com esse dia...



5 de nov. de 2025

ªnormal

 

em um dia como esse
eu apelo ao cru
aproximo-me da paz da brutalidade
nessa adicção de anulação

pareço até um homem novo
em um lugar em que nunca estive
arredio... inconsolado...

parece a percepção
que o cérebro processa
ao revés
...me expelindo do real
... ...em um desassossego normal



4 de nov. de 2025

Apego

 

Poderia se dizer
   que em uma realidade
      onde tudo se faz presente,
Construímos um mundo
   onde nada é alcançado!

Irônico movimento da mente
   neste lugar presente
      para ela, esquecer,
         não é não querer
& para o corpo
   atravessando essas distâncias
      de tempo, lugar, solidão
   arruinado
      pois, não ter,
         não significa
            esquecer



3 de nov. de 2025

Ambulare

 

Vou sair essa noite
   para comemorar toda essa tristeza
Serão os pés à sós
   perambulando pela penumbra do sol
Nas ruas esvaziadas
   como se fossem restos de trilhas
      não compartilhadas
         por quem se escondeu

Eu tenho um rumo
   do túmulo ao lar
Sigo um caminho
   entre tantos poucos a andar
Sob o céu de estrelas
   que me faz ir devagar
Ou rápido sob o teto de nuvens
   com a tempestade preste a desmoronar
  
Vou sair esta noite...
Não! Já estarei lá fora!
O que farei é voltar de lá
   com um pensamento de dias
      que não achei no caminho
Mas que comigo levo
   sempre que vou perambular
Pernas & pés
   também são meu lar...



1 de nov. de 2025

Nov...

 

Assim
   como no fim de cada dia
   cada mês, cada ano
No fim da vida
   vem a voz estranha, que desconhecemos
   mas tão natural, destruidora, salvadora
& nos pergunta
   se queremos ser nada
   ou viver tudo da mesma forma outra vez?

& como fazemos a cada manhã
   quando despertamos
   à cada mês, cada ano, que seguimos
Escolhemos continuar à existir
   como um dia escolhendo
   deixamos de ser nada
Voltar ao que somos
   os mesmos prazeres
   as mesmas dores, todos os desfrutes...

Somos assim, de sempre em sempre
   um velho nada
   que se torna velha novidade!



28 de out. de 2025

Não-Ser

 

"Eu sou a base nula
de uma nulidade"
-Heidegger

Estou no espaço entre dois abismos
Uma fossa de água suja sob meus pés
Uma parede de areia ao alcance das mãos
Tudo isso sob a aurora estrondosa que carrego nas costas
Tudo isso ao sabor das cores diante minha visão

Eu vejo os animais fingidos passarem ao longe... rumo à ruminação
Eu vejo as bestas de carga depondo seu peso... na força da rendição
Eu vejo belas feras dançarem a ciranda da inconsequência... são mais ferozes que os que rugem & choram
Eu vejo os animais de lata pálidos, cansados da ferocidade... rumo à extinção

Fiz minha casa na correnteza
A estrada... fluxo de pensamento... o futuro passado
Fiz meu lar na procissão solitária
Exílio... peregrinação... caravana de um homem-árvore
Fiz um refúgio caótico cujo centro é o altar de nossas carnes
Nem isto... nem aquilo... nem isto...
Fiz o caminho de costas trocando a noite pelo dia
Amor-fati... eterno retorno... o grande meio-dia...

Entre abismos & bichos voo
Cabe em mim os espaços vazios
Mas nunca a mediocridade
Não coloco barreiras ao prazer
Mas o amor prezo pelo que sei
Defini aquilo que sou
Mas ainda falta muito para o Ser ser o que é